Desejo, Medo e Fuga da Realidade: Uma Leitura Psicanalítica do Impedimento à Realização Profissional do Psicólogo
Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208
Resumo
Este artigo propõe uma articulação psicanalítica entre desejo inconsciente,
medo e mecanismos de defesa, especificamente a fuga da realidade, aplicada à
situação em que o psicólogo encontra obstáculos internos para reconhecer e
realizar o desejo de atuar profissionalmente em uma instituição. Sustenta-se
que o medo não indica ausência de desejo, mas, ao contrário, sua proximidade,
funcionando como sinal de conflito psíquico e de resistência do ego.
Palavras-chave:
Psicanálise; Desejo inconsciente; Medo; Mecanismos de defesa; Fuga da
realidade; Realização profissional.
1. Introdução
Na clínica e na reflexão
psicanalítica, é recorrente a constatação de que sujeitos se veem impedidos de
realizar determinados projetos de vida não por falta de desejo, mas pela
ativação de mecanismos defensivos frente à iminência de sua realização. No caso
do psicólogo que deseja trabalhar em uma instituição, o bloqueio não se dá por
desinteresse, mas pela emergência do medo associado à exposição, à
responsabilidade e ao reconhecimento simbólico implicados nesse lugar. A
psicanálise oferece instrumentos teóricos para compreender essa dinâmica,
especialmente por meio dos conceitos de desejo inconsciente, resistência e fuga
da realidade.
2. O desejo inconsciente e sua lógica
Segundo Freud, o desejo não se
apresenta de forma direta à consciência, pois é submetido aos processos de
repressão e deslocamento próprios do inconsciente. O desejo inconsciente
persiste mesmo quando não é reconhecido pelo sujeito, manifestando-se de forma
indireta, como em sintomas, sonhos ou impasses na ação (FREUD, 1900/1996).
Nesse sentido, o desejo de atuar
institucionalmente como psicólogo não desaparece quando o sujeito afirma não o
enxergar; ele permanece operante no inconsciente, produzindo tensão psíquica. A
dificuldade não está na inexistência do desejo, mas na impossibilidade
momentânea de simbolizá-lo conscientemente.
3. Medo como sinal de proximidade do desejo
Na teoria psicanalítica, o medo e a
angústia não são compreendidos apenas como reações a perigos externos, mas como
sinais internos de conflito. Freud (1926/1996) define a angústia como um sinal
emitido pelo ego diante da ameaça de retorno de conteúdos reprimidos.
Aplicado ao campo profissional, o
medo que surge quando o psicólogo se aproxima de oportunidades institucionais
indica que o desejo está próximo de se atualizar na realidade. A angústia,
portanto, não denuncia a inviabilidade do desejo, mas sua força e relevância.
Quanto mais próximo o desejo da realização, maior pode ser a intensidade da
resistência.
4. A fuga da realidade como mecanismo de defesa
A fuga da realidade pode ser
entendida como uma defesa do ego frente àquilo que provoca excesso de angústia.
Trata-se de um movimento psíquico que evita o confronto direto com a realidade
desejante, mantendo o sujeito em um estado de suspensão, adiamento ou
racionalização (FREUD, 1911/1996).
No caso em análise, a fuga da
realidade impede o psicólogo de reconhecer plenamente seu desejo institucional,
protegendo-o do medo associado à assunção de um lugar simbólico mais definido.
Essa defesa pode se manifestar como procrastinação, autodepreciação, dúvida
constante ou desqualificação das próprias competências.
5. Desejo, resistência e responsabilização
subjetiva
Lacan aprofunda essa discussão ao
afirmar que o desejo implica sempre uma responsabilização subjetiva, pois
desejar é assumir uma posição diante do Outro e da ordem simbólica (LACAN,
1958/1998). Trabalhar em uma instituição não é apenas exercer uma função, mas
ocupar um lugar reconhecido, atravessado por normas, olhares e expectativas.
Assim, a fuga da realidade não deve
ser interpretada como falha moral ou fraqueza de caráter, mas como expressão de
uma resistência estrutural diante da responsabilidade que o desejo convoca.
Reconhecer essa resistência é um passo fundamental para que o sujeito possa
elaborar o medo e reposicionar-se frente ao próprio desejo.
6. Considerações finais
Do ponto de vista psicanalítico, o
impedimento à realização profissional não deve ser lido como ausência de
desejo, mas como efeito de um conflito entre desejo e medo. A fuga da realidade
surge como mecanismo de defesa que protege o ego da angústia, ao mesmo tempo em
que sinaliza a proximidade da realização desejada.
Trabalhar analiticamente essa
dinâmica permite ao sujeito transformar o medo em material de elaboração
psíquica, favorecendo a passagem do desejo inconsciente à ação consciente.
Assim, o bloqueio deixa de ser obstáculo absoluto e passa a ser compreendido
como parte do próprio processo de constituição subjetiva.
Referências bibliográficas
FREUD, S. A interpretação dos
sonhos (1900). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. Formulações sobre os
dois princípios do funcionamento mental (1911). In: Edição Standard
Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de
Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. Inibição, sintoma e
angústia (1926). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
LACAN, J. A direção do
tratamento e os princípios de seu poder (1958). In: Escritos. Rio de
Janeiro: Zahar, 1998.
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