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A POSTERGAÇÃO INFINITA DA CONCLUSÃO

 Ano 2025. Autor [ Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208]


Resumo

Este artigo examina, à luz da psicanálise freudiana e lacaniana, a posição subjetiva aqui denominada postergação infinita da conclusão. Parte-se do caso paradigmático do sujeito que já se autorizou como psicólogo — ao escolher e sustentar sua formação —, mas que depende da autorização social e institucional para o exercício da função. Argumenta-se que, quando essa autorização institucional não ocorre, prevalece a função social já reconhecida (no caso, a de fiscal de caixa), produzindo um impasse estrutural entre desejo e reconhecimento que pode conduzir ao adoecimento psíquico. A postergação, nesse contexto, não decorre de indecisão, mas do descompasso entre autorização subjetiva e inscrição simbólica no laço social.


1. Introdução: concluir como ato e não como decisão administrativa

Na psicanálise, concluir não equivale a finalizar um processo técnico ou burocrático. Concluir é um ato subjetivo, e todo ato implica risco, perda e responsabilização. A chamada postergação infinita da conclusão não se confunde com procrastinação; trata-se de uma posição estrutural diante do desejo e do Outro.

A figura do fiscal-psicólogo permite tornar visível esse impasse: o sujeito compreende, observa e sustenta seu desejo, mas encontra-se suspenso no momento em que a autorização subjetiva deveria encontrar reconhecimento institucional.


2. A autorização subjetiva já operada

Do ponto de vista psicanalítico, a escolha de cursar Psicologia e sustentar essa formação ao longo do tempo constitui um ato de autorização subjetiva. O sujeito não pediu permissão para desejar, nem para investir na própria formação. Nesse sentido, a máxima lacaniana segundo a qual “o analista só se autoriza de si mesmo” (Lacan, 1967) já se encontra operante.

Não há, portanto, ausência de autorização no plano subjetivo. Insistir nessa ideia produziria apenas culpa ou reforço superegóico. O sujeito já fez, nesse nível, tudo o que lhe era possível fazer.


3. Autorização institucional e reconhecimento social

A autorização institucional pertence a outro registro. Ela não cria o desejo, mas autoriza o exercício formal da função dentro de um dispositivo social, jurídico e ético. Essa autorização não depende exclusivamente do sujeito, mas de contingências históricas e institucionais.

O sujeito sabe disso e, mais ainda, sabe que pode não se autorizar para determinadas instituições se perceber que elas não estão alinhadas com seus valores. Assim, ele não se oferece como objeto indiferenciado ao Outro institucional, preservando uma posição ética.


4. O tempo lógico e a espera do momento adequado

Lacan (1945) demonstra que o momento de concluir não é cronológico, mas lógico. Ele exige um corte, mas não se confunde com precipitação. A espera, nesse contexto, pode constituir uma posição ética, e não uma defesa.

Quando o sujeito afirma que aguarda a instituição “aparecer em sua visão”, ele se coloca num tempo de leitura do campo, sustentando o desejo sem traí-lo. Contudo, esse tempo comporta um risco estrutural: o de transformar-se, retroativamente, em postergação infinita.


5. Quando a instituição não autoriza: prevalência da função reconhecida

Se a autorização institucional não ocorre, prevalece a função já reconhecida pelo Outro social. No caso em análise, trata-se da função de fiscal de caixa, autorizada pelo supermercado por meio de salário, contrato e reconhecimento cotidiano.

Lacan (1964) afirma que o sujeito só existe no laço social enquanto representado por um significante. Quando o significante “psicólogo” não encontra inscrição institucional, ele permanece vivo no sujeito, mas morto no campo do Outro. Em contrapartida, o significante “fiscal” torna-se hegemônico, organizando a identidade social do sujeito.


6. Recalcamento social, repetição e adoecimento

A não inscrição institucional do desejo produz uma forma específica de recalcamento: um recalcamento social. O desejo não desaparece, mas é impedido de operar no real, retornando sob a forma de sofrimento psíquico.

Freud descreve que aquilo que é recalcado retorna como sintoma (Freud, 1920). Aqui, o retorno se manifesta como angústia, esgotamento, sensação de inutilidade e intensificação da vigilância sobre si mesmo. A lógica do supermercado é introjetada, funcionando como instância superegóica de controle e cobrança.

O sujeito adoece não por fragilidade, mas por sustentar, no tempo, uma posição impossível: desejar sem poder exercer.


7. A morte simbólica do psicólogo

Quando se afirma que o sujeito corre o risco de “morrer como psicólogo”, trata-se de uma morte simbólica, e não real. O significante “psicólogo” deixa de operar no laço social, ainda que permaneça ativo no interior do sujeito.

Essa clivagem entre saber-de-si e reconhecimento-do-Outro produz sofrimento específico. O sujeito é psicólogo para si, mas fiscal para o mundo. Essa dissociação, quando prolongada, é estruturalmente adoecedora.


8. Conclusão

A postergação infinita da conclusão, tal como analisada neste artigo, não decorre de falta de autorização subjetiva. O sujeito já se autorizou. O impasse reside na ausência — ou demora excessiva — da autorização institucional que permitiria ao desejo operar no laço social.

Enquanto essa autorização não ocorre, prevalece a função reconhecida pelo Outro, ainda que ela não corresponda ao desejo do sujeito. A hegemonia dessa função, quando dissociada do desejo, pode conduzir ao adoecimento psíquico.

A questão clínica e ética não é exigir que o sujeito se autorize novamente, mas sustentar a diferença entre esperar e se apagar. Concluir, aqui, não é ceder à urgência nem renunciar ao desejo, mas reconhecer o ponto em que a espera deixa de ser sustentação ética e passa a se converter em sacrifício subjetivo.


Referências bibliográficas

FREUD, S. Os instintos e suas vicissitudes (1915). Edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. Além do princípio do prazer (1920). Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. O Ego e o Id (1923). Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. O mal-estar na civilização (1930). Rio de Janeiro: Imago.

LACAN, J. O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada (1945). In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

LACAN, J. O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Zahar, 1988.

LACAN, J. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

 

 

 

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