Entre o Pão e a Palavra: o Fiscal de Caixa Invisível e o Psicólogo Exilado na Sociedade do Reconhecimento
Resumo
Este artigo investiga a tensão entre função social e
reconhecimento simbólico a partir da figura contemporânea do fiscal de caixa de
supermercado que, sendo também psicólogo, exerce sua prática clínica de modo
marginal após a jornada institucional. Argumenta-se que a sociedade tende a
invisibilizar o trabalho cotidiano que sustenta sua infraestrutura material, ao
mesmo tempo em que reconhece e prestigia profissões ligadas à palavra e ao
saber. Com base em Freud, Lacan, Dejours e Honneth, discute-se o exílio
subjetivo do psicólogo dentro da função operacional e a luta por reconhecimento
como condição de existência social.
Palavras-chave: reconhecimento, invisibilidade, trabalho, sujeito,
psicologia institucional, Lacan.
1.
Introdução: a contribuição invisível
O supermercado é uma instituição central da vida
urbana. Nele se organizam as condições básicas de sobrevivência cotidiana:
alimento, circulação de bens, estabilidade social. O fiscal de caixa, embora
frequentemente percebido como um trabalhador “simples”, ocupa uma função
essencial de regulação institucional: garante ordem, justiça na troca e
contenção de conflitos.
Entretanto, a sociedade moderna tende a reconhecer
apenas aquilo que possui prestígio simbólico. O fiscal sustenta o cotidiano,
mas permanece invisível. O psicólogo, ao contrário, é percebido porque ocupa um
lugar social associado ao saber e à palavra.
Essa contradição inaugura o problema central:
por que aquilo que sustenta a vida social é apagado,
enquanto aquilo que interpreta a vida psíquica é valorizado?
2. O
trabalho invisível e a base civilizatória do cotidiano
O fiscal de caixa contribui diretamente para o
funcionamento da ordem material. Sua presença impede que o caos se instale no
espaço de consumo, onde se cruzam tensões sociais, desigualdades econômicas e
sofrimento cotidiano.
O trabalho, nesse sentido, não é apenas produção
econômica, mas produção de estabilidade social.
Christophe Dejours demonstra que o trabalho possui
uma dimensão subjetiva e coletiva: ele é sempre uma forma de enfrentamento do
real e de busca de reconhecimento.
“Trabalhar não é apenas produzir, é também
transformar-se a si mesmo.”
(DEJOURS, 2004, p. 28)
O fiscal, portanto, não é apenas uma função técnica,
mas um operador civilizatório anônimo.
3. A
sociedade do prestígio: reconhecimento e hierarquia simbólica
A invisibilidade do fiscal não decorre de sua
irrelevância, mas da hierarquia social que distingue funções “nobres” e funções
“servis”.
Axel Honneth afirma que o reconhecimento é condição
fundamental para que o sujeito exista plenamente no espaço social:
“A experiência do desrespeito está ligada à perda de
reconhecimento e ameaça a identidade do sujeito.”
(HONNETH, 2003, p. 138)
O fiscal é indispensável, mas não reconhecido. Sua
contribuição é naturalizada. Ele só aparece quando algo falha: filas,
conflitos, desorganização.
Assim, a sociedade revela sua lógica perversa:
prestígio não coincide com necessidade.
4. O
psicólogo percebido: a palavra como lugar simbólico
O psicólogo é percebido porque ocupa um lugar ligado
ao discurso, à saúde mental e à subjetividade. Em uma época marcada pela
expansão do sofrimento psíquico, a figura do terapeuta ganha visibilidade
cultural.
Freud já havia indicado que a civilização produz
mal-estar e que a palavra é um modo de elaborar esse sofrimento:
“A vida em comum só se torna possível mediante
sacrifícios pulsionais.”
(FREUD, 1930/2010, p. 64)
O psicólogo, portanto, é visto como aquele que
escuta o mal-estar social.
Mas essa visibilidade não implica superioridade
moral ou contribuição maior: ela é efeito de um lugar simbólico autorizado.
5. O
sujeito dividido: entre função e desejo
O caso se radicaliza quando o fiscal de caixa é
também psicólogo. Aqui emerge a divisão subjetiva:
- durante o
expediente: ele existe como função institucional
- após a jornada:
ele existe como sujeito da palavra e da escuta
Lacan formula essa divisão ao mostrar que o sujeito
é representado no campo do Outro por significantes que o reduzem:
“O sujeito é aquilo que um significante representa
para outro significante.”
(LACAN, 1966/1998, p. 819)
No supermercado, o significante é “fiscal”. O
sujeito psicólogo torna-se exilado. Ele existe para si, mas não existe para o
Outro social como psicólogo.
Esse é o drama institucional:
o desejo não desaparece, mas não encontra lugar de
reconhecimento.
6. O
risco do sacrifício e a romantização do martírio
Ao atuar “marginalmente” após a jornada, o psicólogo
pode ser percebido socialmente, mas corre o risco de viver sua prática como
sacrifício redentor.
Entretanto, contribuição social não deve ser medida
pelo sofrimento. A clínica não é martírio.
Dejours alerta que a falta de reconhecimento pode
transformar o trabalho em sofrimento patogênico:
“O sofrimento no trabalho surge quando o
reconhecimento se torna impossível.”
(DEJOURS, 1992, p. 45)
A questão não é contribuir mais, mas integrar função
e sujeito, desejo e instituição.
7.
Conclusão: entre o pão e a palavra
O fiscal de caixa sustenta o corpo social. O
psicólogo sustenta a palavra e a elaboração do sofrimento.
A sociedade, porém, reconhece mais o psicólogo
porque prestigia o saber discursivo e invisibiliza o trabalho cotidiano.
O problema central não é de contribuição, mas de
reconhecimento.
O sujeito contemporâneo encontra-se dividido:
- indispensável como
função
- exilado como
desejo
Entre o pão do supermercado e a palavra da clínica,
emerge uma verdade:
a sociedade se apoia no invisível, mas só celebra o
nomeado.
O desafio ético e institucional é criar espaços onde
o sujeito possa existir para além da função.
Referências
Bibliográficas
DEJOURS, Christophe. A Loucura do Trabalho:
estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez, 1992.
DEJOURS, Christophe. Subjetividade, Trabalho e
Ação. Revista Produção, v. 14, n. 3, 2004.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização
(1930). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
HONNETH, Axel. Luta por Reconhecimento: a
gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Editora 34, 2003.
LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1998. (Texto original de 1966)
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