Entre Pares e Lugares: Limites Clínicos e Éticos do Atendimento Psicanalítico entre Psicólogos Colegas
Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208
Resumo
O presente artigo analisa, à luz da
psicanálise de orientação freudiana e lacaniana, os impasses clínicos e éticos
decorrentes do atendimento psicoterapêutico entre psicólogos que mantêm vínculo
prévio de coleguismo. A partir de uma vinheta clínica em que um psicólogo, na
posição de paciente, desqualifica o lugar analítico do colega que o atende,
discutem-se os efeitos da não instalação do Sujeito Suposto Saber, a
predominância do registro imaginário e a fragilização do enquadre simbólico.
Articulam-se tais elementos com o Código de Ética Profissional do Psicólogo,
sustentando-se que, em determinadas configurações, a interrupção responsável do
atendimento constitui ato clínico e ético.
Palavras-chave:
Psicanálise; Transferência; Ética profissional; Psicólogos; Lacan.
1. Introdução
A prática clínica em psicanálise
impõe condições específicas para sua efetivação, dentre as quais se destacam a
sustentação do enquadre, a assimetria funcional e a instalação da
transferência. Quando o atendimento ocorre entre psicólogos que compartilham
vínculos prévios de formação ou atuação profissional, tais condições podem ser
tensionadas, produzindo impasses clínicos e dilemas éticos relevantes.
Este artigo propõe uma análise
teórico-clínica de uma situação em que um psicólogo solicita atendimento
psicanalítico a um colega de mesma formação, vindo posteriormente a
desqualificar sua posição enquanto analista. Busca-se demonstrar que tal
enunciação não deve ser compreendida como avaliação técnica objetiva, mas como
manifestação transferencial que evidencia a impossibilidade de sustentação do
lugar analítico nessa configuração.
2. Referencial Teórico
2.1. Transferência e Sujeito Suposto Saber
Freud (1912/1996) concebe a
transferência como elemento central da experiência analítica, na medida em que
reedita, na relação com o analista, protótipos de vínculos anteriores. Lacan
(1964/2008) reformula esse conceito ao introduzir a noção de Sujeito Suposto
Saber (SSS), indicando que o analista ocupa um lugar simbólico a partir da
suposição de que detém um saber sobre o inconsciente do sujeito.
Sem essa suposição, não há análise
possível, mas apenas circulação discursiva no registro do saber consciente.
Assim, a transferência não se confunde com simpatia, afinidade ou
reconhecimento profissional, mas com a atribuição de um lugar específico na economia
do desejo.
2.2. Os registros Imaginário, Simbólico e Real
Lacan (1953/1998) propõe que a
experiência subjetiva se organiza a partir da articulação entre três registros:
- Imaginário, ligado às identificações, rivalidades e
relações especulares;
- Simbólico, associado à linguagem, à lei e à função;
- Real, entendido como aquilo que resiste à
simbolização plena.
Na clínica, a predominância do
registro imaginário tende a produzir impasses, uma vez que dissolve a diferença
de lugares necessária à operação analítica.
3. Vinheta Clínica e Análise
Na situação analisada, um psicólogo
procura outro psicólogo, colega de formação, para atendimento psicanalítico em
razão de conflitos amorosos. Em determinado momento do processo, o
paciente-profissional afirma:
“Você não serve para ser
psicanalista, mas para ser supervisor de casos clínicos, porque vê a situação
diferente do supervisor Eduardo Bilbao.”
Do ponto de vista psicanalítico,
tal enunciação não se dirige à competência técnica do analista, mas ao lugar
que lhe é atribuído na transferência. Ao reposicionar o analista como
“supervisor”, o paciente o desloca do lugar de causa do seu dizer para o lugar
de avaliador ou par profissional.
Observa-se, assim, a não
instalação do Sujeito Suposto Saber, condição que inviabiliza a experiência
analítica (Lacan, 1964/2008). Ademais, a comparação com um terceiro
profissional introduz uma lógica de rivalidade e hierarquização típica do
registro imaginário, em detrimento da função simbólica do analista.
4. Impasses Clínicos: Da Rivalidade à Resistência
A permanência da relação no
registro imaginário produz efeitos clínicos importantes. O conflito amoroso que
motivara a busca por análise é deslocado para uma cena de avaliação
profissional, funcionando como mecanismo de defesa frente à implicação subjetiva
exigida pelo processo analítico.
Tal deslocamento pode ser
compreendido como resistência, na medida em que o sujeito evita confrontar-se
com a falta e com a castração simbólica, elementos centrais da ética da
psicanálise (Lacan, 1959-1960/2008). A crítica ao analista opera, assim, como tentativa
de restabelecer uma posição narcísica de paridade e controle.
5. Limites Éticos do Atendimento entre Colegas
Do ponto de vista ético, o Código
de Ética Profissional do Psicólogo estabelece que o profissional deve evitar
situações que comprometam a neutralidade técnica e a clareza dos papéis (CFP,
2005). O atendimento psicoterapêutico entre colegas, embora não seja vedado a
priori, requer avaliação rigorosa das condições de enquadre.
Quando a relação prévia e a
dinâmica transferencial inviabilizam a sustentação do lugar clínico, a
continuidade do atendimento deixa de ser eticamente justificável. Nesses casos,
o encerramento responsável do processo, com encaminhamento a outro profissional,
não configura abandono, mas ato ético coerente com a responsabilidade
profissional.
6. Considerações Finais
A análise apresentada permite
concluir que o atendimento psicanalítico entre psicólogos colegas pode revelar
impasses estruturais relacionados à transferência, à rivalidade imaginária e à
fragilização do enquadre simbólico. A fala que desqualifica o analista não deve
ser tomada como juízo técnico, mas como manifestação de resistência e recusa do
lugar analítico.
Sustenta-se, portanto, que a ética
da psicanálise e o Código de Ética Profissional do Psicólogo convergem ao
indicar que, quando não há condições para a instalação do Sujeito Suposto
Saber, a interrupção do atendimento constitui a única via clínica e eticamente
responsável.
Referências Bibliográficas
CFP – CONSELHO FEDERAL DE
PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Resolução CFP nº
010/2005. Brasília: CFP, 2005.
FREUD, S. (1912). A dinâmica da
transferência. In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XII. Rio de Janeiro: Imago,
1996.
FREUD, S. (1915). Observações
sobre o amor transferencial. In: Edição Standard Brasileira. Vol.
XII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
LACAN, J. (1953). O simbólico, o
imaginário e o real. In: LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 1998.
LACAN, J. (1964). O seminário,
livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 2008.
LACAN, J. (1959-1960). O
seminário, livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
2008.
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