Resumo
Este artigo discute, a partir da psicanálise
freudiana e lacaniana, a condição subjetiva de um sujeito inserido em um
contexto institucional que não acolhe sua função desejada. Partindo da
formulação “o sujeito está preso numa contingência de repetição defensiva de
sobrevivência e gera exaustão”, analisa-se o circuito que articula precariedade
material, apagamento institucional e compulsão à repetição. Propõe-se
compreender o uso da psicologia como “mochila defensiva” como uma tentativa do
ego de preservar a identidade diante da ameaça de destituição simbólica.
Sustenta-se que a exaustão marca o limite dessa defesa e convoca um
deslocamento do sujeito para além da repetição, por meio de atos mínimos de
reinscrição do desejo em um campo real.
Palavras-chave: psicanálise; repetição; instituição; exaustão;
desejo; apagamento.
1.
Introdução: contingência e sobrevivência institucional
A inserção profissional em instituições marcadas por
precariedade e lógica produtivista frequentemente impõe ao sujeito uma posição
de sobrevivência. Quando um espaço de trabalho não acolhe a função desejada —
por exemplo, a função do psicólogo — o sujeito pode permanecer sustentando-se
por defesas e arranjos provisórios.
A formulação “o sujeito está preso numa contingência
de repetição defensiva de sobrevivência e gera exaustão” revela o núcleo do
impasse: uma solução contingente torna-se repetição, e a repetição torna-se
desgaste.
Na psicanálise, tais situações não podem ser
reduzidas a um problema individual, pois envolvem o laço com o Outro
institucional e suas formas de reconhecimento ou apagamento.
2.
Contingência: o emprego como resposta ao Real
O primeiro eixo do problema é a contingência. O
sujeito, diante da ausência de campo profissional imediato e de exigências
materiais, encontra no emprego institucional uma solução de emergência.
Freud descreve o desamparo originário
(Hilflosigkeit) como condição fundamental da subjetividade: o ego organiza
defesas e arranjos para evitar o colapso diante do Real (Freud, 1926/2014).
Assim, o trabalho contingente surge como recurso de sustentação.
Entretanto, quando essa solução não se articula ao
desejo, ela se transforma em prisão simbólica.
3.
Compulsão à repetição: o circuito defensivo
Após a contingência inicial, instala-se a repetição.
O sujeito permanece no lugar que o apaga porque o desconhecido fora dele se
apresenta como angústia maior.
Freud nomeia esse fenômeno como compulsão à
repetição (Wiederholungszwang): o sujeito repete, não por escolha consciente,
mas por uma insistência estrutural do inconsciente (Freud, 1920/2010).
A repetição defensiva pode ser formulada assim:
- o lugar atual
produz sofrimento, mas é conhecido;
- a saída implica
risco e falta de garantia;
- o ego prefere a
repetição ao vazio.
Trata-se, portanto, de uma defesa contra o
desamparo.
4. A
mochila defensiva: psicologia como armadura identitária
No contexto institucional, o sujeito tenta sustentar
sua identidade profissional por meio de recursos simbólicos. A “mochila”
aparece como metáfora da psicologia carregada como defesa:
- leitura
institucional,
- interpretação das
dinâmicas,
- tentativa de
existir como psicólogo em um lugar que não o reconhece.
Esse movimento pode ser compreendido como
intelectualização e sublimação parcial: defesas sofisticadas do ego para
transformar angústia em saber (Freud, 1926/2014).
Contudo, quando a psicologia se torna apenas
armadura contra o apagamento, ela deixa de ser função viva e passa a ser defesa
exaustiva.
5.
Apagamento institucional e dessubjetivação
As instituições contemporâneas frequentemente operam
sob o discurso da produtividade e da substituibilidade, reduzindo o sujeito a
uma função operacional.
Kaës (1997) mostra que as instituições produzem
efeitos inconscientes sobre os sujeitos, convocando-os a lugares que nem sempre
comportam sua singularidade. Enriquez (1991) enfatiza que as organizações são
atravessadas por dinâmicas de poder e violência simbólica.
Assim, o sujeito pode experimentar o apagamento:
- não ser
reconhecido,
- não ter lugar
simbólico,
- ser reduzido ao
cargo.
O sofrimento não é apenas intrapsíquico, mas efeito
do laço institucional.
6.
Exaustão: o limite da defesa e o colapso da sustentação
Chega um ponto em que o circuito defensivo deixa de
proteger e passa a consumir toda a energia libidinal.
O sujeito formula:
- “não é
sustentável”,
- “estou farto”,
- “não quero mais
existir apenas como defesa contra o apagamento”.
Birman (2006) descreve o mal-estar contemporâneo
como marcado pelo esgotamento subjetivo e pela precarização dos modos de
existência. Dunker (2015) aponta que o sofrimento psíquico atual é
frequentemente inseparável das condições sociais e institucionais.
A exaustão, portanto, marca o colapso da repetição
defensiva.
7.
Desejo e campo real: para além da fantasia de reconhecimento
Lacan insiste que o Outro não garante o ser do
sujeito: não há instituição capaz de assegurar plenamente a identidade (Lacan,
1966/1998). Contudo, isso não implica que o desejo sobreviva sem inscrição.
A formulação é decisiva:
“o desejo precisa de um campo real para existir. O
desejo não sobrevive apenas como fantasia defensiva.”
O desejo não pode permanecer apenas como resistência
interna. Ele exige deslocamentos concretos, mesmo mínimos, que reinscrevam o
sujeito em um campo simbólico possível.
8.
Considerações finais: romper a repetição por atos mínimos
O sujeito preso na contingência repetitiva vive um
circuito:
contingência → defesa → repetição → exaustão →
apagamento.
A psicanálise não propõe uma saída heroica, mas um
deslocamento: romper a repetição por atos mínimos que reabram o campo do
desejo.
Nem todo lugar acolhe a função que o sujeito quer
exercer. O luto do ideal institucional é necessário, mas não para a renúncia do
desejo: para sua reinscrição em um campo real possível, para além do
apagamento.
Referências
Bibliográficas
Birman, J. (2006). Mal-estar na atualidade: a
psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira.
Dunker, C. I. L. (2015). Mal-estar, sofrimento e
sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. São Paulo: Boitempo.
Enriquez, E. (1991). A organização em análise.
Petrópolis: Vozes.
Freud, S. (1920/2010). Além do princípio do
prazer. In: Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras.
Freud, S. (1926/2014). Inibição, sintoma e
angústia. In: Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras.
Freud, S. (1917/2010). Luto e melancolia. In:
Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras.
Kaës, R. (1997). A instituição e as instituições:
estudos psicanalíticos. São Paulo: Casa do Psicólogo.
Lacan, J. (1966/1998). Escritos. Rio de
Janeiro: Zahar.
Lacan, J. (1964/2008). O seminário, livro 11: Os
quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
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