Pneumonia, Psicologia da Saúde, Psicossomática e Psicanálise no Contexto de uma UPA 24 Horas
Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior
Psicólogo CRP 06/147208
Resumo
O presente artigo analisa um caso
clínico ocorrido em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA 24h), no qual um
sujeito — psicólogo de formação, mas não identificado como tal no atendimento —
buscou assistência médica acreditando estar acometido por COVID-19, sendo
posteriormente diagnosticado com pneumonia. O caso é articulado à luz da
medicina, da psicologia da saúde, da psicossomática e da psicanálise,
destacando o tempo prolongado de espera, o uso indevido dos serviços de
urgência para obtenção de atestados médicos, o deslocamento da agressividade
dos usuários aos profissionais de saúde e o ato falho médico no esquecimento da
solicitação do teste de COVID-19. Discute-se ainda o atestado de sete dias
concedido ao paciente e seus ganhos secundários no contexto do trabalho como
fiscal de caixa.
1. Introdução
As Unidades de Pronto Atendimento
(UPAs) configuram-se como dispositivos centrais do Sistema Único de Saúde
(SUS), destinadas a acolher quadros agudos e de urgência. Entretanto,
observa-se, na prática cotidiana, uma sobrecarga desses serviços por demandas
que não se caracterizam como emergenciais, como a busca por atestados médicos,
sobretudo em períodos estratégicos (vésperas de finais de semana e feriados).
Tal cenário produz efeitos diretos tanto na organização do serviço quanto na
experiência subjetiva do adoecimento (BRASIL, 2013).
O caso analisado ilustra, de modo
paradigmático, como fatores sociais, psíquicos e institucionais atravessam o
processo saúde–doença–cuidado.
2. Descrição do Caso Clínico
O sujeito procurou uma UPA 24h com
sintomas respiratórios significativos, acreditando tratar-se de COVID-19.
Submeteu-se aos protocolos institucionais: abertura de ficha, triagem, aferição
de sinais vitais, exame clínico médico, solicitação de exames e administração
de medicação intravenosa, oxigenoterapia, inalação e uso de broncodilatador
(salbutamol).
O tempo total de permanência na
unidade variou entre 6 e 8 horas, em grande parte devido à elevada
demanda do serviço. Durante a espera, o paciente observou o fluxo de
profissionais e usuários e ouviu relatos de pessoas que buscavam atendimento
exclusivamente para obtenção de atestado médico. A médica assistente confirmou
essa realidade, afirmando que tais demandas ocupam vagas de atendimento e
contribuem para a demora no cuidado de casos clínicos reais, como o do próprio
paciente.
O diagnóstico final foi pneumonia,
confirmado por radiografia de tórax. Apesar da suspeita inicial, a médica esqueceu
de solicitar o teste de COVID-19, fato relevante para a análise
psicanalítica do caso.
3. A Medicina, o Tempo de Espera e a Organização
do Sistema
Do ponto de vista médico, a
pneumonia é uma condição potencialmente grave que exige diagnóstico e
tratamento oportunos. O prolongamento do tempo de espera, causado por demandas
indevidas, impacta diretamente a qualidade da assistência e aumenta riscos clínicos
(STARFIELD, 2002).
A fala da médica evidencia um
fenômeno recorrente: a agressividade dos pacientes, frequentemente
direcionada aos profissionais de saúde. Tal agressividade, contudo, não se
origina exclusivamente na relação médico-paciente, mas se constitui como um deslocamento
da raiva diante das falhas estruturais do sistema público de saúde, que
acabam sendo personificadas no médico e no enfermeiro (DEJOURS, 1992).
4. Psicologia da Saúde e Doenças Psicossomáticas
A psicologia da saúde compreende o
adoecimento como resultado da interação entre fatores biológicos, psicológicos
e sociais — o chamado modelo biopsicossocial (ENGEL, 1977). O caso
analisado revela claramente essa articulação:
- Biológico: o quadro clínico real de pneumonia;
- Psicológico: a angústia diante da suspeita de COVID-19, a
vivência do tempo de espera, a observação do sofrimento coletivo;
- Social: a precarização do trabalho, a sobrecarga do
sistema de saúde e a instrumentalização do adoecimento para fins laborais
(atestados).
A literatura psicossomática destaca
que situações de estresse crônico, sobrecarga laboral e conflitos subjetivos
podem fragilizar o sistema imunológico, favorecendo o adoecimento orgânico
(MARTY, 1993; ALEXANDER, 1950).
5. O Ato Falho Médico à Luz da Psicanálise
Segundo a psicanálise, o ato
falho não é um simples erro casual, mas uma formação do inconsciente que
revela conflitos, tensões ou sobrecargas psíquicas (FREUD, 1901/1996). O
esquecimento da médica em solicitar o teste de COVID-19 pode ser interpretado
nesse registro.
Inserida em um contexto de excesso
de demandas, agressividade dos usuários e pressão institucional, a médica opera
sob intenso desgaste psíquico. O esquecimento do teste pode ser compreendido
como um ato falho que expressa, simultaneamente:
- a saturação cognitiva do profissional;
- a tentativa inconsciente de encerrar o caso
diante de um diagnóstico clínico já estabelecido;
- a recusa simbólica de mais um protocolo em um
cenário de esgotamento.
Não se trata de culpabilizar o
profissional, mas de evidenciar como o inconsciente atravessa também a prática
médica.
6. Atestado Médico e Ganhos Secundários
A concessão de sete dias de
afastamento do trabalho, necessária do ponto de vista médico para a
recuperação da pneumonia, produziu efeitos subjetivos e sociais relevantes.
Enquanto fiscal de caixa em um supermercado — função marcada por alta
repetitividade, pressão por produtividade e baixa autonomia — o afastamento
representou um ganho secundário do adoecimento (FREUD, 1917/1996).
Na psicossomática e na psicologia
da saúde, os ganhos secundários não implicam simulação consciente, mas
benefícios colaterais que podem reforçar, simbolicamente, o adoecer:
- alívio da sobrecarga laboral;
- suspensão temporária de uma função vivida como
desgastante;
- legitimação institucional do sofrimento físico.
Esse repouso forçado pode,
paradoxalmente, favorecer a reorganização psíquica do sujeito, funcionando como
um intervalo necessário diante de um contexto de trabalho adoecedor.
7. Considerações Finais
O caso analisado evidencia que o
adoecimento não pode ser compreendido apenas em termos biomédicos. A
experiência da pneumonia, o tempo excessivo de espera, a agressividade
deslocada aos profissionais de saúde, o ato falho médico e os ganhos
secundários do afastamento laboral revelam a complexidade do processo
saúde–doença–cuidado.
A articulação entre medicina,
psicologia da saúde, psicossomática e psicanálise permite uma leitura mais
ampla e ética do sofrimento humano, ressaltando que tanto pacientes quanto
profissionais estão submetidos às tensões de um sistema de saúde sobrecarregado
e, muitas vezes, insuficiente.
Referências Bibliográficas
ALEXANDER, F. Psychosomatic
Medicine. New York: Norton, 1950.
BRASIL. Ministério da Saúde. Política
Nacional de Atenção às Urgências. Brasília: MS, 2013.
DEJOURS, C. A loucura do
trabalho. São Paulo: Cortez, 1992.
ENGEL,
G. L. The need for a new medical model: a challenge for biomedicine. Science, v.
196, n. 4286, p. 129–136, 1977.
FREUD, S. Psicopatologia da vida
cotidiana (1901). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. Conferências
introdutórias à psicanálise (1917). Rio de Janeiro: Imago, 1996.
MARTY, P. A psicossomática do
adulto. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.
STARFIELD, B. Atenção primária:
equilíbrio entre necessidades de saúde, serviços e tecnologia. Brasília:
UNESCO/Ministério da Saúde, 2002.
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