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O sonho de ele ser psicólogo, educador, professor

 Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208


Sumário

1.      O trabalho que esgota e o desejo que insiste

2.      O sonho como cena de elaboração psíquica

3.      A figura do professor: autoridade, orientação e transmissão

4.      O medo do não reconhecimento e a crise da legitimidade interna

5.      Instituição, oportunidade e autorização subjetiva

6.      Do sonho à função: tornar-se psicólogo educador

Conclusão Final
Referências Bibliográficas


Capítulo 1 – O trabalho que esgota e o desejo que insiste

O ponto de partida deste livro é a experiência concreta do sujeito em um trabalho vivido como repetitivo, esvaziado de sentido e pouco reconhecido: o supermercado. Esse espaço não é apenas um local de emprego, mas um lugar simbólico de apagamento da singularidade, onde a função se impõe sobre o sujeito.

Ao mesmo tempo, emerge um desejo persistente: atuar como psicólogo, educador, professor — alguém que orienta, transmite e sustenta um lugar de palavra. Esse desejo não surge como fantasia abstrata, mas como resposta ao sofrimento psíquico gerado pelo trabalho atual.

Freud já indicava que o sofrimento neurótico frequentemente se organiza em torno da impossibilidade de realizar o desejo no campo social:

“O homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança.”
(FREUD, 1930)

O conflito inicial do sonhador é precisamente este: a segurança precária do trabalho atual versus o risco de sustentar o desejo.


Capítulo 2 – O sonho como cena de elaboração psíquica

O sonho analisado surge após um pensamento pré-onírico marcado por exaustão e impasse: o sujeito deseja sair do supermercado, mas não enxerga possibilidades concretas de exercer a psicologia.

Segundo Freud, o sonho é uma formação do inconsciente que elabora restos diurnos:

“O sonho é a realização (disfarçada) de um desejo reprimido.”
(FREUD, 1900)

No sonho, aparece uma professora que se aposenta, alunos que podem ou não sentir falta, uma interlocutora que discorda e uma lembrança escolar marcada pela ausência de professor. Esses elementos não são aleatórios: eles encenam simbolicamente o conflito central do sonhador — o desejo de ocupar uma função de orientação sem a garantia de reconhecimento.

O sonho funciona, assim, como um laboratório psíquico onde o sujeito experimenta a perda, a dúvida e o vazio institucional.


Capítulo 3 – A figura do professor: autoridade, orientação e transmissão

A professora no sonho ocupa um lugar central. Ela representa a função de transmissão, muito próxima da função do psicólogo educador. Não se trata apenas de ensinar conteúdos, mas de sustentar um lugar simbólico para o outro.

Na psicanálise, o professor pode ser lido como figura do Outro que autoriza, que transmite um saber e uma posição subjetiva. Lacan afirma:

“O desejo do homem é o desejo do Outro.”
(LACAN, 1960)

O sonhador se identifica com essa função, mas o sonho mostra a professora se retirando. Essa retirada simboliza a dificuldade do próprio sujeito em se autorizar a ocupar esse lugar. O professor desejado existe, mas está ausente — tal como o self profissional que ainda não encontra inscrição institucional.


Capítulo 4 – O medo do não reconhecimento e a crise da legitimidade interna

Um dos eixos centrais do sonho é a pergunta: alguém sentirá falta? Nem todos os alunos sentem falta do professor; alguns permanecem indiferentes. Essa cena revela o medo profundo do sonhador: exercer uma função sem reconhecimento.

Winnicott contribui para essa leitura ao afirmar que o self precisa de um ambiente suficientemente bom para se constituir:

“O self verdadeiro só pode emergir em um ambiente que reconheça sua existência.”
(WINNICOTT, 1965)

A ausência de oportunidades externas para exercer a psicologia fragiliza a legitimidade interna do sonhador. Ele não duvida apenas do mundo, mas de si mesmo: se ninguém me oferece esse lugar, talvez eu não possa ocupá-lo.


Capítulo 5 – Instituição, oportunidade e autorização subjetiva

O episódio do colégio técnico, no qual os alunos permanecem horas sem aula devido à falta do professor, é uma metáfora clara do vazio institucional. Quando não há quem sustente a função, o tempo perde sentido.

O sonhador vive algo semelhante: seu desejo existe, mas não encontra uma instituição que o acolha. No entanto, a psicanálise indica que a autorização não vem apenas de fora. Lacan é categórico:

“O analista só se autoriza de si mesmo… e de alguns outros.”
(LACAN, 1967)

Essa afirmação desloca o problema: a ausência de oportunidade externa não pode ser o único critério de legitimidade. O sonho aponta que o sujeito ainda espera ser autorizado, quando talvez precise começar a se autorizar simbolicamente, mesmo sem garantias.


Capítulo 6 – Do sonho à função: tornar-se psicólogo educador

O sonho não anuncia um fracasso, mas uma travessia. Ele mostra que o lugar de psicólogo educador não é dado, nem garantido, mas construído. O medo de não reconhecimento é parte estrutural desse caminho.

Tornar-se psicólogo educador implica aceitar que:

  • Nem todos sentirão falta.
  • Nem todos reconhecerão o valor da função.
  • O desejo não se sustenta apenas pela aprovação externa.

Como afirma Bion:

“A capacidade de pensar nasce da tolerância à frustração.”
(BION, 1962)

O sonho indica que o sujeito está justamente nesse ponto: tolerando a frustração enquanto elabora a passagem do desejo à função.


Conclusão Final

O sonho de ele ser psicólogo, educador, professor não é uma fantasia ingênua, mas uma elaboração psíquica profunda sobre desejo, reconhecimento e legitimidade. O sonho mostra que o maior obstáculo não é apenas a falta de oportunidades institucionais, mas a dificuldade de se autorizar internamente a ocupar um lugar simbólico.

A professora que se aposenta, os alunos que esperam, o tempo vazio sem aula e a dúvida sobre sentir falta compõem uma mesma pergunta: posso sustentar um lugar de orientação mesmo sem garantias?

A resposta do sonho não é definitiva, mas clara: o desejo já está constituído; o trabalho agora é de autorização subjetiva.


Referências Bibliográficas

BION, W. R. Aprender com a experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1962.

FREUD, S. A interpretação dos sonhos (1900). Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. O mal-estar na civilização (1930). Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago.

LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1966.

LACAN, J. Ato de fundação (1967). Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.

WINNICOTT, D. W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1965.

 

 

 

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