Eu existo como psicólogo para mim, mas não existo como psicólogo para o Outro social: o saber psicológico exilado da instituição
Resumo
Este
artigo discute a condição paradoxal do psicólogo que existe subjetivamente como
profissional — isto é, sustenta internamente sua identidade e seu saber — mas
não é reconhecido como tal pelo Outro social e institucional. Argumenta-se que
o saber psicológico não desaparece, mas é deslocado, silenciado ou exilado da
instituição, permanecendo como prática invisível ou não legitimada. A análise
articula contribuições da psicanálise lacaniana, da psicologia institucional e
da sociologia das profissões para compreender como o reconhecimento simbólico é
determinante para a existência social do psicólogo enquanto agente
institucional.
Palavras-chave:
psicologia institucional; reconhecimento; Outro social; subjetividade; ética
profissional.
1.
Introdução: existir como psicólogo e não ser reconhecido
A frase
“eu existo como psicólogo para mim, mas não existo como psicólogo para o Outro
social” revela uma tensão central: a diferença entre identidade subjetiva e
existência simbólica institucional. Ser psicólogo não se reduz à formação ou ao
saber técnico; implica também ocupar um lugar social reconhecido.
O
psicólogo pode sustentar internamente sua posição ética e seu modo de escuta,
mas se a instituição não o autoriza simbolicamente, sua função torna-se
marginal, informal ou invisível. Nesse cenário, o saber psicológico não
desaparece: ele permanece, mas exilado, deslocado para fora da cena oficial.
Essa
problemática se torna especialmente evidente em instituições que operam sob
lógica produtivista ou burocrática, onde o espaço da subjetividade é
frequentemente considerado secundário.
2. O
Outro social e a existência simbólica do psicólogo
Na
perspectiva lacaniana, o sujeito não existe apenas como interioridade, mas como
efeito do simbólico. O Outro (com maiúscula) representa o campo da linguagem,
das instituições e das leis que conferem reconhecimento.
Como
afirma Lacan:
“O
inconsciente é o discurso do Outro” (Lacan, 1966).
Ou seja,
a existência social é mediada por estruturas simbólicas. O psicólogo pode saber
quem é, mas só existe institucionalmente quando há um lugar estruturado para
sua função.
Quando a
instituição não reconhece o psicólogo como tal, ele permanece num estado
paradoxal: existe subjetivamente, mas não se inscreve no campo social como
portador legítimo de um saber.
3. O
saber psicológico não desapareceu: está exilado
A ideia
de exílio institucional do saber psicológico aponta para um deslocamento: a
instituição pode até tolerar práticas de contenção emocional, escuta ou
mediação de conflitos, mas sem nomeá-las como psicologia.
Esse
exílio pode ocorrer de várias formas:
- o psicólogo atua em cargo operacional, sem
reconhecimento técnico;
- a instituição reduz sua função a “apoio
humano” genérico;
- a subjetividade é vista como obstáculo à
produtividade.
Bleger,
ao discutir psicologia institucional, mostra que as instituições tendem a
recalcar aquilo que ameaça sua estabilidade:
“Toda
instituição possui aspectos não ditos, depositários daquilo que não pode ser
elaborado” (Bleger, 1984).
O
psicólogo, ao trabalhar com o sofrimento e o conflito, toca justamente nesses
conteúdos recalcados. Por isso, frequentemente é excluído ou neutralizado.
4.
Instituição, sofrimento e silenciamento
As
instituições modernas frequentemente operam como dispositivos de gestão e
controle, não como espaços de elaboração subjetiva. Foucault demonstra como o
saber está sempre ligado ao poder:
“Não há
relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber” (Foucault,
1975).
Assim,
quando a psicologia não é legitimada, não é por ausência de utilidade, mas
porque seu saber pode produzir deslocamentos no modo como a instituição exerce
poder sobre os corpos e condutas.
O
psicólogo introduz perguntas onde a instituição quer respostas rápidas;
introduz escuta onde se quer comando; introduz sujeito onde se quer função.
5. O
reconhecimento profissional como disputa simbólica
A
sociologia das profissões também contribui para entender essa questão. Bourdieu
demonstra que o reconhecimento é uma forma de capital simbólico:
“O poder
simbólico é um poder de fazer ver e fazer crer” (Bourdieu, 1989).
O
psicólogo sem lugar institucional possui saber, mas não possui capital
simbólico reconhecido. Seu discurso não circula como discurso autorizado.
Assim,
sua existência profissional torna-se privada, interior, subjetiva — mas não
pública, social.
6.
Implicações éticas: existir sem lugar
O exílio
institucional do psicólogo gera dilemas éticos importantes. Se ele atua sem
reconhecimento formal, pode:
- ser usado como contenção informal de crises;
- não ter condições adequadas de trabalho
clínico;
- assumir responsabilidades sem respaldo
institucional.
O Código
de Ética Profissional do Psicólogo enfatiza que a atuação deve ocorrer em
condições dignas e com clareza de função (CFP, 2005).
Portanto,
existir como psicólogo para si não basta: é necessário existir simbolicamente
no Outro institucional para que o trabalho não se torne clandestino ou
precarizado.
7.
Considerações finais: do exílio ao lugar
O
psicólogo que existe apenas para si vive uma espécie de desterro simbólico. Seu
saber não some, mas permanece sem inscrição social. A instituição pode até se
beneficiar de sua presença, mas recusa nomeá-lo como psicólogo porque isso
implicaria reconhecer o sujeito onde ela prefere administrar apenas funções.
A tarefa
política e ética da psicologia institucional é justamente lutar pela existência
simbólica do psicólogo no campo social: não como privilégio corporativo, mas
como condição para que a subjetividade não seja expulsa da vida institucional.
O
psicólogo existe, mas precisa ser reconhecido para não ser exilado.
Referências
Bibliográficas
BLEGER,
José. Psicologia Institucional. Porto Alegre: Artes Médicas, 1984.
BOURDIEU,
Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
CONSELHO
FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Código de Ética Profissional do Psicólogo.
Brasília: CFP, 2005.
FOUCAULT,
Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1975.
LACAN,
Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1966.
KAËS,
René. A Instituição e as Instituições: estudos psicanalíticos. São
Paulo: Casa do Psicólogo, 1991.
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