Entre profissionais formados para cuidar — psicólogos, terapeutas, assistentes sociais, enfermeiros — existe um fenômeno subjetivo particular que pode aparecer quando a trajetória profissional não se concretiza como imaginado. Podemos chamá-lo de ferida narcísica da profissão de cuidado.
Essa ferida não diz respeito
apenas ao emprego. Ela atinge o sentimento de valor pessoal ligado à própria
identidade profissional.
1.
Profissões de cuidado e investimento narcísico
Escolher uma profissão de cuidado
raramente é apenas uma decisão técnica.
Ela envolve um investimento identitário profundo.
O sujeito constrói uma imagem de
si como alguém que:
- compreende o sofrimento humano
- ajuda outras pessoas
- possui escuta qualificada
- exerce uma função social relevante
Esse investimento pode ser
entendido, em termos psicanalíticos, como um investimento narcísico na
profissão.
2. Quando a
realidade não confirma essa identidade
Se o profissional não consegue
exercer essa função socialmente reconhecida, surge uma tensão:
- a identidade que ele construiu
- a posição real que ocupa no mundo do trabalho
Essa discrepância pode gerar uma
ferida narcísica.
A noção de ferida narcísica tem
origem na psicanálise de Sigmund Freud e descreve momentos em que a imagem que
o sujeito tem de si sofre um abalo significativo.
3. Um
paradoxo específico do psicólogo
Para psicólogos, o paradoxo
costuma ser ainda mais delicado.
O sujeito possui formação para:
- compreender conflitos psíquicos
- analisar processos institucionais
- ajudar outras pessoas a reorganizar suas vidas
Mas pode sentir que não conseguiu
reorganizar a própria trajetória profissional.
Isso pode gerar pensamentos
silenciosos como:
- “eu deveria saber lidar melhor com isso”
- “como posso ajudar os outros se minha vida
está assim?”
Essa autocobrança amplifica o
sofrimento.
4. A
vergonha profissional
A ferida narcísica muitas vezes
se manifesta como vergonha.
Não necessariamente uma vergonha
explícita, mas um desconforto em situações como:
- reencontrar colegas da graduação
- falar sobre a própria carreira
- explicar o trabalho atual
Essa vergonha tende a produzir
retraimento social e profissional.
5. O risco
do isolamento
Quando a vergonha se instala, o
sujeito pode começar a evitar:
- espaços profissionais
- eventos da área
- conversas sobre carreira
Paradoxalmente, isso aumenta
ainda mais a distância do campo profissional.
Na sociologia das profissões de
Pierre Bourdieu, o pertencimento ao campo depende também da participação nas
redes e práticas simbólicas da profissão. O isolamento enfraquece esse
pertencimento.
6. O ponto
clínico importante
A ferida narcísica não significa
incapacidade.
Ela indica que a profissão foi
investida de grande valor simbólico.
Por isso a discrepância entre
ideal e realidade produz dor intensa.
Quanto maior o investimento
identitário, maior tende a ser o impacto quando o reconhecimento social não
ocorre.
7. Como essa
ferida começa a cicatrizar
Na prática clínica e
institucional, três movimentos costumam ajudar:
1.
separar
identidade pessoal da posição ocupacional atual
2.
reconhecer
as condições estruturais da trajetória
3.
reconstruir
gradualmente experiências de competência
Quando o sujeito volta a
experimentar pequenas situações de eficácia profissional, a imagem de si começa
a se reorganizar.
8. Um ponto
importante para encerrar
Sentir essa ferida não significa
fracasso profissional.
Muitas vezes significa apenas que
a trajetória real foi muito mais dura do que o projeto imaginado durante a
formação.
Reconhecer essa discrepância é
frequentemente o primeiro passo para reorganizar a relação com a própria
profissão.
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