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O INCONSCIENTE NO COTIDIANO DO TRABALHO

 ATO, ALIENAÇÃO, ELABORAÇÃO E DESLOCAMENTO SIMBÓLICO NA FUNÇÃO DE FISCAL DE CAIXA

Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208


Introdução

A psicanálise, desde Freud, sustenta que o inconsciente não se manifesta apenas nos sonhos ou nos sintomas clínicos clássicos, mas atravessa o cotidiano, os atos banais e a vida laboral. Pequenos esquecimentos, hesitações e automatismos não são ruídos sem sentido, mas formações do inconsciente que revelam conflitos entre o desejo do sujeito e os lugares simbólicos que ele ocupa.

Este artigo tem como objetivo analisar, à luz da psicanálise, a presença do inconsciente no cotidiano de um sujeito que exerce a função de fiscal de caixa, mas não se reconhece simbolicamente nessa posição. A partir do conceito de ato falho, alienação, autômato, desejo inconsciente, elaboração e deslocamento simbólico, busca-se demonstrar como o mal-estar cotidiano pode ser transformado em palavra, produção subjetiva e possível reposicionamento simbólico.


1. O inconsciente como estrutura e não como conteúdo oculto

Para Freud, o inconsciente não é um reservatório de pensamentos esquecidos, mas um sistema psíquico com leis próprias (Freud, 1915). Ele opera fora da lógica da consciência, insistindo por meio de deslocamentos, condensações e repetições.

Lacan radicaliza essa noção ao afirmar que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem” (Lacan, 1964), ou seja, ele se manifesta por efeitos simbólicos, e não por mensagens diretas.


2. A presença do inconsciente no cotidiano

A presença do inconsciente no cotidiano mostra que nenhum ato humano é puramente funcional. Mesmo os gestos mais simples estão sobredeterminados por significantes, identificações e conflitos.

Freud demonstra, em Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901), que lapsos e esquecimentos são vias privilegiadas de expressão do desejo recalcado.


3. O ato falho e o quase-ato falho

O ato falho ocorre quando uma ação fracassa parcialmente, revelando a interferência do inconsciente. No entanto, há situações limítrofes — os quase-atos falhos — em que a falha não se consuma, mas deixa marcas.

Esses fenômenos indicam que o inconsciente não visa necessariamente à ruptura com a realidade, mas à introdução de fissuras no automatismo do eu.


4. O ego e a manutenção da alienação

O ego, em Freud, não é a instância da verdade, mas da adaptação (Freud, 1923). Ele sustenta a alienação do sujeito aos ideais, às exigências sociais e às funções institucionais.

Lacan mostra que o ego é uma instância imaginária, responsável por manter a coerência e a repetição do mesmo, mesmo às custas do desejo.


5. Autômato e repetição significante

Lacan distingue o autômato — repetição regida pelo significante — do tíquico, encontro com o real (Lacan, 1964). No trabalho repetitivo, o sujeito frequentemente opera no regime do autômato.

A função de fiscal de caixa, marcada por controle, vigilância e tempo cronometrado, favorece essa lógica de repetição sem investimento subjetivo.


6. O desejo inconsciente e a não-identificação com a função

O inconsciente não formula negações diretas como “não quero esse trabalho”. Ele revela, antes, uma não-identificação entre o sujeito e o lugar que ocupa.

O desejo inconsciente aparece como desencaixe, mal-estar ou esvaziamento, indicando que a função exercida não representa o sujeito simbolicamente.


7. O trabalho como lugar do Outro

Na psicanálise, o trabalho é um campo privilegiado do Outro social. Ele impõe horários, regras, linguagem e posições.

Quando o sujeito não se reconhece nesse lugar, o trabalho passa a ser vivido como pura exigência do Outro, sem mediação do desejo.


8. O corpo como via de manifestação do inconsciente

Freud já indicava que o corpo é atravessado pelo inconsciente. No cotidiano laboral, isso pode aparecer como:

  • cansaço excessivo,
  • tensão corporal,
  • sensação de peso,
  • irritabilidade difusa.

Trata-se de um corpo que sustenta um trabalho não simbolizado.


9. O tempo e o mal-estar subjetivo

O tempo é um operador central no supermercado. Quando o tempo da função não coincide com o tempo subjetivo, surge a sensação de lentidão, espera interminável ou esvaziamento.

Lacan aponta que o tempo lógico do sujeito não se reduz ao tempo cronológico (Lacan, 1945).


10. A linguagem cotidiana como índice clínico

A forma como o sujeito fala de seu trabalho revela sua posição subjetiva. Expressões como “tenho que”, “é só isso” ou “qualquer um faz” indicam desinvestimento simbólico.

A linguagem denuncia a alienação antes mesmo de qualquer decisão consciente.


11. Da vivência muda à palavra

Elaboração psíquica começa quando o mal-estar deixa de ser apenas sentido e passa a ser nomeado. Isso exige suspender explicações prontas e permitir que a experiência seja narrada.

A palavra inaugura uma distância entre o sujeito e a função.


12. Elaboração como construção de uma frase própria

Elaborar não é compreender intelectualmente, mas produzir uma formulação que implique o sujeito.

Exemplo clínico:

“Nesse trabalho, eu funciono, mas não sou reconhecido como sujeito de palavra.”

Essa frase já opera como deslocamento simbólico.


13. Deslocamento simbólico e separação da identificação

O deslocamento simbólico ocorre quando o sujeito se separa da identificação total com a função, mesmo permanecendo nela materialmente.

Trata-se de distinguir necessidade econômica de identidade subjetiva.


14. Da palavra ao ato não impulsivo

Somente após a elaboração é que o ato pode advir. A psicanálise não prescreve mudanças, mas cria condições para que o sujeito não repita a mesma alienação em outro lugar.

O ato, quando ocorre, é consequência de uma palavra sustentada, e não de um acting-out.


Conclusão

A presença do inconsciente no cotidiano do trabalho revela que o sujeito nunca se reduz à função que ocupa. Pequenos gestos, hesitações e mal-estares indicam conflitos entre o desejo e os lugares simbólicos impostos pelo Outro social.

Transformar esse mal-estar em palavra permite a elaboração psíquica e o deslocamento simbólico, possibilitando que o sujeito se separe da alienação sem recorrer a rupturas precipitadas. A psicanálise mostra, assim, que o verdadeiro deslocamento começa na linguagem, antes de qualquer mudança concreta.


Referências Bibliográficas

FREUD, S. A Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901).
FREUD, S. O Inconsciente (1915).
FREUD, S. O Ego e o Id (1923).
LACAN, J. O Estádio do Espelho (1949).
LACAN, J. O Tempo Lógico e a Asserção de Certeza Antecipada (1945).
LACAN, J. O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise (1964).
LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

 

 

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