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Da Subjetivação ao Salário Mínimo: Compulsão à Repetição, Trabalho e Elaboração Psíquica

 Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208


Resumo

O presente artigo analisa a trajetória de um sujeito cuja história laboral é marcada por alternâncias entre posições de forte investimento subjetivo e funções esvaziadas de sentido simbólico, acompanhadas de rebaixamento salarial. Parte-se da inserção inicial, na juventude, em uma função técnica altamente qualificada e socialmente reconhecida, passando por sucessivas tentativas de reinscrição subjetiva por meio da teologia e da psicologia, até o retorno reiterado a trabalhos simples no mercado precarizado. A análise, orientada pela psicanálise, interpreta tal percurso como expressão de uma compulsão à repetição vinculada à perda da subjetividade no trabalho. Discute-se, por fim, como o sujeito pode operar um movimento de demovência dessa repetição por meio da elaboração simbólica e da retificação de sua posição subjetiva frente ao desejo.

Palavras-chave: trabalho, subjetividade, compulsão à repetição, psicanálise, elaboração.


1. Introdução

O trabalho ocupa, na modernidade, uma função central na constituição da identidade e da subjetividade. Não se trata apenas de um meio de subsistência, mas de um campo privilegiado de inscrição simbólica do sujeito no laço social. Quando essa inscrição falha ou é rompida, podem emergir efeitos clínicos importantes, entre eles a repetição insistente de trajetórias marcadas pela perda de sentido e pelo sofrimento.

Este artigo propõe analisar, à luz da psicanálise freudiana e lacaniana, a trajetória de um sujeito que, após experimentar uma forma de trabalho fortemente subjetivada e bem remunerada, passa a circular por diferentes formações e ocupações, retornando repetidamente a funções desprovidas de reconhecimento simbólico e mal remuneradas.


2. O início: técnica, saber e subjetividade

Na juventude, o sujeito ingressa na graduação em Técnico em Mecânica e passa a trabalhar em uma multinacional importante e conceituada no ramo de pneus e sistemas pneumáticos. Nesse contexto, exerce a função de técnico em mecânica, aplicando conhecimentos especializados, resolvendo problemas complexos e sendo reconhecido por seu saber-fazer.

Do ponto de vista psicanalítico, esse momento pode ser compreendido como uma articulação bem-sucedida entre saber, desejo e laço social. O trabalho opera como um significante-mestre que organiza a posição subjetiva do sujeito: ele “é” técnico em mecânica, e essa identificação sustenta tanto sua autoestima quanto sua inserção social. A remuneração elevada não é apenas econômica, mas também simbólica, funcionando como marca de reconhecimento do Outro social.


3. A demissão e a perda da identificação

A demissão rompe brutalmente essa articulação. O sujeito não perde apenas o emprego, mas a identificação que sustentava sua subjetividade. Freud já apontava que perdas dessa ordem podem produzir efeitos semelhantes ao luto, exigindo um trabalho psíquico de elaboração (Freud, 1917/2010).

No período de desemprego, observa-se uma dupla desidentificação:

1.      Desidentificação subjetiva, pois o sujeito já não se reconhece na função que o nomeava.

2.      Desidentificação salarial, uma vez que o padrão de remuneração anterior deixa de ser acessível.

Esse vazio abre espaço para a busca de novas formas de subjetivação.


4. Teologia: tentativa de reinscrição simbólica e decepção

Na tentativa de reconstruir um lugar subjetivo, o sujeito ingressa na graduação em teologia. Aqui, o investimento não se orienta apenas pelo salário, mas pelo desejo de ocupar um lugar de sentido, autoridade simbólica e reconhecimento — o lugar do teólogo ou do pastor.

Contudo, a instituição não oferece condições para que esse lugar se concretize. O sujeito não encontra espaço para exercer efetivamente a função desejada. A consequência é a decepção, que pode ser lida como um novo fracasso na tentativa de obter reconhecimento do Outro institucional. O ideal investido não retorna sob a forma de uma posição concreta no laço social.


5. Retorno ao mercado precarizado: trabalho sem subjetividade

Após essa frustração, o sujeito retorna ao mercado de trabalho em funções simples: telemarketing e operador de retífica plana. São ocupações marcadas pela repetição mecânica, baixo reconhecimento simbólico e remuneração restrita ao salário mínimo.

Nesses trabalhos, o sujeito não se vê representado. O trabalho deixa de operar como suporte da subjetividade e passa a funcionar apenas como meio de sobrevivência. Lacan descreve esse tipo de posição como uma relação do sujeito com o trabalho esvaziada de desejo, onde o sujeito se aproxima da condição de objeto do discurso capitalista (Lacan, 1969–1970/1992).


6. Psicologia: subjetividade sem sustentação material

Posteriormente, o sujeito ingressa na graduação em psicologia. No consultório particular, encontra novamente a possibilidade de subjetivação: escuta, transferência, elaboração simbólica e reconhecimento clínico. Há, aqui, uma retomada do sentido do trabalho como prática ligada ao desejo.

Entretanto, essa posição não se sustenta economicamente. A escassez de honorários impede que o consultório funcione como base material de existência. O sujeito se vê, então, forçado a retornar ao mercado de trabalho formal em funções simples, primeiro como operador de caixa e depois como fiscal de caixa em supermercado.


7. A compulsão à repetição: ausência de subjetividade e baixa remuneração

Esse retorno não é contingente, mas estrutural. Ele sinaliza uma compulsão à repetição, conceito formulado por Freud para designar a tendência do sujeito a repetir experiências de perda, fracasso ou sofrimento, mesmo quando estas produzem desprazer (Freud, 1920/2010).

No caso analisado, a repetição organiza-se em torno de dois eixos:

  • Perda da subjetividade no trabalho
  • Rebaixamento salarial

Sempre que o sujeito se aproxima de um trabalho subjetivado, ocorre uma ruptura que o lança novamente em funções desprovidas de sentido simbólico. O supermercado, nesse contexto, representa o ponto de máxima objetificação: o sujeito é reduzido à função, ao controle e à vigilância, sem espaço para o desejo.


8. Demover-se da repetição: elaboração e retificação subjetiva

A saída da compulsão à repetição não se dá pela simples mudança externa de emprego ou formação. Ela exige um trabalho de elaboração psíquica, no qual o sujeito possa simbolizar as perdas e interrogar sua própria posição na repetição.

Segundo Freud, a elaboração (Durcharbeitung) implica transformar a repetição em lembrança, isto é, fazer passar pelo simbólico aquilo que retorna no real (Freud, 1914/2010). Lacan, por sua vez, enfatiza a necessidade de uma retificação subjetiva, na qual o sujeito se reconheça implicado naquilo que lhe acontece (Lacan, 1953–1954/1986).

Demover-se da repetição implica:

1.      Reconhecer que a perda da subjetividade no trabalho não é apenas imposta pelo mercado, mas também sustentada por escolhas inconscientes.

2.      Interrogar o ideal de reconhecimento que organiza suas formações sucessivas.

3.      Diferenciar desejo de ideal do Outro, evitando buscar incessantemente um lugar que garanta completude simbólica.

Somente a partir dessa elaboração o sujeito pode construir uma nova relação com o trabalho, que não esteja fundada nem na idealização total nem na submissão ao puro salário.


9. Considerações finais

A trajetória analisada revela como o trabalho pode funcionar tanto como operador de subjetivação quanto como espaço de alienação radical. A repetição da perda de subjetividade e de remuneração não é mero acaso, mas expressão de uma lógica inconsciente que demanda elaboração.

Interromper definitivamente a compulsão à repetição exige que o sujeito se reposicione frente ao desejo, aceitando a incompletude estrutural e construindo arranjos singulares entre trabalho, reconhecimento e sustento material. A psicanálise, nesse sentido, não oferece garantias, mas possibilita ao sujeito não ser apenas repetido por sua história.


Referências Bibliográficas

  • Freud, S. (1914/2010). Recordar, repetir e elaborar. In Obras completas, vol. 10. São Paulo: Companhia das Letras.
  • Freud, S. (1917/2010). Luto e melancolia. In Obras completas, vol. 12. São Paulo: Companhia das Letras.
  • Freud, S. (1920/2010). Além do princípio do prazer. In Obras completas, vol. 14. São Paulo: Companhia das Letras.
  • Lacan, J. (1953–1954/1986). O seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Zahar.
  • Lacan, J. (1969–1970/1992). O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

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