Pular para o conteúdo principal

Minha Querida Senhorita: uma leitura psicanalítica e psicossocial do sujeito em cena — do drama íntimo ao cotidiano do “fiscal psicólogo”

 Resumo

Este artigo propõe uma análise articulada do filme Minha Querida Senhorita a partir de dois eixos teóricos: a psicanálise e a psicologia social. Busca-se compreender como a trajetória da personagem Adela/A.D. evidencia a constituição do sujeito pelo Outro, o papel do recalque e da angústia, bem como os mecanismos de controle social, estigma e normatização do corpo. Além disso, o texto amplia a leitura para o cotidiano, tomando como metáfora o “fiscal psicólogo” no supermercado, enquanto operador de observação e controle, evidenciando como o sofrimento psíquico se manifesta em cenas banais. Conclui-se que o filme explicita a inseparabilidade entre sujeito e laço social, demonstrando que o conflito psíquico é produzido e sustentado por estruturas simbólicas e institucionais.


1. Introdução

O filme Minha Querida Senhorita (1972), dirigido por Jaime de Armiñán, narra a história de Adela, uma mulher que, ao longo da vida, descobre ser intersexo, o que desencadeia uma ruptura radical em sua identidade. Inserida em um contexto conservador, religioso e normativo, a personagem representa o sujeito atravessado por discursos sociais que antecedem sua própria existência.

A proposta deste artigo é articular:

  • a dimensão intrapsíquica (psicanálise),
  • a dimensão relacional e estrutural (psicologia social),
  • e sua expressão no cotidiano (figura do fiscal psicólogo).

2. O sujeito na psicanálise: recalque, angústia e desejo

A psicanálise, inaugurada por Sigmund Freud, compreende o sujeito como dividido e estruturado pelo inconsciente. No caso de Adela, sua identidade foi construída a partir de um segredo recalcado — sua condição intersexual.

O recalque opera como mecanismo central:

conteúdos incompatíveis com a consciência são excluídos, mas retornam sob forma de sintoma (Freud, 1915).

Quando a verdade emerge, instala-se a angústia, entendida como sinal de que algo do sujeito escapa à simbolização. A crise vivida pela personagem evidencia a ruptura entre:

  • o eu imaginário (identidade construída)
  • e o real do corpo (o que não pôde ser simbolizado)

Sob a leitura de Jacques Lacan, o sujeito é constituído pelo Outro (linguagem, cultura, normas). Adela viveu como objeto do desejo do Outro (família, religião), sem acesso ao próprio desejo. Sua travessia — simbolizada pela fuga e mudança de identidade para A.D. — indica uma tentativa de reinscrição subjetiva.


3. Psicologia social: normas, estigma e controle do corpo

A psicologia social permite compreender que a identidade não é apenas psíquica, mas também socialmente construída.

Autores como Erving Goffman destacam o conceito de estigma, no qual indivíduos que fogem à norma são marcados socialmente. No filme:

  • a intersexualidade é silenciada
  • o corpo é regulado por instituições (família, medicina, igreja)
  • a diferença é tratada como desvio

Além disso, o controle social se manifesta por meio de normas implícitas que regulam:

  • gênero
  • comportamento
  • aparência

A cidade pequena representa um espaço de vigilância simbólica, onde todos ocupam papéis rigidamente definidos. A mudança para Madrid simboliza a busca por novos laços sociais e maior plasticidade identitária.


4. O supermercado como metáfora: o fiscal psicólogo

Ao transpor a análise para o cotidiano, o supermercado pode ser compreendido como um dispositivo social de controle e observação.

O “fiscal psicólogo” ocupa uma posição ambígua:

  • agente de vigilância (normas, comportamento)
  • observador do sujeito (dimensão psicológica)

Nessa leitura, o ambiente reproduz funções do superego:

  • vigia
  • julga
  • impõe regras

Segundo Freud (1923), o superego é a instância que internaliza a autoridade e produz culpa. No supermercado, essa função aparece institucionalizada em:

  • câmeras
  • regras
  • fiscalização constante

Contudo, o que emerge no cotidiano são manifestações do inconsciente:

  • irritações desproporcionais
  • comportamentos impulsivos
  • vergonha e retraimento

Esses fenômenos podem ser compreendidos como retorno do recalcado, evidenciando que o sujeito não é plenamente racional nem controlável.


5. Corpo, linguagem e sofrimento psíquico

O filme evidencia que o corpo não é apenas biológico, mas simbólico. Para a psicanálise:

  • o corpo é atravessado pela linguagem
  • o sintoma é uma forma de expressão

Adela sofre não apenas pela condição corporal, mas pelo significado social atribuído a ela.

Na vida cotidiana, isso se expressa em:

  • insegurança corporal
  • necessidade de adequação
  • busca por pertencimento

O sofrimento psíquico, portanto, não pode ser dissociado das normas sociais que definem o que é aceitável.


6. Articulação teórica: sujeito e laço social

A principal contribuição desta análise está na articulação entre psicanálise e psicologia social:

  • A psicanálise explica como o sujeito sofre
  • A psicologia social explica por que ele sofre nesse contexto

Como afirma Pierre Bourdieu, as estruturas sociais são internalizadas pelos indivíduos, tornando-se disposições subjetivas (habitus).

Assim, o conflito de Adela não é apenas individual, mas efeito de:

  • normas sociais rígidas
  • repressão simbólica
  • ausência de espaço para diferença

7. Considerações finais

Minha Querida Senhorita revela que:

  • o sujeito é atravessado por discursos que o antecedem
  • o corpo é regulado socialmente
  • o sofrimento psíquico emerge quando há ruptura entre identidade e norma

A figura do “fiscal psicólogo” evidencia que esse drama não está restrito ao cinema, mas se repete no cotidiano, em espaços aparentemente banais.

A grande questão que permanece é:

até que ponto o sujeito vive segundo seu desejo — ou segundo o desejo do Outro?


Referências bibliográficas

  • BOURDIEU, P. O senso prático. Petrópolis: Vozes, 1989.
  • FREUD, S. O ego e o id (1923). Rio de Janeiro: Imago, 1996.
  • FREUD, S. Repressão (1915). Rio de Janeiro: Imago, 1996.
  • GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: LTC, 1988.
  • LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
  • ARMIÑÁN, J. Minha Querida Senhorita. Espanha, 1972.

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas

O sujeito não existe fora do laço social: não há sujeito sem Outro, nem desejo sem algum tipo de amarração simbólica

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 Introdução A psicanálise, desde Freud e radicalmente com Lacan, sustenta que o sujeito não é uma entidade autônoma, transparente a si mesma, nem um indivíduo isolado que decide livremente sua posição no mundo. O sujeito do inconsciente emerge apenas no interior de uma rede de significantes, isto é, no campo do Outro. Assim, não há sujeito fora do laço social, nem desejo que possa se sustentar sem alguma forma de amarração simbólica. Este artigo tem como objetivo articular essa tese fundamental a partir de uma situação clínica cotidiana: o caso do sujeito que ocupa a função de fiscal de caixa em um supermercado, mas que não se reconhece nessa posição. A análise do ato falho, do sintoma corporal, do não-cuidado e da permanência forçada no laço social permitirá demonstrar como o inconsciente já sabe do não-desejo, enquanto o ato de ruptura ainda não pode ocorrer por ausência de outro laço que sustente o sujeito....

Angústia Da Ausência De Clareza De Informações

  Ano 2024. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Um sujeito que trabalha como fiscal de caixa em um supermercado e é psicólogo está angustiado porque não consegue perceber um caminho para ser contratado como psicólogo em alguma instituição e compreende que a ausência de Clareza gera angústia que está lhe fazendo mal. Na psicanálise, podemos entender essa situação analisando os três sistemas psíquicos: id, ego e superego, bem como os conceitos de angústia e desejo. O conflito interno: O id representa os desejos e impulsos mais profundos. Nesse caso, o desejo do sujeito é trabalhar como psicólogo, porque isso se alinha ao que ele valoriza e ao prazer de ajudar os outros. O superego é a parte crítica, que internaliza normas e regras sociais. Ele pode estar julgando o sujeito por não ter "chegado lá" ainda, criando sentimentos de culpa e cobrança. O ego, que é o mediador entre o id e o ...

PLANO DE AÇÃO PARA MELHORIA DO AMBIENTE DE TRABALHO NO SUPERMERCADO

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. ### **1. Objetivo Geral** Reduzir os riscos psicossociais no ambiente de trabalho do supermercado, promovendo bem-estar, engajamento e qualidade de vida para os colaboradores. ### **2. Diagnóstico Inicial** - Aplicar uma pesquisa de clima organizacional para identificar principais dificuldades e insatisfações. - Realizar entrevistas com colaboradores de diferentes setores para entender suas necessidades e desafios. - Avaliar os índices de rotatividade, absenteísmo e conflitos internos. ### **3. Ações Preventivas e Corretivas** #### **3.1. Melhoria das Relações Interpessoais** - Implementar treinamentos sobre inteligência emocional e resolução de conflitos. - Criar espaços para comunicação aberta entre liderança e equipe, como reuniões quinzenais. - Estabelecer um canal anônimo para feedbacks e sugestões dos colaboradores. ####...

O Caixão do Fiscal Psicólogo: uma leitura psicanalítica da série Mortos S.A. como metáfora do luto pela identidade profissional

  Introdução A série Mortos S.A. utiliza o humor para retratar o cotidiano de uma funerária, onde a morte deixa de ser apenas um acontecimento biológico para tornar-se parte da rotina organizacional. Caixões, velórios, preparação dos corpos, conflitos administrativos, relações de poder e disputas familiares compõem um cenário que, para além da comédia, pode ser compreendido como uma rica metáfora dos processos psíquicos de perda, transformação e reconstrução da identidade. Na perspectiva da Psicologia Organizacional, a série evidencia temas como cultura organizacional, conflitos de papéis, liderança, resistência à mudança, identidade ocupacional e sofrimento no trabalho (Schein, 2017; Zanelli, Borges-Andrade & Bastos, 2014). Já sob a ótica da psicanálise, esses elementos podem adquirir um significado simbólico, representando os processos de luto vividos pelo ego diante da ameaça de perder objetos de investimento afetivo e identitário (Freud, 1917/2010). É nesse contexto ...

Varejistas E Supermercados E Psicologia Organizacional

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. Varejistas e supermercado com a cultura da diversidade, más não permitem a entrada da psicologia Organizacional na empresa. Me explica e interpreta como se eu fosse um iniciante pela abordagem da psicologia Organizacional Vamos por partes, explicando de forma simples, como se você estivesse começando agora na psicologia organizacional. 1. O que é cultura da diversidade no varejo e supermercado? A cultura da diversidade é quando a empresa valoriza pessoas diferentes: de diferentes raças, idades, gêneros, religiões, orientações sexuais, e formas de pensar. Isso é muito importante porque torna o ambiente mais justo, criativo e acolhedor. Exemplo no supermercado: Ter funcionários de várias origens, promover a inclusão de pessoas com deficiência, ou respeitar diferentes estilos e culturas entre os colaboradores. 2. O que é a psicologia organizacional...

Crise De Asma E Psicossomática

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico que descrê a crise de asma e a psicossomática. Doenças psicossomática, são doenças causadas ou agravadas pela instabilidade emocional. Diferentemente da somatização, que é diagnosticada por médicos quando os sintomas de uma doença se manifestam, mas não são observados efeitos físicos no corpo, as psicossomáticas têm efeitos verificáveis no organismo. As situações de vida estressantes como medo de “não cor responder às expectativas”, dificuldades no trabalho ou econômicas, perdas, desavenças, doença ou morte, podem ser fatores desencadeantes. Frequentemente a somatização é considerada expressão de “dor psíquica”, sob a forma de queixas corporais, em pessoas que não têm vocabulário para apresentar seu sofrimento de outra forma. Os sintomas têm origem nas sensações corporais amplificadas interpretadas erroneamente ou nas manifestações somáticas das e...

Pensar Incitando A Psicologia No Cotidiano

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo convida o leitor a tornar-se consciente e manejar a psicologia a seu favor no cotidiano frente as contrariedades. E fazer uso do processo psicológico básico todos os dias que possível no momento em que perceber estar consciente no meio ambiente, seja natureza ou construído. Pensar é uma atividade fundamental para a vida humana. É por meio do pensamento que construímos nossas ideias, solucionamos problemas, tomamos decisões e elaboramos planos para o futuro. A psicologia tem muito a dizer sobre o processo de pensamento humano e como ele ocorre em nosso cérebro. Para a psicologia, pensar é um processo psicológico básico que envolve várias etapas. Cito a percepção, em potras palavras, a captação dos estímulos presentes no ambiente. É a partir desses estímulos que construímos nossas representações mentais do mundo. Em seguida, vem a atenção, que é a capacidade de selecionar e focalizar determinados es...

Dinâmica De Poder Nas Instituições – Psicologia Organizacional

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. A dinâmica de poder em uma organização refere-se à distribuição e ao exercício do poder entre os membros e diferentes níveis hierárquicos dentro da empresa. O poder é uma influência que permite que um indivíduo ou grupo afete o comportamento ou as decisões dos outros. Existem diferentes teorias e abordagens para entender a dinâmica de poder em uma organização. Vou apresentar alguns dos principais através da psicologia organizacional. Teoria das bases de poder: Essa teoria, proposta por French e Raven, identifica cinco bases de poder que uma pessoa pode ter na organização. São elas: Poder coercitivo: baseia-se no medo de punição ou consequências negativas. Poder de recompensa: baseia-se na capacidade de recompensar ou oferecer incentivos. Poder legítimo: baseia-se na autoridade formal concedida pela posição hierárquica. Poder de especialista: bas...

Soft Skills Ambiente Organizacional

    Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo aproxima a atenção do leitor a compreender que durante a vida, podemos nos deparar com momentos em que nos percebemos dotados de alta capacidade técnica, como é chamado na psicologia organizacional de [CHA] competências, habilidade e atitudes, onde o profissional desempenha com autoconfiança suas atividades na empresa. Embora as soft skills são importantes para um sujeito expressar em qualquer ambiente, seja organizacional, familiar, escolar, esportivo, cinematográfico, mídia, redes sociais, amigos e outros. As lideranças em algumas empresas ainda não dão a devida importância para o tema, pois pretendem controlar os colaboradores desprovidos de recursos socioemocionais. Por não serem repleto de competências socioemocionais ou soft skills para defrontar-se com as contrariedades oriundas de pessoas no ambiente organizacional. Um colaborador, gestor, supervisor ou até mesmo o empregador f...

O PSICÓLOGO ESCRITOR E O SILÊNCIO DO OUTRO

  Ano 2024. Autor [Ayrton Junior Psicólogo] Uma Leitura Psicanalítica sobre Reconhecimento e Desamparo Profissional SUMÁRIO Introdução Capítulo 1 - A Escrita como Sintoma e Desejo Capítulo 2 - O Reconhecimento do Outro: Entre a Demanda e a Falta Capítulo 3 - Transferência e Figuras de Autoridade no Campo Acadêmico Capítulo 4 - A Ferida Narcísica: Quando o Outro Não Responde Capítulo 5 - Rivalidade Fraterna e Inveja no Campo Profissional Capítulo 6 - Repetição e Gozo: A Economia Psíquica do Não Reconhecimento Capítulo 7 - Da Repetição à Elaboração: Caminhos Clínicos Conclusão Referências Bibliográficas INTRODUÇÃO Este livro nasce de uma interrogação clínica e epistemológica: o que significa, para um psicólogo, escrever e não ser lido? Mais precisamente, o que está em jogo quando um profissional da psicologia produz artigos e livros, envia seus trabalhos a professores e colegas, e encontra como resposta apenas o silêncio? A questão ultra...