Entre o Som e o Silêncio: Transferência Institucional, Ato Falho e Reorganização Defensiva no Cotidiano de um Fiscal de Caixa — Contribuições de Freud, Winnicott, Bion, Lacan, Kaës, Dejours, Enriquez, Castel, Dubar e Clot
Resumo
O presente artigo propõe uma leitura psicanalítica
ampliada de mudanças comportamentais observadas em um fiscal de caixa após
transferência institucional de loja. Destacam-se a interrupção do hábito de
ouvir música durante o trajeto de ônibus, a preferência grupal pelo sono como
modo de atravessamento cotidiano e a ocorrência de um ato falho ao lançar no
sistema uma campanha da nova unidade na loja anterior. A análise articula
conceitos freudianos de ato falho, deslocamento e repetição, a noção winnicottiana
de fenômenos transicionais, a teoria bioniana da contenção e função alfa, a
perspectiva lacaniana do significante e do sujeito no campo do Outro, bem como
as contribuições de René Kaës sobre alianças inconscientes e pactos
institucionais. Além disso, incorpora a psicodinâmica do trabalho de Christophe
Dejours, a abordagem de Eugène Enriquez sobre o imaginário institucional, e
amplia o debate com autores do campo trabalho-identidade-reconhecimento como
Robert Castel, Claude Dubar e Yves Clot. O caso evidencia que mudanças
administrativas produzem efeitos subjetivos complexos, inscritos em microgestos
que revelam processos de elaboração ainda em curso.
Palavras-chave: ato falho; instituições; psicodinâmica do trabalho;
identidade profissional; reconhecimento; psicanálise.
1.
Introdução: o cotidiano como cena clínica e institucional
Mudanças institucionais são frequentemente tratadas
como eventos administrativos regulados por normas e procedimentos. Contudo, do
ponto de vista psicanalítico e psicossocial, toda mudança de lugar implica uma
reorganização subjetiva: o sujeito não se desloca apenas no espaço físico, mas
se reinscreve simbolicamente no laço social.
O caso analisado refere-se a um fiscal de caixa
transferido da loja Mansões para Barão Geraldo. Antes da transferência,
realizava o trajeto de ônibus ouvindo música. Após a mudança — imposta, embora
vivida como alívio devido à saturação com a equipe anterior — abandona esse
hábito e passa a atravessar o percurso em silêncio. Ademais, ocorre um ato
falho significativo: estando em Barão Geraldo, ao lançar uma campanha no
sistema, ele o faz na loja Mansões.
Esses fenômenos, aparentemente banais, tornam-se
material privilegiado para a psicanálise desde Freud, ao mostrar que lapsos e
pequenos erros constituem formações do inconsciente (Freud, 1901/1996).
2.
Música e trajeto: fenômenos transicionais e sustentação do self (Winnicott)
No período anterior, a música funcionava como um
recurso subjetivo constante. Winnicott (1953/1975) descreve objetos e fenômenos
transicionais como mediadores entre mundo interno e realidade externa. Eles
permitem suportar separações e atravessamentos sem ruptura traumática do
sentimento de continuidade do self.
Nesse sentido, a música pode operar como envelope
protetor, ritual de passagem e organizador afetivo, sustentando a coesão
subjetiva diante do trajeto urbano impessoal.
3.
Transferência imposta e ambivalência subjetiva (Freud)
A transferência não foi desejada, embora pudesse ser
recusada. O fiscal, contudo, estava farto da equipe anterior. Essa ambivalência
é central: há simultaneamente imposição e alívio.
Freud observa que rupturas externas reativam
conflitos internos e reorganizam defesas (Freud, 1926/1996). Mesmo quando o
novo ambiente é melhor, restos afetivos do lugar anterior persistem.
4.
Sofrimento no trabalho e defesas coletivas (Dejours)
Dejours (1992/1994) mostra que o trabalho é lugar de
construção identitária e também de sofrimento. Quando o ambiente laboral se
torna hostil, o sujeito mobiliza estratégias defensivas individuais e coletivas
para suportar.
A música pode ter funcionado como defesa contra o
sofrimento de Mansões. Com a transferência, o sofrimento desloca-se: o ambiente
melhora, mas o trajeto piora. O mal-estar não desaparece; ele se reinscreve em
outra cena.
5.
Silêncio e trajeto pior: contenção e falha da função alfa (Bion)
Bion (1962/1991) propõe que o psiquismo precisa
transformar elementos brutos da experiência emocional (elementos beta) em
elementos pensáveis (elementos alfa). A música poderia operar como suporte
simbólico dessa transformação.
Quando o trajeto se torna mais difícil, o silêncio
pode indicar hipervigilância e empobrecimento temporário da simbolização.
6.
Dormir no ônibus: regressão defensiva e economia psíquica
Observa-se que “o pessoal de faixa” prefere dormir
no ônibus em vez de ouvir música. Freud descreve o sono como retirada do
investimento libidinal do mundo externo (Freud, 1900/1996). Dormir pode ser
defesa regressiva: não se trata de organizar o trajeto, mas de suspender a
experiência.
7.
Instituição e alianças inconscientes (Kaës)
Kaës (1991) enfatiza que instituições sustentam
alianças inconscientes e pactos defensivos. A mudança de loja implica ruptura
desses contratos narcísicos e reorganização do pertencimento psíquico.
Mesmo que Mansões fosse fonte de sofrimento, era
também lugar simbólico de inscrição.
8. O ato
falho: retorno do significante e insistência do Outro (Freud e Lacan)
O fiscal lança uma campanha de Barão Geraldo no
sistema de Mansões. Freud define atos falhos como formações de compromisso
(Freud, 1901/1996). Lacan radicaliza: o inconsciente é estruturado como
linguagem, e o ato falho é retorno do significante (Lacan, 1957/1998).
“Mansões” retorna como marca insistente, revelando
que a separação psíquica ainda está em elaboração.
9.
Imaginário institucional e vínculo com a organização (Enriquez)
Enriquez (1997) destaca que instituições mobilizam
fantasmas coletivos e identificações inconscientes. A transferência de loja não
é neutra: ela reorganiza lugares no imaginário institucional, produzindo
efeitos subjetivos.
10. Da
transferência institucional à transferência de posição subjetiva: desejo,
carreira e reconhecimento
A análise permite avançar para uma questão
estrutural: talvez o conflito central não resida apenas na mudança de loja, mas
na própria função exercida. A hipótese de que o sujeito não se sente realizado
nem em Mansões nem em Barão Geraldo sugere que o trabalho aparece como meio de
sobrevivência, não como espaço de inscrição desejante.
Dejours (1992/1994) enfatiza que o trabalho é lugar
de reconhecimento e construção de sentido. Quando falha essa mediação, o
sujeito pode experimentar apagamento subjetivo: opera de maneira automatizada,
desinvestida, reduzida à função.
Essa problemática articula-se ao debate sociológico
sobre precariedade e identidade. Castel (1995/1998) demonstra que o trabalho é
eixo fundamental de integração social; quando ele perde sua dimensão de
pertencimento e projeto, instala-se uma zona de vulnerabilidade, na qual o
sujeito permanece incluído apenas formalmente, mas fragilizado simbolicamente.
Claude Dubar (1991/2005) contribui ao afirmar que a
identidade profissional não é dada, mas construída em trajetórias, negociações
e reconhecimentos. Assim, a transferência de loja pode não responder ao
problema central: o sujeito não se reconhece no significante “fiscal de caixa”
como identidade plena, mas o vive como posição provisória.
É nesse ponto que a perspectiva lacaniana se torna
decisiva: o sujeito não se reduz ao papel social, mas ao lugar do desejo no
campo do Outro (Lacan, 1957/1998). Se existe um desejo de transferência de
função — por exemplo, tornar-se psicólogo — então o mal-estar atual pode ser
lido como distância entre a função exercida e a função desejada.
Yves Clot (1999/2006), na clínica da atividade,
reforça que o sofrimento no trabalho surge quando há impedimento de realizar um
“trabalho bem feito” e de se reconhecer na própria atividade. Quando a função é
vivida como bloqueio ou desvio de vocação, emerge um sentimento de vida
profissional suspensa.
10.1 O
silêncio na pausa: empobrecimento do espaço transicional e apagamento subjetivo
Um dado adicional relevante no caso analisado é que
o fiscal de caixa não abandona a música apenas no trajeto de ônibus, mas também
durante o horário de almoço, momento que, em princípio, poderia operar como
intervalo subjetivo e espaço de recuperação psíquica. A generalização do
silêncio para além do transporte sugere que não se trata somente de uma
adaptação circunstancial ao trajeto piorado, mas de uma modificação mais ampla
do regime de investimento libidinal no cotidiano.
Do ponto de vista freudiano, a retirada de pequenos
prazeres ordinários pode indicar um empobrecimento do investimento em fontes
mínimas de satisfação, configurando uma economia psíquica marcada pelo
retraimento (Freud, 1914/1996). A música, anteriormente, parecia funcionar como
um suporte transicional e organizador afetivo, permitindo ao sujeito sustentar
uma continuidade interna entre espaços institucionais e pessoais. Sua ausência,
inclusive na pausa, aponta para um enfraquecimento desse espaço intermediário.
Winnicott (1953/1975) enfatiza que os fenômenos
transicionais — como objetos culturais, sons ou rituais cotidianos — constituem
condições fundamentais para a preservação do self em situações de tensão e
mudança. Quando tais elementos desaparecem, pode-se supor um empobrecimento do
espaço potencial, isto é, uma redução da capacidade de brincar, criar e
encontrar satisfação no intervalo entre exigência externa e vida interna.
Na perspectiva da psicodinâmica do trabalho, Dejours
(1992/1994) descreve que, quando o trabalho é vivido predominantemente como
obrigação de sobrevivência e não como lugar de reconhecimento, o sujeito tende
a recorrer a defesas de desligamento e apagamento subjetivo. A pausa deixa de
ser vivida como pausa simbólica e transforma-se em simples momento funcional de
recomposição física. Yves Clot (1999/2006) acrescenta que, quando há
impedimento de se reconhecer na própria atividade, o sujeito experimenta um bloqueio
do desenvolvimento de sua potência de agir, o que repercute também nos momentos
de descanso, esvaziados de investimento.
Assim, o silêncio no horário de almoço pode ser
compreendido como índice de uma suspensão subjetiva mais ampla: não apenas o
trajeto, mas o cotidiano inteiro se torna atravessado por uma forma de
desinvestimento e retraimento. O sujeito parece operar em regime mínimo, como
se estivesse reduzido à função institucional, com dificuldade de acessar
espaços de prazer e transição. Tal dado reforça a hipótese de que a
transferência de loja não resolve o núcleo do conflito, pois a questão central
parece deslocar-se para a não-realização na função exercida e para o desejo
ainda não simbolizado de outra inscrição profissional.
11.
Considerações finais
Mudanças institucionais produzem efeitos subjetivos
complexos. O caso do fiscal mostra que hábitos cotidianos — ouvir música,
silenciar, dormir, errar no sistema — são índices de processos psíquicos
profundos.
Entre o som e o silêncio, o sujeito atravessa não
apenas a cidade, mas também uma transição simbólica entre lugares
institucionais e entre posições identitárias. O inconsciente insiste onde a
separação ainda não foi elaborada, e o trabalho revela-se como campo
privilegiado onde se joga o reconhecimento, o desejo e a possibilidade de
inscrição subjetiva.
10.2 A
interpelação do Outro institucional e o silêncio como recusa de captura:
negociação de lugar e apagamento subjetivo
Um episódio adicional aprofunda a compreensão da
transferência vivida pelo fiscal de caixa e explicita a complexidade da
inscrição subjetiva no campo institucional. Durante uma interação com a
encarregada, esta o interpela diretamente: “Você está gostando da loja?”.
Embora aparentemente simples, tal pergunta funciona como convocação simbólica,
isto é, como tentativa de situar o sujeito em uma posição de pertencimento e
adesão ao novo espaço organizacional. Na perspectiva lacaniana, trata-se de uma
demanda do Outro: o sujeito é chamado a responder não apenas sobre uma
preferência, mas sobre seu lugar no desejo institucional (Lacan, 1957/1998).
A encarregada insiste em afirmar que “a loja é
melhor” e chega a propor que ele permaneça ali, o que pode ser interpretado
como oferta de reinscrição institucional. Contudo, o fiscal não responde com
entusiasmo ou identificação, mas com uma lembrança deslocada: “já havia
trabalhado na loja quando era operador de caixa”. Tal formulação desloca o eixo
da pergunta do presente para o passado, indicando que a questão não se reduz ao
gosto ou à qualidade do ambiente, mas remete à trajetória e às posições já ocupadas.
Claude Dubar (1991/2005) sublinha que a identidade profissional não é um dado
estável, mas uma construção narrativa e social, atravessada por deslocamentos,
rupturas e conflitos de reconhecimento. Assim, o fiscal parece recusar ser
fixado em uma identidade institucional plena (“ficar”) sem que sua própria
trajetória seja considerada.
Quando responde que permaneceria apenas sob “duas
condições” — manter o horário intermediário e folgar domingo e segunda-feira —
o sujeito transforma a proposta institucional em negociação defensiva. Dejours
(1992/1994) descreve que, diante do sofrimento no trabalho, o sujeito tende a
construir estratégias de autopreservação, impondo limites que permitam suportar
a exigência organizacional sem colapso subjetivo. As condições formuladas não
são mero capricho, mas tentativa de assegurar um mínimo de autonomia temporal e
de espaço de vida fora da captura total pelo trabalho.
A reação da encarregada, entretanto, devolve o
impasse estrutural: “o que eu farei com a fiscal das 09 horas que está de folga
e você está cobrindo ela?”. Nesse momento, o imaginário da possibilidade
(“ficar aqui”) confronta-se com o real institucional da escala, das funções e
da substituibilidade. Eugène Enriquez (1997) observa que as organizações operam
por meio de fantasmas coletivos e também por mecanismos impessoais que
recolocam o sujeito como peça funcional. O fiscal é lembrado de que ocupa um lugar
provisório, articulado à necessidade administrativa.
O elemento mais significativo, contudo, é a resposta
do fiscal: ele não responde. O silêncio aparece como ato psíquico e não simples
ausência de fala. Psicanaliticamente, pode ser compreendido como recusa de
engajamento simbólico em um pacto institucional que não lhe oferece verdadeira
inscrição subjetiva. Kaës (1991) descreve que as instituições sustentam
alianças inconscientes e pactos narcísicos de pertencimento; o silêncio pode
indicar a impossibilidade, naquele momento, de aderir a tais contratos.
A cena se encerra com a encarregada afirmando em tom
de brincadeira: “Mansões precisa de você lá”. Tal enunciado revela, de modo
quase involuntário, o fundo da lógica institucional: o sujeito é convocado não
por desejo, mas por necessidade funcional. Castel (1995/1998) enfatiza que, na
modernidade salarial, o trabalho é eixo de integração social, mas pode também
reduzir o sujeito a um estatuto de utilidade, produzindo vulnerabilidade
simbólica quando o reconhecimento falha. O fiscal novamente se cala, como se
recusasse tanto o retorno ao lugar anterior quanto a captura pelo novo.
Nesse sentido, a sequência evidencia que a
transferência institucional não é apenas deslocamento espacial, mas confronto
entre a demanda organizacional e o desejo do sujeito. O silêncio reiterado pode
ser lido como sinal de apagamento subjetivo e de suspensão identitária: nem
Mansões nem Barão Geraldo constituem, plenamente, um lugar de realização. A
negociação interrompida aponta para um conflito mais estrutural, ligado à
distância entre a função exercida e a função desejada, reforçando a hipótese de
que a verdadeira transferência em jogo não é apenas de loja, mas de posição
subjetiva e profissional.
10.3 O
sujeito como objeto de expectativa grupal: idealização, captura institucional e
resistência
Um desdobramento importante do caso ocorre quando
operadoras e fiscais de caixa passam a sondar o fiscal transferido, expressando
de modo explícito o desejo de que ele permaneça na loja de Barão Geraldo. As
falas dirigidas a ele — “fica com a gente”, “nós gostamos de você”, “você é
legal”, “a gente respeita, você é tudo” — indicam que o sujeito não é apenas
percebido como trabalhador funcional, mas rapidamente investido como figura
afetiva relevante no campo grupal. Do ponto de vista psicanalítico, trata-se de
um investimento libidinal coletivo, no qual o sujeito passa a ocupar o lugar de
objeto de expectativa do Outro.
Na perspectiva lacaniana, tal movimento evidencia a
captura do sujeito no desejo do Outro: ele é convocado a responder não apenas
como agente técnico, mas como elemento de sustentação simbólica do grupo
(Lacan, 1957/1998). O desejo expresso pelas operadoras não se limita à
permanência administrativa; ele carrega uma demanda de pertencimento e de
estabilização do vínculo, como se sua presença funcionasse como garantia de
coesão e confiança no cotidiano institucional.
René Kaës (1991) oferece uma chave decisiva ao
sublinhar que os grupos e instituições se estruturam por meio de alianças
inconscientes e pactos narcísicos. A expectativa de que o fiscal “fique” pode
ser compreendida como tentativa de incluí-lo em um contrato grupal implícito:
“você pertence a nós”, “não nos abandone”, “sustente este lugar”. Nesse
sentido, a demanda afetiva dirigida ao sujeito não é neutra, mas parte de uma
dinâmica institucional de captura e de produção de pertencimento defensivo.
A idealização presente nas falas (“você é tudo”)
remete ao que Enriquez (1997) descreve como funcionamento do imaginário
institucional: as organizações tendem a produzir figuras investidas como “bons
objetos”, portadoras de esperança e reparação. Contudo, a idealização é
estruturalmente ambivalente: aquilo que é exaltado pode tornar-se rapidamente
objeto de exigência e sobrecarga. Assim, o desejo do grupo de que ele permaneça
pode também expressar a tentativa de preencher faltas organizacionais, sobretudo
em horários considerados mais difíceis.
Tal aspecto torna-se evidente quando as fiscais
sugerem a possibilidade de que ele permaneça “no fechamento”. O fechamento,
frequentemente associado a maior carga e responsabilidade, aparece como ponto
de necessidade institucional. Dejours (1992/1994) mostra que, em contextos de
sofrimento e pressão laboral, as equipes constroem defesas coletivas que podem
se traduzir na instrumentalização de certos trabalhadores como suporte para o
funcionamento. O sujeito é desejado precisamente onde há falta, e o grupo tenta,
mesmo sem plena consciência, redistribuir a sobrecarga sobre aquele que parece
mais capaz de sustentá-la.
A resposta do fiscal, entretanto, é marcada por
recusa reiterada: ele afirma que não ficará, a não ser sob condições rígidas —
horário intermediário e preservação de folgas específicas. Tal posição pode ser
lida como estratégia de autopreservação e resistência à captura institucional.
Yves Clot (1999/2006) interpreta tais movimentos como luta do sujeito para
manter sua potência de agir e impedir que a atividade laboral se transforme em
totalização da existência. As condições formuladas operam como tentativa de
delimitar fronteiras entre trabalho e vida, entre função e subjetividade.
O episódio em que uma fiscal pergunta se a
supervisora poderia “forçá-lo” a permanecer no fechamento explicita ainda mais
a dimensão de coerção institucional subjacente. A questão não é apenas escolha,
mas possibilidade de imposição. O sujeito, ao reafirmar que havia acordado
apenas a cobertura de férias e que não permaneceria “de jeito algum”, manifesta
uma resistência que, no sentido freudiano, aponta para a recusa de repetir uma
forma de sofrimento e de apagamento subjetivo já experimentada (Freud, 1914/1996).
Finalmente, este conjunto de interações evidencia um
paradoxo central: em Barão Geraldo, o fiscal parece receber reconhecimento e
valorização, mas tal reconhecimento não produz adesão plena. Dubar (1991/2005)
permite compreender que a identidade profissional não se reduz ao
reconhecimento imediato do grupo, mas envolve trajetórias, projetos e sentidos
atribuídos ao trabalho. Castel (1995/1998), por sua vez, mostra que o trabalho
pode integrar socialmente, mas também aprisionar simbolicamente quando não coincide
com um horizonte de realização. Assim, a recusa do fiscal sugere que o conflito
não se limita à loja, mas remete à distância entre a função exercida e a função
desejada, isto é, à impossibilidade de inscrição subjetiva plena no lugar de
fiscal de caixa.
Dessa forma, o sujeito torna-se objeto de
expectativa grupal e institucional, mas responde com resistência e delimitação.
A cena revela que a transferência administrativa convoca processos mais
profundos: a luta entre captura e autonomia, entre pertencimento e desejo,
entre reconhecimento funcional e realização subjetiva.
10.4 O
fechamento como lugar de captura institucional: discurso do mestre e
resistência coletiva
Um elemento recorrente nas cenas institucionais
descritas é a centralidade do “fechamento” como ponto de tensão e disputa
subjetiva. O fechamento não aparece como simples variação administrativa de
turno, mas como lugar simbólico privilegiado onde se condensam sobrecarga,
coerção e desigualdade na distribuição do sofrimento laboral. A advertência de
uma fiscal de caixa ao fiscal transferido — “se a supervisora insistir que você
deve ficar no fechamento, bate o pé e não aceita” — deve ser compreendida como
transmissão de um saber prático sobre o real da instituição.
Na psicodinâmica do trabalho, Dejours (1992/1994)
demonstra que os trabalhadores constroem conhecimentos e defesas coletivas a
partir da experiência concreta do sofrimento. Certos postos e horários
tornam-se, no cotidiano, lugares estruturais de excesso: ali se concentram
pressões, demandas implícitas e riscos de esgotamento. O fechamento, nesse
caso, funciona como espaço de intensificação do trabalho e como dispositivo
institucional de captura, pois é justamente onde “ninguém quer” estar e onde a
organização busca fixar aqueles que podem sustentar o funcionamento.
A fala atribuída à supervisora — “você não pode
escolher horário porque trabalha para a rede” — explicita de modo paradigmático
o discurso institucional de subordinação. O trabalhador é interpelado não como
sujeito desejante, mas como peça deslocável de um sistema. Lacan descreve esse
tipo de enunciação como característica do discurso do mestre: um regime
simbólico no qual o sujeito é convocado a ocupar um lugar funcional e a
renunciar à dimensão singular do desejo (Lacan, 1969–1970/1992). Assim, a instituição
fala como Outro absoluto: “você pertence”, “você não decide”, “você deve”.
A resposta do fiscal — “em parte ela tem razão, mas
eu não vou aceitar voltar para o fechamento” — indica uma posição subjetiva
ambivalente e sofisticada: reconhecimento parcial da lógica organizacional, mas
recusa de submissão total. Freud (1914/1996) permite compreender tal recusa
como resistência, isto é, como defesa diante da repetição de uma experiência de
sofrimento e apagamento. O sujeito delimita um limite simbólico: ele não se
deixará capturar plenamente pela exigência institucional.
O argumento apresentado pela fiscal — “não consigo
mudar de horário porque tem duas fiscais que faltam muito” — revela ainda o
real organizacional de precariedade e déficit estrutural. O fechamento aparece
como lugar onde se acumulam faltas e onde a gestão opera por improvisação e
redistribuição desigual. Nessa lógica, novos trabalhadores são frequentemente
convocados a “tapar buracos”, convertendo-se em solução para impasses
sistêmicos. Dejours sublinha que, nesses contextos, o reconhecimento pode ser substituído
por instrumentalização: o sujeito vale pelo que suporta, não pelo que é.
Além disso, a advertência da fiscal feminina pode
ser compreendida, com Kaës (1991), como expressão de uma dinâmica grupal de
alianças inconscientes. Ao aconselhar resistência, ela transmite ao
recém-chegado não apenas solidariedade, mas também um saber defensivo coletivo:
aceitar o fechamento equivale a entrar num circuito de aprisionamento
institucional difícil de reverter. Ao mesmo tempo, a reorganização de turnos
implica rearranjos identitários e hierárquicos. Dubar (1991/2005) mostra que
posições de trabalho são também posições simbólicas, e que qualquer
deslocamento redistribui lugares de reconhecimento e de sacrifício.
Enriquez (1997) acrescenta que as organizações
produzem imaginários de necessidade e inevitabilidade, naturalizando imposições
como se fossem destino: “a rede precisa”, “você trabalha para a empresa”. O
fechamento torna-se, assim, um dispositivo onde o sujeito é testado em sua
capacidade de submissão e entrega.
Dessa forma, o fechamento emerge como significante
institucional maior: lugar de captura e sobrecarga, onde o discurso do Outro
organizacional busca apagar a escolha subjetiva. A resistência do fiscal,
sustentada por condições rígidas e pela recusa reiterada, não é mero capricho,
mas tentativa de preservar fronteiras psíquicas e impedir que a função se
transforme em destino. O episódio evidencia que a transferência institucional
convoca uma luta central entre ser trabalhador-função e ser sujeito-desejo.
10.5
Fantasias de reestruturação e bode expiatório: o novo trabalhador como tampão
da falta no fechamento
O material clínico-institucional permite avançar uma
hipótese decisiva: a expectativa em torno da permanência do fiscal em Barão
Geraldo parece ultrapassar a dimensão interpessoal e remeter a um impasse
estrutural da equipe, concentrado especificamente no turno do fechamento. A
informação de que “duas fiscais faltam muito” e de que tais faltas incidem
justamente no fechamento sugere que este horário tornou-se um ponto crítico de
sobrecarga e tensão coletiva. Nesse contexto, a chegada de um novo trabalhador tende
a ser investida como possibilidade de reparação organizacional.
A psicodinâmica do trabalho, tal como formulada por
Dejours (1992/1994), demonstra que déficits crônicos de pessoal e falhas na
organização produzem sofrimento difuso, que se intensifica nos setores onde a
carga se torna insustentável. O fechamento, nesse caso, aparece como lugar de
condensação do sofrimento laboral: é ali que a ausência recorrente de
determinadas fiscais provoca redistribuição desigual do trabalho, estresse
permanente e sensação de injustiça. O coletivo passa a funcionar em regime defensivo,
buscando estabilizar minimamente a atividade.
É nesse cenário que a permanência do fiscal
recém-chegado pode ser fantasmaticamente investida como “solução”. A
expectativa não é apenas que ele permaneça na loja, mas que aceite precisamente
o lugar mais deficitário — o fechamento — funcionando como tampão da falta
estrutural. Dejours sublinha que, em organizações precarizadas, trabalhadores
recém-chegados podem ser instrumentalizados como recursos humanos destinados a
absorver a sobrecarga, substituindo transformações reais na gestão por remendos
subjetivos.
Entretanto, a hipótese levantada de que algumas
fiscais poderiam esperar uma eventual demissão ou substituição de uma das
trabalhadoras faltosas introduz uma dimensão ainda mais complexa: a produção de
fantasias de reestruturação grupal. Kaës (1991) mostra que grupos sob tensão
frequentemente constroem alianças inconscientes e cenários implícitos de
expulsão, nos quais a eliminação de um elemento considerado “problemático”
aparece como promessa de restauração do equilíbrio. Trata-se de um mecanismo
próximo ao bode expiatório institucional: o sofrimento coletivo é deslocado
para figuras identificadas como fonte da disfunção, e a reorganização imaginada
passa pela exclusão ou substituição.
Enriquez (1997) complementa ao demonstrar que
organizações produzem imaginários de necessidade e inevitabilidade: quando um
setor entra em crise, surge a busca por figuras reparadoras ou salvadoras,
capazes de sustentar aquilo que a instituição não consegue estruturar
adequadamente. O fiscal recém-chegado pode, assim, ser idealizado não apenas
como trabalhador competente, mas como agente potencial de normalização do
fechamento, isto é, como aquele que permitiria reorganizar o funcionamento e
aliviar o mal-estar difuso.
Do ponto de vista lacaniano, tal dinâmica evidencia
o risco de captura do sujeito como objeto do desejo do Outro institucional. O
fiscal é convocado a ocupar um lugar que completaria a falta da organização:
não se trata de um desejo singular, mas de uma demanda estrutural do sistema e
do grupo. O fechamento torna-se significante maior, lugar onde se testa a
submissão e onde o sujeito corre o risco de ser reduzido à função de suporte da
engrenagem institucional (Lacan, 1969–1970/1992).
A recusa reiterada do fiscal em aceitar o fechamento
pode, então, ser compreendida como resistência subjetiva e tentativa de
preservação de fronteiras psíquicas. Clot (1999/2006) sugere que tais recusas
expressam a luta do trabalhador para manter sua potência de agir e impedir que
a atividade se transforme em destino totalizante. Ao condicionar sua
permanência a um horário intermediário, o sujeito tenta escapar da captura pelo
lugar mais sobrecarregado e simbolicamente sacrificial da equipe.
Dessa forma, o episódio revela que a expectativa
grupal em torno do fiscal não se reduz a afeto ou reconhecimento, mas se
articula a fantasias institucionais de reparação, reestruturação e expulsão. O
fechamento aparece como núcleo traumático do coletivo, e o recém-chegado é
convocado a funcionar como tampão da falta, evidenciando como transferências
administrativas podem reativar processos inconscientes profundos de
pertencimento, sacrifício e captura institucional.
12.1 “Eu
não sou o salvador”: recusa da captura institucional e desejo de outra posição
profissional
O desfecho do material analisado permite formular
com maior nitidez a posição subjetiva do fiscal transferido: sua recusa
reiterada em permanecer no fechamento não deve ser compreendida como mera
preferência de horário ou resistência administrativa, mas como recusa
estrutural de ocupar o lugar de “salvador” imaginário da equipe. O fechamento
aparece como núcleo traumático do coletivo, marcado por faltas recorrentes,
sobrecarga e tensão difusa. A permanência do fiscal nesse turno seria investida
como solução reparadora para um impasse organizacional que, na realidade,
excede sua responsabilidade individual.
Enriquez (1997) demonstra que instituições
frequentemente produzem fantasias de reparação: diante de falhas estruturais,
emergem figuras idealizadas convocadas a sustentar o que a organização não
consegue elaborar. O recém-chegado torna-se depositário de expectativas de
normalização. Entretanto, tal idealização é ambivalente: o “salvador” é aquele
que deve suportar o impossível e que, caso falhe ou recuse, pode rapidamente
tornar-se alvo de frustração e reprovação. Assim, a recusa do fiscal pode ser
lida como antecipação defensiva frente à armadilha institucional de ser elevado
para, em seguida, ser consumido.
Na perspectiva de Kaës (1991), o grupo sob tensão
tende a produzir alianças inconscientes e dispositivos de captura: o sujeito é
convocado a funcionar como tampão da falta estrutural, preenchendo buracos
organizacionais e estabilizando o coletivo. O fiscal percebe que sua
permanência no fechamento não seria reconhecimento pleno, mas
instrumentalização: ele seria utilizado como recurso humano destinado a
absorver a precariedade da escala e as ausências recorrentes. Tal leitura
institucional, rara em trabalhadores não especializados, torna-se
particularmente plausível pelo fato de o sujeito possuir formação em
psicologia, ocupando uma posição de desencaixe: simultaneamente dentro da
função e fora, como observador crítico da dinâmica institucional.
Dejours (1992/1994) fornece uma chave decisiva ao
sublinhar que o reconhecimento no trabalho só tem valor subjetivante quando se
articula ao sentido da atividade e à possibilidade de construção de identidade.
Quando o reconhecimento opera apenas como mecanismo de captura — “precisamos de
você no fechamento” — ele perde sua dimensão simbólica e converte-se em
exigência de sacrifício. O fiscal parece intuir que ser valorizado enquanto
suporte do sofrimento coletivo não equivale a ser reconhecido como sujeito.
A recusa do fechamento deve ser compreendida também
como recusa de regressão identitária. Dubar (1991/2005) mostra que trajetórias
profissionais são narrativas em construção: o deslocamento do fechamento para o
intermediário pode representar conquista subjetiva, reorganização de vida e
tentativa de escapar do lugar sacrificial. Retornar ao fechamento significaria
“jogar tudo para trás”, isto é, reinscrever-se no ponto inicial de sofrimento e
subalternidade, anulando a possibilidade de transformação.
Além disso, a questão central não se limita ao
horário, mas à posição profissional e vocacional. O fiscal encontra-se num
trabalho vivido como meio de sobrevivência, mas não como realização simbólica.
Castel (1995/1998) descreve como o trabalho integra socialmente, mas pode
também produzir aprisionamento subjetivo quando não coincide com um horizonte
de projeto e pertencimento identitário. O sujeito deseja outra inscrição: não
apenas outra loja, mas outra função, outra legitimidade, possivelmente ligada
ao campo da psicologia e à atuação institucional como profissional reconhecido.
Nesse ponto, a leitura lacaniana torna-se decisiva.
O fiscal encontra-se confrontado à demanda do Outro institucional — “você
trabalha para a rede”, “você deve cobrir o fechamento” — e responde com um
limite: “eu não aceitarei”. Trata-se de um esforço de preservação do desejo
frente à captura pela função. Lacan (1969–1970/1992) mostra que o discurso do
mestre tende a reduzir o sujeito a engrenagem; a recusa, ainda que parcial,
constitui tentativa de não ser reduzido a objeto que completa a falta do sistema.
Por fim, é relevante notar que a supervisora, ao
propor sua permanência, não aparece como agente moral, mas como representante
da lógica institucional. Ela “cumpre seu papel”, reiterando que o Outro
organizacional opera independentemente das singularidades subjetivas. O
conflito, portanto, não é pessoal, mas estrutural: entre o sujeito que busca
preservar seu desejo e a instituição que busca estabilizar seu funcionamento
pela captura de recursos humanos.
Dessa forma, a frase implícita que atravessa o caso
— “eu não sou o salvador” — condensa o movimento subjetivo central: recusa de
ocupar o lugar sacrificial do fechamento, resistência à instrumentalização e
manutenção de um horizonte de desejo de outra posição profissional. O caso
evidencia que a verdadeira transferência em jogo não é apenas espacial ou
administrativa, mas uma transferência de lugar simbólico: da função de
sobrevivência à busca de uma inscrição vocacional e subjetivamente realizadora.
12.2 O
supermercado como espelho do impasse subjetivo: entre sobrevivência e vocação
O conjunto de fenômenos descritos — precarização,
absenteísmo, sobrecarga no fechamento, expectativa de tampão, fantasias de
solução, reconhecimento ambivalente e resistência subjetiva — não deve ser
compreendido apenas como sucessão de eventos organizacionais, mas como
configuração institucional que espelha e amplifica um impasse psíquico mais
amplo vivido pelo fiscal. O supermercado, nesse sentido, torna-se um microcosmo
onde se condensam tensões estruturais entre função e desejo, sobrevivência e
vocação, pertencimento e captura.
A precarização do trabalho, evidenciada pelas faltas
recorrentes e pela necessidade constante de “cobrir buracos”, produz um
funcionamento institucional marcado pela urgência e pela improvisação. Dejours
(1992/1994) mostra que tais contextos geram sofrimento difuso e obrigam os
trabalhadores a construir defesas coletivas para sustentar o cotidiano. O
fechamento, como lugar de condensação da sobrecarga, transforma-se em núcleo
traumático da equipe: ali se concentra o excesso de exigência e a experiência reiterada
de injustiça organizacional. Para o fiscal, esse cenário não é apenas externo;
ele adquire valor de espelho, pois revela uma lógica de sobrevivência
permanente, sem horizonte de elaboração ou projeto.
A expectativa de que o fiscal permaneça e aceite o
fechamento evidencia a lógica do tampão institucional: o sujeito é convocado a
preencher a falta estrutural do sistema. Kaës (1991) demonstra que grupos sob
tensão produzem alianças inconscientes e mecanismos de captura, nos quais
determinados trabalhadores são investidos como suporte reparador do coletivo.
Tal investimento pode assumir a forma de idealização (“você é tudo”), mas
permanece atravessado pela instrumentalização: o sujeito vale enquanto sustenta
o que a organização não consegue transformar. Enriquez (1997) descreve esse
processo como produção imaginária de figuras salvadoras, destinadas a reparar
simbolicamente falhas institucionais. O risco, entretanto, é que a idealização
se converta em exigência impossível e, posteriormente, em decepção e
culpabilização.
Do ponto de vista lacaniano, esse movimento
evidencia a convocação do sujeito a ocupar o lugar de objeto do desejo do Outro
institucional: “a rede precisa”, “o fechamento deve ser coberto”, “você não
escolhe”. Trata-se do discurso do mestre, no qual a singularidade subjetiva
tende a ser apagada em nome da função (Lacan, 1969–1970/1992). A recusa do
fiscal em aceitar tal lugar não é mero capricho, mas tentativa de preservar a
dimensão do desejo frente à captura organizacional.
O absenteísmo das fiscais do fechamento, por sua
vez, pode ser lido como sintoma coletivo. Na psicodinâmica do trabalho, faltas
repetidas não se reduzem a “irresponsabilidade”, mas frequentemente expressam
retirada defensiva diante de condições insuportáveis (Dejours, 1992/1994). O
fiscal percebe que o fechamento opera como espaço de desgaste e adoecimento,
reforçando sua recusa em regressar a esse lugar. Assim, sua resistência
constitui também uma leitura crítica do real institucional: ele antecipa que
aceitar o fechamento seria entrar numa engrenagem de sobrecarga sem saída.
Essa dinâmica institucional espelha, ainda, um
impasse existencial mais amplo: o fiscal encontra-se numa função vivida como
meio de sobrevivência, mas não como realização simbólica. Castel (1995/1998)
demonstra que o trabalho é eixo central de integração social, mas pode
tornar-se também forma de aprisionamento subjetivo quando não oferece
perspectiva de reconhecimento identitário pleno. Dubar (1991/2005) acrescenta
que identidades profissionais são construídas ao longo de trajetórias e
projetos; quando o sujeito não se reconhece no lugar ocupado, instala-se uma
suspensão identitária, marcada pela sensação de provisório que se prolonga
indefinidamente.
Nesse contexto, o silêncio observado — a interrupção
do hábito de ouvir música no trajeto e até mesmo na pausa do almoço — pode ser
compreendido como empobrecimento do espaço transicional (Winnicott, 1953/1975).
A música, antes organizadora do entre-tempo e do cuidado de si, desaparece,
sinalizando retração libidinal e funcionamento em regime mínimo: o sujeito não
investe mais simbolicamente os intervalos, pois vive o trabalho como mera
sustentação da sobrevivência.
Dessa forma, o supermercado torna-se espelho de um
duplo impasse: institucional e subjetivo. Assim como a organização opera por
tampões e remendos, a trajetória do fiscal parece operar por provisórios que se
prolongam, adiando a inscrição vocacional desejada no campo da psicologia. A
transferência de loja não se converte em transferência de destino. O sujeito
permanece dividido entre o lugar funcional que ocupa e o lugar simbólico que
deseja.
Conclui-se, portanto, que o cenário institucional
analisado não apenas produz sofrimento no trabalho, mas dramatiza, para o
fiscal, a questão central de sua existência profissional: permanecer como
função de sobrevivência ou encontrar a possibilidade de outra inscrição
subjetiva, na qual reconhecimento e desejo possam finalmente coincidir. O
supermercado, nesse sentido, não é apenas espaço de trabalho, mas palco onde se
reflete a luta entre captura institucional e vocação, entre o apagamento e a
busca por um lugar próprio.
12.2 O
supermercado como espelho do impasse subjetivo: entre sobrevivência e vocação
O conjunto de fenômenos descritos — precarização,
absenteísmo, sobrecarga no fechamento, expectativa de tampão, fantasias de
solução, reconhecimento ambivalente e resistência subjetiva — não deve ser
compreendido apenas como sucessão de eventos organizacionais, mas como
configuração institucional que espelha e amplifica um impasse psíquico mais
amplo vivido pelo fiscal. O supermercado, nesse sentido, torna-se um microcosmo
onde se condensam tensões estruturais entre função e desejo, sobrevivência e
vocação, pertencimento e captura.
A precarização do trabalho, evidenciada pelas faltas
recorrentes e pela necessidade constante de “cobrir buracos”, produz um
funcionamento institucional marcado pela urgência e pela improvisação. Dejours
(1992/1994) mostra que tais contextos geram sofrimento difuso e obrigam os
trabalhadores a construir defesas coletivas para sustentar o cotidiano. O
fechamento, como lugar de condensação da sobrecarga, transforma-se em núcleo
traumático da equipe: ali se concentra o excesso de exigência e a experiência reiterada
de injustiça organizacional. Para o fiscal, esse cenário não é apenas externo;
ele adquire valor de espelho, pois revela uma lógica de sobrevivência
permanente, sem horizonte de elaboração ou projeto.
A expectativa de que o fiscal permaneça e aceite o
fechamento evidencia a lógica do tampão institucional: o sujeito é convocado a
preencher a falta estrutural do sistema. Kaës (1991) demonstra que grupos sob
tensão produzem alianças inconscientes e mecanismos de captura, nos quais
determinados trabalhadores são investidos como suporte reparador do coletivo.
Tal investimento pode assumir a forma de idealização (“você é tudo”), mas
permanece atravessado pela instrumentalização: o sujeito vale enquanto sustenta
o que a organização não consegue transformar. Enriquez (1997) descreve esse
processo como produção imaginária de figuras salvadoras, destinadas a reparar
simbolicamente falhas institucionais. O risco, entretanto, é que a idealização
se converta em exigência impossível e, posteriormente, em decepção e
culpabilização.
Do ponto de vista lacaniano, esse movimento
evidencia a convocação do sujeito a ocupar o lugar de objeto do desejo do Outro
institucional: “a rede precisa”, “o fechamento deve ser coberto”, “você não
escolhe”. Trata-se do discurso do mestre, no qual a singularidade subjetiva
tende a ser apagada em nome da função (Lacan, 1969–1970/1992). A recusa do
fiscal em aceitar tal lugar não é mero capricho, mas tentativa de preservar a
dimensão do desejo frente à captura organizacional.
O absenteísmo das fiscais do fechamento, por sua
vez, pode ser lido como sintoma coletivo. Na psicodinâmica do trabalho, faltas
repetidas não se reduzem a “irresponsabilidade”, mas frequentemente expressam
retirada defensiva diante de condições insuportáveis (Dejours, 1992/1994). O
fiscal percebe que o fechamento opera como espaço de desgaste e adoecimento,
reforçando sua recusa em regressar a esse lugar. Assim, sua resistência
constitui também uma leitura crítica do real institucional: ele antecipa que
aceitar o fechamento seria entrar numa engrenagem de sobrecarga sem saída.
Essa dinâmica institucional espelha, ainda, um
impasse existencial mais amplo: o fiscal encontra-se numa função vivida como
meio de sobrevivência, mas não como realização simbólica. Castel (1995/1998)
demonstra que o trabalho é eixo central de integração social, mas pode
tornar-se também forma de aprisionamento subjetivo quando não oferece
perspectiva de reconhecimento identitário pleno. Dubar (1991/2005) acrescenta
que identidades profissionais são construídas ao longo de trajetórias e
projetos; quando o sujeito não se reconhece no lugar ocupado, instala-se uma
suspensão identitária, marcada pela sensação de provisório que se prolonga
indefinidamente.
Nesse contexto, o silêncio observado — a interrupção
do hábito de ouvir música no trajeto e até mesmo na pausa do almoço — pode ser
compreendido como empobrecimento do espaço transicional (Winnicott, 1953/1975).
A música, antes organizadora do entre-tempo e do cuidado de si, desaparece,
sinalizando retração libidinal e funcionamento em regime mínimo: o sujeito não
investe mais simbolicamente os intervalos, pois vive o trabalho como mera
sustentação da sobrevivência.
Dessa forma, o supermercado torna-se espelho de um
duplo impasse: institucional e subjetivo. Assim como a organização opera por
tampões e remendos, a trajetória do fiscal parece operar por provisórios que se
prolongam, adiando a inscrição vocacional desejada no campo da psicologia. A
transferência de loja não se converte em transferência de destino. O sujeito
permanece dividido entre o lugar funcional que ocupa e o lugar simbólico que
deseja.
Conclui-se, portanto, que o cenário institucional
analisado não apenas produz sofrimento no trabalho, mas dramatiza, para o
fiscal, a questão central de sua existência profissional: permanecer como
função de sobrevivência ou encontrar a possibilidade de outra inscrição
subjetiva, na qual reconhecimento e desejo possam finalmente coincidir. O
supermercado, nesse sentido, não é apenas espaço de trabalho, mas palco onde se
reflete a luta entre captura institucional e vocação, entre o apagamento e a
busca por um lugar próprio.
12.3 Do
apagamento institucional à insistência do desejo: o sujeito não desaparece
O cenário analisado pode conduzir à impressão de um
apagamento subjetivo completo: o fiscal, formado em psicologia, encontra-se
confinado a uma função operacional, atravessado por precarização, sobrecarga,
ausência de perspectivas e bloqueio de oportunidades externas. De fato, a
instituição parece reconhecer nele apenas o trabalhador funcional, convocado a
tamponar faltas e sustentar o fechamento, enquanto sua dimensão vocacional
permanece sem lugar de inscrição. Trata-se de um apagamento simbólico do reconhecimento
profissional e do desejo no interior do discurso organizacional.
Entretanto, é necessário, do ponto de vista
psicanalítico e institucional, evitar a conclusão de um desaparecimento
absoluto do sujeito. Freud (1914/1996) já indicava que a elaboração não se
reduz ao insight intelectual: compreender não equivale imediatamente a
transformar, sobretudo quando as condições materiais e institucionais bloqueiam
a possibilidade de deslocamento. O sofrimento aqui não decorre apenas de
conflitos intrapsíquicos, mas da colisão entre desejo e estrutura social: o
sujeito sabe, lê, interpreta, mas não encontra passagem concreta.
Na perspectiva lacaniana, mesmo quando o discurso do
mestre reduz o trabalhador à função, o desejo não se extingue; ele insiste,
ainda que sob formas negativas, como recusa, silêncio, resistência e não adesão
plena à captura institucional (Lacan, 1969–1970/1992). A recusa do fiscal em
aceitar o fechamento, suas condições rígidas e sua não identificação com o
lugar de “salvador” constituem sinais de que a subjetividade não está anulada,
mas defendida contra a totalização.
Dejours (1992/1994) permite compreender que, em
contextos de reconhecimento insuficiente, o sujeito pode operar em regime
mínimo, retraindo investimentos e produzindo desligamento defensivo. Isso não
significa extinção do desejo, mas tentativa de sobrevivência psíquica diante de
um trabalho que não subjetiva. Dubar (1991/2005) acrescenta que trajetórias
profissionais podem atravessar longos períodos de suspensão identitária, nos
quais a identidade para si não coincide com a identidade atribuída pela instituição.
Dessa forma, o que se observa não é a morte
subjetiva, mas uma experiência de precarização simbólica: o sujeito encontra-se
temporariamente impedido de inscrever sua vocação no campo social, vivendo uma
tensão entre sobrevivência funcional e projeto desejante. O supermercado, como
espelho institucional, dramatiza esse impasse. Contudo, a insistência do limite
e da recusa indica que o sujeito não desapareceu: ele permanece em conflito, e
é precisamente esse conflito que testemunha a persistência do desejo.
12.4 O
saber em exílio: quando a vocação não encontra instituição
O questionamento que emerge no percurso do fiscal —
“para que todo esse saber, se não consigo inscrever meu desejo em alguma
instituição como psicólogo?” — condensa um dos pontos mais críticos da
experiência subjetiva contemporânea: a dissociação entre formação, desejo e
reconhecimento social. Tal pergunta não deve ser interpretada como simples
desvalorização do conhecimento psicológico, mas como expressão de uma crise
identitária e ética produzida pelo desencontro entre vocação e lugar
institucional.
Freud (1914/1996) já indicava que o sofrimento
psíquico não se reduz à ignorância ou à falta de compreensão. Há situações em
que o sujeito sabe, elabora intelectualmente e reconhece os determinantes de
sua condição, mas permanece impedido de transformar sua posição no mundo. Nesse
sentido, o insight não equivale à passagem. A pergunta “para quê?” surge
precisamente quando a elaboração encontra o limite do real social: o sujeito
compreende, mas não consegue deslocar-se.
Na perspectiva lacaniana, tal impasse pode ser
formulado como ausência de inscrição simbólica do desejo no campo do Outro
(Lacan, 1969–1970/1992). O fiscal é psicólogo em desejo e formação subjetiva,
mas não o é no registro institucional que atribui lugares, funções e
reconhecimento. Assim, instala-se uma divisão estrutural: o sujeito existe para
si como portador de um saber e de uma vocação, mas permanece socialmente
reconhecido apenas como operador funcional. O desejo, nesse contexto, não
desaparece; ele se encontra exilado, sem lugar de enunciação legítima.
Esse exílio do saber produz uma forma específica de
sofrimento: não o sofrimento da dúvida, mas o sofrimento da inutilidade
aparente. O sujeito pergunta-se sobre o sentido de ter aprendido a sustentar
processos de mudança, acolher emoções e favorecer transformações em outros,
quando ele próprio se vê bloqueado na possibilidade de exercer sua função
simbólica no mundo. Contudo, tal paradoxo não deve ser lido como hipocrisia ou
fracasso individual. Trata-se de uma tensão estrutural entre subjetividade e instituição,
entre desejo e mercado, entre vocação e precarização das trajetórias
profissionais.
Dejours (1992/1994) permite compreender que, quando
o trabalho não oferece reconhecimento simbólico e quando a atividade cotidiana
se reduz à sobrevivência funcional, instala-se um sofrimento ético. O sujeito
já não se pergunta apenas “estou cansado?”, mas “qual é o sentido do que
faço?”. Nesse nível, o problema não é a carga de trabalho em si, mas a
impossibilidade de se reconhecer naquilo que se executa. O fiscal, capturado
como tampão operacional, percebe que sua presença é requerida menos como sujeito
do desejo e mais como peça de manutenção institucional.
Dubar (1991/2005) acrescenta que identidades
profissionais se constroem na articulação entre identidade para si e identidade
atribuída. Quando o sujeito não encontra lugar para exercer aquilo que deseja
ser, instala-se uma suspensão identitária: ele é psicólogo como projeto e
interioridade, mas fiscal como destino atribuído. Essa suspensão prolongada
pode produzir sensação de apagamento, não porque o sujeito desapareça, mas
porque sua vocação permanece sem inscrição social reconhecida.
Castel (1995/1998), por fim, ajuda a situar esse
sofrimento no campo mais amplo das transformações contemporâneas do trabalho. A
precarização não é apenas econômica, mas simbólica: trajetórias tornam-se
instáveis, promessas de mobilidade se frustram, e muitos sujeitos permanecem
integrados pelo emprego, mas desintegrados em termos de sentido e
reconhecimento. O saber, então, não se extingue, mas circula em estado de
exílio institucional, aguardando uma passagem que o mercado e as instituições
retardam ou bloqueiam.
Dessa forma, o “saber em exílio” não é ausência de
valor, mas ausência de lugar. O fiscal não perde sua subjetividade nem seu
desejo; ele vive o sofrimento de portar um saber que não encontra inscrição
profissional, de sustentar uma vocação que permanece suspensa. A pergunta “para
quê?” marca, portanto, não a inutilidade do conhecimento psicológico, mas o
ponto em que o sujeito confronta o real social que impede a coincidência entre
desejo, reconhecimento e destino institucional.
12.5 O
retorno da música: micro-resistências e reanimação do espaço subjetivo
O reaparecimento do hábito de ouvir música no
horário de almoço constitui um indicador clínico e institucional relevante no
percurso do fiscal psicólogo. Se, anteriormente, a interrupção desse
comportamento havia sido interpretada como retração libidinal, empobrecimento
do espaço intermediário e funcionamento defensivo em regime mínimo, seu retorno
sugere uma reorganização parcial do investimento subjetivo no cotidiano.
Trata-se de um micro-sinal de reanimação psíquica, ainda que não implique
resolução do impasse vocacional e institucional mais amplo.
Do ponto de vista freudiano, a suspensão de
atividades associadas ao prazer cotidiano pode acompanhar estados de
desinvestimento e esgotamento psíquico. O retorno da música, por sua vez, pode
ser compreendido como retomada de um pequeno circuito de satisfação possível,
isto é, uma reaproximação do sujeito a objetos que sustentam a vida psíquica
para além da pura sobrevivência funcional. Não se trata aqui de uma
transformação estrutural imediata, mas de um movimento mínimo de reinscrição
libidinal no intervalo do trabalho.
Winnicott (1953/1975) oferece uma chave
particularmente fecunda para essa leitura. A música pode operar como objeto ou
fenômeno transicional: um recurso situado entre o mundo interno e o mundo
externo, capaz de constituir uma zona intermediária de experiência onde o self
encontra espaço para existir fora das exigências diretas da função. O horário
de almoço, como tempo intersticial dentro da instituição, torna-se então um
lugar potencial de recomposição subjetiva. Ao ouvir música, o fiscal recria um
“entre-lugar” no qual não é apenas operador, tampão ou peça organizacional, mas
sujeito capaz de sustentar uma experiência própria.
Na perspectiva da psicodinâmica do trabalho, o
retorno desse gesto pode ser lido como construção de uma defesa não patológica.
Dejours (1992/1994) demonstra que, diante de condições organizacionais marcadas
por precarização, sobrecarga e falta de reconhecimento, os trabalhadores
elaboram estratégias cotidianas para preservar a saúde mental. Pequenos
rituais, práticas de prazer e micro-resistências tornam-se formas de suportar o
real do trabalho sem colapsar subjetivamente. Nesse sentido, a música não é mero
entretenimento, mas um recurso psíquico de sustentação diante de um ambiente
que tende a reduzir o sujeito à função.
Sob a ótica lacaniana, pode-se dizer que o desejo
insiste justamente nesses detalhes. Mesmo quando o discurso institucional
captura o trabalhador como elemento funcional — “a rede precisa”, “não se
escolhe horário”, “é preciso cobrir o fechamento” — permanece um resto
irredutível, um ponto em que o sujeito não se totaliza como objeto do Outro
(Lacan, 1969–1970/1992). O retorno da música pode ser lido como manifestação
discreta dessa insistência: um gesto que afirma, ainda que minimamente, que o
sujeito não se reduz inteiramente ao lugar operacional que lhe é atribuído.
Além disso, o contexto relacional vivido em Barão
Geraldo, onde há maior reconhecimento interpessoal e investimento afetivo da
equipe (“gostamos de você”, “respeitamos você”), pode produzir efeitos
simbólicos importantes. Ainda que tais movimentos sejam ambivalentes e possam
conter dimensões de captura institucional, eles também operam como sinais de
visibilidade subjetiva. A retomada da música pode, assim, espelhar uma
diminuição temporária do apagamento vivido anteriormente, permitindo ao sujeito
reocupar pequenos espaços de si no interior do cotidiano laboral.
Dessa forma, o retorno do comportamento de ouvir
música no almoço não deve ser interpretado como superação do exílio
institucional do saber psicológico, mas como um micro-processo de resistência e
reanimação subjetiva. Ele indica que, apesar da precarização simbólica e do
bloqueio de reconhecimento vocacional, o sujeito encontra modos mínimos de
reconstruir um espaço transicional, preservando a continuidade de si mesmo
frente às pressões organizacionais. Trata-se, em suma, de um gesto pequeno,
porém significativo: a música retorna como sinal de que o sujeito não
desapareceu, mas insiste.
12.6 O
retorno a Mansões: repetição institucional e impossibilidade de passagem
O retorno do fiscal psicólogo à loja de Mansões após
aproximadamente sessenta dias em Barão Geraldo constitui um acontecimento
institucional e subjetivo de alta relevância. À primeira vista, tal movimento
pode ser interpretado como simples deslocamento logístico — uma transferência
provisória para cobertura de férias, seguida do restabelecimento da alocação
original. Contudo, do ponto de vista psicanalítico e institucional, esse
retorno não se reduz a um dado administrativo: ele opera como reencenação de uma
repetição estrutural e reativa, no sujeito, a experiência de permanência na
mesma posição funcional.
É fundamental, entretanto, distinguir repetição
institucional de compulsão à repetição no sentido clínico estrito. A
organização, enquanto aparelho social, tende a reproduzir seus próprios
mecanismos defensivos: improviso, tamponamento de faltas, circulação de
trabalhadores para sustentação do funcionamento mínimo. Kaës (1991) descreve
como as instituições mobilizam alianças inconscientes e arranjos repetitivos
que utilizam sujeitos como suportes de manutenção do sistema. Assim, o fiscal é
convocado não como sujeito do desejo, mas como operador de uma repetição
organizacional: desloca-se para cobrir uma ausência e retorna quando o buraco é
momentaneamente fechado.
Todavia, essa repetição institucional encontra
ressonância psíquica. Freud, em Além do princípio do prazer (1920/1996),
conceitua a compulsão à repetição como retorno insistente de um núcleo não
simbolizado, no qual o sujeito se vê reconduzido ao mesmo lugar de sofrimento.
No caso analisado, o retorno a Mansões não é apenas espacial, mas simbólico:
trata-se de voltar ao lugar de tampão, de peça funcional, de trabalhador
convocado a sustentar falhas estruturais do coletivo. A repetição não se situa
no endereço da loja, mas na posição subjetiva reiteradamente atribuída.
Nesse sentido, o movimento evidencia a persistência
do apagamento institucional do desejo. Lacan (1969–1970/1992) permite formular
que o sujeito busca inscrever-se no campo do Outro — isto é, obter um lugar
simbólico reconhecido —, mas encontra-se capturado pelo discurso do mestre
organizacional, que o reduz à função operacional. O fiscal deseja que a saída
de Barão Geraldo se converta em passagem: não apenas mudança de loja, mas
mudança de posição, inscrição institucional como psicólogo. O retorno a Mansões,
ao contrário, surge como negativa dessa passagem, como recondução ao mesmo
lugar atribuído.
Essa experiência intensifica o sofrimento ético
descrito por Dejours (1992/1994). O sujeito não sofre apenas pelo volume de
trabalho, mas pela crise de sentido: ele investiu formação, recursos emocionais
e econômicos, elaborou intelectualmente sua condição, mas permanece impedido de
transformar sua inscrição social. O retorno pode ser vivido como regressão, não
por nostalgia do lugar anterior, mas por reafirmação de que o sistema não
oferece horizonte de reconhecimento vocacional. A pergunta “para quê?” reaparece:
para que o saber psicológico, se ele não encontra instituição onde se exercer?
Castel (1995/1998) permite situar esse sofrimento no
plano social mais amplo: o sujeito está integrado pelo emprego, mas experimenta
uma precarização simbólica, pois sua trajetória profissional não se abre para
mobilidade desejada. Dubar (1991/2005) acrescenta que tal situação produz
suspensão identitária: psicólogo como identidade para si, fiscal como
identidade atribuída. O retorno a Mansões reforça essa disjunção e prolonga o
estado de exílio do saber, no qual a vocação permanece sem lugar.
Dessa forma, o retorno após sessenta dias revela um
paradoxo central: a instituição circula o sujeito, mas não o transforma;
desloca-o, mas não lhe oferece passagem simbólica. A repetição organizacional
reencena a impossibilidade de inscrição do desejo, e o sujeito se vê novamente
no ponto de origem, não porque deseje repetir, mas porque a estrutura
institucional o reconduz ao mesmo lugar funcional. O sofrimento emerge
precisamente desse desencontro: enquanto a rede opera por transferências-tampão
e remendos, o sujeito aspira a uma transferência de posição subjetiva — da
sobrevivência operacional à realização vocacional.
13.
Conclusão ampliada — Da sobrevivência à vocação: transferência institucional e
desejo de outra inscrição subjetiva
O caso do fiscal de caixa transferido de Mansões
para Barão Geraldo permite compreender, de forma exemplar, como mudanças
institucionais aparentemente administrativas produzem efeitos subjetivos
complexos, manifestos em microgestos do cotidiano. A interrupção do hábito de
ouvir música, a escolha pelo silêncio inclusive durante o horário de almoço, o
ato falho ao lançar uma campanha no sistema da loja anterior, bem como a
sequência de sondagens e expectativas grupais acerca de sua permanência,
constituem formações significativas que ultrapassam a dimensão pragmática do
trabalho.
A psicanálise freudiana ensina que atos falhos e
lapsos não são simples erros, mas formações de compromisso em que intenções
inconscientes insistem sob a superfície do ato consciente (Freud, 1901/1996). O
lançamento equivocado da campanha evidencia que Mansões permanece como marca
psíquica ativa, não apenas como lugar físico, mas como cena simbólica vinculada
a experiências de sofrimento, cobrança e pertencimento. Na leitura lacaniana,
trata-se do retorno do significante: o sujeito é atravessado por cadeias
simbólicas que excedem sua vontade consciente, revelando que a transferência
institucional não se completa automaticamente (Lacan, 1957/1998).
O abandono da música, antes organizadora do trajeto
e do espaço interno, pode ser compreendido, com Winnicott, como empobrecimento
do espaço transicional: um enfraquecimento dos suportes culturais que permitem
sustentar a continuidade do self em situações de tensão (Winnicott, 1953/1975).
A generalização do silêncio para além do transporte, atingindo também a pausa
do almoço, sugere uma retração do investimento libidinal cotidiano e um
funcionamento em regime mínimo, marcado pela economia psíquica e pela dificuldade
de acesso a pequenas formas de prazer e transição.
Nesse sentido, a psicodinâmica do trabalho oferece
um eixo decisivo. Dejours (1992/1994) demonstra que o trabalho é
simultaneamente lugar de sofrimento e de reconhecimento, e que, quando este
último falha, o sujeito tende a desenvolver defesas de desligamento e
apagamento subjetivo. A pausa deixa de ser vivida como espaço simbólico de
restauração e torna-se apenas recomposição funcional. Clot (1999/2006), ao
sublinhar a função psicológica do trabalho, acrescenta que o sofrimento emerge
quando o sujeito não consegue se reconhecer em sua própria atividade,
experimentando bloqueio da potência de agir e suspensão de sentido.
As cenas grupais em Barão Geraldo aprofundam essa
problemática. Operadoras e fiscais investem o fiscal como figura desejada,
expressando idealização e expectativa intensa de permanência. Kaës (1991)
permite compreender tais movimentos como tentativas de construir alianças
inconscientes e pactos narcísicos de pertencimento: o grupo busca incorporar o
sujeito como suporte simbólico de coesão. Enriquez (1997) mostra que
instituições produzem imaginários coletivos e figuras investidas como “bons
objetos”, frequentemente convocadas a preencher faltas organizacionais.
Contudo, essa idealização é ambivalente, pois rapidamente se articula à captura
institucional, sobretudo quando se sugere que o fiscal permaneça no horário de
fechamento, lugar de maior exigência e sobrecarga.
O fiscal responde a essas demandas com recusa
reiterada e imposição de condições rígidas. Tal resistência evidencia uma
tentativa de preservar fronteiras subjetivas e impedir que o trabalho se
transforme em totalização da existência. Freud (1914/1996) descreve que a
resistência surge precisamente onde há risco de repetição de sofrimento e onde
a elaboração ainda não se completou. O silêncio do fiscal diante das
interpelações institucionais pode ser lido como recusa de engajamento simbólico
em pactos que não lhe oferecem verdadeira inscrição subjetiva.
A ampliação sociológica do debate reforça a hipótese
central. Castel (1995/1998) mostra que o trabalho é eixo fundamental de
integração social, mas pode reduzir o sujeito a uma posição de utilidade,
produzindo vulnerabilidade simbólica quando o reconhecimento é apenas
funcional. Dubar (1991/2005) enfatiza que identidades profissionais são
construídas ao longo de trajetórias e negociações, não sendo garantidas por
mudanças superficiais de local. Assim, a transferência de loja, embora tenha
melhorado o ambiente imediato, não responde ao núcleo do conflito, pois a
questão parece residir menos no espaço institucional e mais na posição ocupada
pelo sujeito.
Dessa forma, a hipótese mais estrutural que emerge é
que o fiscal não se sente realizado nem em Mansões nem em Barão Geraldo porque
a função de fiscal de caixa é vivida como lugar provisório de sobrevivência e
não como inscrição desejante. O reconhecimento recebido em Barão, embora
significativo, não produz adesão plena, pois não coincide com um horizonte de
vocação e projeto. A verdadeira transferência em jogo parece ser a
transferência de posição subjetiva: o desejo de outra função, de outra
identidade profissional, possivelmente ligada ao campo da psicologia e ao
reconhecimento de si como sujeito para além da engrenagem institucional.
Conclui-se, portanto, que o caso evidencia como o
cotidiano do trabalho — em seus detalhes aparentemente banais — revela
processos profundos de elaboração psíquica, conflito identitário e busca de
reconhecimento. Entre o som e o silêncio, entre Mansões e Barão, o sujeito
atravessa não apenas trajetos urbanos, mas trajetos simbólicos: da captura
institucional à tentativa de autonomia, da sobrevivência funcional à pergunta
pela vocação e pelo desejo.
14. O
significante de sobrevivência: quando a pandemia captura o sujeito numa função
sem destino
A
pandemia não foi apenas um evento sanitário. Ela operou, para muitos sujeitos,
como um corte institucional: suspendeu projetos, interrompeu trajetórias e
desorganizou os circuitos simbólicos de reconhecimento profissional. No caso do
psicólogo que não conseguiu se inscrever no campo institucional da psicologia,
o que se observa não é simplesmente um atraso de carreira ou uma falta de
competência, mas uma operação estrutural de nomeação falhada pelo Outro.
O
sujeito possui saber, formação, desejo e vocação. Contudo, esse saber não
encontra o lugar social onde possa ser legitimado. Ele não é convocado, não é
reconhecido, não é autorizado. O Outro institucional — clínicas, serviços
públicos, redes profissionais — não lhe oferece o significante que sustentaria
sua existência simbólica:
“Aqui
você é psicólogo.”
Na
ausência dessa autorização, o sujeito permanece em suspensão. E é precisamente
nesse ponto que emerge o que se pode chamar de significante de sobrevivência.
Durante
a pandemia, diante da urgência econômica e do risco de desaparecimento social,
o sujeito aceita uma inscrição que não corresponde ao seu desejo, mas à sua
necessidade imediata: torna-se fiscal de caixa no supermercado. Esse
significante não surge como escolha vocacional, mas como solução de emergência.
Trata-se de uma inscrição para não cair fora do laço social.
Freud já
havia indicado que o sujeito não se organiza apenas pelo que deseja, mas também
pelo que o ameaça, e que certas escolhas são marcadas por condições de
necessidade e angústia (Freud, 1920/1996). A pandemia, nesse sentido, produziu
um cenário em que o sujeito não escolhe plenamente: ele se agarra ao que está
disponível para sobreviver.
Entretanto,
o significante aceito no desespero não permanece neutro. Ele cola. Ele captura.
O fiscal
de caixa não é apenas um cargo: torna-se uma nomeação totalizante. Lacan afirma
que o sujeito é representado por um significante para outro significante
(Lacan, 1960/1998). Assim, quando o Outro social passa a reconhecê-lo apenas
como “fiscal”, esse significante passa a organizar sua existência social,
obscurecendo o saber psicológico que permanece, mas em exílio.
O
psicólogo não desapareceu. O que desaparece é seu lugar.
O
sujeito continua escutando, interpretando, contendo afetos, manejando conflitos
no cotidiano do supermercado. Mas tudo isso ocorre sem inscrição institucional,
sem reconhecimento formal, sem autorização simbólica. Seu saber existe, mas
clandestino. Ele se torna aquilo que poderíamos chamar de psicólogo sem campo,
um profissional cuja função está presente, mas cujo lugar é recusado.
A
prisão, portanto, não é apenas econômica. É simbólica.
Ele não
está preso ao supermercado por necessidade apenas.
Ele está preso ao significante que o Outro lhe deu.
E esse
significante foi dado num momento traumático, quando o Outro não lhe ofereceu
outro nome possível. O supermercado tornou-se o único espaço onde ele “existe”
socialmente, porque é o único espaço onde o Outro diz:
“Você é
alguém aqui.”
Por
isso, sair não é simples. Sair não é apenas pedir demissão. Sair implica
atravessar um vazio angustiante: se ele não é fiscal, o que ele é para o Outro?
Onde ele será reconhecido? Quem o nomeará psicólogo?
A
verdadeira transferência institucional, como já se pode afirmar, não é de
endereço, mas de discurso. A mudança espacial não resolve porque o núcleo é
outro: trata-se de reinscrever o sujeito em um campo onde seu desejo possa ser
simbolicamente autorizado.
A saída,
portanto, não se dá por ruptura mágica, mas por um trabalho progressivo de
reinscrição: construir espaços mínimos de reconhecimento, redes de
pertencimento, práticas supervisionadas e dispositivos institucionais que
devolvam ao sujeito o significante que lhe falta:
“Aqui
você é psicólogo.”
Somente
quando um novo Outro institucional o nomear, o significante de sobrevivência
poderá perder sua força totalizante. E então, o sujeito poderá deixar de
existir apenas como função operacional, para existir como sujeito do seu
desejo.
15.Conhecereis a verdade”: o êxodo do
psicólogo exilado
1. A
verdade como ruptura da prisão simbólica
O versículo bíblico afirma:
“E conhecereis a verdade, e a
verdade vos libertará.”
(João 8:32)
Essa
frase não é apenas uma promessa abstrata, nem um slogan espiritual. Ela
descreve uma operação profunda: a verdade não é um dado intelectual, mas um
acontecimento existencial que rompe uma forma de escravidão.
No caso
do psicólogo que permanece inscrito como fiscal de caixa, a questão não é
somente profissional ou econômica. Trata-se de uma prisão simbólica: ele existe
socialmente sob um nome que não corresponde ao seu desejo nem ao seu chamado.
Ele não
está preso apenas ao supermercado como espaço de trabalho. Ele está preso ao
significante que o Outro lhe deu.
E a
verdade que começa a emergir é justamente esta:
não se trata de incompetência
essencial,
mas de uma captura institucional produzida pela urgência da sobrevivência.
Conhecer
essa verdade é o início da libertação.
2. O
significante de sobrevivência: a inscrição na pandemia
Durante
a pandemia, muitos sujeitos foram arrancados de seus projetos e lançados em
funções emergenciais. No caso em questão, o campo institucional da psicologia
não ofereceu ao sujeito uma nomeação simbólica:
“Aqui
você é psicólogo.”
O Outro
social não autorizou sua inscrição no lugar desejado. E, diante da necessidade
de existir, ele aceitou o significante disponível:
“fiscal
de caixa”.
Esse
significante nasceu como sobrevivência, não como destino.
Mas o
que é aceito no desespero frequentemente se transforma em destino, porque o
significante não permanece externo: ele cola no corpo, organiza a identidade
social, define o modo como o Outro vê e convoca o sujeito.
Assim, o
supermercado torna-se mais que emprego: torna-se o único lugar onde ele é
reconhecido.
3. A
mentira estrutural: “eu sou apenas isso”
Antes do
insight, o sujeito vivia sob uma forma de mentira subjetiva:
- “não consegui porque sou insuficiente”
- “não tenho requisitos”
- “não sou competente”
Essa é a
mentira que o aprisiona: transformar uma falha do campo institucional em culpa
pessoal.
A verdade que liberta é outra:
“eu fui inscrito num lugar de
emergência.
meu saber não morreu, está exilado.
minha vocação não foi anulada, foi suspensa.”
Aqui, a
verdade não é conforto. É corte.
Ela
separa o sujeito da identidade imposta.
4. João
8:32 e a libertação como êxodo
No
contexto bíblico, libertação não é apenas sair de uma condição externa. É
atravessar um jugo interior.
Logo
depois, Cristo diz:
“Todo aquele que comete pecado é
escravo…
se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.”
(João 8:34–36)
O termo
“escravidão” aqui pode ser lido, também, como escravidão ao lugar que captura o
sujeito.
O
fiscal-psicólogo vive uma escravidão moderna:
- existir apenas como função operacional
- ser reduzido ao significante do Outro
- não encontrar campo para seu desejo
A
libertação, portanto, é um êxodo: uma travessia do lugar de sobrevivência para
o lugar de chamado.
5. A
verdade como nomeação correta da história
Conhecer
a verdade significa nomear corretamente:
- “eu entrei aqui para sobreviver”
- “isso não define meu destino”
- “o Outro não me autorizou naquele momento”
- “eu não sou apenas fiscal”
- “sou psicólogo em exílio institucional”
Essa
nomeação é libertadora porque rompe a identificação totalizante.
O
sujeito deixa de dizer:
“eu sou
isso”
para
dizer:
“eu
estou nisso”
E essa
diferença é decisiva.
6. A
libertação não é ruptura mágica: é reinscrição simbólica
A saída
não acontece como salto imaginário. Ela exige um trabalho progressivo de
reinscrição.
A
verdade liberta quando se torna caminho.
Três
movimentos são fundamentais:
1.
Separação interior
Ele
precisa se descolar do significante imposto:
“trabalho
como fiscal, mas não sou reduzido a isso.”
2.
Construção de um lugar mínimo de psicólogo
O Outro
institucional só autoriza quando há marca concreta:
- voluntariado estruturado
- projeto social
- grupo de escuta supervisionado
- rede profissional mínima
Um
pequeno lugar já é um novo nome.
3.
Travessia espiritual do deserto
Sair é atravessar um intervalo
sem garantias.
A Bíblia chama isso de deserto.
A psicanálise chama isso de vazio do Outro.
A fé, aqui, não é certeza de
sucesso.
É sustentação na travessia.
7. O
êxodo do psicólogo exilado
O
supermercado foi o Egito simbólico: lugar de sustento, mas também de cativeiro.
A
verdade é o chamado:
“isso
não é teu nome final.”
A
libertação começa quando ele compreende:
- o significante fiscal foi provisório
- a captura foi histórica, não ontológica
- sua vocação ainda exige inscrição
Então
ele pode dizer:
“eu não termino onde sobrevivi.
eu começo onde sou chamado.”
Conclusão:
a verdade que liberta é a que devolve o nome
“Conhecereis
a verdade” significa:
reconhecer
a própria história sem culpa e sem mentira.
E “a
verdade vos libertará” significa:
romper a
prisão do significante de sobrevivência e caminhar, passo a passo, para uma
nova inscrição no Outro.
A
verdade não apenas tira do supermercado.
Ela
devolve o caminho do desejo.
Ela
devolve o nome.
Referências
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experiência. Rio de Janeiro: Imago.
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Petrópolis: Vozes.
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ansiedade. Rio de Janeiro: Imago.
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São Paulo: Casa do Psicólogo.
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inconsciente. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
Winnicott, D. W. (1953/1975). O brincar e a
realidade. Rio de Janeiro: Imago.
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