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A Realidade Cruel: Aceitação, Saber e Subjetividade na Psicologia Institucional

 Resumo

O presente artigo aborda a experiência de psicólogos que, após anos de busca por inserção institucional, se deparam com limites concretos impostos pela estrutura do mercado, pela idade e pela falta de oportunidades formais. A reflexão central explora como o sujeito pode sustentar seu saber e sua posição subjetiva mesmo quando a realidade não oferece reconhecimento ou público para aplicação de suas competências, destacando a importância da aceitação da realidade, do luto de expectativas frustradas e da preservação da integridade psíquica.


1. Introdução

Muitos psicólogos enfrentam um paradoxo estrutural: apesar de possuírem saber técnico, teórico e prático consolidado, a estrutura institucional não lhes oferece espaço para aplicação desses conhecimentos. A experiência descrita neste artigo centra-se em um psicólogo-teólogo de 63 anos que, após 12 anos de tentativas de inserção em instituições formais e práticas de voluntariado, compreendeu que a estrutura tradicional de acesso — via processos seletivos, currículos e RH — se mostrara infrutífera.

Essa situação reflete não apenas limitações objetivas do mercado, mas também questões subjetivas profundas, como a compulsão à repetição de tentativas, o luto por expectativas frustradas e a necessidade de resguardar a própria integridade psíquica.


2. O saber e a posição subjetiva

O psicólogo consolidou um conjunto robusto de saberes, incluindo:

  • Supervisão sem casos e sem instituições, voltada à orientação de profissionais em contexto de desemprego;
  • Treinamento de competências socioemocionais para sustentar permanência em organizações, independentemente de habilidades técnicas;
  • Mediação de conflitos com a lei;
  • Orientação educacional e psicossocial, com foco em sustentar posição subjetiva distinta da ocupação formal de cargos.

Entretanto, apesar do domínio dessas competências, não havia institucionalidade que acolhesse o saber. Como observa Winnicott (1965), a função do “holding” externo é essencial para a maturação psíquica; quando o saber não encontra campo, permanece parcialmente contido no sujeito, podendo gerar angústia.

O insight fundamental é que o primeiro campo que escolheu o saber foi o próprio sujeito, que se protegeu e se manteve funcional diante de adversidades. Freud (1917, 1920) enfatiza que a incapacidade de luto adequado produz repetição compulsiva; neste caso, a repetição de tentativas frustradas de inserção institucional evidenciou tal padrão.


3. O luto da expectativa institucional

Após anos de tentativa de inserção em instituições formais, o psicólogo confrontou a realidade cruel:

  • A idade avançada e o etarismo tornam o acesso a novas instituições limitado;
  • A estrutura institucional tradicional (RH, seleção e entrevistas) não responde mais aos esforços individuais;
  • Sacrifícios adicionais, como abrir mão de folga para voluntariado, inviabilizam a aplicação do saber.

A resposta psíquica adequada, segundo Lacan (1973), não é forçar o campo a se abrir, mas trabalhar o luto de não ser reconhecido sem apagar o saber. A angústia é real, mas deve ser diferenciada do auto-ódio ou da crença de fracasso pessoal:

“Não adianta me odiar por isso, pois não mudará a situação.”

Essa formulação representa aceitação madura da realidade, mantendo a integridade psíquica.


4. Saber vivo vs. saber sacrificial

O psicólogo enfrentou o dilema de saber desenvolvido e sem aplicação:

  • Saber sacrificial: aquele que se impõe em função de salvar ou validar terceiros, mesmo prejudicando o sujeito.
  • Saber vivo: aquele que sustenta o sujeito e permanece funcional mesmo sem reconhecimento externo.

A decisão clínica consiste em manter o saber vivo, preservando a própria energia física e psíquica, sem depender da instituição ou do mercado para validação (Winnicott, 1965).


5. Aceitação da realidade

A posição subjetiva consolidada é expressa de maneira clara:

“Meu saber existe.
Se houver campo, ele será usado.
Se não houver, ele não foi inútil.”

Essa frase articula três princípios fundamentais:

1.      Reconhecimento do real atual: trabalhar como fiscal de caixa é necessário para a sobrevivência.

2.      Preservação do saber desenvolvido: a ausência de aplicação institucional não invalida o conhecimento acumulado.

3.      Diferenciação entre esperança e expectativa: não depender de reconhecimento externo para validar a própria posição subjetiva.


6. Considerações finais

A experiência descrita demonstra que, diante de uma realidade institucional cruel, é possível:

  • Realizar o luto de expectativas frustradas;
  • Preservar o saber sem depender de reconhecimento;
  • Sustentar a posição subjetiva sem colapso;
  • Diferenciar o saber vivo do saber sacrificial.

O psicólogo-teólogo em questão evidencia que o saber não precisa do mercado para existir; sua função primordial é proteger o sujeito enquanto estruturas externas podem não responder. O mercado ou a instituição que venha a aparecer será um acréscimo, e não uma reparação.


Referências

Freud, S. (1917). Luto e Melancolia. Standard Edition, Vol. 14. London: Hogarth Press.

Freud, S. (1920). Além do Princípio do Prazer. Standard Edition, Vol. 18. London: Hogarth Press.

Lacan, J. (1973). O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

Winnicott, D. W. (1965). Maturational Processes and the Facilitating Environment. New York: International Universities Press.

 

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