Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208
Introdução
A psicanálise, desde Freud,
interessa-se pelos acontecimentos aparentemente banais do cotidiano,
entendendo-os como formações do inconsciente. Gestos, esquecimentos, escolhas
de objetos e pequenos episódios sociais podem funcionar como vias de expressão do
desejo e do conflito psíquico. No contexto do trabalho, especialmente em
instituições marcadas pela repetição e pela rigidez funcional, tais
manifestações ganham relevância clínica.
Este artigo analisa a cena em que
um fiscal de caixa passa a trabalhar utilizando um tênis novo da marca
Olympikus e recebe olhares de aprovação e comentários de colegas no
supermercado. Busca-se interpretar esse episódio como uma cena de espelhamento
narcísico e de reconhecimento simbólico, articulando os conceitos de
narcisismo, olhar do Outro, identificação e desejo, conforme a tradição
freudo-lacaniana.
1. O trabalho institucional e a redução do
sujeito à função
No discurso institucional, o
trabalhador tende a ser nomeado e reconhecido prioritariamente por sua função.
O significante “fiscal de caixa” organiza expectativas, comportamentos e
lugares simbólicos, frequentemente reduzindo o sujeito à repetição de tarefas e
à vigilância normativa. Lacan (1969–1970) aponta que os discursos sociais
operam uma captura do sujeito, inscrevendo-o em posições que nem sempre
coincidem com seu desejo.
Nesse cenário, o sujeito corre o
risco de ser visto — e de se ver — apenas como suporte da função, produzindo
empobrecimento simbólico e sofrimento psíquico.
2. O objeto de consumo como portador de
significação
O tênis novo, da marca Olympikus,
não se apresenta apenas como objeto utilitário. Na lógica psicanalítica, os
objetos podem funcionar como suportes de investimento libidinal (Freud,
1914). A escolha de um objeto novo, visível e esteticamente valorizado introduz
uma diferença no cotidiano repetitivo do trabalho.
O objeto passa a operar como um significante,
isto é, algo que representa o sujeito para o Outro. Ele carrega uma mensagem
silenciosa: há ali alguém que cuida da própria imagem, que se atualiza, que não
se confunde inteiramente com o lugar funcional que ocupa.
3. Narcisismo e espelhamento
Freud descreve o narcisismo como o
investimento libidinal no próprio eu. No contexto do supermercado, o tênis
funciona como um espelho narcísico: ao ser percebido e comentado, ele
devolve ao sujeito uma imagem valorizada de si. Lacan (1949) amplia essa noção
ao afirmar que o eu se constitui no campo do olhar, no chamado estádio do
espelho.
O fiscal de caixa, ao perceber o
olhar aprovador dos colegas, reencontra uma imagem de si que não é a do
trabalhador anônimo, mas a de alguém singularizado por um traço próprio.
4. O olhar e a palavra do Outro
O olhar dos colaboradores e a fala
do segurança — “olha só o tênis” — são fundamentais. Na psicanálise, o Outro
não é apenas o indivíduo concreto, mas o lugar simbólico da linguagem e do
reconhecimento social. Quando o olhar se transforma em palavra, o reconhecimento
se fixa simbolicamente.
O segurança, nesse episódio, ocupa
a posição de porta-voz do Outro. Sua enunciação confere estatuto
simbólico ao objeto e, indiretamente, ao sujeito que o porta. O fiscal passa a
existir, naquele instante, como alguém digno de ser visto e nomeado.
5. Reconhecimento para além da função
É significativo que o
reconhecimento recaia sobre o tênis — e não sobre a eficiência no trabalho.
Isso indica uma brecha no discurso institucional: o sujeito é reconhecido por
algo que escapa à função. Segundo Lacan, o desejo do sujeito se sustenta justamente
nesses pontos de falha do discurso dominante.
O tênis espelha, portanto, um
reconhecimento que falta em outro nível: o reconhecimento do desejo de ocupar
um lugar diferente, associado à palavra, ao saber e à escuta — dimensões
próprias da identidade do psicólogo, e não do fiscal de caixa.
6. O tênis como índice do desejo e da falta
O objeto não resolve o conflito,
mas o revela. Ele mostra que o sujeito ainda investe em si, no corpo e na
imagem, sinalizando que o desejo não está morto. Ao mesmo tempo, evidencia a
falta estrutural: ser reconhecido por um objeto estético não substitui o
reconhecimento simbólico do lugar profissional desejado.
Nesse sentido, o tênis funciona
como um deslocamento: uma solução provisória que permite ao sujeito
sustentar sua dignidade psíquica enquanto o conflito entre função ocupada e
desejo permanece aberto.
Conclusão
A cena do fiscal de caixa usando um
tênis novo da marca Olympikus no supermercado, longe de ser trivial, revela-se
rica em significações psicanalíticas. O objeto opera como espelho narcísico,
suporte de reconhecimento simbólico e marcador de diferença em um contexto
institucional que tende à homogeneização.
O olhar e a palavra do Outro
produzem um efeito subjetivo importante: por um instante, o sujeito não é
apenas fiscal, mas alguém visto, valorizado e singularizado. No entanto, esse
reconhecimento parcial também aponta para a falta estrutural que atravessa sua
experiência de trabalho — a não coincidência entre o lugar ocupado e o desejo
que o habita.
Assim, o episódio confirma a tese
central da psicanálise: é nos detalhes do cotidiano que o inconsciente se
manifesta, sustentando o sujeito em sua busca por reconhecimento, sentido e
deslocamento simbólico.
Referências Bibliográficas
FREUD, S. (1914). Introdução ao
narcisismo. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas
completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
FREUD, S. (1901). Psicopatologia
da vida cotidiana. Rio de Janeiro: Imago.
LACAN, J. (1949). O estádio do
espelho como formador da função do eu. In: Escritos. Rio de Janeiro:
Zahar.
LACAN, J. (1969–1970). O
seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J.-B.
(2001). Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes.
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