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O corpo passa a falar onde o sujeito não pode falar

 Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208


Introdução

No campo da psicanálise, o corpo nunca é um mero organismo biológico. Ele é atravessado pela linguagem, marcado pelo significante e implicado no laço social. Quando o sujeito encontra impedimentos simbólicos para enunciar seu desejo, seu sofrimento ou sua divisão subjetiva, o corpo frequentemente passa a ocupar o lugar de enunciação. Este artigo tem como objetivo desvelar como, no contexto do supermercado, o corpo do fiscal psicólogo começa a falar precisamente onde o sujeito não pode falar abertamente. Trata-se de um sujeito que ocupa uma função institucional que não reconhece como expressão de seu desejo, mas da qual não consegue se desligar sem risco de ruptura do laço social. A clínica do trabalho, articulada à psicanálise, permite compreender como sintomas corporais, atos falhos, cansaço excessivo ou desconfortos difusos funcionam como forma de linguagem quando a palavra encontra obstáculos.


Sumário

1.      O silêncio imposto pelo laço social no trabalho

2.      A impossibilidade de enunciação do desejo no espaço institucional

3.      O corpo como lugar de inscrição do conflito psíquico

4.      Sintoma corporal e mensagem inconsciente no cotidiano do supermercado

5.      Da escuta do corpo à possibilidade de deslocamento simbólico


Capítulo 1 – O silêncio imposto pelo laço social no trabalho

O laço social organiza os lugares possíveis de fala e de reconhecimento do sujeito. No supermercado, a função de fiscal de caixa impõe um discurso normativo, operacional e pragmático, no qual não há espaço para a enunciação da divisão subjetiva ou do desejo singular. O sujeito é convocado a funcionar, não a falar de si.

Segundo Lacan, “o discurso é aquilo que faz laço social” (Lacan, 1969–1970/1992). O discurso do capitalista, predominante nas organizações de trabalho, tende a apagar o sujeito dividido, exigindo desempenho contínuo e adaptação. Nesse contexto, o fiscal psicólogo aprende, muitas vezes inconscientemente, que certas palavras não podem ser ditas: o mal-estar, o desejo de não ocupar aquela função, a frustração por não exercer a psicologia.

O silêncio não é apenas individual, mas estrutural. Como aponta Dejours, “o sofrimento no trabalho é frequentemente silenciado pelas próprias normas da organização” (Dejours, 1994). Assim, o sujeito se cala para manter o vínculo social e econômico.


Capítulo 2 – A impossibilidade de enunciação do desejo no espaço institucional

O desejo, na psicanálise, não se confunde com vontade consciente ou projeto racional. Ele é efeito da falta e se articula ao Outro. No entanto, no espaço institucional do supermercado, o desejo do fiscal psicólogo não encontra reconhecimento simbólico.

Freud já indicava que “o recalcamento incide justamente sobre aquilo que não pode ser aceito pelo eu em determinado contexto” (Freud, 1915/2010). O desejo de não ocupar a função de fiscal, ou de exercer a psicologia, pode tornar-se recalcado para garantir a sobrevivência psíquica e social.

Lacan reforça que “não há desejo fora da linguagem” (Lacan, 1958/1998). Quando a linguagem falha, quando não há lugar para dizer, o desejo busca outras vias de expressão. A instituição, ao não oferecer um espaço de palavra, contribui para que o conflito se desloque do campo simbólico para o corpo.


Capítulo 3 – O corpo como lugar de inscrição do conflito psíquico

Quando o sujeito não pode falar, o corpo passa a falar. Este é um princípio fundamental da clínica psicanalítica. O corpo torna-se superfície de inscrição do conflito entre o desejo e a exigência institucional.

Para Freud, o sintoma é uma “formação de compromisso” (Freud, 1926/2014): algo do desejo encontra satisfação deformada, ao mesmo tempo em que atende às exigências da realidade. No trabalho, isso pode se manifestar como dores inespecíficas, fadiga extrema, tensões musculares, lapsos de atenção ou adoecimentos recorrentes.

Lacan afirma que “o sintoma é o modo como cada sujeito goza do inconsciente” (Lacan, 1975–1976/2007). O corpo do fiscal psicólogo passa a carregar aquilo que não encontra lugar na palavra: a divisão entre ser psicólogo e ocupar a função de fiscal.


Capítulo 4 – Sintoma corporal e mensagem inconsciente no cotidiano do supermercado

No cotidiano do supermercado, o corpo do fiscal psicólogo pode apresentar sinais discretos, porém insistentes. Não se trata de um adoecimento aleatório, mas de uma mensagem inconsciente endereçada ao Outro.

Dejours observa que “o corpo é frequentemente o primeiro a pagar o preço do conflito ético e subjetivo no trabalho” (Dejours, 2004). O sujeito mantém-se presente, cumpre suas tarefas, mas seu corpo denuncia o custo psíquico dessa permanência.

Os atos falhos, esquecimentos, irritações súbitas ou mesmo o excesso de vigilância corporal podem ser lidos como tentativas de dizer algo que não pode ser dito diretamente. O corpo fala em forma de sintoma porque a palavra foi interditada ou considerada perigosa para a manutenção do laço social.


Capítulo 5 – Da escuta do corpo à possibilidade de deslocamento simbólico

A escuta do corpo não implica medicalização imediata ou adaptação forçada, mas interpretação. A clínica psicanalítica propõe recolocar o sintoma no campo da linguagem, permitindo que o sujeito possa, progressivamente, dizer o que antes apenas o corpo dizia.

Segundo Lacan, “a análise visa fazer passar do sintoma ao dizer” (Lacan, 1964/2008). Quando o fiscal psicólogo começa a escutar seu corpo como mensagem, abre-se a possibilidade de deslocamento simbólico: elaboração psíquica, reposicionamento subjetivo e, eventualmente, construção de novos laços sociais.

O corpo deixa de ser o único porta-voz do conflito quando a palavra encontra um endereço possível. Não se trata, necessariamente, de romper imediatamente com o trabalho, mas de reinscrever o sujeito em uma posição menos mortificante.


Conclusão Final

O corpo passa a falar onde o sujeito não pode falar porque o laço social, especialmente no contexto do trabalho, impõe silêncios estruturais. No caso do fiscal psicólogo, o supermercado funciona como um espaço onde o desejo não encontra reconhecimento simbólico, levando o conflito psíquico a se manifestar corporalmente. A psicanálise permite compreender que esses sinais não são falhas do organismo, mas tentativas de enunciação. Ao escutar o corpo como linguagem, o sujeito pode transformar o sofrimento mudo em palavra, abrindo caminhos para a elaboração subjetiva e para novas formas de inscrição no laço social.


Referências Bibliográficas

DEJOURS, C. A loucura do trabalho. São Paulo: Cortez, 1994.

DEJOURS, C. Subjetividade, trabalho e ação. Revista Produção, v. 14, n. 3, 2004.

FREUD, S. Recalque (1915). In: Obras completas, v. 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, S. Inibição, sintoma e angústia (1926). In: Obras completas, v. 17. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

LACAN, J. O seminário, livro 5: As formações do inconsciente (1957–1958). Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

LACAN, J. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

LACAN, J. O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise (1969–1970). Rio de Janeiro: Zahar, 1992.

LACAN, J. O seminário, livro 23: O sinthoma (1975–1976). Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

 

 

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