Pular para o conteúdo principal

O Suplemento como Tampão: Ato Falho, Trabalho Institucional e o Supermercado como Outro que Apaga o Desejo

 Resumo

O presente artigo propõe uma leitura psicanalítica do esquecimento de um suplemento alimentar como ato falho, compreendendo-o não como simples distração, mas como formação do inconsciente. Sustenta-se que, em determinados contextos institucionais, o suplemento pode operar como tampão do mal-estar, permitindo ao sujeito suportar a repetição de uma função laboral que o reduz à performance e apaga sua dimensão desejante. Articula-se a teoria freudiana das parapraxias e da compulsão à repetição com a concepção lacaniana do Outro e do sintoma como linguagem. Além disso, mobilizam-se autores contemporâneos como Christian Dunker, Vladimir Safatle e Byung-Chul Han para pensar o trabalho no capitalismo tardio como dispositivo de exaustão subjetiva. O ato falho, nesse cenário, aparece como micro-ruptura, mensagem cifrada e possibilidade de deslocamento do sujeito em direção a outra inscrição simbólica.

Palavras-chave: ato falho; trabalho; compulsão à repetição; Outro; instituição; sofrimento psíquico.


1. Introdução: o cotidiano como lugar da irrupção do inconsciente

A psicanálise, desde Freud, insiste que o inconsciente não se manifesta apenas em grandes sintomas clínicos, mas também nos pequenos acontecimentos do cotidiano: lapsos, esquecimentos, enganos e tropeços da linguagem. Esses fenômenos, denominados atos falhos, são frequentemente descartados pelo senso comum como distrações sem importância. Contudo, Freud demonstrou que tais ocorrências são formações psíquicas determinadas e carregadas de sentido.

Em Psicopatologia da vida cotidiana, Freud afirma:

“Os atos falhos não são casuais, mas determinados por intenções inconscientes.”
(FREUD, 1901/1996)

O esquecimento de tomar um suplemento alimentar, já preparado, antes de sair para o trabalho, pode ser compreendido, portanto, como um ponto de irrupção do inconsciente no interior de uma rotina automatizada. A questão central não é o suplemento em si, mas o que ele representa na economia subjetiva do sujeito: energia para suportar, para continuar, para permanecer numa função que se tornou repetição mortificante.


2. O suplemento como significante: entre autocuidado e performance

O suplemento alimentar, no registro biomédico, é um recurso destinado à melhora física. Entretanto, na perspectiva psicanalítica, nenhum objeto é apenas material: ele se torna significante, isto é, adquire valor simbólico na trama do desejo e do Outro.

Nesse contexto, o suplemento pode operar como suporte da performance laboral:

  • energia para enfrentar longas jornadas
  • fortalecimento para suportar o desgaste institucional
  • instrumento para continuar na função

Assim, o suplemento deixa de ser um simples cuidado de si e passa a integrar uma lógica de produtividade. Ele se transforma em um objeto que responde à exigência do Outro institucional: “funcione”, “aguente”, “não falhe”.

Lacan formula que o desejo do sujeito é sempre atravessado pelo Outro:

“O desejo do homem é o desejo do Outro.”
(LACAN, 1966/1998)

Tomar o suplemento, então, pode significar não um gesto autônomo, mas uma resposta à demanda institucional que captura o corpo e o coloca a serviço da repetição.


3. O supermercado como Outro institucional que apaga o desejo

O trabalho no supermercado, particularmente em funções repetitivas e de vigilância como a de fiscal de caixa, pode ser lido como espaço paradigmático do sujeito reduzido à função.

O supermercado, enquanto instituição, organiza-se como Outro que exige:

  • presença contínua
  • controle e disciplina
  • repetição mecânica
  • apagamento da singularidade

O sujeito torna-se um operador da engrenagem. Sua palavra é substituída por procedimentos, sua subjetividade por protocolos, seu desejo por performance.

Christian Dunker, ao analisar o sofrimento contemporâneo, afirma que as instituições produzem modalidades específicas de mal-estar:

“O sofrimento psíquico é inseparável das formas sociais e institucionais que organizam a experiência.”
(DUNKER, 2015)

Nesse sentido, o supermercado funciona como lugar onde o sujeito é convocado não a existir, mas a operar. Trata-se de um apagamento simbólico: o sujeito não é reconhecido como desejante, mas apenas como peça.


4. Tampão do mal-estar: suplemento como anestesia subjetiva

O suplemento pode operar como tampão, isto é, como objeto que encobre o real do sofrimento corporal e psíquico. Ele permite que o sujeito suporte o insuportável, prolongando a permanência na cena institucional.

Freud, em O mal-estar na civilização, já indicava que o sofrimento ameaça o sujeito a partir de múltiplas direções:

“O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: do corpo, do mundo externo e das relações com outros homens.”
(FREUD, 1930/1996)

O suplemento, nesse caso, tenta tamponar a direção corporal do sofrimento: o cansaço, a exaustão, o desgaste.

Mas o tampão tem um preço: ele permite continuar na repetição sem que a verdade do mal-estar seja escutada.


5. Compulsão à repetição e prisão institucional

Freud introduz a noção de compulsão à repetição para designar aquilo que leva o sujeito a repetir cenas de sofrimento mesmo contra o princípio do prazer.

“O paciente repete, em vez de recordar.”
(FREUD, 1920/1996)

No contexto do trabalho institucional, a repetição se torna prisão: o sujeito continua indo, suportando, aguentando, esperando que algo externo aconteça — um milagre, uma saída, uma convocação.

O suplemento torna-se parte desse circuito:

suplemento → energia → suportar → trabalhar → repetir

A esperança passiva de que algo aconteça sem ato subjetivo reforça a repetição.


6. Byung-Chul Han e a sociedade do cansaço

Byung-Chul Han descreve o capitalismo contemporâneo como uma sociedade marcada não pela repressão disciplinar clássica, mas pela autoexploração e pelo excesso de desempenho:

“O sujeito de desempenho explora a si mesmo até o colapso.”
(HAN, 2015)

O suplemento, nesse cenário, pode ser lido como dispositivo de desempenho: não se toma para viver, mas para produzir. O corpo torna-se empresa de si mesmo.

O cansaço deixa de ser sinal e torna-se falha moral. O suplemento corrige a falha e reinsere o sujeito na engrenagem.


7. Safatle: neoliberalismo e sofrimento como gestão

Vladimir Safatle aponta que o neoliberalismo transforma o sofrimento em algo a ser gerido individualmente, deslocando as causas estruturais:

“O neoliberalismo produz sujeitos responsáveis por administrar sua própria exaustão.”
(SAFATLE, 2021)

O suplemento é um exemplo disso: o sujeito não questiona a estrutura que o esgota, mas busca meios privados de suportá-la.

Assim, a instituição permanece intacta, e o sujeito se adapta.


8. O ato falho como micro-ruptura e recusa

O esquecimento do suplemento aparece como ato falho: uma falha que carrega uma intenção inconsciente.

Freud escreve:

“O esquecimento revela uma intenção que se opõe à intenção consciente.”
(FREUD, 1901/1996)

O ato falho, nesse contexto, pode ser lido como recusa:

  • recusa em continuar sustentando a performance
  • recusa em ser corpo-máquina
  • recusa em fortalecer-se para permanecer onde não existe como sujeito

O inconsciente introduz uma rachadura no circuito institucional.


9. Do sujeito funcional ao sujeito desejante

Lacan afirma que o sintoma é estruturado como linguagem:

“O sintoma é estruturado como uma linguagem.”
(LACAN, 1953/1998)

O ato falho é uma mensagem cifrada:

“Eu não quero mais me fortalecer para suportar uma vida que apaga meu desejo.”

O sujeito começa a se separar do Outro institucional. Surge a possibilidade de deslocamento: não mais existir como função, mas inscrever-se em outro campo simbólico.


10. Conclusão: o suplemento esquecido como verdade do desejo

A mensagem central do ato falho, articulada ao trabalho institucional, pode ser condensada:

“Eu não quero mais me sustentar apenas para continuar onde eu não existo como sujeito.”

O suplemento, como tampão, sustentava a repetição. O esquecimento introduz a verdade: não há milagre na repetição, apenas mais repetição. A saída não vem do Outro, mas de um ato de inscrição.

O ato falho, pequeno em aparência, revela uma ruptura fundamental: o desejo começa a recusar o apagamento.


Referências Bibliográficas

DUNKER, Christian Ingo Lenz. Mal-estar, sofrimento e sintoma. São Paulo: Boitempo, 2015.

FREUD, Sigmund. Psicopatologia da vida cotidiana (1901). In: Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

LACAN, Jacques. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise (1953). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

SAFATLE, Vladimir. A vida em comum: ensaios de teoria social. São Paulo: Autêntica, 2021.

 

Comentários

Postagens mais visitadas

O esvaziamento libidinal do ego e o bloqueio do desejo sob a censura do superego: uma leitura psicanalítica a partir do caso do fiscal de caixa

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 Resumo O presente estudo propõe uma leitura psicanalítica sobre a perda do investimento libidinal no contexto do trabalho e da vocação, tomando como referência o caso de um fiscal de caixa que, após anos de dedicação, não encontra mais sentido em suas atividades laborais nem motivação para exercer a profissão de psicólogo. O fenômeno é analisado à luz das formulações de Freud e Lacan, com ênfase na relação entre o ego, o superego e o desejo, buscando compreender como o excesso de idealização e a censura superegóica podem conduzir ao esvaziamento libidinal, à inibição do desejo e à alienação subjetiva diante do princípio de prazer. 1. Introdução O caso em análise refere-se a um sujeito que, embora formado em Psicologia e movido inicialmente pelo desejo de ajudar pessoas a se libertarem de sofrimentos emocionais e vícios, encontra-se atualmente exercendo a função de fiscal de caixa em um supermercado . Com o ...

PLANO DE AÇÃO PARA MELHORIA DO AMBIENTE DE TRABALHO NO SUPERMERCADO

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. ### **1. Objetivo Geral** Reduzir os riscos psicossociais no ambiente de trabalho do supermercado, promovendo bem-estar, engajamento e qualidade de vida para os colaboradores. ### **2. Diagnóstico Inicial** - Aplicar uma pesquisa de clima organizacional para identificar principais dificuldades e insatisfações. - Realizar entrevistas com colaboradores de diferentes setores para entender suas necessidades e desafios. - Avaliar os índices de rotatividade, absenteísmo e conflitos internos. ### **3. Ações Preventivas e Corretivas** #### **3.1. Melhoria das Relações Interpessoais** - Implementar treinamentos sobre inteligência emocional e resolução de conflitos. - Criar espaços para comunicação aberta entre liderança e equipe, como reuniões quinzenais. - Estabelecer um canal anônimo para feedbacks e sugestões dos colaboradores. ####...

A Palavra Que Forma

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 CAPÍTULO 1 A Palavra que Forma: Teologia, Simbolismo e a Vocação para Ensinar A formação subjetiva do educador social e do psicólogo orientador não nasce apenas da técnica, mas da inscrição do sujeito em um campo simbólico antecedente. No caso aqui analisado, o ponto inaugural é a Teologia — não em seu registro dogmático, mas em sua função estruturante enquanto regime de sentido, linguagem e transmissão. Antes de se tornar psicólogo, o sujeito esteve investido na tarefa de interpretar textos sagrados, mediar discursos e ocupar o lugar de porta-voz de uma tradição simbólica. Tal experiência inscreve-se, desde cedo, na economia libidinal do sujeito, moldando o desejo de orientar, ensinar e cuidar. Freud (1905) afirma que “as primeiras identificações estruturam a vocação futura do sujeito”, apontando que não há profissão que não seja, antes, um destino psíquico. A inserção precoce do autor no universo teológico — co...

A Compreensão de Si Dentro do Sistema: O Supermercado

  O despertar do fiscal psicólogo diante da liderança adormecida e do comportamento sabotador” Resumo O presente artigo analisa, sob o enfoque da psicologia organizacional e da psicanálise aplicada ao trabalho , a experiência de um fiscal de caixa com formação em psicologia que atua em um ambiente caracterizado por liderança com fisionomia consciente e particularidades de uma pessoa inconsciente , conflitos interpessoais e comportamentos sabotadores passivo-agressivos . A vida organizacional é um campo simbólico onde se expressam tanto os aspectos conscientes das relações de trabalho quanto os conteúdos inconscientes dos sujeitos. O caso do fiscal psicólogo ilustra o entrelaçamento entre o papel técnico e o papel emocional do trabalhador dentro de um sistema que, ao negar conflitos, produz sobrecarga, desmotivação e sofrimento psíquico. Quando a liderança se mostra adormecida — ou seja, consciente ou inconsciente das disfunções, mas paralisada pela insegurança inst...

O Ato Falho da Creatina: O Desejo Esquecido e o Despertar do Inconsciente

  Autor fiscal- Psicólogo Sumário 1.       Introdução – O Esquecimento que Revela o Desejo 2.       Capítulo 1 – O Ego Cansado e o Superego Vigilante 3.       Capítulo 2 – A Libido em Transição: Do Dever ao Desejo 4.       Capítulo 3 – O Esquecimento como Mensagem do Inconsciente 5.       Epílogo – Quando o Corpo Fala o que a Boca Silencia 6.       Conclusão – Da Falha à Consciência: O Caminho da Liberdade Interna 7.       Referências Bibliográficas Introdução – O Esquecimento que Revela o Desejo O dia começava como outro qualquer: o fiscal de caixa preparava seu café da manhã, deixou ao lado a creatina e o suplemento, planejou tomá-los após o café, mas esqueceu. Quando percebeu o frasco na pia, já se preparando para sair, tomou apressadamente a creatina e partiu para o trabalho. E...

Deus Objeto De Transferência

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para o tema. 1 Pedro 5:7 - Lançando sobre ele toda a sua ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês. O Deus pode se tornar um "objeto de transferência", onde o psicólogo projeta e revive emoções e dinâmicas relacionais passadas. Isso permite uma análise mais profunda das origens desses padrões de comportamento, se tornando uma oportunidade para o psicólogo reexaminar e modificar suas respostas emocionais. Claro! Vou explicar como essa ideia de Deus como "objeto de transferência" pode ser compreendida a partir da abordagem psicanalítica, e vou fazê-lo considerando que o leitor é um iniciante na psicanálise. A psicanálise é uma abordagem terapêutica que busca compreender os processos inconscientes que influenciam nossos pensamentos, emoções e comportamentos. Um dos conceitos fundamentais na psicanálise é o de transferência, que se refere ao sentimento e em...

Estímulos Intrínsecos Trabalhar Instituição Idosos – Psicologia Social

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. Qual pode ser a motivação de um psicólogo para desejar trabalhar em instituições de longa permanecia para idosos. Vamos compreender o comportamento do psicólogo por meio da abordagem psicologia social. A psicologia social se preocupa em entender como os indivíduos são influenciados pelo contexto social em que vivem, incluindo as instituições. Ao trabalhar em uma instituição de longa permanência para idosos, um psicólogo pode ser motivado por diversos fatores relacionados a essa abordagem. Influências externas e tendências dominantes: Os psicólogos também estão sujeitos a influências externas, como a cultura profissional predominante, as demandas do sistema de saúde ou as preferências dos clientes. Se a abordagem psicanalítica, terapia comportamental cognitiva, psicologia humanista e outras não for valorizada ou for menos solicitada em determinado contex...

Minha Querida Senhorita: uma leitura psicanalítica e psicossocial do sujeito em cena — do drama íntimo ao cotidiano do “fiscal psicólogo”

  Resumo Este artigo propõe uma análise articulada do filme Minha Querida Senhorita a partir de dois eixos teóricos: a psicanálise e a psicologia social. Busca-se compreender como a trajetória da personagem Adela/A.D. evidencia a constituição do sujeito pelo Outro, o papel do recalque e da angústia, bem como os mecanismos de controle social, estigma e normatização do corpo. Além disso, o texto amplia a leitura para o cotidiano, tomando como metáfora o “fiscal psicólogo” no supermercado, enquanto operador de observação e controle, evidenciando como o sofrimento psíquico se manifesta em cenas banais. Conclui-se que o filme explicita a inseparabilidade entre sujeito e laço social, demonstrando que o conflito psíquico é produzido e sustentado por estruturas simbólicas e institucionais. 1. Introdução O filme  Minha Querida Senhorita  (1972), dirigido por Jaime de Armiñán, narra a história de Adela, uma mulher que, ao longo da vida, descobre ser inter...

De Que Modo Contribui Para A sociedade O Operador De Caixa

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a tenção do para um excelente tópico. O perfil de um operador de caixa é fundamental para a sociedade, pois esse profissional é responsável por várias atividades essenciais em estabelecimentos comerciais, como supermercados, lojas de departamento, farmácias, entre outros. Algumas das principais contribuições são: Agilidade no atendimento: o operador de caixa é o responsável por finalizar as compras dos clientes de maneira rápida e eficiente, tornando o processo de pagamento mais ágil e dinâmico. Isso ajuda a evitar filas longas e estresse para os consumidores. Atenção aos detalhes: é importante que o operador de caixa verifique o preço dos produtos, o tipo de pagamento e o troco, garantindo que as transações sejam precisas e corretas. Isso evita problemas como cobranças indevidas e possíveis reclamações dos clientes. Boa comunicação: o operador de caixa deve ter habilidades de comunicação ...

O Fiscal Morto: A Escuta Psicanalítica de um Ego Dividido entre o Dever e o Desejo

  Ano 2025. Autor [Ayrton Junior Psicólogo] Introdução Este livro nasce da escuta de um conflito silencioso: o de um sujeito que, formado em Psicologia, atua como fiscal de caixa em um supermercado — um espaço de intensa dinâmica social, mas carente de reconhecimento subjetivo. O personagem central, o fiscal psicólogo , simboliza o homem moderno dividido entre o trabalho que sustenta o corpo e o desejo que alimenta a alma . No entanto, o ambiente organizacional, regido por normas e metas, torna-se o espelho de uma estrutura psíquica aprisionada: o superego institucional, que reprime o desejo de ser, em nome do dever de parecer produtivo. Pela lente da psicanálise , este livro propõe uma escuta — ou, como diria Lacan, uma escanálise — da dor de um sujeito que, sem perceber, retirou a libido de sua própria função. A análise busca compreender o processo inconsciente que o levou a se perceber como um “fiscal morto” , sem prazer, sem reconhecimento e sem o brilho do desejo que...