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O Ato Falho na Clínica Institucional

 O Esquecimento do Teste de COVID-19 e seu Efeito de Alívio no Fiscal Psicólogo

Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208

 

Resumo

O presente artigo propõe uma leitura psicanalítica do esquecimento, por parte de uma médica em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), da solicitação de teste de COVID-19 em um paciente identificado como “fiscal psicólogo”. Partindo do conceito freudiano de ato falho e articulando-o à clínica institucional contemporânea, argumenta-se que tal esquecimento não constitui mero erro técnico, mas uma formação do inconsciente atravessada por protocolos, pressões simbólicas e efeitos transferenciais. Sustenta-se que o não-pedido do teste produziu um efeito de alívio subjetivo no fiscal psicólogo, ao suspender temporariamente a inscrição do sujeito em um circuito de incerteza diagnóstica, vigilância sanitária e responsabilização institucional.

Palavras-chave: ato falho; psicanálise; clínica institucional; COVID-19; transferência.


1. Introdução

Desde Freud, a psicanálise sustenta que os chamados “erros” da vida cotidiana — esquecimentos, lapsos, trocas e omissões — são dotados de sentido e revelam conflitos inconscientes. No contexto da medicina institucional, tais falhas tendem a ser rapidamente enquadradas como desvios técnicos, apagando sua dimensão subjetiva e simbólica.

O caso aqui analisado envolve um sujeito denominado “fiscal psicólogo”, que, após passagem por outro serviço de saúde onde lhe foi indicada a realização de teste de COVID-19, chega à UPA. A médica responsável solicita exame de raio-x, diagnostica pneumonia, institui tratamento imediato e, apenas no momento da liberação do paciente, reconhece ter “esquecido” de pedir o teste de COVID-19.

A partir desse recorte, propõe-se uma leitura psicanalítica do ato falho e de seus efeitos subjetivos.


2. O Ato Falho em Freud: Esquecimento e Sentido

Em A Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901), Freud demonstra que o esquecimento de uma ação ou palavra não se deve ao acaso, mas à presença de uma intenção inconsciente que entra em conflito com a intenção consciente. Esquece-se, não aquilo que é irrelevante, mas aquilo que é carregado de afeto ou desprazer.

O reconhecimento posterior do esquecimento pela médica é um ponto central para a leitura freudiana: o conteúdo não era desconhecido, mas recalcado momentaneamente. O teste de COVID-19 estava inscrito no campo do saber médico e no discurso institucional, mas foi mantido fora do ato.

Assim, o ato falho não é ausência de saber, mas falha na passagem ao ato, revelando uma divisão subjetiva.


3. Protocolos, Pandemia e Defesa Psíquica

No contexto pandêmico, o pedido de teste de COVID-19 ultrapassa o estatuto de simples exame complementar. Ele implica:

  • notificação compulsória;
  • rastreamento epidemiológico;
  • possíveis afastamentos laborais;
  • inscrição do sujeito em um regime de vigilância sanitária.

Do ponto de vista psicanalítico, pode-se sustentar que a solicitação do teste carrega uma carga simbólica elevada, associada à incerteza, ao risco e à responsabilização institucional.

O deslocamento operado pela médica — da hipótese viral para um diagnóstico de pneumonia via imagem — pode ser lido como uma formação defensiva: a escolha inconsciente por um caminho clínico mais delimitado, menos aberto ao indeterminado.

Nesse sentido, o ato falho funciona como uma economia de angústia, tanto para o profissional quanto para o paciente.


4. Transferência e a Figura do “Fiscal Psicólogo”

A designação “fiscal psicólogo” é, em si, altamente significativa. Ela condensa duas posições simbólicas:

  • Fiscal: aquele que controla, avalia, autoriza ou sanciona;
  • Psicólogo: aquele que escuta, interpreta e revela falhas.

Na teoria lacaniana, a presença do Outro suposto saber pode produzir efeitos de inibição, resistência ou ato falho. O esquecimento da médica pode ser compreendido como emergindo em um campo transferencial específico, no qual o profissional não está apenas diante de um paciente, mas de alguém que encarna, simbolicamente, o olhar avaliador e interpretativo.

O ato falho surge, então, no ponto em que o sujeito do enunciado médico se vê atravessado pelo sujeito do inconsciente.


5. O Efeito de Alívio no Fiscal Psicólogo

Do lado do fiscal psicólogo, o não-pedido do teste de COVID-19 produziu um efeito clínico preciso: alívio. Tal alívio não decorre da negação da doença, mas da suspensão de uma cadeia significante que manteria o sujeito preso à dúvida diagnóstica e à expectativa de um resultado.

Em termos psicanalíticos, o alívio pode ser compreendido como efeito da redução da angústia frente ao real da pandemia. O diagnóstico de pneumonia, ainda que grave, oferece um nome, um tratamento e um horizonte temporal. Já o teste de COVID-19 manteria o sujeito no intervalo, no “ainda não sabido”, lugar privilegiado da angústia.

Lacan lembra que a angústia não é sem objeto, mas emerge quando o objeto não se deixa localizar claramente. O ato falho, ao excluir momentaneamente o teste, produziu uma localização simbólica do mal-estar.


6. Considerações Finais

A leitura psicanalítica do esquecimento do teste de COVID-19 permite sustentar que:

  • o ato falho é uma formação do inconsciente com sentido;
  • protocolos institucionais não eliminam a dimensão subjetiva do ato clínico;
  • o esquecimento operou como defesa frente à complexidade simbólica da pandemia;
  • houve um efeito subjetivo de alívio no fiscal psicólogo, ao suspender a inscrição no circuito da incerteza.

Longe de reduzir a clínica a falhas técnicas, a psicanálise convida a reconhecer que, mesmo nas instituições, o sujeito do inconsciente insiste — e se manifesta justamente onde algo “não funciona”.


Referências Bibliográficas

FREUD, S. (1901). A psicopatologia da vida cotidiana. Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1915). O inconsciente. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago.

LACAN, J. (1962–1963). O seminário, livro 10: A angústia. Rio de Janeiro: Zahar.

LACAN, J. (1969–1970). O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

FOUCAULT, M. (1979). Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal.

 

 

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