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TEXTO CLÍNICO-AUTOBIOGRÁFICO

 Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208

Título: Quando a função começa a falhar

Ao longo de minha atuação em uma função de fiscalização, fui progressivamente percebendo que o bom funcionamento institucional tem um custo subjetivo silencioso. Sustentar a ordem, garantir a continuidade e evitar falhas exige, muitas vezes, que o sujeito se apague em favor da função.

Essa constatação não surgiu de forma teórica, mas a partir de pequenos acontecimentos cotidianos: atos falhos aparentemente banais, como executar um gesto inteiro sem acessar seu efeito, ou trocar o nome de pessoas no momento exato em que se organizam substituições e coberturas. Esses eventos não produziram prejuízos práticos, mas produziram uma pergunta clínica.

Passei a escutá-los não como distrações, mas como sinais de um excesso de identificação à função. Neles, algo do sujeito insistia em aparecer justamente onde a instituição exige fluidez, rapidez e neutralidade. Os atos falhos tornaram-se, assim, indicadores mínimos de um sofrimento que ainda não encontra lugar na palavra.

Foi a partir dessa escuta que comecei a elaborar um interesse clínico pela relação entre sujeito e instituição, especialmente em contextos de controle, vigilância e desempenho. Meu desejo de atuar como psicólogo institucional nasce desse ponto: da necessidade de criar espaços onde o sujeito possa se separar minimamente da função sem que isso implique ruptura, culpa ou fracasso.

Essa trajetória não é um abandono do lugar ocupado, mas sua elaboração clínica. O que foi vivido como função passa a ser transformado em campo de escuta e intervenção.


2. FORMULAÇÃO DO EIXO CLÍNICO

Nome do eixo

Atos falhos e apagamento subjetivo em contextos institucionais de controle

Tese central

Em instituições organizadas a partir da lógica do desempenho, da vigilância e da substituição constante, o sujeito tende a se identificar excessivamente à função. Os atos falhos emergem como manifestações mínimas de resistência psíquica, preservando o lugar do desejo onde o discurso institucional tende ao apagamento da singularidade.

Fundamentos teóricos

  • Psicanálise freudiana: ato falho como formação do inconsciente
  • Lacan: alienação ao discurso do Outro institucional e dificuldade de separação
  • Clínica do trabalho: sofrimento não reconhecido e despersonalização funcional

Diferencial clínico

O eixo não visa corrigir erros nem adaptar o sujeito ao funcionamento institucional, mas reintroduzir o sujeito no laço, a partir da escuta do que falha discretamente.


3. PROJETO DE ATUAÇÃO INSTITUCIONAL

3.1 Título do projeto

Escuta clínica do cotidiano institucional: atos falhos, automatismos e sofrimento silencioso no trabalho


3.2 Justificativa

Instituições frequentemente lidam com indicadores objetivos de desempenho, mas carecem de dispositivos de escuta do sofrimento subjetivo que não se expressa como adoecimento manifesto. Pequenos lapsos, esquecimentos e automatismos são frequentemente desconsiderados, apesar de funcionarem como sinais precoces de desgaste psíquico.

A proposta deste projeto é oferecer um espaço clínico que permita a elaboração desses sinais antes que se convertam em sintomas mais graves.


3.3 Objetivo geral

Criar um dispositivo de escuta clínica institucional voltado à identificação e elaboração dos efeitos subjetivos da identificação excessiva à função.


3.4 Objetivos específicos

  • Oferecer espaço de palavra para trabalhadores em funções de controle e supervisão
  • Trabalhar atos falhos e pequenos erros como material clínico, não disciplinar
  • Favorecer a separação simbólica entre sujeito e função
  • Prevenir adoecimentos psíquicos ligados ao apagamento subjetivo

3.5 Público-alvo

  • Trabalhadores em funções de fiscalização, supervisão e coordenação
  • Profissionais em posições intermediárias na hierarquia institucional
  • Sujeitos expostos a alta demanda de atenção, controle e responsabilidade

3.6 Metodologia

  • Atendimentos individuais de escuta clínica
  • Intervenções pontuais baseadas na fala do sujeito
  • Valorização dos lapsos, trocas e esquecimentos como material simbólico
  • Ausência de protocolos avaliativos ou corretivos

3.7 Ética da intervenção

  • Não adaptação forçada ao sistema
  • Não patologização do trabalhador
  • Confidencialidade e escuta não moralizante
  • Centralidade da palavra do sujeito

4. ARTICULAÇÃO FINAL (síntese)

O percurso do fiscal ao psicólogo institucional não é uma fuga, mas uma transformação do vivido em saber clínico.
Os atos falhos não prometeram um futuro, mas impediram o apagamento completo do desejo.
A partir deles, tornou-se possível sustentar uma posição ética de escuta, fundada na experiência e na elaboração.


5. CONCLUSÃO

Você não está apenas acreditando que há possibilidade.
Você está construindo legitimidade simbólica.

Esse conjunto — texto, eixo e projeto — é coerente, transmissível e clinicamente sólido. Ele pode ser apresentado, defendido e sustentado.

Se quiser, no próximo passo posso:

  • Ajustar o texto para normas acadêmicas específicas,
  • Adaptar o projeto para edital ou instituição concreta,
  • Ou trabalhar o medo de não reconhecimento como capítulo clínico central dessa trajetória.

 

 

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