Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208
Resumo
Este artigo analisa dois atos
falhos ocorridos em contextos distintos — laboral e familiar — como
manifestações de uma mesma estrutura subjetiva. No primeiro, um fiscal de caixa
esquece de habilitar o self-checkout e, ao recordar-se, opta por não ativá-lo.
No segundo, o sujeito esquece de visitar um primo em situação de extrema
exclusão social, apesar de tempo disponível, lembrando-se apenas
posteriormente. A partir da teoria psicanalítica freudiana e lacaniana,
sustenta-se que tais atos falhos não são falhas acidentais, mas formações do
inconsciente que expressam a recusa do sujeito em ocupar posições simbólicas
nas quais a palavra, o desejo e o reconhecimento estão ausentes. O artigo
propõe que esses atos espelham um conflito ético do sujeito que se pensa como
psicólogo, situado entre a função automatizada e a clínica impossível.
Palavras-chave:
ato falho; inconsciente; ética da psicanálise; reconhecimento simbólico;
clínica sem demanda.
1. Introdução
Freud introduz o conceito de ato
falho (Fehlleistung) como uma formação do inconsciente que se manifesta
em lapsos, esquecimentos e erros aparentemente banais, mas dotados de sentido
(Freud, 1901). Longe de serem meros acidentes, tais falhas indicam a presença
de um conflito entre a intenção consciente e o desejo inconsciente.
O presente artigo analisa dois
episódios de ato falho, articulando-os como expressões de uma mesma lógica
subjetiva. A hipótese central é que o sujeito falha justamente quando é
convocado a sustentar funções nas quais se encontra reduzido a operador automático
ou confrontado com a impossibilidade da função clínica.
2. Fundamentação Teórica: o Ato Falho e o Desejo
Em Psicopatologia da Vida
Cotidiana, Freud demonstra que o esquecimento significativo ocorre quando a
representação a ser realizada entra em conflito com tendências inconscientes
recalcadas (Freud, 1901/1996). O esquecimento não indica ausência de desejo,
mas sua divisão.
Lacan retoma essa formulação ao
afirmar que o ato falho é um ato bem-sucedido do inconsciente, pois nele
o sujeito realiza, sem saber, aquilo que não pode sustentar conscientemente
(Lacan, 1957–1958).
Assim, o ato falho não deve ser
corrigido, mas interpretado, pois ele diz algo da posição do sujeito no
discurso.
3. O Ato Falho no Campo do Trabalho: o
Self-Checkout
No primeiro episódio, o fiscal de
caixa abre o sistema em seu nome, atende os clientes, mas esquece de habilitar
o self-checkout. Ao recordar-se, opta por não ligá-lo.
Do ponto de vista psicanalítico,
esse detalhe é decisivo: não se trata de esquecimento puro, mas de lembrar e
não fazer. O self-checkout funciona como um significante da automatização,
da exclusão da palavra e da substituibilidade do sujeito. Ao não ativá-lo, o
sujeito se recusa a sustentar uma função que o reduz a mero operador técnico.
Esse ato falho expressa uma
resistência à identificação com um lugar no qual o sujeito não é reconhecido,
apenas utilizado — fenômeno que Lacan descreve como a captura do sujeito pelo
discurso do capitalista, onde a função prevalece sobre o laço simbólico (Lacan,
1972).
4. O Ato Falho no Campo Familiar: a Visita ao
Primo
No segundo episódio, o sujeito
planeja visitar um primo que vive em extrema exclusão social, mas esquece a
visita, justificando-se posteriormente pela chuva e pela distância. Elementos
adicionais — o bairro como lugar traumático, a recusa do primo em aceitar
ajuda, a errância constante — revelam que o encontro colocaria o sujeito diante
de um real insuportável.
Freud observa que o esquecimento
frequentemente incide sobre aquilo que provoca desprazer ou angústia (Freud,
1915). Aqui, o primo encarna uma figura de identificação negativa: alguém fora
da instituição, fora da palavra, fora da demanda. Visitá-lo implicaria
sustentar uma posição clínica impossível — a de ajudar sem que haja pedido.
5. Ancoragem dos Dois Atos Falhos
Ambos os episódios compartilham a
mesma estrutura:
- há uma função atribuída ao sujeito;
- há condições objetivas para realizá-la;
- o ato não ocorre;
- o sujeito lembra;
- e, mesmo assim, não age.
Essa repetição indica que o ato
falho não é circunstancial, mas estrutural. Tanto no trabalho quanto na
família, o sujeito recusa ocupar lugares nos quais:
- não há reconhecimento simbólico;
- não há palavra;
- não há demanda;
- não há transferência.
O “não ligar” o self-checkout e o
“não ir” à visita são formas equivalentes de dizer não a um funcionamento que
exclui o sujeito como tal.
6. O Espelhamento para o Sujeito Psicólogo
Para o sujeito que se pensa como
psicólogo, esses atos falhos funcionam como espelho ético. Eles indicam que seu
desejo não é o de operar sistemas automáticos nem o de exercer uma clínica
heroica diante do real da exclusão, mas o de sustentar um espaço onde a palavra
possa circular.
Lacan é categórico ao afirmar que não
há clínica sem demanda, e que o analista não deve ocupar o lugar de quem
sabe ou de quem salva (Lacan, 1964). O ato falho, nesse sentido, protege o
sujeito de uma posição clínica impossível.
7. Considerações Finais
Os atos falhos analisados não devem
ser compreendidos como déficits de atenção ou falhas morais, mas como soluções
psíquicas. Eles revelam um sujeito em conflito entre funções que o apagam e
ideais que ainda não encontram lugar institucional.
Interpretados conjuntamente, esses
atos falhos indicam a necessidade de deslocamento do sujeito para espaços onde
o desejo, a palavra e o reconhecimento simbólico possam operar. O inconsciente,
ao falhar, aponta uma direção ética.
Referências Bibliográficas
- Freud, S. (1901/1996). Psicopatologia da
vida cotidiana. Rio de Janeiro: Imago.
- Freud, S. (1915/1996). Recalque. In:
Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de
Janeiro: Imago.
- Lacan, J. (1957–1958). O seminário, livro 5:
As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar.
- Lacan, J. (1964). O seminário, livro 11: Os
quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
- Lacan, J. (1972). Do discurso psicanalítico.
Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
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