O Desinvestimento Psíquico da Vaga de Assistente de RH Generalista: Uma Leitura Psicanalítica e Organizacional do Silêncio Institucional
Resumo
Este
artigo analisa o fenômeno do desinvestimento psíquico diante de um processo
seletivo interno para a vaga de Assistente de RH Generalista em uma organização
supermercadista. O estudo parte da experiência de um fiscal de caixa graduado
em Psicologia que se candidata à vaga buscando uma mudança de posição
ocupacional. Entretanto, ao longo do processo, emerge uma contradição
fundamental: embora a vaga represente uma possibilidade de saída do sofrimento
associado à função atual, ela não corresponde integralmente ao seu projeto
identitário de atuar como psicólogo organizacional. A partir das contribuições
da psicanálise e da psicologia organizacional, discute-se como o silêncio
institucional, a ausência de comunicação organizacional e a demora nas decisões
administrativas favorecem processos de ansiedade, idealização, investimento
libidinal e posterior desinvestimento psíquico.
Palavras-chave: Psicanálise; Psicologia Organizacional; Silêncio
Organizacional; Investimento Libidinal; Carreira; Identidade Profissional.
Introdução
As
organizações são espaços de produção econômica, mas também de produção
subjetiva. Nelas circulam desejos, expectativas, fantasias, medos e projetos de
futuro. Os processos seletivos internos, frequentemente compreendidos como
procedimentos técnicos de gestão de pessoas, podem assumir significados
emocionais profundos para os trabalhadores.
O caso
analisado refere-se a um fiscal de caixa que, possuindo formação em Psicologia,
candidatou-se a uma vaga interna de Assistente de RH Generalista. Após mais de
vinte dias sem qualquer comunicação formal, entrevista ou atualização sobre o
andamento do processo, instala-se um cenário de incerteza.
A
situação torna-se ainda mais significativa quando uma operadora de caixa também
inscrita no processo procura informações junto ao fiscal, revelando que o
silêncio não produz ansiedade apenas individualmente, mas também coletivamente.
Nesse
contexto, a vaga passa a ocupar um lugar simbólico que ultrapassa sua função
objetiva dentro da estrutura organizacional.
O Silêncio Organizacional Como
Fenômeno Psicológico
Segundo
Morrison (2014), o silêncio organizacional constitui um fenômeno coletivo no
qual informações deixam de circular adequadamente dentro da organização.
Quando
os trabalhadores não recebem informações sobre decisões que afetam diretamente
suas trajetórias profissionais, surge um espaço interpretativo marcado pela
incerteza.
A
ausência de comunicação tende a produzir:
- ansiedade;
- especulações;
- rumores;
- fantasias
organizacionais;
- sentimento de
injustiça procedimental.
O
silêncio institucional observado no processo seletivo cria uma espécie de
"vácuo simbólico". Sem informações concretas, os candidatos passam a
construir hipóteses para preencher o vazio comunicacional.
Na
perspectiva da psicologia organizacional, o problema não reside apenas na
demora da decisão, mas na ausência de referências que permitam aos
trabalhadores compreenderem o que está acontecendo.
O Investimento Libidinal na Vaga
A
psicanálise compreende que os sujeitos investem energia psíquica em pessoas,
objetos, ideias e projetos.
Freud
(1914/1996) denominou esse fenômeno de investimento libidinal.
No
caso analisado, a vaga de Assistente de RH Generalista passa gradualmente a
receber um investimento emocional significativo.
Inicialmente,
ela representa:
- mudança de setor;
- possibilidade de
crescimento;
- reconhecimento
institucional;
- afastamento do
sofrimento vivido na função de fiscal de caixa.
Entretanto,
a análise mais aprofundada revela que a vaga adquire uma dimensão simbólica
maior do que seu conteúdo real.
Ela
deixa de ser apenas uma vaga.
Transforma-se
em um significante de transformação pessoal.
A Contradição Entre Desejo e
Realidade
A
psicanálise distingue necessidade, demanda e desejo.
A
necessidade do trabalhador é reduzir o sofrimento atual.
Sua
demanda manifesta-se na candidatura à vaga de Assistente de RH.
Contudo,
seu desejo parece estar localizado em outro lugar: a atuação como psicólogo
organizacional.
Essa
diferença é fundamental.
O
sujeito percebe gradualmente que a eventual aprovação não realizaria
integralmente seu projeto profissional.
Mudaria
sua posição organizacional, mas não sua identidade ocupacional profunda.
Segundo
Lacan (1958/1998), o desejo humano encontra-se sempre além dos objetos
concretos que supostamente o satisfariam.
Nesse
sentido, a vaga de Assistente de RH torna-se um substituto parcial de um desejo
maior.
A Angústia da Espera
A
espera prolongada produz um estado de suspensão psíquica.
O
trabalhador permanece entre duas posições:
- não pertence mais
subjetivamente ao cargo atual;
- ainda não pertence
ao cargo desejado.
Essa
condição gera aquilo que pode ser chamado de liminaridade organizacional.
Ele
permanece entre identidades.
Não é
apenas fiscal de caixa.
Também
ainda não é integrante do RH.
A
consequência é uma sensação de não pertencimento.
Segundo
Dejours (1992), situações prolongadas de incerteza no trabalho frequentemente
produzem sofrimento psíquico por dificultarem a elaboração simbólica das
experiências.
O Reconhecimento da Ilusão
Um
aspecto relevante da situação é a capacidade reflexiva apresentada pelo
candidato.
Ele
começa a reconhecer que a vaga estava sendo investida com expectativas que
excediam sua capacidade real de satisfazê-las.
A
compreensão de que a aprovação poderia apenas substituir uma angústia por outra
representa um movimento importante de elaboração psíquica.
Isso
não significa fracasso.
Significa
reconhecimento da realidade.
A vaga
não é mais vista como solução absoluta.
Passa
a ser compreendida como possibilidade limitada.
O Desinvestimento Psíquico
Na
teoria psicanalítica, o desinvestimento ocorre quando a energia emocional
anteriormente concentrada em determinado objeto começa a ser retirada.
Esse
processo não implica desistência.
Implica
reorganização.
O
trabalhador passa a compreender que seu projeto profissional não pode ficar
inteiramente dependente do resultado daquele processo seletivo.
A
libido anteriormente concentrada na vaga começa a ser redistribuída.
Ela
pode retornar para:
- projetos
acadêmicos;
- formação
continuada;
- construção de
currículo;
- busca de
oportunidades externas;
- desenvolvimento
profissional na Psicologia.
O
objeto deixa de ocupar o centro da vida psíquica.
Identidade Profissional e
Sofrimento
A
literatura sobre identidade profissional demonstra que os indivíduos constroem
narrativas sobre quem são e quem desejam ser profissionalmente.
No
caso analisado, existe uma distância significativa entre:
Identidade atual: Fiscal de Caixa.
Identidade desejada: Psicólogo Organizacional.
Quanto
maior essa distância, maior tende a ser o sofrimento associado ao trabalho
cotidiano.
A vaga
de Assistente de RH surge como uma tentativa de aproximação entre essas duas
identidades.
Contudo,
ela não elimina completamente a lacuna existente.
Considerações Finais
O caso
analisado demonstra que processos seletivos internos não podem ser
compreendidos apenas como procedimentos administrativos.
Eles
mobilizam desejos, identidades e investimentos emocionais complexos.
A vaga
de Assistente de RH Generalista tornou-se um objeto de investimento psíquico
para um trabalhador que buscava não apenas mudar de função, mas redefinir sua
trajetória profissional.
O
silêncio organizacional ampliou a ansiedade ao impedir a construção de
significados claros sobre o andamento do processo.
Ao
mesmo tempo, a reflexão crítica do candidato permitiu a emergência de um
movimento de desinvestimento psíquico, no qual a vaga deixa de ocupar o lugar
de solução definitiva para os conflitos profissionais vividos.
Sob
essa perspectiva, o desinvestimento não representa desistência, mas
amadurecimento subjetivo. Trata-se da capacidade de reconhecer os limites
simbólicos de um objeto e recolocá-lo em sua dimensão real, permitindo que o
desejo continue seu percurso para além das promessas organizacionais imediatas.
1. O Fenômeno da Espera
Institucional e Seus Efeitos Psíquicos
A
espera constitui um dos fenômenos mais frequentes na vida organizacional.
Espera-se por promoções, transferências, feedbacks, entrevistas, avaliações de
desempenho e decisões da gestão. Entretanto, do ponto de vista psicológico, a
espera não é uma experiência neutra.
Quando
existe uma data definida, um cronograma ou uma previsão objetiva, o sujeito
consegue organizar psiquicamente sua ansiedade. O problema surge quando a
espera se transforma em indefinição.
No
caso analisado, o processo seletivo interno ultrapassa vinte dias sem
comunicação formal. Não existe confirmação de entrevistas, tampouco informações
sobre candidatos concorrentes ou sobre o estágio em que o processo se encontra.
A
consequência é a instalação de uma temporalidade suspensa.
O
trabalhador continua desempenhando suas atividades habituais como fiscal de
caixa, mas parte significativa de sua vida psíquica encontra-se vinculada a um
futuro ainda não realizado.
Freud
(1920/1996) observou que a mente humana possui dificuldade em lidar com
situações indefinidas porque tende constantemente a buscar fechamento e
significado para as experiências.
Quando
a organização não fornece informações, o psiquismo tenta preencher o vazio
através de construções imaginárias.
Surgem
perguntas recorrentes:
- Será que a vaga já
foi preenchida?
- Será que a
entrevista já aconteceu?
- Será que estão
avaliando meu currículo?
- Será que existe um
candidato preferencial?
- Será que a vaga
foi cancelada?
Essas
perguntas não necessariamente possuem respostas concretas, mas ocupam espaço
psíquico significativo.
A
espera passa então a funcionar como uma atividade mental permanente.
2. A Produção de Fantasias no
Vazio Informacional
A
psicanálise sustenta que o sujeito produz fantasias para organizar aquilo que
não compreende completamente.
Segundo
Laplanche e Pontalis (2001), a fantasia constitui uma tentativa de atribuir
sentido ao desejo e às experiências que permanecem incompletas.
No
ambiente organizacional, o silêncio frequentemente favorece esse mecanismo.
Sem
informações oficiais, o trabalhador passa a construir narrativas internas.
Em
alguns momentos imagina ter sido escolhido.
Em
outros acredita ter sido descartado.
Por
vezes interpreta pequenos acontecimentos cotidianos como sinais.
Um
cumprimento de um gestor pode ser entendido como reconhecimento.
A
ausência de contato pode ser interpretada como rejeição.
O
problema é que essas interpretações frequentemente dizem mais sobre os estados
emocionais do sujeito do que sobre a realidade objetiva do processo.
A vaga
passa a existir simultaneamente em dois planos:
O
plano real da organização.
E o
plano imaginário construído pelo candidato.
Com o
passar do tempo, o plano imaginário pode tornar-se mais intenso do que o
próprio processo seletivo.
3. O Fiscal de Caixa Entre Dois
Mundos
Uma
das características mais marcantes do caso é a coexistência de duas identidades
profissionais.
Formalmente,
o trabalhador ocupa a posição de fiscal de caixa.
Subjetivamente,
entretanto, identifica-se com a Psicologia.
Essa
discrepância produz tensão.
A
literatura sobre identidade profissional demonstra que os indivíduos necessitam
perceber coerência entre sua formação, seus valores e suas atividades
cotidianas.
Quando
essa coerência não ocorre, surgem sentimentos de frustração, estagnação e
desalinhamento profissional.
O
trabalhador passa a experimentar uma espécie de divisão interna.
Uma
parte de si permanece vinculada às exigências operacionais do supermercado.
Outra
parte permanece orientada para o desejo de atuar em processos humanos,
desenvolvimento organizacional, recrutamento e seleção e demais atividades
ligadas à Psicologia Organizacional.
A vaga
de Assistente de RH surge exatamente no espaço intermediário entre essas duas
posições.
Não
representa plenamente o exercício da Psicologia.
Mas
também não pertence ao universo operacional dos caixas.
Por
isso ela adquire tanta importância simbólica.
4. A Operadora de Caixa Como
Indicador do Clima Organizacional
Um
elemento aparentemente simples possui grande relevância analítica.
A
operadora de caixa que também se candidatou procura o fiscal para perguntar se
existe alguma informação sobre a vaga.
Do
ponto de vista institucional, esse episódio sugere que a ausência de
comunicação está sendo percebida por diferentes membros da organização.
A
ansiedade deixa de ser individual.
Torna-se
coletiva.
Segundo
Kets de Vries (2001), grupos organizacionais frequentemente compartilham
fantasias e preocupações quando enfrentam situações de incerteza.
Nesse
sentido, a pergunta da operadora funciona como um indicador do clima
organizacional.
Ela
demonstra que o silêncio está produzindo um fenômeno social.
Os
candidatos começam a buscar informações uns nos outros porque não conseguem
obtê-las pelos canais formais.
Surge
então uma rede informal de interpretação da realidade organizacional.
5. A Idealização da Mudança de
Cargo
Outro
aspecto importante refere-se à idealização.
Quando
alguém sofre intensamente em determinada função, existe o risco de imaginar que
qualquer mudança produzirá satisfação imediata.
A
psicanálise descreve esse mecanismo como idealização do objeto.
O
objeto idealizado recebe características positivas exageradas.
Seus
limites tornam-se invisíveis.
Inicialmente,
a vaga de Assistente de RH pode ter ocupado esse lugar.
Ela
aparecia como uma possível solução para o sofrimento associado ao trabalho
atual.
Contudo,
gradualmente o trabalhador percebe algo fundamental.
Mesmo
sendo aprovado, continuaria distante de sua aspiração principal.
Ainda
não estaria exercendo a função de psicólogo organizacional.
Ainda
enfrentaria conflitos, pressões e desafios institucionais.
Ainda
dependeria de futuras oportunidades para aproximar-se do campo da Psicologia.
Esse
reconhecimento representa uma importante quebra da idealização.
A vaga
deixa de ser vista como salvação.
Passa
a ser vista como uma etapa.
6. O Desinvestimento Como
Movimento de Maturidade Psíquica
No
senso comum, o desinvestimento costuma ser confundido com desistência.
Entretanto,
a psicanálise propõe uma compreensão diferente.
Desinvestir
não significa abandonar um objetivo.
Significa
retirar dele o monopólio da esperança.
O
trabalhador continua interessado na vaga.
Continua
reconhecendo seus benefícios potenciais.
Mas
deixa de depender emocionalmente dela para sustentar sua autoestima e seu
projeto de vida.
Esse
processo representa um ganho de autonomia psíquica.
A
energia anteriormente concentrada em uma única possibilidade começa a
distribuir-se por outras direções.
Novas
alternativas profissionais tornam-se visíveis.
Projetos
anteriormente esquecidos retornam ao horizonte.
A
carreira volta a ser percebida como uma construção ampla e não como resultado
de uma única decisão organizacional.
7. O Luto Pela Carreira
Imaginada
Uma
leitura mais profunda sugere a presença de um processo de luto.
Não
necessariamente o luto pela vaga.
Mas o
luto pela trajetória profissional idealizada.
Ao
concluir a graduação em Psicologia, muitos profissionais constroem expectativas
acerca de sua inserção no mercado de trabalho.
Quando
essas expectativas não se concretizam integralmente, surge uma discrepância
entre a carreira imaginada e a carreira efetivamente vivida.
O
sofrimento não decorre apenas das condições atuais de trabalho.
Decorre
também da distância entre o projeto originalmente sonhado e a realidade
encontrada.
Nesse
sentido, o desinvestimento da vaga pode estar acompanhado de uma elaboração
mais ampla.
A
elaboração da própria trajetória profissional.
A
aceitação de que o caminho para a Psicologia Organizacional pode ser mais
longo, mais complexo e menos linear do que inicialmente se imaginava.
Essa
elaboração não elimina o desejo.
Mas o
torna mais realista e mais sustentável ao longo do tempo.
8. O Desejo de Reconhecimento
Institucional
Embora
a vaga de Assistente de RH represente uma oportunidade de mobilidade interna,
sua importância psicológica não se limita à mudança de setor. Ela também
mobiliza uma necessidade humana fundamental: o reconhecimento.
Segundo
Christophe Dejours (1999), o reconhecimento constitui um dos elementos centrais
para a construção da identidade no trabalho. O trabalhador não busca apenas
remuneração ou estabilidade. Busca também que suas competências, esforços e
trajetória sejam percebidos e legitimados pelos outros.
No
caso analisado, o processo seletivo interno adquire um significado particular
porque envolve um profissional graduado em Psicologia que ocupa uma função
operacional distinta de sua formação acadêmica.
A
candidatura à vaga pode ser compreendida, em parte, como uma tentativa de obter
reconhecimento institucional de competências que permanecem invisíveis na
atividade cotidiana de fiscalização de caixa.
A
aprovação representaria simbolicamente uma mensagem organizacional:
"Reconhecemos
que você pode ocupar um espaço diferente daquele que ocupa atualmente."
Por
essa razão, o silêncio institucional produz efeitos que vão além da simples
espera administrativa.
O que
permanece sem resposta não é apenas a candidatura.
É
também o desejo de reconhecimento.
9. O RH Como Espaço Simbólico
Do
ponto de vista organizacional, o RH é um departamento com funções específicas
relacionadas à gestão de pessoas.
Contudo,
do ponto de vista subjetivo, ele pode assumir significados muito mais amplos.
Para
um trabalhador formado em Psicologia, o RH frequentemente aparece como uma das
portas mais acessíveis para aproximação do campo profissional desejado.
Nesse
sentido, o RH deixa de ser apenas um setor.
Transforma-se
em um símbolo.
Um
símbolo de pertencimento.
Um
símbolo de desenvolvimento.
Um
símbolo de aproximação com a identidade profissional almejada.
Por
isso, a candidatura não se dirige apenas à vaga.
Dirige-se
também ao significado que o RH representa.
A
intensidade emocional observada no processo provavelmente decorre dessa
sobreposição de sentidos.
A vaga
possui um valor administrativo.
Mas
também possui um valor simbólico.
E
muitas vezes é o valor simbólico que produz os maiores efeitos psicológicos.
10. A Transferência Aplicada ao
Contexto Organizacional
Embora
o conceito de transferência tenha sido desenvolvido por Freud no contexto
clínico, diversos autores da psicologia das organizações demonstraram que
processos semelhantes podem ocorrer no ambiente de trabalho.
A
transferência consiste na atribuição de expectativas, desejos e significados a
pessoas ou instituições.
No
caso em análise, parte das expectativas relacionadas à realização profissional
parece ter sido transferida para a organização e para o processo seletivo
interno.
Inconscientemente,
a instituição passa a ocupar o lugar de agente capaz de validar ou invalidar o
projeto profissional do sujeito.
Essa
dinâmica é particularmente intensa quando a organização representa uma das
poucas oportunidades concretas de mobilidade profissional disponíveis.
Quanto
menor a percepção de alternativas externas, maior tende a ser o investimento
emocional na alternativa existente.
Consequentemente,
maior tende a ser o sofrimento diante da incerteza.
11. As Âncoras de Carreira e o
Conflito Vivenciado
Edgar
Schein (1996) propôs o conceito de âncoras de carreira para explicar os
elementos centrais que orientam as escolhas profissionais dos indivíduos.
Uma
âncora de carreira corresponde a um conjunto relativamente estável de valores,
competências e motivações que orientam a trajetória ocupacional.
No
caso analisado, observa-se um conflito entre a posição ocupada e a âncora
profissional predominante.
A
formação em Psicologia sugere uma forte identificação com atividades
relacionadas ao desenvolvimento humano, compreensão do comportamento, escuta,
avaliação e gestão de pessoas.
Entretanto,
a função de fiscal de caixa está predominantemente associada à supervisão
operacional, controle de processos e acompanhamento de rotinas comerciais.
Nenhuma
dessas funções é necessariamente inferior à outra.
O
conflito emerge quando existe desalinhamento entre aquilo que o sujeito
valoriza profissionalmente e aquilo que realiza diariamente.
Quanto
maior essa discrepância, maior a probabilidade de insatisfação ocupacional.
A vaga
de Assistente de RH surge justamente como tentativa de reduzir essa distância.
12. A Psicodinâmica do Trabalho
e o Sofrimento Invisível
A
psicodinâmica do trabalho propõe que o sofrimento não resulta apenas de
condições objetivas, mas também da maneira como o trabalhador atribui
significado à sua atividade.
Dejours
(1992) afirma que o sofrimento torna-se particularmente intenso quando o
sujeito percebe um bloqueio entre suas capacidades e as possibilidades de
expressão dessas capacidades no trabalho.
O caso
analisado ilustra esse fenômeno.
Não há
indícios de incapacidade profissional.
Pelo
contrário.
O
sofrimento parece estar relacionado à percepção de que conhecimentos adquiridos
na formação em Psicologia não encontram espaço pleno de utilização na função
atualmente exercida.
Surge
então uma sensação de potencial não realizado.
Esse
tipo de sofrimento frequentemente é silencioso.
Não
aparece em indicadores formais.
Não
gera necessariamente conflitos visíveis.
Mas
produz desgaste emocional progressivo.
13. A Vaga Como Objeto
Transitório
Uma
interpretação psicanalítica mais aprofundada permite compreender a vaga como um
objeto transitório.
Ela
não constitui o destino final do desejo profissional.
Representa
uma passagem.
Uma
ponte entre a situação presente e um projeto futuro mais amplo.
Quando
o sujeito reconhece essa condição transitória, ocorre uma mudança importante.
A vaga
deixa de ser percebida como solução definitiva.
Passa
a ser compreendida como uma possibilidade estratégica.
Essa
transformação reduz a carga emocional depositada no processo seletivo.
A
aprovação continua desejável.
Mas já
não ocupa o lugar de única alternativa possível.
14. O Reposicionamento do Desejo
Lacan
(1998) argumenta que o desejo humano não encontra satisfação permanente em
objetos específicos.
Ao
alcançar determinado objetivo, novos desejos emergem.
Isso
não representa fracasso.
Representa
uma característica estrutural da experiência humana.
Sob
essa perspectiva, a percepção de que a vaga de Assistente de RH não resolveria
integralmente a questão profissional do sujeito demonstra um movimento
importante de elaboração.
O
desejo começa a deslocar-se novamente para seu núcleo central.
Não
mais simplesmente mudar de função.
Mas
construir uma trajetória coerente com a identidade de psicólogo.
A vaga
permanece importante.
Entretanto,
deixa de ocupar o lugar de resposta absoluta.
15. Considerações Clínicas Sobre
o Momento Atual
O
momento vivido pelo candidato pode ser caracterizado como uma fase de transição
identitária.
Ele já
não se reconhece integralmente na posição atual.
Mas
ainda não alcançou a posição desejada.
Trata-se
de uma condição frequentemente observada em processos de mudança de carreira.
Psicologicamente,
essa fase tende a ser marcada por:
- ambivalência;
- ansiedade;
- expectativa;
- frustração;
- esperança;
- reavaliação de
projetos profissionais.
O
elemento mais significativo do caso não parece ser a existência da ansiedade em
si.
A
ansiedade é compreensível diante da situação.
O
aspecto mais relevante é a capacidade crescente de reflexão sobre o próprio
processo.
Ao
perceber os limites da vaga e reconhecer que seu desejo profissional ultrapassa
o cargo de Assistente de RH, o sujeito demonstra um movimento de elaboração
psíquica que pode favorecer decisões futuras mais consistentes e alinhadas com
sua identidade profissional.
Dessa
forma, o desinvestimento psíquico não aparece como derrota.
Aparece
como reorganização subjetiva.
Não
representa abandono do desejo.
Representa
a retirada da ilusão de que uma única vaga seria capaz de resolver, por si só,
as questões mais profundas relacionadas à identidade, reconhecimento e
realização profissional.
16. O Silêncio Organizacional
Como Defesa Institucional
Uma
das questões mais intrigantes do caso analisado refere-se ao silêncio
prolongado da organização diante do processo seletivo interno.
Sob
uma perspectiva administrativa, esse silêncio pode decorrer de fatores
relativamente simples: acúmulo de demandas, reestruturações internas,
necessidade de aprovação hierárquica ou redefinição de prioridades.
Entretanto,
do ponto de vista psicológico e institucional, o silêncio produz efeitos que
extrapolam suas causas objetivas.
A
análise institucional sugere que as organizações também desenvolvem mecanismos
defensivos coletivos.
Segundo
Bleger (1984), as instituições podem funcionar como sistemas que absorvem,
deslocam e administram ansiedades presentes em seu interior.
Nessa
perspectiva, o silêncio não é apenas ausência de comunicação.
Ele
pode funcionar como um mecanismo institucional que adia conflitos, posterga
decisões e evita confrontar expectativas dos trabalhadores.
O
problema é que aquilo que a organização deixa de comunicar continua existindo
no imaginário dos colaboradores.
O
silêncio não elimina a ansiedade.
Frequentemente
a redistribui.
A
instituição deixa de lidar diretamente com a tensão, mas os trabalhadores
passam a carregá-la individualmente.
17. A Esperança Como Estrutura
Psíquica
Durante
o processo seletivo, observa-se a coexistência de esperança e sofrimento.
Esses
dois elementos não são opostos.
Muitas
vezes caminham juntos.
A
esperança surge porque existe uma possibilidade concreta de mudança.
O
sofrimento surge porque essa possibilidade permanece incerta.
Do
ponto de vista psicanalítico, a esperança pode ser entendida como uma forma de
sustentação do desejo.
Ela
permite que o sujeito suporte situações difíceis imaginando transformações
futuras.
No
caso estudado, a esperança associada à vaga provavelmente contribuiu para
tornar mais suportável o cotidiano da função de fiscal de caixa.
Enquanto
a possibilidade permanecia aberta, havia um horizonte de mudança.
Entretanto,
quando a espera se prolonga excessivamente, a esperança pode começar a
transformar-se em desgaste emocional.
O
sujeito passa a investir energia em algo cuja concretização não depende dele.
Surge
então uma experiência de impotência.
Essa
impotência constitui uma das fontes centrais da angústia observada.
18. A Frustração Como Produção
de Conhecimento
Na
linguagem cotidiana, a frustração costuma ser percebida apenas como algo
negativo.
A
psicanálise propõe uma leitura mais complexa.
Freud
observou que a realidade frequentemente impõe limites aos desejos humanos.
Esses
limites produzem frustração, mas também favorecem processos de amadurecimento
psíquico.
No
caso analisado, a própria reflexão sobre a vaga revela esse movimento.
Inicialmente,
a mudança para o RH parecia capaz de produzir uma transformação significativa.
Com o
tempo, entretanto, emerge uma compreensão mais elaborada.
O
sujeito percebe que a aprovação não eliminaria todas as suas insatisfações
profissionais.
Essa
percepção nasce justamente da experiência da frustração.
A
frustração obriga o pensamento a abandonar soluções simplificadas.
Ela
convida o sujeito a construir análises mais profundas sobre sua trajetória.
19. A Travessia Profissional
Uma
metáfora útil para compreender a situação é a ideia de travessia.
O
trabalhador encontra-se entre dois territórios simbólicos.
De um
lado, a realidade concreta da operação supermercadista.
De
outro, o desejo de atuação na Psicologia Organizacional.
A
travessia caracteriza-se justamente pela condição intermediária.
Ainda
não se chegou ao destino.
Mas
também já não se permanece exatamente no ponto de partida.
Essa
posição costuma gerar desconforto porque as referências antigas começam a
perder força antes que as novas estejam plenamente disponíveis.
O
sujeito sente-se em movimento, mas ainda não visualiza claramente o lugar de
chegada.
Do
ponto de vista psicológico, essa experiência é frequentemente acompanhada por
dúvidas sobre competência, pertencimento e futuro profissional.
20. O Psicólogo Que Permanece em
Funções Operacionais
O caso
analisado também suscita reflexões sobre uma realidade relativamente comum.
Muitos
profissionais graduados permanecem por períodos prolongados em funções que não
correspondem diretamente à sua formação acadêmica.
Essa
condição não significa necessariamente fracasso profissional.
Entretanto,
pode produzir conflitos identitários importantes.
A
formação universitária não fornece apenas conhecimentos técnicos.
Ela
também contribui para a construção de uma identidade.
O
indivíduo passa a imaginar determinados espaços de atuação, determinados papéis
sociais e determinadas possibilidades de carreira.
Quando
a inserção profissional ocorre em outra direção, surge frequentemente uma
tensão entre identidade construída e identidade exercida.
No
caso do psicólogo atuando como fiscal de caixa, observa-se justamente essa
discrepância.
O
diploma aponta para uma direção.
A
realidade ocupacional aponta para outra.
A vaga
de Assistente de RH aparece então como tentativa de aproximação entre esses
dois universos.
21. O Significado Psicológico da
Pergunta da Operadora de Caixa
A
interação com a operadora de caixa possui um significado que ultrapassa a
simples troca de informações.
Quando
ela procura o fiscal para perguntar sobre a vaga, estabelece-se um
reconhecimento implícito.
Ambos
ocupam posições semelhantes diante da incerteza.
Ambos
experimentam a ausência de respostas.
Ambos
tentam compreender o que está acontecendo.
Sob
uma perspectiva psicossocial, esse episódio demonstra como os trabalhadores
criam redes informais de compartilhamento emocional diante de lacunas
institucionais.
Essas
redes cumprem uma função importante.
Elas
reduzem o isolamento psicológico.
Permitem
que a ansiedade seja parcialmente elaborada por meio da conversa e da troca de
experiências.
Mesmo
sem respostas concretas, o simples fato de perceber que outras pessoas vivem
inquietações semelhantes pode produzir certo alívio emocional.
22. O Deslocamento da Esperança
Para Além da Organização
Uma
transformação relevante observada no caso é o deslocamento progressivo da
esperança.
Inicialmente,
a expectativa encontra-se concentrada na decisão organizacional.
O
futuro parece depender principalmente do resultado do processo seletivo.
Entretanto,
à medida que ocorre o desinvestimento psíquico, a esperança começa a
deslocar-se para outras possibilidades.
O
sujeito passa a reconhecer que sua trajetória profissional não está
inteiramente subordinada à decisão da organização.
Existem
outros caminhos.
Outras
oportunidades.
Outras
formas de aproximação com a Psicologia Organizacional.
Essa
mudança possui enorme importância psicológica.
Ela
reduz a dependência emocional em relação a um único evento.
A
carreira volta a ser percebida como construção ativa e não apenas como algo
concedido institucionalmente.
23. Entre o Reconhecimento e a
Autonomia
Talvez
a principal tensão presente em todo o caso seja a relação entre reconhecimento
e autonomia.
Por um
lado, o sujeito deseja reconhecimento institucional.
Deseja
que suas competências sejam percebidas.
Deseja
que sua formação seja valorizada.
Deseja
que a organização identifique potencial para novas responsabilidades.
Por
outro lado, o amadurecimento psíquico exige certo grau de autonomia em relação
ao olhar institucional.
Quando
toda a autoestima profissional depende exclusivamente do reconhecimento
organizacional, o trabalhador torna-se excessivamente vulnerável às decisões da
instituição.
O
desinvestimento psíquico representa justamente uma tentativa de equilíbrio.
O
reconhecimento continua importante.
Mas
deixa de ser a única fonte de validação profissional.
O
sujeito começa a sustentar sua identidade não apenas a partir daquilo que a
organização reconhece, mas também a partir daquilo que sabe sobre si mesmo, sua
formação, suas competências e seus projetos futuros.
24. Considerações Teóricas
Finais
A
análise do caso permite compreender que a vaga de Assistente de RH Generalista
opera simultaneamente em diferentes níveis.
No
nível administrativo, trata-se de uma oportunidade de mobilidade interna.
No
nível organizacional, trata-se de um processo seletivo sujeito a decisões e
prazos institucionais.
No
nível psicológico, entretanto, a vaga transforma-se em um objeto carregado de
significados relacionados ao reconhecimento, à identidade profissional, ao
desejo de mudança e à busca por realização.
O
silêncio organizacional intensifica esses processos ao deixar espaços vazios
que são preenchidos por fantasias, expectativas e interpretações subjetivas.
O
movimento de desinvestimento psíquico observado não representa perda de
interesse ou desistência.
Representa
uma reorganização do vínculo emocional com a vaga.
A
oportunidade permanece importante.
Mas
deixa de ocupar o lugar de solução definitiva para questões que pertencem a uma
dimensão mais ampla da trajetória profissional e da construção da identidade.
Sob a
ótica psicanalítica, pode-se afirmar que o verdadeiro movimento do sujeito não
é apenas em direção ao RH.
É uma
travessia em direção a uma posição profissional mais coerente com seu desejo,
sua formação e sua história.
E essa
travessia, como todo processo de construção identitária, não depende
exclusivamente de uma vaga, mas da contínua elaboração entre aquilo que a
organização oferece e aquilo que o sujeito busca tornar-se.
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