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Comportamentos Disfuncionais: Reter ou Faltar Moedas nos Caixas

 Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208

Uma análise à luz da Psicologia Comportamental e da Psicologia Cognitiva

Resumo

O presente artigo analisa comportamentos observados em operadores de caixa relacionados à retenção excessiva de moedas ou, inversamente, à recusa ou escassez deliberada de moedas no malote de trabalho. Embora tais comportamentos surjam como estratégias adaptativas frente às exigências da função, argumenta-se que ambos podem adquirir caráter disfuncional quando se tornam rígidos, governados por esquivas e desvinculados das contingências reais do ambiente. A análise fundamenta-se nos referenciais da psicologia comportamental e da psicologia cognitiva, destacando processos de reforçamento, esquiva, vieses cognitivos, carga mental e economia cognitiva. Conclui-se que a disfuncionalidade reside menos na presença ou ausência de moedas e mais na rigidez comportamental e no predomínio do alívio imediato sobre a eficiência sistêmica.

Palavras-chave: comportamento disfuncional; operadores de caixa; psicologia comportamental; psicologia cognitiva; ambiente organizacional.


1. Introdução

Operadores de caixa atuam em contextos caracterizados por pressão temporal, responsabilidade financeira, controle normativo e avaliação constante de desempenho. Nesse cenário, a gestão do troco — especialmente das moedas — adquire relevância desproporcional ao seu valor monetário. Observa-se empiricamente dois padrões recorrentes: operadores que retêm grandes quantidades de moedas e operadores que evitam sistematicamente mantê-las.

Embora tais comportamentos sejam frequentemente tratados como “estilo pessoal” ou “indisciplina operacional”, este artigo propõe compreendê-los como respostas comportamentais moldadas por contingências ambientais e processos cognitivos, que podem evoluir para formas disfuncionais.


2. Referencial teórico

2.1 Psicologia comportamental

A psicologia comportamental compreende o comportamento como função das contingências de antecedentes, respostas e consequências (Skinner, 1953). Comportamentos são mantidos por reforçamento positivo, reforçamento negativo ou esquiva, e podem tornar-se rígidos quando governados por regras privadas em detrimento do contato direto com as contingências (Hayes, Barnes-Holmes & Roche, 2001).

2.2 Psicologia cognitiva

A psicologia cognitiva enfatiza os processos de atenção, memória de trabalho, tomada de decisão e vieses cognitivos. Em ambientes de alta demanda, indivíduos tendem a utilizar heurísticas para reduzir carga mental, o que pode resultar em decisões subótimas ou enviesadas (Kahneman, 2011; Baddeley, 2007).


3. Retenção excessiva de moedas como comportamento disfuncional

3.1 Análise comportamental

A retenção excessiva de moedas pode ser compreendida como comportamento mantido por reforçamento negativo. A presença de moedas reduz a probabilidade de eventos aversivos, como falta de troco, reclamações de clientes ou advertências formais. O alívio imediato da ansiedade funcional reforça a manutenção do comportamento (Skinner, 1953).

Contudo, quando esse padrão se mantém independentemente das contingências reais, observa-se rigidez comportamental e predominância de comportamento governado por regras (“é preciso sempre ter moedas”), o que reduz a sensibilidade ao contexto (Hayes et al., 2001).

3.2 Análise cognitiva

Do ponto de vista cognitivo, a retenção excessiva associa-se à aversão à perda e à superestimação de riscos (Kahneman & Tversky, 1979). O operador tende a valorizar mais a prevenção de um erro potencial do que os custos operacionais do excesso de moedas, como lentidão, fadiga cognitiva e aumento da probabilidade de erro por sobrecarga atencional.


4. Falta deliberada de moedas como comportamento disfuncional

4.1 Análise comportamental

A evitação de moedas pode ser compreendida como forma de esquiva experiencial. Moedas funcionam como estímulos aversivos por demandarem contagem minuciosa, esforço físico e maior atenção. Evitá-las produz alívio imediato e fluidez aparente no atendimento, reforçando a omissão do comportamento (Ferster & Skinner, 1957).

No entanto, esse padrão gera consequências negativas diferidas, como interrupções frequentes, dependência de colegas e conflitos com clientes, caracterizando um comportamento disfuncional mantido por reforços de curto prazo.

4.2 Análise cognitiva

Sob a ótica cognitiva, observa-se o uso excessivo de heurísticas de simplificação e economia cognitiva (Gigerenzer & Gaissmaier, 2011). A redução de variáveis facilita o processamento imediato, mas compromete a precisão e a confiabilidade do atendimento. Forma-se, assim, uma ilusão de eficiência, não necessariamente confirmada por indicadores objetivos de desempenho.


5. Núcleo comum de disfuncionalidade

Apesar de opostos na forma, ambos os comportamentos compartilham um mesmo núcleo disfuncional:

1.      Rigidez comportamental, com baixa flexibilidade situacional;

2.      Predomínio do alívio imediato sobre a eficácia de médio e longo prazo;

3.      Deslocamento da regra institucional, substituída por estratégias privadas de controle ou esquiva.

Esses elementos são consistentes com modelos que descrevem a disfuncionalidade como resultado da interação entre contingências ambientais mal calibradas e processos cognitivos de redução de esforço (Kahneman, 2011).


6. Implicações organizacionais

A análise indica que intervenções eficazes devem priorizar:

  • Clareza normativa sobre a quantidade funcional de moedas;
  • Redução de punições ambíguas;
  • Reforçamento da flexibilidade comportamental, e não de extremos;
  • Ajustes sistêmicos que reduzam a carga cognitiva do operador.

A correção isolada do indivíduo, sem modificação das contingências, tende a reforçar novas formas de comportamento disfuncional.


7. Considerações finais

Reter moedas ou faltar moedas não constitui, em si, um problema psicológico. A disfuncionalidade emerge quando tais comportamentos tornam-se automáticos, rígidos e governados pela esquiva da angústia operacional, em detrimento da adaptação contextual. A psicologia comportamental e cognitiva oferece ferramentas robustas para compreender esses fenômenos e orientar intervenções mais eficazes no ambiente organizacional.


Referências bibliográficas

Baddeley, A. (2007). Working memory, thought, and action. Oxford: Oxford University Press.

Ferster, C. B., & Skinner, B. F. (1957). Schedules of reinforcement. New York: Appleton-Century-Crofts.

Gigerenzer, G., & Gaissmaier, W. (2011). Heuristic decision making. Annual Review of Psychology, 62, 451–482.

Hayes, S. C., Barnes-Holmes, D., & Roche, B. (2001). Relational frame theory: A post-Skinnerian account of human language and cognition. New York: Plenum Press.

Kahneman, D. (2011). Thinking, fast and slow. New York: Farrar, Straus and Giroux.

Kahneman, D., & Tversky, A. (1979). Prospect theory: An analysis of decision under risk. Econometrica, 47(2), 263–291.

Skinner, B. F. (1953). Science and human behavior. New York: Macmillan.

 

 

 

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