Resumo
Este artigo discute a crença amplamente difundida de
que o indivíduo escolhe livremente seu campo profissional, analisando-a como
uma ilusão produzida por discursos meritocráticos e individualizantes. A partir
de uma leitura psicanalítica e sociológica, argumenta-se que, na realidade, são
os campos institucionais que escolhem os sujeitos segundo lógicas próprias,
frequentemente opacas para quem está fora deles. Articula-se essa tese à
trajetória de um psicólogo–teólogo que, ao longo de sua história laboral,
sempre foi selecionado por instituições em campos abertos, mas sofreu ao tentar
acessar campos fechados por meio de estratégias inadequadas. O acesso ao saber
estrutural produz a elaboração do luto, o fim da compulsão à repetição e uma
nova posição subjetiva diante da espera.
1.
Introdução: a narrativa moderna da escolha
O discurso contemporâneo do trabalho sustenta que o
sujeito escolhe sua profissão, sua instituição e sua trajetória a partir de
decisões racionais e esforço individual. Essa narrativa, amplamente difundida
por sistemas educacionais e práticas de RH, reforça a ideia de autonomia plena
do indivíduo (Bauman, 2001).
No entanto, essa concepção obscurece um dado
fundamental: o acesso aos campos profissionais depende da autorização do
próprio campo, que seleciona, filtra e convoca sujeitos conforme suas
necessidades internas (Bourdieu, 1996).
2. A
experiência empírica: quando o campo escolhe silenciosamente
Ao revisitar sua trajetória desde a formação como
técnico em mecânica, o psicólogo–teólogo reconhece que:
- em atividades
laborais simples,
- em empregos
operacionais,
- em funções fora do
campo acadêmico,
as instituições ofertaram vagas, avaliaram
rapidamente e o escolheram.
O sujeito se candidatava, mas a decisão sempre foi externa.
Essa dinâmica permaneceu invisível porque funcionava
sem conflito. O campo escolhia, e o sujeito entrava. Não havia sofrimento, logo
não havia necessidade de reflexão sobre a lógica da escolha.
3. A
ilusão da escolha surge quando o campo se fecha
A ilusão de que o sujeito escolhe o campo ganha
força justamente quando o campo deixa de escolher. Diante da recusa ou
do silêncio institucional, o sujeito tende a interpretar o impasse como falha
pessoal.
Do ponto de vista psicanalítico, essa interpretação
alimenta a culpa e sustenta a compulsão à repetição (Freud, 1920): o sujeito
insiste no mesmo método acreditando que, com mais esforço, será finalmente
escolhido.
O que se ignora é que cada campo opera segundo
regras específicas, muitas vezes não explicitadas (Bourdieu, 2004).
4.
Campos abertos e campos fechados: lógicas distintas de seleção
Campos abertos, como funções operacionais ou
técnicas, tendem a selecionar por:
- disponibilidade
imediata,
- competências
básicas,
- entrevistas
diretas.
Já campos institucionais complexos (como psicologia
institucional, saúde pública, educação especializada ou contextos religiosos)
operam por:
- indicação,
- lembrança,
- reconhecimento
prévio,
- mediação de alguém
que já pertence ao campo.
Aplicar a lógica de um campo aberto a um campo
fechado constitui uma extrapolação legítima, porém equivocada.
5. O
acesso ao saber estrutural e o fim da alienação
O sofrimento persiste enquanto o sujeito não tem
acesso ao saber estrutural que explica o funcionamento do campo. Quando
esse saber emerge, ocorre uma mudança qualitativa:
- o fracasso deixa
de ser moralizado;
- a história
profissional é reorganizada;
- a repetição perde
sua função.
Segundo Lacan (1964), o sujeito só pode sair da
alienação quando reconhece o lugar do Outro na estrutura. Aqui, o “Outro” é o
campo institucional que autoriza ou não a entrada.
6. “A
psicologia escolhe o sujeito”: da metáfora à estrutura
A frase recorrente na formação — “a psicologia
escolhe o sujeito” — deixa de ser entendida como idealização vocacional e passa
a ser reconhecida como descrição estrutural.
O campo:
- convoca quando
necessita,
- lembra de alguém
quando entra em crise,
- autoriza a entrada
segundo sua lógica própria.
Essa compreensão desloca o sujeito da posição de
demandante culpado para a posição de alguém que pode esperar sem se destruir.
7. O
luto pela ilusão da escolha
O acesso ao saber estrutural exige um luto
específico:
o luto pela crença de que esforço, currículo e insistência garantem entrada em
qualquer campo.
Segundo Kübler-Ross (1969), o luto só se elabora
quando a perda é reconhecida. Aqui, a perda não é da profissão, mas da fantasia
de controle sobre a escolha.
A elaboração desse luto permite:
- a retirada do
investimento libidinal de práticas ineficazes;
- o fim da compulsão
à repetição;
- a abertura para
uma espera simbolizada.
8.
Considerações finais
A ideia de que o sujeito escolhe o campo sustenta-se
enquanto o campo escolhe silenciosamente. Quando essa escolha falha, a ilusão
se rompe e o sofrimento emerge.
Reconhecer que é o campo quem escolhe o sujeito
não implica passividade, mas realismo estrutural. Essa mudança de posição
subjetiva permite que o profissional cesse a luta contra portas fechadas e se
reposicione diante do tempo, da espera e do desejo.
O que antes era vivido como fracasso passa a ser
compreendido como desencontro de lógicas. E isso, por si só, já é um
efeito terapêutico.
Referências
Bibliográficas
Bauman, Z. (2001). Modernidade líquida. Rio
de Janeiro: Zahar.
Bourdieu, P. (1996). Razões práticas: sobre a
teoria da ação. Campinas: Papirus.
Bourdieu, P. (2004). Os usos sociais da ciência.
São Paulo: UNESP.
Freud, S. (1920). Além do princípio do prazer.
Rio de Janeiro: Imago.
Kübler-Ross, E. (1969). On Death and Dying. New York: Macmillan.
Lacan, J. (1964). O seminário, livro 11: Os
quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
Weber, M. (2004). A ética protestante e o
espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras.
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