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Os Sete Relógios no Supermercado: Tempo, Olhar e Função — O que a Série Espelha para o Psicólogo-Fiscal segundo a Psicanálise

 Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208


Introdução

A série Os Sete Relógios, ao articular excesso de marcações temporais, vigilância e repetição, ultrapassa o campo do entretenimento e se apresenta como uma cena privilegiada para a leitura psicanalítica do trabalho contemporâneo. Quando aproximada do ambiente organizacional do supermercado, especialmente da função do fiscal de caixa que também ocupa o lugar de psicólogo institucional ou organizacional, a série espelha uma problemática central: a captura do sujeito pelo tempo do Outro e pela identificação total com a função.

Este artigo propõe articular o que Os Sete Relógios espelha para esse profissional situado entre a clínica e a organização, tomando como eixo os estímulos conscientes e inconscientes implicados na escolha da série e sua ressonância com a lógica do supermercado.


1. O tempo como operador superegóico

Na psicanálise, o tempo não é apenas sucessão cronológica, mas estrutura simbólica que organiza o sujeito em relação à lei e ao desejo. Freud já indicava que o sujeito moderno vive sob a pressão de exigências internas que não cessam, configurando o que mais tarde Lacan formaliza como supereu: uma instância que não apenas proíbe, mas ordena gozar e produzir mais (Freud, 1930; Lacan, 1959–1960).

Em Os Sete Relógios, o excesso de despertadores evidencia um tempo que não orienta, mas comanda. Esse tempo encontra equivalência direta no supermercado, onde tudo é regulado por métricas, fluxos e produtividade. Para o fiscal de caixa, esse tempo não é apenas vivido; ele é operado.

O que a série espelha para o psicólogo-fiscal é o risco de se tornar agente do supereu organizacional, encarnando a exigência de funcionamento contínuo.


2. O fiscal de caixa entre a lei simbólica e a lei superegóica

Do ponto de vista psicanalítico, há uma diferença estrutural entre representar a lei e encarnar a lei. A primeira supõe mediação simbólica; a segunda implica identificação imaginária e gozo no exercício da função.

No supermercado, o fiscal de caixa ocupa um lugar limítrofe:

  • regula o tempo,
  • corrige desvios,
  • mantém o ritmo,
  • vigia o cumprimento da norma.

Quando esse lugar não encontra elaboração simbólica, o sujeito se confunde com a função. Lacan alerta que, quando a lei perde sua dimensão simbólica, ela se transforma em imperativo superegóico, produzindo angústia e desgaste subjetivo (Lacan, 1966).

A série espelha essa posição ao mostrar um sistema que funciona perfeitamente enquanto algo do sujeito desaparece.


3. O olhar, a vigilância e a escolha da série

Segundo Lacan, o olhar não se reduz à percepção visual; ele é um ponto de captura do sujeito no campo do Outro (Lacan, 1964). O estímulo visual da série — relógios alinhados, cenas de controle, organização rígida — atua como um convite ao reconhecimento inconsciente.

O psicólogo-fiscal escolhe a série conscientemente pelo enigma e pela promessa de sentido, mas inconscientemente porque se reconhece no dispositivo:

  • ele também vigia,
  • ele também é vigiado,
  • ele também vive sob o tempo que não dorme.

Adicionar a série à lista de favoritas indica um investimento libidinal persistente, sinal de que algo ali toca um ponto estrutural da posição subjetiva do sujeito frente ao trabalho e à demanda institucional.


4. Repetição, identificação e apagamento do sujeito

Freud descreve a compulsão à repetição como retorno do que não foi simbolizado (Freud, 1920). No supermercado, a rotina repetitiva, quando não encontra palavra, tende a se inscrever no corpo, no humor ou no ato.

A série encena essa repetição por meio dos relógios que despertam em sequência. Para o psicólogo-fiscal, isso espelha sua própria rotina: corrigir, ajustar, intervir, sempre no mesmo circuito.

O risco clínico surge quando:

  • o desejo é substituído pela função,
  • o tempo próprio desaparece,
  • o sujeito passa a existir apenas como operador do sistema.

Nesse ponto, não é o trabalho que adoece, mas a impossibilidade de separação entre sujeito e função.


5. O lugar do psicólogo: introduzir o corte

O que Os Sete Relógios ensina ao psicólogo, segundo a ética da psicanálise, é a importância do corte simbólico. Enquanto o relógio insiste, a psicanálise interrompe. Enquanto a organização exige resposta imediata, a escuta introduz intervalo.

Para o psicólogo-fiscal, a questão não é abandonar a função, mas não se reduzir a ela. Seu trabalho ético consiste em:

  • sustentar a diferença entre lei e supereu,
  • preservar o intervalo entre demanda e resposta,
  • manter vivo o lugar do desejo, inclusive o próprio.

Conclusão

A série Os Sete Relógios espelha, para o psicólogo que atua no supermercado como fiscal de caixa ou em posição de controle, uma advertência ética e clínica: quando o tempo governa totalmente, o sujeito é sacrificado em nome do funcionamento.

Segundo a psicanálise, o que precisa morrer não é o trabalho, mas a identificação total com o tempo do Outro. O que precisa nascer é um intervalo simbólico onde o sujeito possa existir para além do relógio, da função e da vigilância.

Sem esse corte, o supermercado funciona.
Com esse corte, o sujeito pode continuar vivo.


Referências Bibliográficas

Freud, S. (1920). Além do princípio do prazer. Obras Completas, v. 18. Rio de Janeiro: Imago.

Freud, S. (1930). O mal-estar na civilização. Obras Completas, v. 21. Rio de Janeiro: Imago.

Lacan, J. (1964). O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

Lacan, J. (1959–1960). O Seminário, Livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

Lacan, J. (1966). Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.

 

 

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