Resumo
Este artigo discute a condição paradoxal do
psicólogo que ocupa uma função operacional dentro do supermercado,
especificamente no cargo de fiscal de caixa. Argumenta-se que, embora o saber
psicológico permaneça ativo na prática cotidiana, ele se encontra exilado da
instituição, pois não é reconhecido simbolicamente como função legítima. A
análise articula contribuições da psicologia institucional, da psicanálise
lacaniana e da sociologia do reconhecimento profissional, demonstrando como o
psicólogo pode existir subjetivamente para si, mas não existir socialmente para
o Outro institucional. O fiscal de caixa psicólogo torna-se, assim, uma figura
emblemática do deslocamento do saber clínico no interior de dispositivos
organizacionais regidos pela lógica produtiva.
Palavras-chave: psicologia institucional; reconhecimento simbólico;
supermercado; exílio profissional; subjetividade.
1.
Introdução
A presença de psicólogos em espaços não tradicionais
de atuação tem se tornado cada vez mais frequente, sobretudo em instituições
que operam sob forte pressão organizacional, como supermercados. No entanto, a
existência formal de um psicólogo dentro de uma instituição não garante sua
inscrição simbólica enquanto psicólogo.
A frase: “o psicólogo existe, mas precisa ser
reconhecido para não ser exilado” sintetiza uma tensão fundamental entre
identidade subjetiva e reconhecimento institucional. Este artigo parte da
seguinte problemática: o que ocorre quando um psicólogo ocupa um cargo
operacional — como o de fiscal de caixa — e seu saber permanece ativo, mas
invisível para o Outro social?
Sustenta-se que o saber psicológico não desaparece,
mas é deslocado e silenciado, configurando um exílio institucional.
2.
Existência subjetiva e reconhecimento social: o psicólogo para si e o psicólogo
para o Outro
O psicólogo que atua como fiscal de caixa não deixa
de ser psicólogo por estar fora do enquadre tradicional. Seu modo de escuta,
sua leitura das relações humanas e sua percepção institucional continuam
operando.
Entretanto, existe uma diferença decisiva entre ser
psicólogo subjetivamente e existir como psicólogo no campo social.
Na teoria lacaniana, o sujeito não se constitui
isoladamente, mas a partir do campo simbólico do Outro:
“O inconsciente é o discurso do Outro” (Lacan,
1966).
Assim, a existência profissional também depende de
uma inscrição simbólica: o psicólogo só existe institucionalmente quando o
Outro social o reconhece como tal.
O fiscal de caixa psicólogo vive uma condição
paradoxal: ele existe como psicólogo para si, mas não existe como psicólogo
para a instituição.
3. O
saber psicológico no supermercado: presença prática e ausência simbólica
O supermercado é um espaço marcado por intensidades
emocionais específicas: filas, reclamações, pressão por produtividade,
conflitos entre operadores, cobranças hierárquicas e sofrimento psíquico
cotidiano.
Nesse cenário, o fiscal de caixa psicólogo
frequentemente realiza intervenções informais, tais como:
- contenção
emocional de colaboradores em crise
- mediação de
conflitos interpessoais
- leitura do clima
organizacional
- escuta de
angústias não elaboradas
- orientação
subjetiva implícita
Ou seja, o saber psicológico permanece ativo.
Porém, a instituição não o nomeia como psicólogo.
Ele é nomeado como fiscal. O saber opera, mas não é legitimado.
Bourdieu afirma que o reconhecimento é uma forma de
capital simbólico:
“O poder simbólico é um poder de fazer ver e fazer
crer” (Bourdieu, 1989).
Se a instituição não “faz ver” a função psicológica,
ela não existe socialmente. O psicólogo torna-se invisível enquanto psicólogo.
4.
Psicologia institucional e o exílio do saber
José Bleger, referência central da psicologia
institucional, demonstra que as instituições tendem a expulsar ou recalcar
aquilo que ameaça sua estabilidade.
Ele afirma:
“Toda instituição possui aspectos não ditos,
depositários daquilo que não pode ser elaborado” (Bleger, 1984).
O psicólogo, ao introduzir a subjetividade e o
sofrimento como objetos legítimos, toca exatamente nesses aspectos recalcados.
Por isso, sua função tende a ser neutralizada ou deslocada.
No supermercado, o sofrimento dos operadores de
caixa — frequentemente submetidos à repetição, humilhação simbólica e
sobrecarga — é tratado como ruído, e não como questão institucional.
Assim, o saber psicológico é tolerado apenas
enquanto informalidade, não enquanto prática reconhecida.
Esse é o exílio: o psicólogo está dentro, mas sua
função está fora.
5.
Instituição, poder e silenciamento da subjetividade
Michel Foucault demonstra que toda instituição é
também um dispositivo de poder e controle. O saber que circula nela está ligado
a formas específicas de disciplina.
Como escreve:
“Não há relação de poder sem constituição correlata
de um campo de saber” (Foucault, 1975).
Reconhecer oficialmente um psicólogo no supermercado
significaria reconhecer também o sofrimento, o conflito e a subjetividade como
elementos institucionais legítimos.
Mas o supermercado, como dispositivo produtivo,
tende a operar pela lógica da eficiência e do controle, não pela lógica da
elaboração subjetiva.
O psicólogo introduz perguntas onde se exige
rapidez. Introduz escuta onde se exige comando.
Por isso, seu saber é deslocado.
6.
Implicações éticas: o psicólogo sem lugar
A condição do fiscal de caixa psicólogo gera
consequências éticas relevantes. Ele é frequentemente convocado a exercer
funções psicológicas sem respaldo institucional, sem enquadre e sem
reconhecimento.
Isso pode produzir:
- sobrecarga
emocional
- responsabilização
indevida
- precarização do
trabalho psicológico
- confusão entre
função operacional e função clínica
O Código de Ética Profissional do Psicólogo
estabelece que a atuação deve ocorrer em condições dignas e com clareza
institucional (CFP, 2005).
Logo, existir apenas subjetivamente como psicólogo
não basta: é necessário existir simbolicamente para o Outro institucional, para
que a prática não se torne clandestina.
7.
Considerações finais
O fiscal de caixa psicólogo é uma figura emblemática
do exílio do saber psicológico na instituição supermercadista.
Ele não deixou de ser psicólogo. Seu saber não
desapareceu.
Mas ele não é reconhecido como psicólogo pelo Outro
social.
Assim, ele existe em uma posição paradoxal:
- presente na
prática
- ausente na
nomeação
- ativo na contenção
- exilado na
instituição
O desafio da psicologia institucional é justamente
transformar esse exílio em lugar simbólico: criar condições para que a
subjetividade não seja expulsa do cotidiano organizacional.
O psicólogo existe, mas precisa ser reconhecido para
não ser exilado.
Referências
Bibliográficas
BLEGER, José. Psicologia Institucional. Porto
Alegre: Artes Médicas, 1984.
BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Código de
Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da
prisão. Petrópolis: Vozes, 1975.
LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1966.
KAËS, René. A Instituição e as Instituições:
estudos psicanalíticos. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1991.
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