Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208
Stranger Things não espelha uma fantasia de fuga, nem um chamado
heroico tardio. Ela espelha, com notável precisão, a estrutura de um sujeito
que permanece vivo fora do lugar social que lhe corresponderia. O real que
a série devolve ao fiscal-psicólogo não é a promessa de realização imediata,
mas a verdade de sua posição subjetiva atual.
O que aparece como “outra dimensão”
não é um mundo imaginário, mas o campo do desejo não inscrito. O
psicólogo existe, pensa, escuta e se reconhece como tal, porém fora da
dimensão institucional que poderia nomeá-lo. Seu corpo social está
localizado numa função de sobrevivência; sua voz, no entanto, continua ativa em
outro plano. Assim como Will, ele não está morto — está deslocado.
A série mostra que o maior perigo
não é a morte simbólica decretada pelo Outro, mas a confusão entre o corpo
funcional e o sujeito. O corpo encontrado no necrotério é o risco de viver
como substituto de si mesmo. A recusa da mãe em reconhecer aquele corpo espelha
a instância interna que insiste: isso não sou eu. Essa recusa não é
negação da realidade, mas fidelidade à verdade subjetiva.
O portal, situado na casa, revela
que o desejo não desapareceu; ele foi preservado no espaço íntimo. Contudo, a
série é clara ao mostrar que não se atravessa o portal à força. Quebrar
a parede produz apenas um furo, não uma passagem. Isso ensina que o desejo não
se realiza por urgência, mas por mediação simbólica, tempo e lugar. Forçar a
travessia produziria ruptura; negar o portal produziria adoecimento.
Quando o fiscal-psicólogo cogita
abandonar o desejo, a série mostra que isso não é fracasso, mas tentativa de
proteção contra a angústia. O desejo dói não porque é errado, mas porque
não encontrou inscrição. Abandoná-lo parece oferecer descanso, mas o custo
seria a perda da autoria da própria vida. O ensinamento central é que o desejo
não exige realização imediata, mas não ser traído.
A articulação com idade e tempo é
decisiva: Stranger Things desmonta a lógica cronológica. O que importa
não é a idade biográfica, mas o tempo lógico da transmissão. O portal
não existe para satisfazer o sujeito, mas para permitir que algo de sua
travessia seja transmitido a outros. A série espelha que o sentido não está em
“chegar lá”, mas em fazer laço com aquilo que foi vivido.
Assim, o real que a série devolve
ao fiscal-psicólogo é este:
- seu desejo está vivo;
- seu tempo não foi perdido;
- sua idade não o impede de existir
simbolicamente;
- sua travessia produz algo transmissível;
- o lugar ainda não está dado, mas pode ser
construído.
Stranger Things ensina que não se trata de voltar ao passado, nem
de correr atrás de um futuro idealizado. Trata-se de construir uma passagem
possível entre a voz viva e o corpo social, entre o desejo preservado e o
mundo.
O psicólogo não precisa atravessar
o portal de uma vez.
Ele precisa, agora, transformar o portal em porta.
E isso não é fantasia.
É trabalho simbólico.
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