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Quando o Corpo Fala o que o Trabalho Cala

 Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208

Doença Psicossomática, Estresse Laboral e Adoecimento no Varejo no Final de Ano**

Resumo

O presente artigo analisa um quadro clínico caracterizado por sintomas respiratórios, sistêmicos e sensoriais — febre, catarro abundante, sudorese noturna, fadiga, dispneia, náusea, dor cervical e perda do paladar — manifestados por um sujeito que exerce a função de fiscal de supermercado, com formação em Psicologia. Partindo de uma leitura integrada entre a medicina e a psicossomática, fundamentada na Psicologia da Saúde, propõe-se compreender o adoecimento como expressão de um corpo que não sustenta mais o nível de estresse imposto pelo trabalho, intensificado no período do Natal e na passagem para o ano de 2026. O corpo surge, assim, como via privilegiada de expressão do sofrimento psíquico diante da impossibilidade de simbolização e de mudança concreta das condições laborais.

Palavras-chave: psicossomática; estresse ocupacional; psicologia da saúde; adoecimento; varejo.


1. Introdução

O trabalho no varejo, especialmente em períodos de alta demanda como o final do ano, expõe os trabalhadores a níveis elevados de estresse físico e psíquico. Longas jornadas, pressão por resultados, contato constante com o público e ausência de reconhecimento configuram um cenário propício ao adoecimento. Quando o sujeito, além de trabalhador, é também psicólogo, emerge um conflito adicional: a distância entre o saber teórico sobre saúde mental e a impossibilidade prática de cuidar de si no contexto laboral.

Este artigo analisa um caso paradigmático em que o corpo passa a expressar, por meio de sintomas orgânicos, aquilo que não encontra espaço de elaboração simbólica.


2. O quadro clínico segundo a medicina

Do ponto de vista médico, os sintomas descritos — catarro persistente, secreção nasal e oral, febre, sudorese noturna, náusea, dor cervical, perda do paladar, dispneia e cansaço ao esforço — configuram um quadro infeccioso respiratório agudo de provável etiologia viral, com resposta inflamatória sistêmica.

Segundo Guyton e Hall (2021), infecções virais ativam mecanismos imunológicos mediados por citocinas inflamatórias (IL-1, IL-6, TNF-α), responsáveis não apenas pela febre, mas também pela fadiga, pela redução da tolerância ao esforço e pela sensação de falta de ar, mesmo na ausência de lesões pulmonares estruturais.

A perda do paladar associa-se à inflamação das mucosas nasais e orais, frequentemente observada em viroses respiratórias e amplamente descrita em infecções virais recentes (Gandhi et al., 2020). A sudorese noturna e o cansaço intenso indicam um organismo em estado de sobrecarga metabólica, tentando manter a homeostase em um contexto adverso.

Clinicamente, trata-se de um quadro que tende à resolução espontânea, mas que sinaliza esgotamento orgânico, sobretudo quando associado à manutenção de estressores externos.


3. Estresse ocupacional e Psicologia da Saúde

A Psicologia da Saúde compreende o adoecimento como resultado da interação entre fatores biológicos, psicológicos e sociais (Engel, 1977). O estresse crônico no trabalho é reconhecido como um dos principais determinantes de adoecimento físico.

Segundo Lipp (2000), a exposição prolongada ao estresse pode levar à fase de exaustão, caracterizada por queda da imunidade, maior vulnerabilidade a infecções e manifestações psicossomáticas. No varejo, o período natalino intensifica demandas, conflitos interpessoais e sobrecarga emocional, reduzindo as possibilidades de recuperação psíquica.

No caso analisado, o corpo adoece no momento em que o trabalho exige mais do que o sujeito pode oferecer, especialmente na transição simbólica de fim de ano, que convoca balanços, expectativas e projetos não realizados.


4. Leitura psicossomática: quando o corpo assume a palavra

A psicossomática compreende o sintoma corporal como uma forma de expressão do sofrimento psíquico quando este não encontra vias de simbolização (McDougall, 1991). O corpo torna-se palco de inscrição do conflito.

Os sintomas respiratórios podem ser simbolicamente associados à dificuldade de “respirar” no ambiente de trabalho, à sensação de sufocamento subjetivo diante de exigências excessivas. O excesso de muco pode representar aquilo que não pode ser dito e precisa ser expelido. A perda do paladar aponta para a perda de prazer e de sentido na experiência cotidiana.

A fadiga extrema e a dispneia ao caminhar indicam que o corpo impõe um limite onde o psiquismo insiste em continuar. Como propõe Marty (1993), o adoecimento psicossomático frequentemente surge quando o sujeito não consegue recuar frente às exigências externas, levando o organismo a realizar esse recuo de forma compulsória.


5. O fiscal psicólogo e o conflito identitário

Há, neste caso, um elemento central: o sujeito é psicólogo, mas exerce a função de fiscal de supermercado. Tal discrepância produz um conflito identitário que intensifica o sofrimento. O trabalho, que deveria ser fonte de reconhecimento simbólico, torna-se espaço de alienação.

Dejours (2015) destaca que o sofrimento no trabalho emerge quando há ruptura entre o desejo do sujeito e a organização real do trabalho. Quando não há possibilidade de transformação da situação, o corpo pode adoecer como última forma de resistência.

O adoecimento, portanto, não é falha, mas sinal. Um sinal de que o limite foi ultrapassado.


6. Articulação entre medicina e psicossomática

A medicina descreve o como o corpo adoece; a psicossomática interroga o porquê. Não se trata de negar a infecção viral, mas de compreender por que este corpo, neste momento, neste contexto, adoeceu dessa forma.

Na Psicologia da Saúde, essa articulação permite compreender o sintoma como resultado de uma vulnerabilidade imunológica momentânea, amplificada pelo estresse crônico, pela exaustão emocional e pela ausência de pausas reparadoras.

O corpo adoece quando já não é possível continuar como antes.


7. Considerações finais

O adoecimento do fiscal psicólogo no final do ano não pode ser lido apenas como uma virose ocasional. Ele revela um corpo que sinaliza a impossibilidade de sustentar o nível de estresse imposto pelo trabalho no varejo, especialmente em um período simbólico de encerramento e transição.

Entre o Natal e a passagem para 2026, o corpo impõe uma interrupção. Ele fala onde a palavra falhou. Escutá-lo, nesse contexto, não é apenas uma questão clínica, mas ética.


Referências bibliográficas

  • Dejours, C. (2015). A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. Cortez.
  • Engel, G. L. (1977). The need for a new medical model: A challenge for biomedicine. Science, 196(4286), 129–136.
  • Gandhi, R. T., Lynch, J. B., & Del Rio, C. (2020). Mild or moderate Covid-19. New England Journal of Medicine, 383, 1757–1766.
  • Guyton, A. C., & Hall, J. E. (2021). Tratado de fisiologia médica. Elsevier.
  • Lipp, M. E. N. (2000). O estresse está dentro de você. Contexto.
  • Marty, P. (1993). A psicossomática do adulto. Artes Médicas.
  • McDougall, J. (1991). Teatros do corpo: o psicossoma em psicanálise. Martins Fontes.

 

 

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