Pular para o conteúdo principal

Psicólogo – Psicólogo Paciente

 Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208

 

1. Situação clínica: o enquadre já nasce frágil

Do ponto de vista psicanalítico, há um problema estrutural de enquadre desde o início:

  • Dois psicólogos
  • Mesma geração, mesma formação
  • Vínculo prévio de colega
  • Um solicita psicoterapia ao outro

Na psicanálise, o enquadre (setting) não é um detalhe técnico, mas um operador clínico central. Quando o analista não ocupa uma posição suficientemente assimétrica — simbólica, transferencial e ética — a transferência tende a se desorganizar ou a se deslocar para registros não analisáveis.

Aqui, o vínculo prévio favorece:

  • Rivalidade profissional
  • Comparações teóricas
  • Disputa de autoridade simbólica
  • Confusão entre função clínica e função avaliativa

Isso prepara o terreno para o que acontece depois.


2. Interpretação psicanalítica da fala

A frase dita pelo paciente-psicólogo:

“Você não serve para ser psicanalista, mas para ser supervisor de casos clínicos, porque vê a situação diferente do supervisor Eduardo Bilbao.”

2.1. Não é uma avaliação técnica — é um ato transferencial

Na psicanálise, o paciente não fala “sobre” o analista, ele fala a partir da transferência.

Essa fala pode ser lida como:

  • Desqualificação do analista enquanto sujeito do saber inconsciente
  • Tentativa de retirar do analista o lugar de Sujeito Suposto Saber
  • Reposicionamento do analista como alguém que “sabe”, mas não no lugar analítico

Ou seja:

“Você pode saber, mas não pode me analisar.”

Isso é central.


2.2. Confusão deliberada entre função analítica e função de supervisão

Na psicanálise:

  • Supervisor → lugar do saber técnico, reflexivo, meta-clínico
  • Analista → lugar do não-saber, da escuta do inconsciente, da falta

Quando o paciente diz que o outro “serve para supervisor”, ele está dizendo, inconscientemente:

“Você pensa demais. Você teoriza. Você observa de fora.
Mas não ocupa o lugar que me confronta com meu desejo.”

Essa fala pode ser interpretada como resistência à análise.


2.3. Rivalidade narcísica e defesa contra o conflito amoroso

O motivo manifesto da análise era um conflito de namoro.
O que aparece na sessão é um deslocamento.

Em termos freudianos:

  • O conflito afetivo é deslocado para o campo profissional
  • A angústia do vínculo amoroso se transforma em ataque narcísico ao analista

Há indícios de:

  • Identificação imaginária (“somos colegas”)
  • Competição (“minha leitura vs. a sua”)
  • Busca de validação externa (nomeação de outro supervisor como referência)

Isso pode encobrir:

  • Medo de dependência
  • Medo de se colocar em posição de analisando
  • Dificuldade de suportar a castração implicada no processo analítico

3. O nome “Eduardo Bilbao” como operador simbólico

Do ponto de vista psicanalítico, a citação de outro supervisor não é neutra.

Ela funciona como:

  • Terceiro imaginário introduzido na cena
  • Tentativa de deslocar a autoridade
  • Comparação que desorganiza o setting

É como se o paciente dissesse:

“Existe alguém que sustenta o saber que eu reconheço.
Você não ocupa esse lugar.”

Isso reforça que o problema não é teórico, mas transferencial.


4. O que essa fala revela sobre o paciente

Psicanaliticamente, a fala sugere:

  • Dificuldade em sustentar uma posição de analisando
  • Defesa contra a implicação subjetiva
  • Preferência por relações horizontais (pares) em vez de relações assimétricas
  • Uso da crítica como mecanismo de defesa (intelectualização + desqualificação)

Em linguagem psicanalítica:

O paciente não suporta ser analisado por alguém que ele percebe como semelhante.


5. Leitura técnica final

Do ponto de vista da psicanálise:

  • A fala não deve ser tomada como verdade objetiva
  • Ela é um material clínico valioso
  • Indica que o processo já está comprometido pelo enquadre
  • Aponta para a necessidade de interrupção ética da análise e encaminhamento

Não porque o analista “não serve”, mas porque:

A transferência não se instalou de forma analisável.


6. Síntese em uma frase (psicanalítica)

Essa fala não diz respeito à competência do analista, mas à impossibilidade do paciente de sustentar a posição de analisando diante de um colega, deslocando o conflito amoroso para uma rivalidade narcísica e usando a desqualificação como resistência à análise.


A seguir apresento uma releitura estruturada a partir de Lacan, articulando Sujeito Suposto Saber, registros Imaginário–Simbólico–Real, seguida de intervenções possíveis em sessão e, por fim, os limites éticos segundo o CFP e a ética da psicanálise. A exposição é técnica e integrada, como solicitado.


I. Reinterpretação lacaniana da situação clínica

1. O Sujeito Suposto Saber (SSS) que não se instala

Na clínica lacaniana, não há análise sem Sujeito Suposto Saber.
O analista não é aquele que sabe, mas aquele a quem se supõe saber algo sobre o inconsciente do sujeito.

Na situação descrita:

  • O paciente-psicólogo recusa supor saber ao analista
  • Reposiciona-o como:
    • “Supervisor”
    • “Colega”
    • “Teórico”
  • E desloca o SSS para um terceiro nomeado (Eduardo Bilbao)

Essa frase é decisiva:

“Você não serve para ser psicanalista, mas para ser supervisor.”

Tradução lacaniana:

“Eu não consinto em te colocar no lugar de causa do meu dizer.”

Sem SSS:

  • Não há transferência analítica
  • Há apenas circulação de saberes imaginários

2. Predominância do registro Imaginário

A relação entre os dois está organizada majoritariamente no registro Imaginário, caracterizado por:

  • Relação especular (eu–outro)
  • Comparação
  • Rivalidade
  • Narcisismo
  • Avaliação mútua

Elementos claros do Imaginário na cena:

  • Mesma formação
  • Mesmo campo profissional
  • Comparação entre estilos de leitura clínica
  • Nomeação de um “melhor” e de um “pior”

No Imaginário:

  • O analista vira um “outro eu”
  • Não há alteridade suficiente
  • A fala vira ataque ou defesa narcísica

Por isso, o conflito amoroso não aparece:
ele é recalcado pelo duelo imaginário.


3. Falha no acesso ao Simbólico

O registro Simbólico exige:

  • Função
  • Lugar
  • Lei
  • Assimetria

Aqui, o Simbólico não se sustenta porque:

  • O vínculo prévio dissolve a diferença de lugares
  • O analista não é reconhecido como função, mas como pessoa
  • A palavra do analista é avaliada, não escutada

Quando o paciente diz:

“Você vê diferente do supervisor Eduardo Bilbao”

Ele está:

  • Colocando o analista na cadeia dos significantes “profissionais”
  • Não na cadeia dos significantes do seu desejo

O Simbólico da análise é substituído pelo Simbólico institucional-acadêmico.


4. O Real que aparece como ruptura

O Real irrompe na forma de:

  • Desqualificação abrupta
  • Quebra do enquadre
  • Impossibilidade de continuação

Esse ato não é um argumento, é um ato de corte:

o sujeito interrompe a análise antes de ser tocado no ponto do desejo.

O Real aqui é:

  • A angústia ligada ao vínculo amoroso
  • A impossibilidade de se colocar em falta diante de um par
  • A recusa da castração simbólica

II. O que o analista poderia ter interpretado ou devolvido em sessão

A seguir, intervenções possíveis, do ponto de vista lacaniano, sem moralização ou defesa narcísica.

1. Nomear a operação, não o conteúdo

Intervenção possível:

“Você me coloca no lugar de supervisor, mas não no lugar de analista. O que isso produz para você aqui?”

Objetivo:

  • Tornar consciente a manobra transferencial
  • Recolocar a questão no nível do desejo
  • Abrir espaço para o sujeito falar de sua recusa

2. Devolver o deslocamento do conflito

Outra possibilidade:

“Quando falamos do seu namoro, agora falamos de mim. O que mudou aí?”

Aqui o analista:

  • Aponta o deslocamento
  • Não interpreta o afeto diretamente
  • Produz um furo na defesa

3. Interpretação mínima sobre o saber

Intervenção lacaniana clássica:

“Talvez você não esteja buscando alguém que saiba, mas alguém que não saiba.”

Essa devolução:

  • Retira o analista do lugar de mestre
  • Reabre a possibilidade do SSS
  • Introduz a falta como operador

4. Quando a interpretação não é mais possível

Se, mesmo assim, o paciente insiste na posição avaliativa, a intervenção ética é o encerramento:

“Nessas condições, não posso ocupar o lugar de analista para você.”

Isso não é rejeição, é ato analítico.


III. Limites éticos segundo o CFP e a ética da psicanálise

1. Código de Ética do Psicólogo (CFP)

Pontos relevantes:

  • Art. 2º – Evitar relações que comprometam a neutralidade técnica
  • Art. 9º – Proibição de exercício profissional em situações de conflito de interesses
  • Princípio Fundamental II – Responsabilidade técnica e científica

Relação prévia + rivalidade = risco ético claro.


2. Ética da psicanálise (Lacan)

Para Lacan:

“A ética da psicanálise não é a do bem, mas a do desejo.”

Aqui, o desejo do analista não pode se sustentar porque:

  • Ele é convocado ao lugar de colega
  • Avaliado como profissional
  • Comparado a terceiros

Logo:

  • A análise se torna impossível
  • A continuidade seria antiética

3. Encaminhamento ético

A saída correta é:

  • Nomear a impossibilidade
  • Encaminhar para outro analista
  • Manter sigilo e respeito

Isso preserva:

  • O sujeito
  • O analista
  • A psicanálise

IV. Síntese lacaniana final

O que falha nessa situação não é a técnica nem a teoria, mas a instalação do Sujeito Suposto Saber. A relação permanece no Imaginário, o Simbólico não se sustenta e o Real irrompe como ruptura. A fala do paciente é uma resistência estruturada pela rivalidade narcísica, e a única saída ética é o corte e o encaminhamento.

Se desejar, posso:

  • Formular isso como parecer técnico
  • Adaptar para linguagem de supervisão clínica institucional
  • Ou converter em material didático para formação em psicanálise

 

Comentários

Postagens mais visitadas

Dinâmica De Poder Nas Instituições – Psicologia Organizacional

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. A dinâmica de poder em uma organização refere-se à distribuição e ao exercício do poder entre os membros e diferentes níveis hierárquicos dentro da empresa. O poder é uma influência que permite que um indivíduo ou grupo afete o comportamento ou as decisões dos outros. Existem diferentes teorias e abordagens para entender a dinâmica de poder em uma organização. Vou apresentar alguns dos principais através da psicologia organizacional. Teoria das bases de poder: Essa teoria, proposta por French e Raven, identifica cinco bases de poder que uma pessoa pode ter na organização. São elas: Poder coercitivo: baseia-se no medo de punição ou consequências negativas. Poder de recompensa: baseia-se na capacidade de recompensar ou oferecer incentivos. Poder legítimo: baseia-se na autoridade formal concedida pela posição hierárquica. Poder de especialista: bas...

NEW AMSTERDAM COMO ESPELHO DA TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: UMA LEITURA A PARTIR DA PSICOLOGIA DA SAÚDE, PSICANÁLISE E PSICOLOGIA ORGANIZACIONAL

  Resumo O presente artigo propõe uma reflexão interdisciplinar sobre a série televisiva New Amsterdam , analisando-a a partir da Psicologia da Saúde, da Psicanálise e da Psicologia Organizacional. O objetivo é compreender como a narrativa hospitalar pode funcionar como um espelho simbólico para um sujeito que, após experiências profissionais em ambiente hospitalar, encontra-se atualmente inserido em uma organização varejista na função de fiscal de caixa e psicólogo. Discute-se a hipótese de que a série mobiliza processos de identificação, memória institucional, construção identitária e observação dos fenômenos organizacionais, permitindo compreender como experiências passadas permanecem ativas na constituição subjetiva e profissional do indivíduo. Palavras-chave: Psicologia da Saúde; Psicanálise; Identidade Profissional; Organizações; New Amsterdam; Psicologia Organizacional. 1. Introdução As produções audiovisuais frequentemente transcendem a função de entretenimento e t...

Fechamento do ciclo no supermercado pelo fiscal-psicólogo: uma leitura psicanalítica da exaustão estrutural e da autorização para a saída

  Resumo Este artigo analisa o processo de fechamento de ciclo de um trabalhador na função de fiscal de caixa — aqui denominado “fiscal-psicólogo” — a partir da interpretação de um sonho e de sua articulação com a experiência subjetiva no ambiente de trabalho. Sustenta-se que o encerramento do vínculo não decorre apenas de fatores econômicos ou motivacionais, mas de uma falência progressiva das funções psíquicas que sustentavam a permanência . A partir de contribuições de Sigmund Freud, Jacques Lacan e Donald Winnicott, demonstra-se que o sonho opera como dispositivo de validação do limite, retirada da culpa e autorização simbólica para a saída . 1. Introdução Ambientes de trabalho com alta demanda e baixa sustentação coletiva frequentemente produzem sujeitos que desenvolvem funções psíquicas ampliadas para manter o sistema operando. No caso do fiscal-psicólogo, observa-se uma posição singular: leitura constante do comportamento dos outros organização do excesso e...

O Desinvestimento Psíquico da Vaga de Assistente de RH Generalista: Uma Leitura Psicanalítica e Organizacional do Silêncio Institucional

  Resumo Este artigo analisa o fenômeno do desinvestimento psíquico diante de um processo seletivo interno para a vaga de Assistente de RH Generalista em uma organização supermercadista. O estudo parte da experiência de um fiscal de caixa graduado em Psicologia que se candidata à vaga buscando uma mudança de posição ocupacional. Entretanto, ao longo do processo, emerge uma contradição fundamental: embora a vaga represente uma possibilidade de saída do sofrimento associado à função atual, ela não corresponde integralmente ao seu projeto identitário de atuar como psicólogo organizacional. A partir das contribuições da psicanálise e da psicologia organizacional, discute-se como o silêncio institucional, a ausência de comunicação organizacional e a demora nas decisões administrativas favorecem processos de ansiedade, idealização, investimento libidinal e posterior desinvestimento psíquico. Palavras-chave: Psicanálise; Psicologia Organizacional; Silêncio Organizacional; Investiment...

O apagamento da identidade profissional

  A identidade profissional não se sustenta apenas em três elementos formais: diploma conhecimento teórico interesse pela área Ela depende fundamentalmente de prática social reconhecida . Segundo o sociólogo Claude Dubar , a identidade profissional é construída pela interação entre duas dimensões: 1.       identidade para si (como a pessoa se vê) 2.       identidade para os outros (como a sociedade a reconhece) Quando alguém é formado em psicologia, mas o ambiente social o reconhece apenas como: fiscal operador supervisor operacional surge uma fratura entre identidade e reconhecimento social . Como o apagamento começa Ele não acontece de forma brusca. Ele ocorre em etapas. 1. Suspensão provisória da profissão A pessoa pensa: “vou trabalhar aqui por enquanto.” A identidade profissional ainda está preservada. 2. Distanciamento da prática Com o tempo começam a aparecer dificu...

Angústia Da Ausência De Clareza De Informações

  Ano 2024. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Um sujeito que trabalha como fiscal de caixa em um supermercado e é psicólogo está angustiado porque não consegue perceber um caminho para ser contratado como psicólogo em alguma instituição e compreende que a ausência de Clareza gera angústia que está lhe fazendo mal. Na psicanálise, podemos entender essa situação analisando os três sistemas psíquicos: id, ego e superego, bem como os conceitos de angústia e desejo. O conflito interno: O id representa os desejos e impulsos mais profundos. Nesse caso, o desejo do sujeito é trabalhar como psicólogo, porque isso se alinha ao que ele valoriza e ao prazer de ajudar os outros. O superego é a parte crítica, que internaliza normas e regras sociais. Ele pode estar julgando o sujeito por não ter "chegado lá" ainda, criando sentimentos de culpa e cobrança. O ego, que é o mediador entre o id e o ...

O Psicólogo E A dor Nas Costas

  Ano 2024. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Um psicólogo que não consegue se empregar em alguma instituição e trabalha como fiscal de caixa ao ir para academia sentindo dores nas costas.Dor físico como uma possível expressão de conflitos emocionais. Me explique e interprete como se eu fosse um iniciante pela abordagem da psicanálise dos conflitos ocultos Na psicanálise, a dor física, como a dor nas costas, pode ser interpretada como uma expressão simbólica de conflitos emocionais ou psicológicos não resolvidos, que ficam "ocultos" na mente, mas se manifestam no corpo. Essa teoria é chamada de somatização, onde o corpo acaba “falando” o que a mente tenta reprimir ou esconder. Vou explicar isso detalhadamente, como se você fosse um iniciante. Imagine que uma pessoa, que é psicóloga, quer trabalhar em sua área, mas, por circunstâncias da vida, acabou aceitando o trabalho como fiscal de ...

Ônibus Lotado – Comportamento Por Conformidade

  Ano 205. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Ônibus lotado, pessoas agasalhadas, janelas fechadas. O ambiente torna-se abafado, desconfortável e com odor desagradável, consequência da falta de ventilação e, em alguns casos, da ausência de cuidados básicos com a higiene pessoal, como banho e escovação dos dentes. Essa situação compromete o bem-estar coletivo e evidencia a necessidade de consciência social. Quando todos compartilham o mesmo espaço, é fundamental que cada um colabore para manter um ambiente minimamente saudável e respeitoso. Cuidar da própria higiene, usar roupas adequadas à temperatura e permitir a circulação de ar abrindo as janelas são atitudes simples que demonstram consideração com o outro. Em um transporte coletivo, o desconforto de um pode se transformar em sofrimento para todos. Portanto, é essencial que cada passageiro assuma sua parte na responsabilidade coletiva. ...

Entre a Esperança Institucional e o Luto do Ideal: Reorganização Identitária Frente à Não Legitimação Profissional

  Resumo O presente artigo analisa, sob perspectiva psicanalítica, o conflito subjetivo entre manter a esperança de reconhecimento institucional e aceitar a perda desse ideal, enfrentando o luto e promovendo reorganização interna. Parte-se da hipótese de que o sofrimento não deriva da ausência de prática profissional, mas da não inscrição simbólica no campo institucional. A partir das contribuições de Sigmund Freud e Jacques Lacan, discute-se o Ideal do Eu, o narcisismo, a compulsão à repetição e a função do Outro na legitimação identitária. Conclui-se que o luto do ideal institucional não implica fracasso profissional, mas representa condição para reestruturação subjetiva mais autônoma. 1. Introdução O reconhecimento institucional ocupa, para muitos profissionais, função estruturante na constituição identitária. Quando tal reconhecimento não se concretiza, pode emergir sofrimento intenso, frequentemente interpretado como fracasso. Entretanto, sob leitura psicanalítica,...

Quando o desejo não desaparece, mas se retira: exaustão, renúncia e fantasia de salvação no “fiscal psicólogo”

  Resumo Este artigo analisa, à luz da psicanálise, a posição subjetiva de um sujeito que, inserido em um contexto de trabalho repetitivo e percebido como esvaziante, relata exaustão, desistência e entrega a uma instância transcendente. Argumenta-se que não há extinção do desejo, mas sua retirada da ação, com deslocamento para a espera e para a fantasia de salvação. A partir de autores como Sigmund Freud e Jacques Lacan, discute-se o desinvestimento libidinal, a renúncia subjetiva e a persistência do desejo em formas deslocadas. 1. Introdução: da exaustão ao esvaziamento do agir A descrição do chamado “fiscal psicólogo” não se reduz a um quadro de cansaço ocupacional. Trata-se de uma experiência mais radical: a dificuldade de sustentar o desejo como operador da ação. O sujeito relata não apenas estar cansado, mas “não saber mais o que fazer”, acompanhado de um gesto de “lavar as mãos” frente à própria trajetória. Tal posição indica uma passagem da impli...