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O fiscal executor da lei no ambiente organizacional do supermercado: por que não se trabalha com a lei nesse contexto

 Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208

Resumo

Este artigo analisa, a partir da psicanálise de orientação lacaniana, a posição ocupada pelo fiscal de caixa no ambiente organizacional do supermercado, sustentando a tese de que tal função não configura um trabalho com a lei, mas a encarnação da lei enquanto instância superegóica. Articula-se a experiência de adoecimento psicossomático — especificamente a pneumonia — como índice clínico de uma captura institucional na qual o sujeito é convocado a sustentar a norma no real, sem mediação simbólica. São discutidos os conceitos de lei simbólica, supereu institucional, traço unário, identificação e fenômeno psicossomático, bem como suas implicações éticas para a prática do psicólogo em contextos organizacionais.

Palavras-chave: lei simbólica; supereu institucional; psicossomática; ética da psicanálise; trabalho institucional.


Introdução

O trabalho do psicólogo em instituições marcadas por forte hierarquização e autoritarismo coloca desafios éticos e clínicos específicos. No ambiente organizacional do supermercado, tais desafios se acentuam, uma vez que a lógica de comando, controle e punição tende a substituir a palavra, a mediação e a escuta. Este artigo parte da experiência de um psicólogo que, ao ocupar a função de fiscal de caixa, adoece psicossomaticamente, para interrogar o que significa trabalhar com a lei em oposição a encarná-la.

Sustenta-se que o conflito com a lei, nesse contexto, não é apenas o objeto do trabalho, mas também o lugar do sujeito. Quando não há possibilidade de simbolização desse conflito, o corpo pode tornar-se o palco onde a lei se reinscreve sob a forma de sofrimento.


Lei simbólica e supereu institucional

Na psicanálise lacaniana, a lei simbólica refere-se à função estruturante que introduz limite, falta e possibilidade de laço social. Diferencia-se radicalmente do supereu, instância que ordena, exige e pune sem medida (Lacan, 1959-1960/2008).

No supermercado, a chamada "lei organizacional" tende a operar menos como lei simbólica e mais como supereu institucional. Não há espaço para a palavra, para a interpretação ou para a exceção; há, sobretudo, comandos, metas, vigilância e sanção. A gerência, a supervisão e a liderança encarnam essa instância, convocando determinados trabalhadores a sustentá-la no cotidiano.


O fiscal de caixa como executor da lei

A função de fiscal de caixa exige que o trabalhador represente a organização perante os operadores, aplicando normas, corrigindo desvios e garantindo a obediência. Trata-se de uma posição em que o sujeito não trabalha com a lei, mas é colocado a funcionar como seu executor.

Quando o psicólogo ocupa esse lugar, ocorre um curto-circuito ético: sua formação o orienta para a escuta, a mediação e a consideração dos efeitos subjetivos da norma, mas a função exige exatamente o oposto. O resultado é a produção de violência institucional cotidiana — muitas vezes sutil — tanto sobre os operadores de caixa quanto sobre o próprio fiscal.


Traço unário, identificação e captura institucional

Para compreender por que certos sujeitos são eleitos para funções normativas, é necessário recorrer ao conceito de traço unário. O traço unário é o elemento mínimo de identificação extraído do Outro, que passa a representar o sujeito (Lacan, 1961-1962/2003).

Instituições autoritárias tendem a reconhecer e valorizar traços como obediência, confiabilidade e capacidade de sustentar normas sem questionamento. O convite para ocupar a função de fiscal dirige-se, assim, não ao sujeito em sua singularidade, mas ao traço funcional que ele encarna.

O equívoco clínico ocorre quando esse reconhecimento do traço é lido como reconhecimento do desejo ou da ética profissional. O traço é elevado à condição de Ideal do Eu, e o sujeito passa a se oferecer como suporte da lei institucional, abrindo caminho para a captura subjetiva.


Psicossomática lacaniana e a pneumonia como reinscrição da lei

Na perspectiva lacaniana, o fenômeno psicossomático não é um sintoma no sentido clássico, mas uma inscrição direta do significante no corpo, sem mediação simbólica. Ele aparece quando a palavra falha e o sujeito não consegue se separar da exigência do Outro.

A pneumonia, nesse contexto, pode ser lida como uma reinscrição da lei no corpo. O comprometimento da respiração — função ligada à voz e à circulação da palavra — indica o ponto em que o sujeito não consegue mais falar, dizer não ou simbolizar o conflito. A doença faz aquilo que o sujeito não conseguiu fazer: interrompe a presença no ambiente e introduz um limite real.


Incompatibilidade com a ética do psicólogo

O Código de Ética Profissional do Psicólogo orienta a prática pelo respeito à dignidade, à liberdade e à promoção da saúde psíquica, bem como pela recusa de práticas que produzam violência ou sofrimento desnecessário.

A função de fiscal de caixa, tal como organizada no supermercado, mostra-se incompatível com esses princípios. Ao exigir que o psicólogo atue como executor da lei, a instituição o convoca a sustentar uma prática contrária à sua ética profissional, produzindo sofrimento coletivo e individual.


Critério clínico para avaliação de convites institucionais

A partir dessa análise, propõe-se um critério clínico-formal para avaliação de convites institucionais: convites que se dirigem exclusivamente ao traço funcional e que não oferecem espaço de palavra, supervisão e discordância não configuram um trabalho com a lei, mas uma convocação à sua encarnação.

Reconhecer esse critério permite ao profissional descolar o traço funcional de seu desejo, utilizando-o apenas como recurso técnico e não como eixo identificatório, prevenindo a repetição do adoecimento.


Considerações finais

Assumir a distinção entre trabalhar com a lei e encarnar a lei constitui, para o psicólogo, uma posição ética e não apenas uma escolha de função ou campo de atuação. Trabalhar com a lei implica recusar o lugar de executor superegóico da norma e sustentar a mediação simbólica entre regra, sujeito e instituição.

Onde não há possibilidade de palavra, a recusa não é falha moral, mas ato ético. Ao descolar o traço funcional do desejo, o profissional preserva o corpo, evita a reinscrição psicossomática do conflito e se orienta pela ética da psicanálise, que não serve à eficácia cega da norma, mas à responsabilidade do sujeito frente ao desejo e aos efeitos da lei.


Referências

Lacan, J. (2003). O seminário, livro 9: A identificação (1961-1962). Rio de Janeiro: Zahar.

Lacan, J. (2008). O seminário, livro 7: A ética da psicanálise (1959-1960). Rio de Janeiro: Zahar.

Conselho Federal de Psicologia. (2005). Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP.

 

 

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