Pular para o conteúdo principal

Ato Falho Esquecer De Registrar No Papel As Perguntas Provocativas Do Cliente

 Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208

O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. O psicólogo havia planejado utilizar cinco perguntas reflexivas sobre ansiedade na sessão com o cliente, com o objetivo de estimular o autoconhecimento e aprofundar o processo terapêutico. Para facilitar o acesso a essas perguntas durante a conversa, ele pretendia escrevê-las previamente em um papel. No entanto, acabou se esquecendo de anotar as perguntas provocativas antes da sessão, o que dificultou sua menção no momento oportuno.

Vamos interpretar essa situação passo a passo pela psicanálise, como se você estivesse começando agora a entender essa abordagem.


🧠 O que aconteceu?

O psicólogo tinha um plano consciente: escrever cinco perguntas reflexivas sobre ansiedade para usar na sessão com o cliente. No entanto, esqueceu de escrever essas perguntas num papel, o que dificultou a aplicação durante a sessão.


🧠 Como a psicanálise explica isso?

Na psicanálise, esse tipo de esquecimento não é visto como um simples acaso. É interpretado como um ato falho, ou seja, uma ação involuntária que revela algo do inconsciente. Vamos entender isso:


🔍 Etapas da Interpretação Psicanalítica

1. O Ego fez um plano

O ego é a parte da mente que lida com a realidade. Ele planejou conscientemente escrever as perguntas. Mas não executou a ação. Por quê?

2. O Superego pode ter interferido

O superego é como um juiz interno, com normas morais e exigências. Talvez tenha havido uma pressão interna do tipo:

  • “Você precisa fazer uma sessão perfeita.”
  • “Você não pode errar como psicólogo.”
    Essa exigência pode gerar ansiedade de desempenho, e como defesa, o ego pode “esquecer” algo para não entrar em contato com essa cobrança interna.

3. O Id pode ter desejado escapar

O id é a parte mais primitiva da mente, ligada aos desejos e ao prazer. Ele pode ter influenciado esse esquecimento como forma de dizer:

  • “Está cansado disso.”
  • “Isso está ficando chato ou repetitivo.”
    Ou seja, o id talvez não quisesse seguir o plano do ego e sabotar discretamente a ação.

4. O Mecanismo de Defesa do Recalque ou da Negação

Talvez o conteúdo das perguntas fosse muito provocativo, e o ego, inconscientemente, tenha recalcado (escondido) essa intenção para evitar gerar angústia no cliente — ou em si mesmo. Às vezes, temos medo de provocar desconforto, e o esquecimento é uma forma inconsciente de evitar isso.


🧩 Exemplo de formulação como iniciante:

“Talvez meu inconsciente, querendo me proteger de algum desconforto (meu ou do cliente), tenha feito eu esquecer de escrever as perguntas, mesmo tendo planejado. Isso pode ser uma forma de me poupar de alguma angústia, medo de falhar ou até medo de tocar em temas profundos com o cliente.”


O que você pode fazer com esse insight?

1.      Observar-se com curiosidade e sem julgamento: “O que em mim pode ter resistido a esse preparo?”

2.      Explorar seus próprios sentimentos diante do tema da ansiedade — talvez o conteúdo das perguntas fosse mobilizador também para você.

3.      Anotar os atos falhos, como esse, e usá-los como pontos de autoconhecimento e crescimento clínico.


Vamos construir cinco perguntas reflexivas sobre ansiedade que você pode usar com seus clientes em psicoterapia — e, ao mesmo tempo, vamos considerar que essas perguntas podem ter sido recalcadas (esquecidas) porque tocam em conteúdos profundos para o cliente ou para o próprio terapeuta.

Vou escrever cada pergunta com uma breve explicação psicanalítica (em linguagem para iniciantes), para que você compreenda o que ela pode provocar ou revelar:


🧩 1. O que você sente que está tentando controlar quando fica ansioso?

🔍 Na psicanálise, a ansiedade muitas vezes aparece quando o ego tenta controlar impulsos do id que são vistos como inaceitáveis (por exemplo, raiva, desejo, sexualidade). Essa pergunta ajuda o cliente a perceber se a ansiedade está ligada ao medo de perder o controle de algo que ele mesmo reprime.


🧩 2. Existe alguma parte de você que parece se beneficiar da sua ansiedade?

🔍 Pode parecer estranho, mas às vezes a ansiedade cumpre uma função: evitar riscos, evitar contato com desejos reprimidos, proteger de fracassos. Essa pergunta convida o cliente a explorar possíveis “ganhos secundários” da ansiedade — algo inconsciente que o ego sustenta.


🧩 3. Quando foi a primeira vez que você se sentiu assim?

🔍 Essa pergunta busca levar o cliente a associar o momento atual com experiências passadas, especialmente da infância. A psicanálise acredita que a ansiedade atual pode ter raízes em experiências antigas que foram recalcadas.


🧩 4. O que você teme que aconteça se sua ansiedade desaparecer?

🔍 Às vezes, a pessoa teme que, sem ansiedade, ela possa se permitir demais, ser "irresponsável" ou entrar em contato com desejos que foram proibidos pelo superego. Essa pergunta explora o medo inconsciente de viver com mais liberdade.


🧩 5. Se sua ansiedade tivesse uma voz, o que ela diria para você agora?

🔍 Essa pergunta dá linguagem ao sintoma. Muitas vezes, a ansiedade expressa algo que não pode ser dito diretamente — um grito do inconsciente. Essa técnica aproxima o cliente do conteúdo reprimido de forma simbólica e menos ameaçadora.


🗒️ Sugestão:

Escreva essas perguntas num cartão ou papel e mantenha por perto na sessão. Isso ajuda o ego a não depender apenas da memória — e evita que o superego interfira com autocríticas do tipo "você devia lembrar tudo de cabeça".

 

Comentários

Postagens mais visitadas

O Luto do Lugar de Psicólogo Institucional: Castração Simbólica, Destituição e Sustentação do Desejo

  Resumo Este artigo discute, a partir da psicanálise freudiana e lacaniana, a experiência subjetiva do luto relacionado à perda ou à impossibilidade de ocupação do lugar institucional idealizado do psicólogo. Partindo das formulações “talvez eu não ocupe o lugar que imaginei” e “não ter garantia institucional do lugar de psicólogo”, propõe-se compreender tal vivência como atravessamento da falta estrutural, da castração simbólica e da destituição do ideal do eu. Sustenta-se que o luto do lugar institucional não implica o desaparecimento da função subjetiva do psicólogo, mas a possibilidade de reinscrição do desejo para além do reconhecimento do Outro. Palavras-chave: psicanálise; instituição; luto; castração simbólica; desejo; identidade profissional. 1. Introdução: o lugar institucional como ideal A construção da identidade profissional do psicólogo frequentemente se articula ao reconhecimento institucional e ao pertencimento a um campo simbólico específico. Entret...

O Que Cabe A Mim No Ambiente, O Qual Estou Inserido

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a tenção do para um excelente tópico. O papel que você desempenha no ambiente em que está inserido é extremamente importante, pois suas ações e podem influenciar o comportamento e o bem-estar de outras pessoas e do próprio ambiente. Aplicando e exercitando as competências comportamentais, isto é, as soft skills e hard skills a fim de defrontar-se com a insegurança. [...] Esse medo marcará nossa memória, de forma desprazerosa, e será experimentado como desamparo, “portanto uma situação de perigo é uma situação reconhecida, lembrada e esperada de desamparo” (Freud, 2006, p.162). Em primeiro lugar, cabe a você respeitar as regras e normas do ambiente, seja ele uma escola, local de trabalho, residência, universidade, comunidade ou outro ambiente social. Isso inclui ser pontual, tratar as outras pessoas com respeito e cortesia, e seguir as normas de conduta estabelecidas para aquele ambiente. Al...

Sujeito está capturado pela estrutura simbólica atual

  Resumo O presente artigo analisa a condição de um sujeito que, embora manifeste desejo claro de transição profissional, permanece imobilizado dentro de uma estrutura simbólica que organiza sua posição como dependente de autorização externa. A partir de referenciais psicanalíticos, especialmente de Sigmund Freud e Jacques Lacan, argumenta-se que o impasse não se reduz à falta de oportunidade objetiva, mas envolve uma captura subjetiva pela lógica da espera, da hierarquia e da validação institucional. O sonho relatado — no qual o sujeito se encontra na posição “1000” aguardando ser chamado — é analisado como formação de compromisso que organiza a angústia sem, contudo, promover deslocamento estrutural. 1. Introdução O cenário analisado envolve um sujeito que trabalha em um supermercado, encontra-se exausto e afirma não suportar mais sua posição atual, mas simultaneamente declara não enxergar saída concreta. O desejo declarado é ocupar uma vaga como psicólogo institucion...

Não é o psicólogo que escolhe o campo: é o campo que o escolhe

  Uma leitura estrutural a partir da clínica, da indicação e da metáfora do supermercado Introdução Uma das maiores fontes de sofrimento psíquico entre psicólogos em início ou transição de carreira é a crença de que o sucesso profissional depende exclusivamente de esforço, visibilidade e escolha ativa do nicho . Quando, apesar de investimentos contínuos em formação, marketing e exposição, a clínica não se sustenta, instala-se a vivência de fracasso pessoal, culpa e compulsão à repetição. Este artigo propõe uma leitura estrutural alternativa: não é o psicólogo que escolhe o campo ou o nicho, mas o campo que escolhe o psicólogo . Para tornar essa lógica inteligível, utiliza-se a metáfora do supermercado como modelo didático de funcionamento do campo simbólico, articulando contribuições da psicanálise, da sociologia e da teologia. O campo como estrutura que antecede o sujeito Na sociologia de Pierre Bourdieu, o campo é definido como um espaço estruturado de posições, r...

Caminhos Tradicionais Alternativos Para Exercer Psicologia

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Além das oportunidades de emprego tradicionais, que é a forma de pensar ou de agir herdada de gerações anteriores na busca de emprego em sites de vagas, agências de empregos, empreendedorismo, gerenciar consultório clinico, participar de processos seletivos para trabalhar em instituições, ter indicação de colegas de profissão, realizar palestras de temas específicos, tentar parcerias com outros profissionais da saúde. O psicólogo pode considerar caminhos alternativos dentro da psicologia, será que existe algum novo alternativo? Quais seriam esses caminhos alternativos? E como ser proativo na busca por possíveis oportunidades dentro do mercado de trabalho para aumentar as chances de encontrar posições adequadas alinhadas com suas aspirações profissionais. Esses procedimentos tradicionais citados acima são uma transmissão oral dos fatos e atitudes de...

Adaptação De Emprego A Psicólogo

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Como um psicólogo na faixa etária adapta sua candidatura a emprego no mercado de trabalho para atuar em instituições na atuação de psicólogo da saúde. Como psicólogo na faixa etária adaptar sua candidatura a empregos no mercado de trabalho para atuar em instituições na área da psicologia da saúde requer a compreensão de diferentes abordagens teóricas e práticas. Vou explicar a seguir como você poderia adaptar sua candidatura, primeiro pela abordagem da psicologia social e depois pela abordagem da psicanálise. Abordagem da Psicologia Social: Na abordagem da psicologia social, é importante destacar a sua compreensão dos aspectos sociais e culturais que influenciam a saúde mental das pessoas. Aqui estão algumas dicas para adaptar sua candidatura: a) Educação e experiência: Destaque a sua formação acadêmica em psicologia social, enfatizando os curs...

O Fiscal de Caixa Psicólogo: o Exílio do Saber Psicológico no Supermercado

  Resumo Este artigo discute a condição paradoxal do psicólogo que ocupa uma função operacional dentro do supermercado, especificamente no cargo de fiscal de caixa. Argumenta-se que, embora o saber psicológico permaneça ativo na prática cotidiana, ele se encontra exilado da instituição, pois não é reconhecido simbolicamente como função legítima. A análise articula contribuições da psicologia institucional, da psicanálise lacaniana e da sociologia do reconhecimento profissional, demonstrando como o psicólogo pode existir subjetivamente para si, mas não existir socialmente para o Outro institucional. O fiscal de caixa psicólogo torna-se, assim, uma figura emblemática do deslocamento do saber clínico no interior de dispositivos organizacionais regidos pela lógica produtiva. Palavras-chave: psicologia institucional; reconhecimento simbólico; supermercado; exílio profissional; subjetividade. 1. Introdução A presença de psicólogos em espaços não tradicionais de atuação tem...

Desamparo Material e Repetição Defensiva: Sobrevivência, Exaustão e o Real da Necessidade

  Resumo Este artigo investiga, a partir da psicanálise freudiana e lacaniana, o desamparo material como núcleo organizador da compulsão à repetição defensiva em contextos institucionais precarizados. Partindo da formulação “passar necessidade” como medo central do sujeito, discute-se como o ego se estrutura em torno da sobrevivência, transformando soluções contingentes em destinos repetitivos. A instituição aparece como espaço ambivalente: simultaneamente proteção econômica e apagamento simbólico. Sustenta-se que a exaustão psíquica emerge quando a defesa se torna armadura permanente, e que a elaboração possível não reside em rupturas heroicas, mas na construção gradual de um campo real mínimo para o desejo, sem abandono da prudência material. Palavras-chave: desamparo; compulsão à repetição; precariedade; instituição; desejo; exaustão. 1. Introdução: o Real da necessidade A experiência contemporânea do trabalho, marcada por precariedade e insegurança econômica, imp...

Drogas Recorrência Sistema Prisional

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para a compulsão a repetição no sistema prisional devido a drogas. Exemplo, um indivíduo é usuário de drogas e foi encarcerado por um tempo no sistema prisional. Cumpriu a pena saiu em liberdade, mas logo em seguida após cometer delitos pequenos para sustentar o vício das drogas foi encarcerado novamente. O sujeito cumpriu a pena no regime fechado e foi posto em liberdade novamente. Os familiares se mobilizam e oferecem uma internação em clínica de reabilitação, mas o sujeito não aceita e comete novamente outros delitos que o conduz ao cárcere privado no sistema prisional. Na abordagem da psicanálise, o comportamento descrito pode ser compreendido à luz de conceitos como o inconsciente, pulsões e o mecanismo de repetição. Vou tentar explicar esses conceitos de maneira simples e relacioná-los ao caso descrito. Segundo a psicanálise, o inconsciente é uma parte da mente que ...

Do não-saber estrutural ao insight: o que muda quando o psicólogo acessa a lógica do campo

  Resumo Este artigo analisa a experiência de um psicólogo que, durante anos, buscou inserção profissional por meios convencionais — sites de vagas, processos seletivos e lógica de RH — sem êxito, permanecendo em um ciclo de repetição e sofrimento psíquico. A partir de um insight intelectual e simbólico, o profissional passa a compreender que o impedimento não era pessoal, mas estrutural: o campo institucional opera por mediação, lembrança e autorização, e não por competição curricular. Discute-se o impacto desse acesso ao saber estrutural na percepção de si, do campo e do próprio luto profissional. 1. Introdução: quando o fracasso não é individual No discurso contemporâneo do trabalho, o insucesso profissional costuma ser atribuído à falta de competência, esforço ou adaptação. Essa lógica individualizante ignora que campos institucionais distintos operam segundo regras distintas , muitas vezes invisíveis a quem está fora deles (Bourdieu, 1996). O psicólogo em quest...