Pular para o conteúdo principal

Não é o psicólogo que escolhe o campo: é o campo que o escolhe

 Uma leitura estrutural a partir da clínica, da indicação e da metáfora do supermercado

Introdução

Uma das maiores fontes de sofrimento psíquico entre psicólogos em início ou transição de carreira é a crença de que o sucesso profissional depende exclusivamente de esforço, visibilidade e escolha ativa do nicho. Quando, apesar de investimentos contínuos em formação, marketing e exposição, a clínica não se sustenta, instala-se a vivência de fracasso pessoal, culpa e compulsão à repetição.

Este artigo propõe uma leitura estrutural alternativa: não é o psicólogo que escolhe o campo ou o nicho, mas o campo que escolhe o psicólogo. Para tornar essa lógica inteligível, utiliza-se a metáfora do supermercado como modelo didático de funcionamento do campo simbólico, articulando contribuições da psicanálise, da sociologia e da teologia.


O campo como estrutura que antecede o sujeito

Na sociologia de Pierre Bourdieu, o campo é definido como um espaço estruturado de posições, regido por regras próprias, onde os agentes só podem atuar se reconhecidos como legítimos naquele espaço (Bourdieu, 1996). O campo precede o sujeito, e não o contrário.

Na clínica psicológica, isso significa que:

  • não basta existir como profissional;
  • não basta ser competente;
  • não basta desejar atender determinado público.

É necessário que o campo autorize o sujeito a ocupar uma função.

Essa autorização não é formal, nem consciente: ela se manifesta pela demanda.


A metáfora do supermercado: quando o campo escolhe

O supermercado é um exemplo cotidiano e extremamente preciso do funcionamento do campo.

O fabricante:

  • cria o produto,
  • embala,
  • expõe na prateleira.

Ele não escolhe o consumidor.
Quem escolhe é o cliente, a partir de critérios que escapam ao controle do fabricante: necessidade, identificação, momento de vida, preço, memória afetiva, visibilidade simbólica.

O produto não corre atrás do cliente.
Ele ocupa um lugar.

Da mesma forma, o psicólogo:

  • se forma,
  • se qualifica,
  • se coloca no campo (clínica, instituição, comunidade).

Mas não escolhe quem o procurará.

Quando o psicólogo tenta “sair da prateleira” — isto é, se vender excessivamente, convencer, prometer resultados — ocorre o efeito inverso: estranhamento e rejeição. Na linguagem psicanalítica, isso impede a instalação da transferência.


Transferência, escolha e desejo do analista

Freud já indicava que o tratamento analítico não se sustenta pela técnica isolada, mas pela transferência (Freud, 1912). Lacan radicaliza essa noção ao afirmar que o analista só opera quando ocupa o lugar de sujeito suposto saber, lugar que não pode ser reivindicado, apenas atribuído pelo outro (Lacan, 1964).

Isso implica que:

  • o psicólogo não controla a escolha;
  • a escolha não é racional nem meritocrática;
  • ela é inconsciente e relacional.

Assim como o consumidor escolhe um produto sem saber exatamente por quê, o cliente escolhe um psicólogo porque algo ali se tornou suportável para sua dor.


A ilusão contemporânea da “escolha do nicho”

No discurso atual do marketing digital, afirma-se que o profissional deve “escolher um nicho” (ansiedade, depressão, casais, etc.) e, a partir disso, construir sua autoridade.

Essa lógica ignora um ponto estrutural:
o nicho não é um objeto inerte à espera de ser conquistado.

O que existe são sujeitos em sofrimento que:

  • reconhecem ou não sua dor;
  • podem ou não demandar ajuda;
  • conseguem ou não sustentar um processo clínico.

O psicólogo pode se apresentar como alguém que atende ansiedade, mas só se tornará psicólogo desse nicho quando esse público o escolher e permanecer. Antes disso, há apenas oferta — não demanda.


A indicação como forma pura de escolha do campo

A indicação explicita de modo cristalino essa estrutura.

Quando alguém indica um psicólogo, transfere:

  • confiança,
  • crédito simbólico,
  • autorização.

Não se trata de favor pessoal, mas de um ato de responsabilidade simbólica. Por isso, a indicação é o modo privilegiado pelo qual o campo escolhe o sujeito, sem mediação de marketing ou processos seletivos.

Assim como no supermercado o produto passa a circular quando é escolhido, na clínica o psicólogo passa a existir como função quando é indicado e sustentado pelo campo.


A dimensão teológica da escolha

Essa lógica encontra ressonância direta no texto bíblico:

“Não fostes vós que me escolhestes; pelo contrário, eu vos escolhi a vós.”
(João 15:16)

A vocação, tanto na teologia quanto na clínica, não é produto da vontade do sujeito, mas de um chamado que vem do Outro. O sujeito se prepara, mas não controla o momento nem a forma da escolha.


Consequências clínicas e éticas

Compreender que o campo escolhe o psicólogo produz efeitos decisivos:

  • reduz a culpa e o autoataque;
  • permite elaborar o luto da onipotência;
  • interrompe a compulsão à repetição de estratégias ineficazes;
  • preserva a ética clínica.

O psicólogo deixa de tentar ser escolhido à força e passa a sustentar seu lugar, aguardando que o tempo do campo coincida com sua disponibilidade.


Conclusão

O exemplo do supermercado ensina, de forma simples e profunda, que a escolha não pertence a quem oferece, mas a quem demanda. Na clínica psicológica, isso significa que o psicólogo não fracassa por não ser escolhido — ele apenas ainda não foi convocado pelo campo.

Reconhecer essa estrutura não garante sucesso imediato, mas devolve ao profissional algo essencial: dignidade subjetiva, clareza ética e possibilidade real de elaboração do luto profissional.


Referências bibliográficas

BOURDIEU, P. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Campinas: Papirus, 1996.

FREUD, S. (1912). A dinâmica da transferência. In: Obras Completas.

LACAN, J. O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1964.

LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

BÍBLIA SAGRADA. Evangelho de João, capítulo 15, versículo 16.

 

Comentários

Postagens mais visitadas

O sujeito não existe fora do laço social: não há sujeito sem Outro, nem desejo sem algum tipo de amarração simbólica

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 Introdução A psicanálise, desde Freud e radicalmente com Lacan, sustenta que o sujeito não é uma entidade autônoma, transparente a si mesma, nem um indivíduo isolado que decide livremente sua posição no mundo. O sujeito do inconsciente emerge apenas no interior de uma rede de significantes, isto é, no campo do Outro. Assim, não há sujeito fora do laço social, nem desejo que possa se sustentar sem alguma forma de amarração simbólica. Este artigo tem como objetivo articular essa tese fundamental a partir de uma situação clínica cotidiana: o caso do sujeito que ocupa a função de fiscal de caixa em um supermercado, mas que não se reconhece nessa posição. A análise do ato falho, do sintoma corporal, do não-cuidado e da permanência forçada no laço social permitirá demonstrar como o inconsciente já sabe do não-desejo, enquanto o ato de ruptura ainda não pode ocorrer por ausência de outro laço que sustente o sujeito....

Angústia Da Ausência De Clareza De Informações

  Ano 2024. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Um sujeito que trabalha como fiscal de caixa em um supermercado e é psicólogo está angustiado porque não consegue perceber um caminho para ser contratado como psicólogo em alguma instituição e compreende que a ausência de Clareza gera angústia que está lhe fazendo mal. Na psicanálise, podemos entender essa situação analisando os três sistemas psíquicos: id, ego e superego, bem como os conceitos de angústia e desejo. O conflito interno: O id representa os desejos e impulsos mais profundos. Nesse caso, o desejo do sujeito é trabalhar como psicólogo, porque isso se alinha ao que ele valoriza e ao prazer de ajudar os outros. O superego é a parte crítica, que internaliza normas e regras sociais. Ele pode estar julgando o sujeito por não ter "chegado lá" ainda, criando sentimentos de culpa e cobrança. O ego, que é o mediador entre o id e o ...

PLANO DE AÇÃO PARA MELHORIA DO AMBIENTE DE TRABALHO NO SUPERMERCADO

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. ### **1. Objetivo Geral** Reduzir os riscos psicossociais no ambiente de trabalho do supermercado, promovendo bem-estar, engajamento e qualidade de vida para os colaboradores. ### **2. Diagnóstico Inicial** - Aplicar uma pesquisa de clima organizacional para identificar principais dificuldades e insatisfações. - Realizar entrevistas com colaboradores de diferentes setores para entender suas necessidades e desafios. - Avaliar os índices de rotatividade, absenteísmo e conflitos internos. ### **3. Ações Preventivas e Corretivas** #### **3.1. Melhoria das Relações Interpessoais** - Implementar treinamentos sobre inteligência emocional e resolução de conflitos. - Criar espaços para comunicação aberta entre liderança e equipe, como reuniões quinzenais. - Estabelecer um canal anônimo para feedbacks e sugestões dos colaboradores. ####...

O Caixão do Fiscal Psicólogo: uma leitura psicanalítica da série Mortos S.A. como metáfora do luto pela identidade profissional

  Introdução A série Mortos S.A. utiliza o humor para retratar o cotidiano de uma funerária, onde a morte deixa de ser apenas um acontecimento biológico para tornar-se parte da rotina organizacional. Caixões, velórios, preparação dos corpos, conflitos administrativos, relações de poder e disputas familiares compõem um cenário que, para além da comédia, pode ser compreendido como uma rica metáfora dos processos psíquicos de perda, transformação e reconstrução da identidade. Na perspectiva da Psicologia Organizacional, a série evidencia temas como cultura organizacional, conflitos de papéis, liderança, resistência à mudança, identidade ocupacional e sofrimento no trabalho (Schein, 2017; Zanelli, Borges-Andrade & Bastos, 2014). Já sob a ótica da psicanálise, esses elementos podem adquirir um significado simbólico, representando os processos de luto vividos pelo ego diante da ameaça de perder objetos de investimento afetivo e identitário (Freud, 1917/2010). É nesse contexto ...

Varejistas E Supermercados E Psicologia Organizacional

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. Varejistas e supermercado com a cultura da diversidade, más não permitem a entrada da psicologia Organizacional na empresa. Me explica e interpreta como se eu fosse um iniciante pela abordagem da psicologia Organizacional Vamos por partes, explicando de forma simples, como se você estivesse começando agora na psicologia organizacional. 1. O que é cultura da diversidade no varejo e supermercado? A cultura da diversidade é quando a empresa valoriza pessoas diferentes: de diferentes raças, idades, gêneros, religiões, orientações sexuais, e formas de pensar. Isso é muito importante porque torna o ambiente mais justo, criativo e acolhedor. Exemplo no supermercado: Ter funcionários de várias origens, promover a inclusão de pessoas com deficiência, ou respeitar diferentes estilos e culturas entre os colaboradores. 2. O que é a psicologia organizacional...

Crise De Asma E Psicossomática

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico que descrê a crise de asma e a psicossomática. Doenças psicossomática, são doenças causadas ou agravadas pela instabilidade emocional. Diferentemente da somatização, que é diagnosticada por médicos quando os sintomas de uma doença se manifestam, mas não são observados efeitos físicos no corpo, as psicossomáticas têm efeitos verificáveis no organismo. As situações de vida estressantes como medo de “não cor responder às expectativas”, dificuldades no trabalho ou econômicas, perdas, desavenças, doença ou morte, podem ser fatores desencadeantes. Frequentemente a somatização é considerada expressão de “dor psíquica”, sob a forma de queixas corporais, em pessoas que não têm vocabulário para apresentar seu sofrimento de outra forma. Os sintomas têm origem nas sensações corporais amplificadas interpretadas erroneamente ou nas manifestações somáticas das e...

Pensar Incitando A Psicologia No Cotidiano

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo convida o leitor a tornar-se consciente e manejar a psicologia a seu favor no cotidiano frente as contrariedades. E fazer uso do processo psicológico básico todos os dias que possível no momento em que perceber estar consciente no meio ambiente, seja natureza ou construído. Pensar é uma atividade fundamental para a vida humana. É por meio do pensamento que construímos nossas ideias, solucionamos problemas, tomamos decisões e elaboramos planos para o futuro. A psicologia tem muito a dizer sobre o processo de pensamento humano e como ele ocorre em nosso cérebro. Para a psicologia, pensar é um processo psicológico básico que envolve várias etapas. Cito a percepção, em potras palavras, a captação dos estímulos presentes no ambiente. É a partir desses estímulos que construímos nossas representações mentais do mundo. Em seguida, vem a atenção, que é a capacidade de selecionar e focalizar determinados es...

Dinâmica De Poder Nas Instituições – Psicologia Organizacional

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. A dinâmica de poder em uma organização refere-se à distribuição e ao exercício do poder entre os membros e diferentes níveis hierárquicos dentro da empresa. O poder é uma influência que permite que um indivíduo ou grupo afete o comportamento ou as decisões dos outros. Existem diferentes teorias e abordagens para entender a dinâmica de poder em uma organização. Vou apresentar alguns dos principais através da psicologia organizacional. Teoria das bases de poder: Essa teoria, proposta por French e Raven, identifica cinco bases de poder que uma pessoa pode ter na organização. São elas: Poder coercitivo: baseia-se no medo de punição ou consequências negativas. Poder de recompensa: baseia-se na capacidade de recompensar ou oferecer incentivos. Poder legítimo: baseia-se na autoridade formal concedida pela posição hierárquica. Poder de especialista: bas...

Soft Skills Ambiente Organizacional

    Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo aproxima a atenção do leitor a compreender que durante a vida, podemos nos deparar com momentos em que nos percebemos dotados de alta capacidade técnica, como é chamado na psicologia organizacional de [CHA] competências, habilidade e atitudes, onde o profissional desempenha com autoconfiança suas atividades na empresa. Embora as soft skills são importantes para um sujeito expressar em qualquer ambiente, seja organizacional, familiar, escolar, esportivo, cinematográfico, mídia, redes sociais, amigos e outros. As lideranças em algumas empresas ainda não dão a devida importância para o tema, pois pretendem controlar os colaboradores desprovidos de recursos socioemocionais. Por não serem repleto de competências socioemocionais ou soft skills para defrontar-se com as contrariedades oriundas de pessoas no ambiente organizacional. Um colaborador, gestor, supervisor ou até mesmo o empregador f...

O PSICÓLOGO ESCRITOR E O SILÊNCIO DO OUTRO

  Ano 2024. Autor [Ayrton Junior Psicólogo] Uma Leitura Psicanalítica sobre Reconhecimento e Desamparo Profissional SUMÁRIO Introdução Capítulo 1 - A Escrita como Sintoma e Desejo Capítulo 2 - O Reconhecimento do Outro: Entre a Demanda e a Falta Capítulo 3 - Transferência e Figuras de Autoridade no Campo Acadêmico Capítulo 4 - A Ferida Narcísica: Quando o Outro Não Responde Capítulo 5 - Rivalidade Fraterna e Inveja no Campo Profissional Capítulo 6 - Repetição e Gozo: A Economia Psíquica do Não Reconhecimento Capítulo 7 - Da Repetição à Elaboração: Caminhos Clínicos Conclusão Referências Bibliográficas INTRODUÇÃO Este livro nasce de uma interrogação clínica e epistemológica: o que significa, para um psicólogo, escrever e não ser lido? Mais precisamente, o que está em jogo quando um profissional da psicologia produz artigos e livros, envia seus trabalhos a professores e colegas, e encontra como resposta apenas o silêncio? A questão ultra...