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NEW AMSTERDAM COMO ESPELHO DA TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: UMA LEITURA A PARTIR DA PSICOLOGIA DA SAÚDE, PSICANÁLISE E PSICOLOGIA ORGANIZACIONAL

 Resumo

O presente artigo propõe uma reflexão interdisciplinar sobre a série televisiva New Amsterdam, analisando-a a partir da Psicologia da Saúde, da Psicanálise e da Psicologia Organizacional. O objetivo é compreender como a narrativa hospitalar pode funcionar como um espelho simbólico para um sujeito que, após experiências profissionais em ambiente hospitalar, encontra-se atualmente inserido em uma organização varejista na função de fiscal de caixa e psicólogo. Discute-se a hipótese de que a série mobiliza processos de identificação, memória institucional, construção identitária e observação dos fenômenos organizacionais, permitindo compreender como experiências passadas permanecem ativas na constituição subjetiva e profissional do indivíduo.

Palavras-chave: Psicologia da Saúde; Psicanálise; Identidade Profissional; Organizações; New Amsterdam; Psicologia Organizacional.

1. Introdução

As produções audiovisuais frequentemente transcendem a função de entretenimento e tornam-se dispositivos de reflexão sobre a vida social, profissional e subjetiva. A série New Amsterdam apresenta a rotina de um hospital público norte-americano e retrata os desafios enfrentados por médicos, enfermeiros, gestores e pacientes diante das demandas institucionais da saúde.

Entretanto, para determinados espectadores, a série pode assumir significados mais profundos. Quando alguém possui uma história profissional vinculada ao ambiente hospitalar, a narrativa pode despertar memórias, identificações e reflexões relacionadas à própria trajetória ocupacional.

Sob essa perspectiva, o hospital retratado na série deixa de ser apenas um cenário ficcional e passa a funcionar como um espaço simbólico onde aspectos da identidade profissional podem ser revisitados e ressignificados.

2. A Psicologia da Saúde e o Modelo Biopsicossocial

A Psicologia da Saúde desenvolveu-se a partir da crítica ao modelo biomédico tradicional, defendendo uma compreensão ampliada dos processos de saúde e doença.

Segundo George Engel (1977), fatores biológicos, psicológicos e sociais interagem continuamente na determinação das condições de saúde.

Em New Amsterdam, essa perspectiva aparece constantemente quando os profissionais procuram compreender não apenas os sintomas físicos dos pacientes, mas também seus contextos familiares, econômicos, emocionais e culturais.

A série evidencia que o sofrimento humano não pode ser reduzido a diagnósticos médicos. A pobreza, o isolamento social, o preconceito, o estresse ocupacional e os conflitos familiares surgem como elementos fundamentais para compreender o adoecimento.

3. O Hospital como Espaço de Produção de Sentidos

As instituições de saúde constituem ambientes privilegiados para a observação das relações humanas. Hospitais concentram experiências de nascimento, sofrimento, recuperação e morte.

Para um profissional que trabalhou anteriormente nesse contexto, a circulação por corredores hospitalares, o contato com equipes multiprofissionais e a convivência com situações-limite podem produzir marcas subjetivas duradouras.

Ao assistir à série, tais experiências podem ser reativadas através da memória afetiva.

Na perspectiva psicanalítica, a imagem hospitalar pode funcionar como um significante capaz de mobilizar conteúdos ligados à história profissional do sujeito.

4. Processos de Identificação e Espelhamento

A Psicanálise compreende a identificação como um dos mecanismos fundamentais da constituição do sujeito.

Segundo Sigmund Freud (1921), a identificação representa a forma mais primitiva de vínculo emocional.

Nesse sentido, o espectador pode identificar-se não apenas com personagens específicos, mas também com funções, ambientes e valores representados na narrativa.

O hospital apresentado em New Amsterdam pode atuar como um espelho simbólico capaz de refletir aspectos da própria história profissional.

Não se trata necessariamente do desejo de retornar ao ambiente hospitalar, mas da possibilidade de reconhecer elementos importantes na construção de sua identidade ocupacional.

5. O Psicólogo que Observa Instituições

Um aspecto recorrente na série é a observação crítica das estruturas organizacionais.

O personagem Max Goodwin procura compreender não apenas os problemas clínicos dos pacientes, mas também os obstáculos institucionais que dificultam a qualidade do atendimento.

Essa postura aproxima-se da função do observador institucional descrita por autores da Psicologia Institucional.

Segundo José Bleger (1984), as organizações devem ser analisadas para além de suas estruturas formais, considerando os fenômenos psicológicos que emergem em seu funcionamento cotidiano.

Nessa perspectiva, o profissional que atualmente atua como fiscal de caixa pode utilizar sua formação em Psicologia para observar fenômenos que transcendem a dimensão operacional do supermercado.

6. Do Hospital ao Supermercado: Continuidade da Função Analítica

Embora os contextos sejam distintos, hospital e supermercado compartilham características organizacionais relevantes.

Ambos envolvem:

  • relações hierárquicas;
  • comunicação institucional;
  • liderança;
  • conflitos grupais;
  • tomada de decisões;
  • gestão de pessoas;
  • sofrimento ocupacional.

A diferença reside na natureza da atividade-fim da organização.

Entretanto, a função psicológica de observação permanece semelhante.

O olhar do psicólogo desloca-se do paciente para o colaborador, do leito para o posto de trabalho e da equipe assistencial para a equipe operacional.

7. O Fenômeno do Silêncio Organizacional

Entre os fenômenos observados nas organizações contemporâneas destaca-se o silêncio organizacional.

Segundo Elizabeth Wolfe Morrison (2014), o silêncio organizacional ocorre quando informações, opiniões ou percepções deixam de ser expressas pelos membros da organização.

Nos processos seletivos internos, esse fenômeno pode manifestar-se por meio da ausência de informações, indefinições institucionais e comunicação limitada.

O silêncio frequentemente produz interpretações, expectativas, fantasias e tentativas de atribuição de sentido por parte dos trabalhadores.

8. A Busca por Reconhecimento

A Psicodinâmica do Trabalho destaca que o reconhecimento ocupa papel central na construção da identidade profissional.

Segundo Christophe Dejours (1992), o trabalho não produz apenas resultados econômicos, mas também reconhecimento simbólico.

Quando um trabalhador participa de processos seletivos internos ou busca novas posições organizacionais, aspectos relacionados ao reconhecimento tornam-se particularmente relevantes.

O interesse pela área de Recursos Humanos pode representar não apenas uma mudança de função, mas também um movimento de ampliação identitária.

9. Considerações Finais

A análise de New Amsterdam permite compreender como uma narrativa ficcional pode assumir funções psicológicas complexas para determinados espectadores.

Sob a ótica da Psicologia da Saúde, a série reforça a importância do modelo biopsicossocial.

Sob a ótica da Psicanálise, evidencia processos de identificação, memória e construção subjetiva.

Sob a ótica da Psicologia Organizacional, oferece uma metáfora para compreender fenômenos institucionais presentes tanto em hospitais quanto em organizações varejistas.

Nesse contexto, o hospital da série deixa de ser apenas um local de atendimento e transforma-se em uma representação simbólica da própria trajetória profissional do observador.

O que a série parece espelhar não é apenas uma experiência passada, mas uma posição subjetiva que permanece ativa: a de alguém interessado em compreender pessoas, instituições, relações de trabalho e os sentidos produzidos dentro das organizações.

10. MEMÓRIA INSTITUCIONAL E TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

A memória profissional não se limita ao conjunto de conhecimentos técnicos adquiridos ao longo da carreira. Ela inclui experiências emocionais, relações interpessoais, sucessos, frustrações e os significados atribuídos aos diferentes contextos de trabalho.

Segundo a perspectiva psicanalítica, as experiências vividas em instituições permanecem inscritas na subjetividade dos indivíduos. O hospital, por exemplo, não desaparece psiquicamente quando o sujeito muda de emprego. Suas vivências continuam compondo a narrativa interna por meio da qual interpreta o mundo do trabalho.

Ao circular pelos corredores hospitalares em períodos anteriores de sua trajetória, o sujeito estabeleceu vínculos com profissionais da saúde, observou processos de cuidado, participou de rotinas institucionais e testemunhou situações humanas complexas.

Essas experiências constituem o que pode ser denominado memória institucional internalizada.

Quando o indivíduo assiste a uma série como New Amsterdam, essas memórias podem ser reativadas. A narrativa hospitalar atua como um estímulo simbólico capaz de conectar passado e presente.

Nesse sentido, a experiência de assistir à série ultrapassa o entretenimento e transforma-se em um encontro com fragmentos da própria história.

A memória institucional também desempenha papel importante na construção das expectativas profissionais futuras.

As experiências anteriores servem como referências para interpretar novas organizações, comparar estilos de liderança, avaliar práticas de gestão e compreender fenômenos grupais.

11. O HOSPITAL E O SUPERMERCADO COMO SISTEMAS HUMANOS

À primeira vista, hospital e supermercado parecem organizações completamente distintas.

O hospital está associado ao cuidado da saúde, enquanto o supermercado está relacionado ao abastecimento e ao consumo.

Entretanto, sob a ótica da Psicologia Organizacional, ambos podem ser compreendidos como sistemas humanos complexos.

Em ambos os ambientes encontramos:

  • estruturas hierárquicas;
  • fluxos de comunicação;
  • disputas por reconhecimento;
  • relações de poder;
  • conflitos interpessoais;
  • processos de liderança;
  • mecanismos de cooperação;
  • resistência à mudança.

O psicólogo que atua em qualquer desses contextos é convidado a observar não apenas tarefas e resultados, mas também os processos subjetivos que sustentam o funcionamento institucional.

Essa perspectiva aproxima-se da concepção de organização como sistema vivo.

Segundo a abordagem sistêmica, as instituições não são apenas conjuntos de regras formais, mas espaços onde circulam emoções, expectativas, fantasias e significados compartilhados.

Assim, o olhar psicológico permanece relevante independentemente do setor econômico da organização.

12. A IDENTIDADE PROFISSIONAL EM TRANSIÇÃO

A trajetória profissional raramente ocorre de forma linear.

Ao longo da vida, os indivíduos transitam entre diferentes funções, organizações e áreas de atuação.

Essas transições frequentemente produzem questionamentos sobre identidade profissional.

Quem sou eu dentro da organização?

Qual é meu papel?

Quais competências me definem?

Que direção desejo seguir?

No caso de um profissional formado em Psicologia que atua operacionalmente em um supermercado, essas questões podem tornar-se particularmente relevantes.

Existe uma coexistência de identidades.

Por um lado, a identidade vinculada à função atual.

Por outro, a identidade construída pela formação acadêmica e pelas experiências anteriores.

A convivência entre essas diferentes dimensões pode gerar reflexões constantes sobre pertencimento, desenvolvimento profissional e possibilidades futuras.

A série New Amsterdam pode funcionar como um catalisador dessas reflexões ao apresentar personagens que enfrentam dilemas relacionados à missão profissional, ao propósito do trabalho e à transformação institucional.

13. O DESEJO DE TRANSFORMAR INSTITUIÇÕES

Um dos aspectos mais marcantes da série é o esforço contínuo de Max Goodwin para modificar práticas institucionais consideradas inadequadas.

Sua atuação está orientada pela busca de melhorias para pacientes, profissionais e para a própria organização.

Do ponto de vista psicanalítico, esse elemento pode despertar identificação em indivíduos que possuem interesse pela compreensão e transformação dos ambientes organizacionais.

Muitos profissionais da Psicologia desenvolvem um olhar voltado para a análise crítica das instituições.

Não se limitam a observar comportamentos individuais.

Procuram compreender:

  • como o poder é exercido;
  • como as decisões são tomadas;
  • como as informações circulam;
  • como os conflitos são administrados;
  • como os trabalhadores atribuem sentido ao trabalho.

Essa postura aproxima-se da função do analista institucional.

O analista institucional busca compreender os processos invisíveis que influenciam a dinâmica organizacional.

Frequentemente, aquilo que mais afeta os trabalhadores não é o que está explicitamente declarado, mas o que permanece implícito nas práticas cotidianas.

14. O SILÊNCIO COMO FENÔMENO INSTITUCIONAL

O silêncio organizacional é um tema que atravessa diversas experiências de trabalho.

Em contextos marcados por incerteza, mudanças ou processos seletivos internos, a ausência de informações pode tornar-se um elemento central da experiência dos trabalhadores.

Quando não existem comunicados claros, os indivíduos procuram construir interpretações para preencher as lacunas informacionais.

Nesse processo surgem:

  • hipóteses;
  • expectativas;
  • rumores;
  • fantasias;
  • ansiedades.

A Psicologia Institucional compreende que o silêncio também comunica.

A ausência de mensagens produz efeitos psicológicos concretos.

Ela influencia percepções de reconhecimento, pertencimento e segurança.

Por isso, o silêncio não deve ser interpretado apenas como ausência de comunicação.

Ele constitui uma forma específica de comunicação organizacional.

15. O OLHAR CLÍNICO SOBRE AS ORGANIZAÇÕES

Ao longo da formação em Psicologia, desenvolve-se uma capacidade de observação que pode ser denominada olhar clínico.

Esse olhar não está restrito ao consultório.

Ele pode ser utilizado em escolas, hospitais, empresas, organizações sociais e instituições públicas.

O olhar clínico procura compreender:

  • significados;
  • emoções;
  • relações;
  • conflitos;
  • narrativas.

Quando aplicado às organizações, esse olhar permite perceber fenômenos que muitas vezes passam despercebidos por outros profissionais.

O sujeito deixa de observar apenas comportamentos isolados e passa a analisar contextos, padrões e processos coletivos.

Nesse sentido, o psicólogo que atua no supermercado pode continuar exercendo uma função de observação institucional semelhante àquela que realizava em ambientes hospitalares.

Mudam os cenários.

Mudam os personagens.

Mas permanece o interesse em compreender a complexidade das relações humanas.

16. CONCLUSÃO AMPLIADA

A série New Amsterdam oferece uma oportunidade singular para refletir sobre a relação entre história profissional, identidade e instituições.

A partir da Psicologia da Saúde, observa-se a valorização do modelo biopsicossocial e da humanização do cuidado.

A partir da Psicanálise, compreende-se que a narrativa pode mobilizar processos de identificação, memória e simbolização.

A partir da Psicologia Organizacional, a série revela fenômenos relacionados à liderança, cultura organizacional, reconhecimento e comunicação.

Para o sujeito que percorreu corredores hospitalares no passado e atualmente circula pelos corredores de um supermercado, a série pode representar uma ponte simbólica entre diferentes momentos de sua trajetória.

Mais do que recordar experiências passadas, ela permite reconhecer a continuidade de uma posição subjetiva marcada pela curiosidade diante das instituições, pela observação dos fenômenos humanos e pelo interesse em compreender aquilo que ocorre para além da superfície dos acontecimentos.

Nesse sentido, o verdadeiro espelho oferecido por New Amsterdam não é o hospital retratado na tela.

O espelho é o próprio observador e sua forma singular de olhar para pessoas, organizações e processos humanos.

17. ENTRE CORREDORES: O HOSPITAL DA MEMÓRIA E O SUPERMERCADO DO PRESENTE

Uma imagem simbólica emerge quando se observa a trajetória do sujeito que transitou pelo ambiente hospitalar e atualmente trabalha em um supermercado: a imagem dos corredores.

Os corredores do hospital e os corredores do supermercado possuem funções objetivas distintas. Entretanto, sob a perspectiva psicológica, ambos podem ser compreendidos como espaços de circulação humana.

No hospital, circulam pacientes, médicos, enfermeiros, técnicos, familiares e gestores.

No supermercado, circulam clientes, operadores de caixa, fiscais, líderes, encarregados, gerentes e fornecedores.

Em ambos os contextos existe uma rede complexa de relações.

A diferença está menos no espaço físico e mais no significado social atribuído a cada ambiente.

A Psicanálise sugere que os lugares não são apenas espaços materiais. Eles também adquirem valor simbólico.

Dessa forma, os corredores hospitalares podem permanecer presentes na memória como representações associadas ao cuidado, ao conhecimento técnico, à saúde e à convivência com profissionais especializados.

Ao assistir New Amsterdam, esses símbolos podem ser reativados, estabelecendo uma ponte entre passado e presente.

18. O FENÔMENO DA IDENTIFICAÇÃO COM O PAPEL DO OBSERVADOR

Existe um aspecto particularmente interessante na relação entre o espectador e a série.

A identificação nem sempre ocorre com personagens específicos.

Muitas vezes ocorre com funções psicológicas.

O sujeito pode não se identificar integralmente com médicos, enfermeiros ou gestores.

Pode identificar-se com a própria posição de observador dos fenômenos institucionais.

Na série, diversos personagens tentam compreender problemas que inicialmente parecem individuais, mas que revelam causas sistêmicas.

Esse movimento de investigação aproxima-se do pensamento psicológico.

O psicólogo tende a perguntar:

"O que está produzindo esse comportamento?"

"O que está acontecendo no contexto?"

"Que fatores invisíveis influenciam essa situação?"

Essas perguntas aparecem tanto na clínica quanto nas organizações.

Por isso, a série pode despertar reconhecimento não necessariamente em função da temática médica, mas devido à forma de olhar para os problemas humanos.

19. O DESEJO E A CONSTRUÇÃO DA CARREIRA

A Psicanálise compreende o desejo como um elemento central da vida psíquica.

O desejo não se reduz a objetivos concretos.

Ele envolve projetos, identificações, ideais e possibilidades futuras.

Ao longo da trajetória profissional, o desejo manifesta-se por meio de movimentos de crescimento, mudança e desenvolvimento.

A busca por oportunidades em Recursos Humanos, por exemplo, pode ser compreendida como um movimento de aproximação entre a identidade profissional construída na formação em Psicologia e a prática cotidiana do trabalho.

Nesse contexto, o desejo não aponta necessariamente para uma função específica.

Aponta para a busca de coerência entre aquilo que o sujeito é, aquilo que faz e aquilo que aspira tornar-se.

A série New Amsterdam frequentemente apresenta personagens confrontados com questões semelhantes.

Eles precisam decidir quem desejam ser dentro da instituição.

Precisam redefinir seus papéis, seus limites e seus projetos.

20. A FANTASIA ORGANIZACIONAL E OS PROCESSOS SELETIVOS INTERNOS

As organizações não são compostas apenas por regras formais.

Também são constituídas por fantasias compartilhadas.

A Psicanálise Institucional utiliza o conceito de fantasia para descrever construções imaginárias que ajudam os indivíduos a interpretar situações ambíguas.

Quando ocorre um processo seletivo interno marcado pelo silêncio organizacional, surgem diversas fantasias institucionais.

Os trabalhadores procuram responder perguntas para as quais não possuem informações suficientes:

  • A vaga já possui um candidato definido?
  • Haverá entrevistas?
  • O processo foi suspenso?
  • A decisão já foi tomada?
  • O silêncio significa algo positivo ou negativo?

Como não existem respostas objetivas, a mente procura preencher os espaços vazios.

Essas construções imaginárias reduzem temporariamente a incerteza, mas também podem aumentar a ansiedade.

Nesse sentido, o silêncio organizacional produz não apenas falta de informação, mas também intensa produção de significado.

21. O SUPERMERCADO COMO CAMPO DE OBSERVAÇÃO PSICOLÓGICA

Tradicionalmente, muitas pessoas associam a Psicologia apenas a consultórios, hospitais ou clínicas.

Entretanto, a Psicologia contemporânea reconhece que os fenômenos psicológicos estão presentes em todos os ambientes sociais.

O supermercado constitui um rico campo de observação.

Nele podem ser estudados:

  • comportamento do consumidor;
  • liderança;
  • comunicação;
  • conflitos;
  • motivação;
  • clima organizacional;
  • cultura organizacional;
  • processos grupais;
  • tomada de decisão.

O psicólogo inserido nesse contexto possui acesso privilegiado às dinâmicas cotidianas da organização.

Ele observa não apenas indivíduos isolados, mas sistemas de relações em constante transformação.

22. O ENCONTRO ENTRE A PSICOLOGIA DA SAÚDE E A PSICOLOGIA ORGANIZACIONAL

Embora sejam frequentemente tratadas como áreas distintas, Psicologia da Saúde e Psicologia Organizacional apresentam pontos de convergência.

Ambas se preocupam com o bem-estar humano.

Ambas investigam fatores que influenciam sofrimento, adaptação e qualidade de vida.

Nos hospitais, a atenção está voltada principalmente para pacientes e equipes assistenciais.

Nas organizações empresariais, a atenção dirige-se aos trabalhadores e aos contextos laborais.

Entretanto, em ambos os casos surgem temas semelhantes:

  • estresse;
  • burnout;
  • reconhecimento;
  • suporte social;
  • comunicação;
  • liderança;
  • saúde mental.

A série New Amsterdam evidencia esses elementos ao retratar tanto o sofrimento dos pacientes quanto as dificuldades enfrentadas pelos profissionais de saúde.

Essa perspectiva amplia a compreensão da saúde para além da ausência de doença.

23. A CONSTRUÇÃO DE SENTIDO NO TRABALHO

Diversos autores da Psicologia do Trabalho defendem que os indivíduos necessitam atribuir significado às suas atividades profissionais.

O trabalho não é apenas fonte de renda.

Também constitui uma fonte de identidade.

Por meio do trabalho, os indivíduos constroem narrativas sobre si mesmos.

Respondem perguntas como:

  • Quem sou eu?
  • O que faço?
  • Qual é minha contribuição?
  • Como desejo ser reconhecido?

A busca por sentido torna-se particularmente importante em momentos de transição profissional.

Nesses períodos, o sujeito revisita sua trajetória, avalia suas experiências e projeta possibilidades futuras.

A série pode funcionar como um recurso simbólico que auxilia esse processo reflexivo.

24. CONSIDERAÇÕES FINAIS GERAIS

A análise integrada de New Amsterdam revela que produções audiovisuais podem atuar como dispositivos de reflexão sobre identidade, trabalho e instituições.

Para um psicólogo que percorreu diferentes contextos organizacionais ao longo da vida, a série oferece muito mais do que uma narrativa médica.

Ela apresenta temas universais relacionados ao cuidado, ao reconhecimento, à liderança, ao desejo e à busca de sentido.

Sob a ótica da Psicanálise, a série mobiliza memórias, identificações e processos simbólicos.

Sob a ótica da Psicologia da Saúde, reforça a importância do cuidado integral.

Sob a ótica da Psicologia Organizacional, permite compreender a complexidade das relações humanas nas instituições.

Assim, entre os corredores do hospital representado na ficção e os corredores do supermercado vividos no cotidiano, emerge uma questão fundamental: a continuidade do olhar psicológico.

Mudam os cenários, mudam os cargos e mudam as organizações.

Entretanto, permanece a busca por compreender os fenômenos humanos que se manifestam nas instituições e que conferem significado à experiência do trabalho.

Referências

BLEGER, José. Psicologia Institucional. Porto Alegre: Artes Médicas, 1984.

DEJOURS, Christophe. A Loucura do Trabalho. São Paulo: Cortez, 1992.

ENGEL, George. The Need for a New Medical Model: A Challenge for Biomedicine. Science, 1977.

FREUD, Sigmund. Psicologia das Massas e Análise do Eu. Rio de Janeiro: Imago, 1921.

KAËS, René. A Instituição e as Instituições. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1991.

MORRISON, Elizabeth Wolfe. Employee Voice and Silence. Annual Review of Organizational Psychology and Organizational Behavior, 2014.

SCHEIN, Edgar. Psicologia Organizacional. Rio de Janeiro: LTC, 1982.

ZANELLI, José Carlos; BORGES-ANDRADE, Jairo Eduardo; BASTOS, Antônio Virgílio Bittencourt. Psicologia, Organizações e Trabalho no Brasil. Porto Alegre: Artmed, 2014.

 

 

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