Uma reflexão sobre trabalho, existência e alienação no contexto organizacional contemporâneo
Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior
Psicólogo CRP 06/147208
Introdução
"Por que eu ainda preciso
estar aqui no supermercado trabalhando como fiscal de caixa para existir?"
Esta pergunta, aparentemente simples, encapsula décadas de debate filosófico,
sociológico e econômico sobre a relação entre trabalho, identidade e existência
humana. A questão não se refere apenas à sobrevivência material, mas toca em
dimensões mais profundas: o que significa existir em um sistema onde nossa
presença física em determinado espaço organizacional parece ser a condição para
nossa própria validação social e econômica?
A Existência Condicionada ao Trabalho Assalariado
Marx (1844/2010) já identificava no
século XIX que, no sistema capitalista, o trabalhador "só se sente
livremente ativo em suas funções animais - comer, beber e procriar (...) -
enquanto em suas funções humanas se vê reduzido a animal" (p. 83). O
trabalho alienado transforma a atividade vital humana em mero meio de
subsistência. No contexto do fiscal de caixa, essa alienação se manifesta de
forma particularmente aguda: a pessoa não existe para si mesma, mas para ocupar
uma função específica na engrenagem do supermercado.
A modernidade tardia intensificou
essa condição. Como observa Bauman (2001), vivemos em uma "modernidade
líquida" onde as relações de trabalho se tornaram precárias e os
indivíduos são constantemente forçados a justificar sua existência através de
sua utilidade econômica. O trabalhador do varejo não é reconhecido por sua
humanidade integral, mas por sua capacidade de fiscalizar, controlar e garantir
a lucratividade da operação.
A Estrutura Organizacional como Sistema de
Controle
Foucault (1975/2014) nos oferece
ferramentas conceituais fundamentais para compreender por que alguém
"precisa estar" em determinado lugar organizacional. Sua análise
sobre os mecanismos disciplinares mostra como as organizações modernas funcionam
através da vigilância hierárquica, da sanção normalizadora e do exame contínuo.
O fiscal de caixa é simultaneamente vigia e vigiado - ele controla os
operadores de caixa, mas está sob o controle gerencial que verifica se ele está
cumprindo sua função de controle.
Segundo Foucault (2014), "o
poder disciplinar é com efeito um poder que, em vez de se apropriar e de
retirar, tem como função maior 'adestrar'" (p. 164). A presença
obrigatória no espaço organizacional não é apenas uma necessidade operacional, mas
um mecanismo de docilização dos corpos. O trabalhador precisa estar ali,
naquele horário específico, naquela posição física, realizando aqueles gestos
determinados - não porque isso seja intrinsecamente necessário para sua
existência humana, mas porque o sistema organizacional se estrutura através
desse controle espacial e temporal.
A Dimensão Contratual e a Ilusão da Liberdade
Do ponto de vista jurídico-formal,
a relação de trabalho se apresenta como um contrato livre entre partes iguais.
No entanto, como aponta Standing (2011) em sua análise do
"precariado", essa liberdade é largamente ilusória. O trabalhador
"escolhe" estar naquele supermercado da mesma forma que escolhe
respirar - é uma necessidade disfarçada de decisão voluntária.
A subordinação jurídica, conceito
central do direito do trabalho, implica que o empregado deve cumprir ordens,
estar disponível e presente conforme determinado pelo empregador. Como explica
Delgado (2017), "subordinação é a situação jurídica derivada do contrato
de trabalho, pela qual o empregado compromete-se a acolher o poder de direção
empresarial no tocante ao modo de realização de sua prestação de serviços"
(p. 342). Em termos práticos, isso significa que sua existência organizacional
é totalmente heterodirigida - você existe ali porque e enquanto outros
determinam.
A Substituibilidade e o Terror da Redundância
Castel (1995) demonstra como a
sociedade salarial moderna criou zonas de integração, vulnerabilidade e
desfiliação social. O trabalhador do varejo ocupa tipicamente uma posição de
vulnerabilidade: integrado o suficiente para depender do salário, mas suficientemente
substituível para viver sob constante ameaça de redundância.
Bauman (2005) desenvolve o conceito
de "vidas desperdiçadas" para descrever aqueles que a sociedade
considera supérfluos. O fiscal de caixa existe naquele espaço organizacional
precisamente porque ainda não foi considerado redundante - seja pela automação,
pela reorganização dos processos ou pela disponibilidade de mão de obra mais
barata. Sua existência ali é, portanto, provisória e condicionada à avaliação
permanente de sua utilidade econômica.
Trabalho, Identidade e Reconhecimento
Dejours (1998) argumenta que o
trabalho não é apenas um meio de subsistência material, mas um espaço crucial
para a construção da identidade e busca por reconhecimento. No entanto, para
que isso ocorra, é necessário que o trabalho ofereça possibilidades de
realização, criatividade e reconhecimento genuíno.
Quando Honneth (2003) desenvolve
sua teoria do reconhecimento, identifica três esferas essenciais: amor
(relações primárias), direito (esfera jurídica) e solidariedade (esfera da
estima social). O trabalhador precarizado do varejo frequentemente experimenta
déficits de reconhecimento em todas essas esferas no contexto organizacional:
suas relações são instrumentais, seus direitos frequentemente violados ou
minimizados, e sua contribuição social desvalorizada.
Sennett (2006) observa que "a
corrosão do caráter" ocorre quando as condições de trabalho modernas
impossibilitam a construção de narrativas de vida coerentes. Como desenvolver
um senso de propósito e continuidade quando se está aprisionado em uma função
cuja lógica é externa à própria existência?
A Perspectiva Fenomenológica: Estar Presente sem
Existir
Sartre (1943/2015) distingue entre
existência e essência, afirmando que "a existência precede a
essência" - somos livres para criar nosso próprio significado. No entanto,
essa liberdade existencial encontra limites concretos nas estruturas sociais e
econômicas. O trabalhador pode estar fenomenologicamente presente no
supermercado - seu corpo ocupa aquele espaço - mas existencialmente ausente,
reduzido a uma função que não escolheu e que não reflete seu projeto de ser.
Heidegger (1927/2012) nos fala da
cotidianidade mediana e da impessoalidade do "a gente" (das Man). No
ambiente organizacional, o trabalhador frequentemente existe no modo da
inautenticidade: faz-se o que "a gente" faz, está-se onde "a
gente" está, sem questionar o sentido dessa presença. A pergunta "por
que eu ainda preciso estar aqui?" representa um lampejo de consciência
autêntica em meio à rotina alienada.
A Função de Vigilância e a Subjetividade Partida
Especificamente no caso do fiscal
de caixa, há uma dimensão adicional de alienação. Como analisa Foucault (2014),
o vigia é ele próprio vigiado - a vigilância cria uma cadeia hierárquica onde
cada elo controla e é controlado. O fiscal não está ali para realizar-se, mas
para garantir que os operadores de caixa executem protocolos desenhados por
outros, protegendo interesses de terceiros (os proprietários ou acionistas).
Essa posição cria o que Goffman
(1961) chamaria de uma "distância do papel" - a consciência aguda de
que se está desempenhando um papel que não se identifica plenamente com o self.
O fiscal sabe que é substituível, que sua função é instrumental, que ele é meio
e não fim.
A Questão da Necessidade Material
Seria ingênuo ignorar a dimensão
mais crua da questão: precisamos comer, pagar aluguel, sobreviver. Como Maslow
(1943) articulou em sua hierarquia de necessidades, as necessidades
fisiológicas e de segurança precedem as necessidades de pertencimento, estima e
autorrealização.
No entanto, o que o capitalismo
tardio fez foi naturalizar um arranjo específico: a ideia de que a única forma
legítima de atender essas necessidades materiais é através da venda da própria
força de trabalho em condições determinadas por outros. Como argumenta Gorz
(2003), criamos uma sociedade onde o "trabalho sem atributos" -
abstrato, fragmentado, heterodeterminado - se tornou a norma, e qualquer
alternativa é vista como utópica ou irresponsável.
Alternativas Conceituais: Renda Básica e
Descolamento
Autores contemporâneos como Srnicek
e Williams (2015) propõem o "pós-trabalho" - uma sociedade onde a
sobrevivência material não depende da venda da força de trabalho. A renda
básica universal, defendida por Van Parijs e Vanderborght (2017), representaria
uma resposta material à questão: você não precisaria estar naquele supermercado
para existir porque suas necessidades básicas estariam garantidas
independentemente.
No entanto, essas propostas
enfrentam não apenas resistência política e econômica, mas também um desafio
cultural profundo. Séculos de ética protestante do trabalho, como analisada por
Weber (1904/2004), criaram uma sociedade onde o valor pessoal está intrinsecamente
ligado à atividade laboral produtiva. Existir sem trabalhar é visto como
parasitismo, preguiça, imoralidade.
A Dimensão Espacial e Temporal da Presença
Obrigatória
Lefebvre (1974/1991) nos ensina que
o espaço não é um contêiner neutro, mas um produto social investido de relações
de poder. O espaço do supermercado é projetado para otimizar fluxos de
mercadorias e extrair mais-valia. A presença do fiscal naquele espaço
específico não é acidental - é parte de uma arquitetura de controle.
Da mesma forma, a exigência de
presença em horários determinados representa o que Thompson (1967) chamou de
"disciplina temporal" do capitalismo industrial. Você não pode
existir em seu próprio tempo; seu tempo foi comprado e deve ser gasto conforme
determinado pela organização.
Resistência e Agência nos Interstícios
Seria equivocado apresentar o
trabalhador apenas como vítima passiva. Scott (1985) documenta as "armas
dos fracos" - formas cotidianas de resistência que, embora não transformem
o sistema, criam espaços de agência e dignidade. O fiscal de caixa pode
encontrar pequenos momentos de subversão, solidariedade com colegas, ou
simplesmente preservação de sua humanidade em meio à instrumentalização.
De Certeau (1984) distingue entre
"estratégias" (usadas pelos poderosos) e "táticas" (usadas
pelos subordinados). Enquanto a organização emprega estratégias de controle, os
trabalhadores desenvolvem táticas de sobrevivência e resistência - conversas
não autorizadas, ritmos próprios, formas de "fazer de conta" que
trabalham enquanto preservam algo de si.
Considerações Finais: A Pergunta Permanece
"Por que eu ainda preciso
estar aqui para existir?" A pergunta não tem resposta simples porque
articula contradições fundamentais da organização social contemporânea. Você
precisa estar ali porque:
1.
Materialmente, o sistema estruturou o acesso aos meios de
subsistência através da venda da força de trabalho.
2.
Juridicamente, você estabeleceu um contrato que o subordina
espacial e temporalmente.
3.
Organizacionalmente, sua função foi definida como necessária para a
operação e lucratividade do estabelecimento.
4.
Socialmente, sua identidade e reconhecimento estão parcialmente
vinculados à sua inserção no mundo do trabalho.
5.
Existencialmente, você está aprisionado entre a necessidade de
sobreviver e o desejo de existir autenticamente.
Mas você também não precisa estar
ali no sentido mais profundo - sua existência humana não depende
intrinsecamente daquele lugar específico. O que Marx (1844/2010) nos ensinou é
que essa confusão entre existência e função social é precisamente o que caracteriza
a alienação: quando esquecemos que as relações sociais são construções humanas
e podem ser reconstruídas.
A pergunta que você faz é,
portanto, revolucionária em seu cerne. Ela recusa a naturalização do arranjo
atual e exige justificação para um estado de coisas que beneficia alguns à
custa de outros. Não ter uma resposta satisfatória não invalida a pergunta -
pelo contrário, evidencia a irracionalidade de um sistema que não consegue
justificar a si mesmo.
Referências
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