Ano 2025. Autor [Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208]
Resumo
Este artigo analisa uma formação onírica na qual a potência
fálica aparece hiperinflacionada e simbolicamente equiparada a uma grande
quantia de dinheiro. Partindo da teoria psicanalítica freudiana e lacaniana, o
texto sustenta que o sonho não se refere à sexualidade genital, mas a uma
problemática de legitimação simbólica do sujeito no laço social. O sonho é
compreendido como resposta do inconsciente a uma experiência de desvalorização,
apagamento funcional e ausência de reconhecimento do saber e do desejo do
sujeito. A análise articula os conceitos de falo, narcisismo, equivalentes
simbólicos do valor e economia libidinal, demonstrando como o inconsciente
produz uma compensação imaginária diante da falha de inscrição simbólica.
Palavras-chave: Psicanálise; sonho;
falo; reconhecimento; dinheiro; legitimação simbólica.
1. Introdução
A psicanálise ensina que o sonho não deve ser interpretado a
partir de seu conteúdo manifesto, mas como uma formação do inconsciente
estruturada por deslocamentos, condensações e equivalências simbólicas (Freud,
1900). Quando o conteúdo onírico envolve o pênis e sua potência, o risco de uma
leitura biologizante é grande. Contudo, desde Freud e, de modo mais rigoroso,
em Lacan, o pênis no sonho não é o órgão anatômico, mas o significante
fálico, operador central da economia do desejo e do valor simbólico.
O sonho analisado — no qual o pênis aparece excessivamente
rígido e comparado a uma enorme quantia de dinheiro — permite investigar uma
questão clínica recorrente: o que ocorre quando o saber, a função ou o desejo
do sujeito não encontram legitimação no campo do Outro?
2. O sonho como resposta à falta de
reconhecimento
Freud (1900) define o sonho como uma realização de desejo. No
entanto, o desejo realizado no sonho raramente é simples ou direto; ele aparece
deformado, exagerado ou deslocado. No caso em análise, a potência fálica
aparece elevada a um grau excessivo, indicando não uma satisfação tranquila,
mas uma tensão compensatória.
A hipertrofia da ereção aponta para uma experiência diurna
oposta: uma vivência de impotência simbólica. O sonho, assim, não expressa um
excesso real de potência, mas uma tentativa do aparelho psíquico de reparar uma
ferida narcísica. Como afirma Freud (1914), o narcisismo é profundamente
afetado quando o sujeito não encontra reconhecimento de seu valor no mundo
externo.
3. O falo como significante do valor
Lacan rompe definitivamente com qualquer leitura biológica do
falo ao defini-lo como um significante, e não como um órgão (Lacan, 1958). O
falo representa aquilo que confere valor, consistência e lugar ao sujeito no
campo simbólico. Ele não é algo que se é, mas algo que se tem ou se perde no
jogo do desejo do Outro.
Nesse sentido, sonhar com um falo hiperpoderoso equivale a
sonhar com um excesso de valor simbólico. Trata-se de uma afirmação
imaginária frente à percepção inconsciente de que, na realidade, esse valor não
está sendo reconhecido.
4. Dinheiro como equivalente fálico
A equivalência entre pênis e dinheiro é um ponto decisivo do
sonho. Freud já havia indicado que o dinheiro funciona como um substituto
simbólico ligado à libido, à retenção e à potência (Freud, 1908). Lacan amplia
essa leitura ao situar o dinheiro como um dos equivalentes fálicos
privilegiados na modernidade.
O dinheiro representa:
- Valor
mensurável
- Poder
de circulação
- Reconhecimento
social
- Garantia
de existência simbólica
Quando o inconsciente iguala o falo a uma “quantia enorme de
dinheiro”, ele articula diretamente potência subjetiva e valor social. O sonho
diz, em sua lógica própria: ter potência é valer; valer é ser reconhecido.
5. Inflação fálica e compensação narcísica
A desmedida presente no sonho — “tão duro” quanto “uma
quantia enorme” — indica um mecanismo clássico de inflação fálica. Em
termos clínicos, tal inflação não aponta para segurança, mas para fragilidade.
Quanto menos o sujeito se sente simbolicamente autorizado, mais o imaginário
tenta inflar a potência.
Lacan (1966) mostra que, quando o simbólico falha em conferir
lugar ao sujeito, o imaginário tende a ocupar esse vazio por meio de
exagerações, idealizações ou fantasias de poder. O sonho opera exatamente nessa
lógica: ele sustenta o eu onde o Outro falha em legitimar.
6. Saber, função e desejo sem legitimação
O núcleo do sonho revela uma experiência estrutural: o
sujeito possui saber, desejo e capacidade de transmissão, mas esses elementos
não encontram inscrição simbólica reconhecida. O sonho surge como uma tentativa
de afirmar, no nível imaginário, aquilo que não encontra lugar no discurso
social.
Assim, o sonho não afirma simplesmente “eu sou potente”, mas
responde a uma pergunta mais fundamental:
“Se meu saber não é reconhecido, quanto eu valho?”
O inconsciente responde inflando o valor, produzindo uma
equivalência direta entre potência fálica e riqueza simbólica.
7. Considerações finais
O sonho analisado não pertence ao campo da sexualidade
genital, mas ao da economia do reconhecimento. Ele expressa uma luta silenciosa
do sujeito para sustentar sua dignidade simbólica diante de um Outro que não
legitima seu saber, sua função ou seu desejo.
A psicanálise ensina que, quando o sujeito não encontra lugar
no simbólico, o inconsciente cria soluções imaginárias para evitar o colapso
narcísico. O sonho, nesse sentido, não engana: ele protege, sustenta e
denuncia. Denuncia que o desejo do sujeito permanece vivo, ainda que sem
autorização social.
Em última instância, o sonho afirma aquilo que ainda não pôde
ser dito no laço social: “eu tenho valor, mesmo que não me reconheçam.”
Referências bibliográficas
- Freud,
S. (1900). A interpretação dos sonhos. Edição Standard Brasileira.
Rio de Janeiro: Imago.
- Freud,
S. (1908). Caráter e erotismo anal. In: Edição Standard Brasileira.
Rio de Janeiro: Imago.
- Freud,
S. (1914). Introdução ao narcisismo. In: Edição Standard
Brasileira. Rio de Janeiro: Imago.
- Lacan,
J. (1958). A significação do falo. In: Escritos. Rio de
Janeiro: Zahar.
- Lacan,
J. (1966). Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
- Laplanche,
J.; Pontalis, J.-B. (1967). Vocabulário da psicanálise. São Paulo:
Martins Fontes.
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