Quando alguém é psicólogo por formação, mas ocupa outro cargo (como fiscal de loja), ocorre uma dissociação entre saber e lugar institucional.
Você continua tendo:
- capacidade de escuta
- leitura de sofrimento psíquico
- percepção de dinâmicas de poder e pressão
Mas o cargo que você ocupa não
autoriza essa intervenção.
O que acontece nesse tipo de situação
No caso do fiscal psicólogo no
supermercado, três movimentos costumam ocorrer:
1. Hiperpercepção do sofrimento
A formação em psicologia faz com
que você perceba coisas que outros trabalhadores não percebem facilmente:
- humilhações veladas
- medo de supervisores
- competição entre colegas
- desgaste emocional
- adoecimento silencioso
Ou seja, o sofrimento fica muito
visível para você.
2. Impossibilidade institucional de agir
Como seu cargo formal é fiscal,
sua função é outra:
- controle
- prevenção de perdas
- vigilância
- cumprimento de regras
Intervir psicologicamente pode ser
visto como:
- ultrapassar função
- questionar hierarquia
- criar conflito com a gestão
Então surge um limite
institucional real.
3. Produção de sofrimento no próprio psicólogo
Essa é a parte mais importante.
Quando alguém vê o sofrimento,
compreende o sofrimento, mas não pode agir, costuma surgir:
- sensação de impotência
- sensação de deslocamento profissional
- enfraquecimento subjetivo
- dúvida sobre a própria identidade profissional
Isso não é apenas pessoal.
É um efeito institucional do não-lugar do psicólogo.
Como a psicologia institucional lê essa situação
Na Georges Lapassade e em René
Lourau, isso aparece como:
contradição entre função real e função instituída.
- Função
real → você opera como alguém que
percebe e interpreta o sofrimento.
- Função
instituída → a instituição
te coloca como fiscal.
O conflito entre essas duas coisas
produz tensão.
Um ponto importante
Mesmo sem cargo formal de
psicólogo, às vezes surgem micro-intervenções possíveis, como:
- escutas breves no cotidiano
- mediações informais de conflito
- nomear sofrimento que estava silenciado
- criar pequenos espaços de fala
Isso não substitui um cargo
institucional, mas já produz deslocamentos no ambiente.
A questão central aqui
A pergunta que aparece na sua
situação não é apenas:
“Posso atuar como psicólogo?”
Mas algo mais profundo:
“Como sustentar um olhar psicológico dentro de
uma instituição que não reconhece esse lugar?”
Essa é uma questão clássica da psicologia
institucional.
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