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Trabalhar com a lei ou encarnar a lei em si

Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208


Resumo

Este artigo articula a distinção entre trabalhar com a lei e encarnar a lei em si mesmo a partir de uma leitura psicanalítica, especialmente lacaniana, tomando como eixo clínico a experiência de um psicólogo que ocupa a função de fiscal em um ambiente organizacional autoritário (supermercado) e que adoece por meio de uma pneumonia compreendida como fenômeno psicossomático. Sustenta-se que o adoecimento não opera como mensagem simbólica, mas como índice real da impossibilidade de sustentar uma posição subjetiva na qual o corpo é convocado a ser suporte direto da lei. A pneumonia é lida como reinscrição da lei no corpo, evidenciando a diferença entre lei simbólica e supereu institucional e oferecendo critérios éticos e clínicos para o reposicionamento profissional.


1. Introdução

A relação entre sujeito e lei constitui um dos eixos centrais da teoria psicanalítica. Desde Freud até Lacan, a lei aparece não apenas como instância normativa externa, mas como operador estruturante do laço social e da subjetividade. No campo institucional, contudo, essa distinção tende a se apagar, sobretudo em organizações regidas por modelos autoritários, nos quais a lei se reduz a comando, controle e punição.

Este artigo parte de um caso-clínico ampliado: o de um psicólogo que, inserido em diferentes instituições ao longo de sua trajetória profissional, ocupa reiteradamente posições marcadas pelo conflito com a lei organizacional. No supermercado, esse conflito atinge um ponto crítico quando o sujeito, exercendo a função de fiscal — função normativa por excelência —, adoece gravemente com uma pneumonia, afastando-se do trabalho por licença médica.

A hipótese aqui defendida é que esse adoecimento pode ser lido, à luz da psicossomática lacaniana, como efeito de uma colagem entre o significante da lei e o corpo do sujeito, isto é, como resultado de uma posição em que o sujeito é convocado a encarnar a lei, e não a trabalhar com ela.


2. Trabalhar com a lei versus encarnar a lei

Trabalhar com a lei implica reconhecer a lei como terceiro simbólico: algo que organiza o laço social, mas que permanece separado do sujeito. Nessa posição, a lei pode ser interrogada, mediada, interpretada e simbolizada. Há intervalo entre o sujeito e a norma, o que permite a circulação da palavra, a elaboração do conflito e a responsabilização sem coerção.

Encarnar a lei, ao contrário, significa abolir esse intervalo. O sujeito passa a responder em nome da norma, tornando-se seu executor direto. A lei deixa de ser objeto de trabalho e se confunde com o corpo e a voz do agente. Essa posição é típica do discurso do mestre (Lacan, 1969-1970), no qual o significante-mestre comanda sem mediação e exige obediência.

No contexto do supermercado descrito, a lei organizacional apresenta-se de forma crua: não há espaço para palavra, negociação ou leitura crítica. O fiscal de caixa deve ser a lei. Não há possibilidade de trabalhar com a lei; há apenas a exigência de encarná-la.


3. Ideal do Eu, desejo e engajamento institucional

O engajamento do psicólogo nessa função não é casual. Ele revela uma afinidade estrutural entre seu Ideal do Eu e o campo da lei. Valores como justiça, correção, responsabilidade e regulação organizam seu Ideal do Eu e orientam seu desejo profissional.

Num primeiro tempo lógico, encarnar a lei aparece como uma via possível de acesso ao próprio campo da lei. Sustenta-se, inconscientemente, a fantasia de que seria possível exercer a função normativa de modo ético, humano ou justo, mesmo em um dispositivo autoritário. Trata-se da fantasia de ser a exceção ética dentro do sistema.

Esse engajamento inicial é necessário para que a impossibilidade estrutural se revele. O supermercado funciona, nesse sentido, como um laboratório involuntário: nele, o supereu institucional se manifesta sem véus, exigindo obediência cega e produzindo violência cotidiana.


4. Lei simbólica e supereu institucional

A distinção entre lei simbólica e supereu é central para a leitura proposta. A lei simbólica, vinculada ao Nome-do-Pai, introduz limite, falta e possibilidade de mediação. O supereu, ao contrário, ordena: “Goza!”, “Obedece!”, “Funciona!”. Ele não regula; ele pressiona e pune (Freud, 1923; Lacan, 1959-1960).

Nas organizações autoritárias, a lei tende a operar sob a forma de supereu institucional. Não se trata de uma lei que estrutura o laço, mas de um imperativo que captura o sujeito. Quando o psicólogo é convocado a encarnar essa lei, seu Ideal do Eu entra em curto-circuito com o supereu, produzindo um impasse subjetivo.


5. Psicossomática lacaniana e fenômeno psicossomático

Na teoria lacaniana, o fenômeno psicossomático não é um sintoma no sentido clássico. Ele não se estrutura como metáfora nem se inscreve na cadeia significante. Trata-se de uma inscrição direta no corpo, efeito de uma holófrase, isto é, de uma colagem extrema entre significantes que elimina o intervalo simbólico (Lacan, 1964).

O fenômeno psicossomático surge quando algo que deveria passar pela palavra não encontra lugar para se simbolizar. O corpo, então, torna-se suporte dessa inscrição.


6. A pneumonia como reinscrição da lei no corpo

A pneumonia, nesse contexto, não deve ser lida como mensagem simbólica dirigida ao Outro institucional, nem como autopunição consciente. Ela funciona como índice real de uma posição subjetiva impossível.

Ao encarnar a lei organizacional, o psicólogo vê seu corpo capturado pelo significante-mestre da norma. A ausência de mediação simbólica — característica do ambiente do supermercado — produz uma colagem entre lei e corpo. A pneumonia pode ser compreendida, assim, como reinscrição da lei no corpo: onde a palavra foi abolida, o corpo respondeu.

O adoecimento suspende temporariamente a exigência impossível de funcionamento. Ele não resolve o conflito, mas cria um intervalo forçado, retirando o corpo da cena institucional.


7. A leitura a posteriori e a separação simbólica

O fenômeno psicossomático só adquire valor clínico a posteriori, quando pode ser lido. É essa leitura que transforma o adoecimento em operador de decisão e não em destino.

No caso em questão, a pneumonia permite ao sujeito reconhecer um limite inequívoco: seu corpo não pode ser o suporte da lei autoritária. Essa leitura abre a possibilidade de uma separação simbólica — ainda que a saída concreta do trabalho não seja imediata — e de um reposicionamento ético frente ao desejo.

Trabalhar com a lei passa, então, a significar escolher campos institucionais onde a lei possa ser falada, mediada e interrogada, como na socioeducação, na justiça restaurativa, na clínica ampliada ou na consultoria institucional.


8. Considerações finais

A distinção entre trabalhar com a lei e encarnar a lei em si mesmo não é apenas conceitual; ela é clínica, ética e política. O caso analisado mostra que, quando essa distinção se apaga, o corpo pode ser convocado a pagar o preço.

A pneumonia, lida como fenômeno psicossomático, reinscreve no real do corpo a impossibilidade de sustentar uma posição superegóica. Ela indica que o desejo do psicólogo está implicado na lei, mas não em sua forma autoritária. O trabalho clínico e profissional consiste, então, em restaurar o intervalo simbólico, substituindo o corpo pela palavra e o sacrifício pela mediação.


Referências bibliográficas

FREUD, S. (1923). O eu e o id. Edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1930). O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago.

LACAN, J. (1959-1960). O Seminário, livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

LACAN, J. (1964). O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

LACAN, J. (1969-1970). O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

MILLER, J.-A. (1987). Percurso de Lacan. Rio de Janeiro: Zahar.

SOLER, C. (1996). O inconsciente a céu aberto. Rio de Janeiro: Zahar.

 

  

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