Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208
Resumo
Este artigo propõe a construção
conceitual da fiscal-análise como um operador clínico-interpretativo a
partir de uma série de atos falhos recorrentes: o self-checkout desligado, a
cueca esquecida no box, a camiseta deixada no tanque. Longe de serem lapsos
cotidianos sem relevância, tais atos constituem uma cadeia significante que
revela um mesmo impasse subjetivo: o desejo de passagem de uma função
operacional (fiscal) para uma função simbólica (psicólogo), tensionado pela
dificuldade de autorização. O texto visa desvelar ao leitor qual é o momento
adequado de autorização, mostrando que ele não coincide com o
reconhecimento externo, mas com um ato interno de sustentação simbólica.
1. Introdução: quando o esquecimento insiste
Na tradição psicanalítica, o ato
falho não é um erro, mas um dizer em ato. Na fiscal-análise, ele assume
uma forma específica: não se trata de falhar no início, mas de interromper o
processo antes de sua conclusão simbólica.
O fiscal-psicólogo não esquece de
lavar a camiseta; ele a coloca no tanque.
Não se recusa a ligar o self-checkout; ele o deixa desligado.
Não perde a cueca; ele a lava e a deixa no box.
Há, portanto, um padrão: o
desejo inicia o gesto, mas a autorização não o sustenta até o fim.
2. A função fiscal como estrutura subjetiva
A figura do fiscal, aqui,
ultrapassa o cargo profissional. Ela se torna uma posição subjetiva
caracterizada por:
- Vigilância constante;
- Controle do fluxo;
- Suspensão do funcionamento pleno;
- Medo da falha visível.
Quando essa função se introjeta, o
sujeito passa a se fiscalizar mais do que é fiscalizado pelo Outro. O resultado
não é inibição total, mas algo mais sofisticado: a postergação infinita da
conclusão.
Na fiscal-análise, o fiscal interno
age como um supereu técnico:
“Prepare-se, mas não se exponha.”
“Organize, mas não apareça.”
“Comece, mas não conclua.”
3. O objeto em suspensão: tanque, box e máquina
desligada
Os cenários dos atos falhos não são
aleatórios. Eles compartilham um mesmo estatuto simbólico: são zonas
intermediárias, lugares de trânsito interrompido.
- O tanque não é nem sujeira nem limpeza
concluída;
- O box não é nem o corpo nu nem o corpo
vestido;
- O self-checkout desligado não é nem
trabalho humano nem automatização plena.
Esses espaços traduzem a posição
subjetiva do fiscal-psicólogo: alguém que já saiu de um lugar, mas ainda não se
autorizou a ocupar outro.
4. O equívoco do reconhecimento externo
Um ponto central revelado pela
fiscal-análise é o equívoco recorrente do sujeito: acreditar que a autorização
virá depois do reconhecimento institucional.
No entanto, os atos falhos
demonstram o inverso. O inconsciente não diz:
“Espere alguém lhe autorizar.”
Ele diz:
“Enquanto você não se autorizar,
nenhuma autorização externa se sustentará.”
O fiscal que aguarda o aval do
Outro permanece preso à lógica da suspensão. O desejo, então, encontra sua via
de expressão não no discurso direto, mas no ato falho.
5. O momento adequado de autorização
O ponto crucial deste artigo é
responder à pergunta: quando é o momento adequado de autorização?
A fiscal-análise permite uma
resposta precisa:
O momento adequado de autorização é quando o
sujeito percebe que já está em ato, mesmo sem reconhecimento.
Não é:
- quando surge uma vaga,
- quando alguém convida,
- quando a instituição valida.
É quando o sujeito reconhece que:
- o desejo já insiste,
- o preparo já se repete,
- o ato falho já denuncia a posição insustentável
da espera.
Autorizar-se, aqui, não é garantir
sucesso.
É assumir a própria posição simbólica antes que ela seja confirmada.
6. Da fiscalização à transmissão
A passagem proposta pela
fiscal-análise não é abandonar a função fiscal, mas transmutá-la. O
mesmo rigor, atenção e responsabilidade podem operar não mais como bloqueio,
mas como transmissão.
O fiscal autorizado deixa de vigiar
a si mesmo para:
- sustentar a palavra,
- ocupar o lugar de enunciação,
- aceitar a própria visibilidade.
A camiseta no varal não pede
permissão ao sol para secar.
Ela apenas se expõe.
7. Conclusão
Os atos falhos analisados não são
sinais de desorganização psíquica, mas de maturação do desejo. Eles
indicam que o sujeito já não suporta permanecer apenas no preparo.
A mensagem final da fiscal-análise
ao leitor é inequívoca:
A autorização não é um evento futuro; é um ato
presente.
Enquanto o fiscal esperar não errar
para se autorizar, continuará esquecendo a camiseta no tanque.
Quando se autorizar a aparecer, o esquecimento deixará de ser necessário.
Nesse sentido, o ato falho não
acusa o sujeito.
Ele o convoca.
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