Resumo
Este artigo discute o acesso ao trabalho
institucional a partir da noção de campo fechado, sustentando que a entrada em
instituições não ocorre prioritariamente por mérito individual, currículos ou
processos formais de recrutamento, mas por mediações humanas que transmitem
saberes práticos de circulação. A partir de contribuições da psicanálise, da
sociologia do trabalho e da psicologia institucional, argumenta-se que a
ausência dessa mediação produz vivências de exclusão, fracasso e luto
profissional crônico, especialmente em psicólogos formados fora dos circuitos
institucionais. Defende-se que a necessidade de um “outro que já está dentro”
não representa dependência ou privilégio indevido, mas um funcionamento
estrutural dos campos profissionais fechados.
Palavras-chave: trabalho institucional; psicologia; mediação; campo
profissional; psicanálise; sociologia do trabalho.
1.
Introdução
A dificuldade de acesso ao trabalho institucional é
frequentemente vivida por psicólogos como falha individual, insuficiência
curricular ou incompetência profissional. No entanto, a repetição de tentativas
frustradas por vias formais — como sites de emprego e canais de recursos
humanos — aponta para um problema de outra ordem: a lógica estrutural de
funcionamento dos campos institucionais.
A tese central deste artigo é simples e, ao mesmo
tempo, pouco nomeada: todo campo fechado exige um outro que já está dentro.
Sem essa mediação, o acesso não ocorre, independentemente da qualificação
técnica do profissional.
2.
Campos fechados e lógica de funcionamento institucional
Pierre Bourdieu (1996) define campo como um espaço
social relativamente autônomo, regido por regras próprias, formas específicas
de capital e mecanismos internos de reconhecimento. Campos institucionais —
como saúde pública, assistência social, universidades, organizações sociais e
terceiro setor — operam com códigos de pertencimento que não são visíveis a
quem está fora.
Diferentemente do mercado aberto, esses campos:
- não
divulgam amplamente suas vagas;
- contratam
por projetos, contratos e substituições;
- dependem
de redes internas e decisões técnicas;
- utilizam
o RH apenas como instância formal posterior.
Assim, o acesso não é transparente nem universal.
Ele é mediado.
3. O
“outro que já está dentro” como transmissor de saber
O “outro” necessário para acessar o campo não é um
salvador nem um agente de favorecimento. Trata-se de alguém que detém um
saber prático sobre o funcionamento institucional.
Esse saber inclui:
- onde
surgem as oportunidades;
- quem
decide a contratação;
- quais
funções existem além dos cargos nomeados;
- quando
um projeto vai abrir ou encerrar;
- quais
entradas laterais são possíveis.
Esse conhecimento não é acadêmico, nem clínico. É um
saber de circulação, transmitido por convivência e experiência.
Dejours (2004) aponta que grande parte do trabalho
real se sustenta em saberes invisíveis, não prescritos, que só circulam entre
aqueles que já pertencem ao campo. Fora dessa circulação, o profissional
permanece excluído, mesmo sendo competente.
4. A
leitura psicanalítica: a função do terceiro
Do ponto de vista psicanalítico, a ausência de
acesso pode ser compreendida como falta de uma função de terceiro. Lacan
(1966/1998) mostra que o sujeito só rompe circuitos fechados quando um terceiro
introduz diferença, nomeia uma via possível e rompe a repetição.
Sem esse terceiro:
- o
sujeito repete as mesmas tentativas (sites, RH, currículos);
- interpreta
o fracasso como pessoal;
- entra
em luto antecipado;
- vivencia
desamparo e impotência.
A repetição, nesse caso, não é resistência
inconsciente, mas falta de mediação simbólica.
5. O
impacto psíquico da exclusão estrutural
A psicologia da saúde e a clínica do trabalho
mostram que a exclusão persistente de campos profissionais desejados produz
efeitos severos:
- esgotamento
psíquico crônico;
- perda
da capacidade de imaginar futuro;
- desinvestimento
libidinal do trabalho;
- sintomas
ansiosos e depressivos;
- luto
profissional prolongado.
Segundo Dejours (1992), quando o trabalho deixa de
oferecer reconhecimento e passa a devolver silêncio, o sofrimento se instala e
tende a ser internalizado como culpa.
Nomear que o problema é estrutural — e não pessoal —
é, portanto, ato clínico de proteção da saúde mental.
6. A
ilusão meritocrática e a violência simbólica
A crença de que “basta insistir”, “melhorar o
currículo” ou “se qualificar mais” sustenta uma ilusão meritocrática que ignora
o funcionamento real dos campos institucionais.
Bourdieu (1998) chama isso de violência simbólica:
quando estruturas sociais produzem exclusão, mas o indivíduo é levado a
acreditar que a responsabilidade é exclusivamente sua.
Reconhecer a necessidade de mediação não diminui o
valor profissional; ao contrário, reposiciona o problema no lugar correto.
7.
Considerações finais
A afirmação de que “todo campo fechado exige um
outro que já está dentro” não descreve um privilégio indevido, mas uma
realidade estrutural. Ninguém acessa sozinho sistemas que operam por códigos
internos e saberes tácitos.
Para o psicólogo que não enxerga saídas, o ponto
decisivo não é insistir mais, mas acessar quem conhece o mapa. O que
está em jogo não é pedir emprego, mas receber tradução de campo.
Nomear essa necessidade é libertador: transforma
fracasso em lacuna de informação, desamparo em possibilidade de mediação, e
esgotamento em estratégia de cuidado.
Referências
Bibliográficas
Bourdieu, P. (1996). Razões práticas: sobre a
teoria da ação. Campinas: Papirus.
Bourdieu, P. (1998). A dominação masculina.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
Dejours, C. (1992). A loucura do trabalho: estudo
de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez.
Dejours, C. (2004). Subjetividade, trabalho e
ação. Revista Produção, 14(3), 27–34.
Lacan, J. (1998). Escritos. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar. (Obra original publicada em 1966).
Sennett, R. (2009). A corrosão do caráter.
Rio de Janeiro: Record.
Winnicott, D. W. (1975). O brincar e a realidade.
Rio de Janeiro: Imago.
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