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A descontinuidade entre graduação e mercado de trabalho

 Introdução

A passagem da graduação para o mercado de trabalho não constitui uma continuidade automática entre aquilo que o estudante aprende, os estágios que realiza e o lugar profissional que posteriormente ocupará. Entre formação e inserção profissional existe um processo complexo no qual se articulam experiências acadêmicas, condições do mercado, oportunidades institucionais, identidade profissional, competências construídas e expectativas subjetivas acerca do trabalho. Estudos sobre transição universidade-trabalho mostram que o início do exercício profissional representa um período importante para a construção da identidade profissional e para a atribuição de sentidos à própria trajetória.

No caso da Psicologia, essa descontinuidade pode adquirir características particulares. A graduação oferece contato com diferentes áreas, abordagens e contextos de atuação, mas a existência de uma formação em determinada área não assegura que o profissional encontre posteriormente um posto de trabalho correspondente. Pesquisa sobre a inserção de psicólogos organizacionais e do trabalho evidencia que escolha profissional e inserção laboral constituem processos entrelaçados, influenciados por fatores sociais, econômicos, culturais, acadêmicos e pelas experiências práticas realizadas durante a formação.

A trajetória aqui analisada apresenta uma situação particularmente significativa. Durante a graduação em Psicologia, o psicólogo realizou experiências de estágio em três campos que poderiam ser compreendidos como possíveis caminhos de inserção profissional: Psicanálise, Plantão Psicológico e Psicologia da Saúde, esta última relacionada à experiência em uma instituição de equoterapia. O estágio em Plantão Psicológico e o estágio em Psicanálise ocorreram na clínica-escola da universidade. A expectativa era que essas experiências contribuíssem para a constituição de um futuro lugar profissional.

Entretanto, a continuidade esperada não ocorreu.

A experiência em Psicanálise não se converteu na constituição do consultório particular imaginado. O Plantão Psicológico não resultou na inserção profissional em uma clínica. A experiência relacionada à Psicologia da Saúde e à equoterapia também não se transformou em uma posição profissional dentro da instituição. Posteriormente, outras tentativas de inserção profissional igualmente não produziram o lugar desejado.

Surge, então, uma questão central:

por que aquilo que foi escolhido como caminho de formação não se transformou no lugar profissional que se desejava ocupar?

Essa pergunta não precisa ser respondida pela ideia de que as escolhas foram simplesmente “erradas”. Uma interpretação mais ampla permite compreender que cada estágio produziu experiência, aprendizagem e elementos para a construção da identidade profissional, mas não necessariamente produziu uma oportunidade ocupacional correspondente.

As Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de Psicologia estabelecem que os estágios supervisionados devem proporcionar contato com diferentes situações e contextos de trabalho e integrar competências relacionadas aos diferentes processos de trabalho da profissão. Portanto, estágio e emprego possuem funções diferentes dentro da formação profissional.

1. Da escolha da formação à expectativa de um lugar profissional

A trajetória pode ser representada inicialmente por três relações:

Psicanálise → consultório particular

Plantão Psicológico → clínica

Psicologia da Saúde/equoterapia → instituição de saúde

Em cada uma delas existia uma expectativa de continuidade: a experiência formativa poderia ser seguida por uma inserção profissional no mesmo campo.

Essa expectativa é compreensível, mas não corresponde necessariamente à dinâmica do mercado de trabalho. A pesquisa de Veriguine e Krawulski (2022) demonstra que experiências acadêmicas e estágios podem contribuir significativamente para o conhecimento do campo, desenvolvimento de habilidades e construção da identidade profissional, mas a inserção depende também das condições concretas de trabalho e das oportunidades existentes.

Assim, o estágio pode produzir uma competência sem produzir um cargo.

Pode produzir uma experiência sem produzir um contrato.

Pode produzir uma identificação profissional sem produzir imediatamente um lugar institucional.

Essa distinção é fundamental para compreender a trajetória analisada.

2. Quando a formação não encontra o lugar esperado

A experiência em Psicanálise pode ter sido associada ao desejo de trabalhar em consultório particular. A formação, entretanto, não garante a constituição de uma clientela, a sustentabilidade econômica do consultório ou o reconhecimento social necessário para sua manutenção.

O mesmo ocorre com o Plantão Psicológico. A experiência pode ensinar acolhimento, escuta, intervenção focal e manejo de demandas imediatas, mas isso não significa que a instituição que oferece o estágio necessariamente disponha de um cargo posterior para aquele estudante.

Na Psicologia da Saúde, a situação se repete. A experiência em equoterapia permitiu aproximação com um contexto institucional e interdisciplinar, mas a participação como estagiário não implicou necessariamente a criação de uma posição profissional permanente.

Dessa maneira, é possível distinguir:

experiência formativa ≠ cargo profissional

competência desenvolvida ≠ oportunidade de emprego

identificação com uma área ≠ inserção ocupacional

estágio ≠ garantia de contratação

Essa distinção é particularmente importante porque impede que a ausência de contratação seja interpretada automaticamente como ausência de competência.

3. A identidade profissional entre formação e trabalho

A identidade profissional não nasce pronta no momento da diplomação. Ela é construída progressivamente por meio das experiências, relações e atividades realizadas ao longo da trajetória. Uma revisão sobre identidade profissional do psicólogo caracteriza essa identidade como uma construção social relacionada ao conjunto das experiências do percurso profissional, tendo a formação acadêmica como ponto inicial importante.

Isso permite compreender de outra maneira os três estágios.

A Psicanálise não precisa ser considerada apenas como “o caminho que não deu certo”. Ela pode ter produzido uma determinada forma de escutar e compreender o sujeito.

O Plantão Psicológico pode ter produzido outra competência: lidar com a demanda imediata, acolher, delimitar uma questão e realizar uma intervenção breve.

A experiência em Psicologia da Saúde/equoterapia pode ter ampliado a compreensão acerca do trabalho interdisciplinar e da atuação psicológica em contexto institucional.

O problema aparece quando essas experiências são avaliadas exclusivamente pelo critério:

“Isso me levou a um emprego?”

Se esse for o único critério, experiências importantes podem parecer improdutivas.

Se o critério for:

“O que essa experiência acrescentou àquilo que consigo fazer profissionalmente?”

a trajetória passa a adquirir outra configuração.

4. A descontinuidade como problema de inserção

A literatura sobre transição universidade-trabalho indica que esse período envolve mudanças de papel e de identidade. O sujeito deixa progressivamente a posição de estudante e passa a precisar ser reconhecido socialmente como trabalhador e profissional. As primeiras experiências de trabalho podem influenciar os sentidos atribuídos à carreira e os padrões futuros de trajetória.

No caso analisado, essa transição parece ter permanecido parcialmente interrompida.

Houve graduação.

Houve estágio.

Houve experiências práticas.

Houve formação psicológica.

Mas não ocorreu, na mesma proporção, a consolidação de um lugar profissional correspondente às expectativas.

Essa é a descontinuidade entre graduação e mercado de trabalho.

Ela não significa ausência de formação. Significa que a formação não encontrou, de maneira linear, uma estrutura ocupacional capaz de absorvê-la.

Pesquisas brasileiras sobre psicólogos também apontam dificuldades de inserção, instabilidade dos vínculos e necessidade de combinar diferentes atividades profissionais. O próprio estudo de Veriguine e Krawulski recupera dados anteriores do Conselho Federal de Psicologia que demonstravam a existência de parcela significativa de psicólogos com inserção parcial, fora da área ou sem inserção profissional.

5. Da abordagem para a função profissional

A trajetória pode produzir uma importante mudança de pergunta.

Inicialmente:

“Qual abordagem devo escolher para conseguir trabalhar?”

Posteriormente:

“Que função profissional consigo desempenhar a partir de tudo aquilo que construí?”

Essa mudança é significativa.

Psicanálise, Plantão Psicológico e Psicologia da Saúde são campos ou experiências formativas. Uma função profissional, entretanto, responde a outra pergunta:

“Que necessidade humana, profissional ou organizacional posso ajudar a compreender e enfrentar?”

Essa perspectiva aproxima a trajetória do campo da Psicologia Organizacional e do Trabalho (POT), cuja atuação envolve relações entre pessoas, trabalho, organizações e processos de gestão. A literatura caracteriza a POT como um campo voltado ao fazer humano no trabalho e às relações entre trabalho, organização e gestão de pessoas.

O Conselho Federal de Psicologia também publicou a Nota Técnica nº 18/2024 para delimitar o escopo da atuação psicológica no campo das organizações e do trabalho, reconhecendo a amplitude das atividades profissionais nesse domínio.

6. O que atravessa as experiências?

Quando as experiências são observadas em conjunto, pode-se encontrar um possível elemento transversal:

o interesse pelo sujeito em relação ao seu contexto.

Na Psicanálise:

sujeito → subjetividade → relações

No Plantão:

sujeito → demanda → situação

Na Psicologia da Saúde:

sujeito → saúde → contexto institucional

Na Psicologia Organizacional e do Trabalho:

sujeito → grupo → organização → trabalho

Assim, talvez a trajetória não seja tão fragmentada quanto parece.

O que muda é o contexto de aplicação da Psicologia.

Essa leitura permite formular uma possível função:

atuar na interface entre Psicologia e mundo do trabalho, compreendendo pessoas em sua relação com o trabalho e contribuindo para processos de inserção, desenvolvimento, identidade e transição profissional.

Essa formulação não elimina a Psicanálise. Ao contrário, a experiência psicanalítica pode permanecer como um recurso de compreensão da subjetividade. O Plantão pode contribuir com competências de acolhimento e intervenção. A experiência em saúde pode contribuir para a compreensão institucional e interdisciplinar.

O eixo profissional, porém, passa a ser definido pela função, e não exclusivamente pela abordagem.

7. Da procura por uma vaga à procura por uma função

Essa mudança permite compreender também uma questão subjetiva importante.

Durante determinado período, a busca pode assumir a forma:

“Onde existe uma vaga para mim?”

A pergunta seguinte poderia ser:

“Que função eu consigo sustentar diante de uma organização?”

Essa segunda pergunta desloca o profissional de uma posição exclusivamente receptiva para uma posição de oferta de competência.

Não significa imaginar que o profissional possa simplesmente criar uma vaga onde não existe necessidade. O mercado possui condições concretas, limites e critérios próprios. Significa, entretanto, formular a própria contribuição profissional de maneira suficientemente clara para que uma organização consiga compreender sua utilidade.

No campo da POT, estudos mostram justamente que existem tensões entre as competências desenvolvidas na formação e aquelas demandadas pelo mercado, reforçando a necessidade de articulação entre formação, competências e práticas profissionais.

8. Uma leitura psicanalítica da trajetória

A partir da Psicanálise, pode-se formular uma hipótese interpretativa adicional.

Talvez o sujeito tenha procurado, através das diferentes experiências, não apenas uma ocupação, mas também um lugar de reconhecimento profissional.

A sequência poderia ser imaginada assim:

“Escolho uma área.”

↓

“Faço o estágio.”

↓

“Agora encontrarei um lugar.”

↓

“O lugar não aparece.”

↓

“Procuro outra área.”

↓

“O lugar novamente não aparece.”

Nesse movimento, existe uma diferença entre desejar uma profissão e encontrar um lugar socialmente reconhecido para exercê-la.

O risco é que cada porta fechada seja interpretada como uma confirmação de insuficiência:

“Talvez eu não seja suficientemente psicólogo.”

Uma leitura alternativa seria:

“A formação produziu determinadas competências, mas ainda não encontrei a configuração ocupacional em que essas competências possam ser reconhecidas e utilizadas.”

Essa segunda formulação não elimina a necessidade de aperfeiçoamento profissional. Ela simplesmente evita transformar toda dificuldade de inserção em deficiência individual.

A literatura sobre identidade profissional sustenta justamente que o profissional vai se constituindo através das experiências e das atividades de trabalho, e não exclusivamente pela obtenção do diploma.

9. A emergência de outro lugar profissional

Nesse ponto, a pergunta “que lugar profissional estou procurando?” pode receber uma resposta diferente.

Talvez não seja exclusivamente:

um consultório;

uma clínica;

uma instituição de saúde.

Pode ser um espaço institucional no qual a Psicologia possa atuar sobre a relação entre pessoa e trabalho.

Nesse espaço, poderiam existir funções relacionadas a:

  • orientação profissional;
  • empregabilidade;
  • preparação para processos seletivos;
  • desenvolvimento profissional;
  • identidade profissional;
  • transição de carreira;
  • adaptação ao trabalho;
  • desenvolvimento de trabalhadores;
  • relações interpessoais;
  • conflitos no trabalho;
  • processos de mudança;
  • promoção e desenvolvimento;
  • desligamento e transição;
  • educação para o mundo do trabalho.

A formulação “Psicólogo Educador Orientador para o Mundo do Trabalho” pode ser compreendida, nesse contexto, como uma tentativa de transformar uma trajetória aparentemente fragmentada em uma função profissional coerente.

Não se trata de afirmar que essa função necessariamente já esteja disponível com essa denominação em todas as organizações. Trata-se de formular uma proposta de atuação que possa ser apresentada, adaptada e discutida institucionalmente.

10. A experiência profissional anterior como elemento de integração

Outro aspecto relevante é que a experiência profissional anterior à Psicologia não precisa ser tratada como um período separado ou estranho à identidade de psicólogo.

A literatura sobre escolha e inserção profissional em POT mostra que experiências anteriores de trabalho e inserção organizacional podem influenciar significativamente a escolha e o desenvolvimento profissional nessa área.

Isso permite uma leitura diferente da experiência operacional.

O conhecimento cotidiano do trabalho, dos trabalhadores, das relações hierárquicas, das exigências organizacionais, dos conflitos, da pressão, da adaptação e das estratégias utilizadas pelos trabalhadores constitui uma experiência que pode ser articulada à formação psicológica.

Assim, a trajetória pode ser compreendida não como:

“primeiro fui trabalhador; depois virei psicólogo”

mas como:

“a experiência como trabalhador passou a constituir parte do olhar com que exerço a Psicologia.”

Essa integração pode ser especialmente pertinente para a Psicologia Organizacional e do Trabalho.

Conclusão

A descontinuidade entre graduação e mercado de trabalho não deve ser compreendida simplesmente como uma sequência de escolhas profissionais que “não deram frutos”. A trajetória analisada demonstra algo mais complexo: houve formação, experiências práticas e construção de repertório, mas não ocorreu uma correspondência automática entre esses elementos e os lugares profissionais inicialmente imaginados.

A Psicanálise foi associada à expectativa de consultório particular; o Plantão Psicológico, à possibilidade de atuação clínica; e a Psicologia da Saúde, à inserção institucional em uma experiência de equoterapia. Nenhuma dessas experiências produziu, de forma direta, a posição profissional esperada.

Entretanto, a ausência dessa continuidade não significa que essas experiências tenham sido inúteis. Elas podem ser compreendidas como componentes de uma trajetória que produziu diferentes competências e formas de compreender o sujeito em contexto.

A questão central desloca-se, então, de “qual abordagem finalmente me dará um lugar?” para “qual função profissional consigo sustentar a partir de tudo aquilo que construí?”

Esse deslocamento permite encontrar um possível eixo transversal: a relação entre pessoa, subjetividade, grupo, organização e trabalho.

Nesse sentido, a Psicologia Organizacional e do Trabalho pode constituir um campo de articulação para experiências que anteriormente pareciam dispersas. A escuta desenvolvida na Psicanálise, a capacidade de acolhimento desenvolvida no Plantão, a experiência institucional da Psicologia da Saúde e a própria experiência concreta no mundo do trabalho podem ser reorganizadas como repertório para uma atuação voltada à relação entre pessoas e trabalho.

A questão profissional passa, portanto, da procura exclusiva por uma vaga já existente para a construção e apresentação de uma função profissional reconhecível.

O desafio seguinte não é apagar a trajetória anterior, mas transformá-la em uma narrativa profissional coerente:

Psicologia + experiência de trabalho + compreensão da subjetividade + experiência institucional + leitura das relações humanas + desenvolvimento profissional.

A partir dessa integração, o lugar profissional procurado pode deixar de ser definido apenas pelo nome de uma abordagem ou pelo tipo tradicional de estabelecimento — consultório, clínica ou instituição de saúde — e passar a ser definido pela função que o psicólogo pretende exercer: atuar na interface entre Psicologia e mundo do trabalho, contribuindo para processos de inserção, desenvolvimento, identidade e transição profissional.

Essa formulação não garante uma vaga, nem elimina as dificuldades objetivas do mercado. Seu valor está em outro ponto: permitir que a trajetória deixe de ser lida exclusivamente como uma sucessão de tentativas que não se concretizaram e passe a ser analisada como um processo de construção de uma identidade e de uma função profissional.

Referências bibliográficas

BRASIL. Ministério da Educação. Resolução CNE/CES nº 1, de 11 de outubro de 2023. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Psicologia. Brasília: MEC, 2023.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Nota Técnica CFP nº 18/2024: o escopo da atuação da(o) psicóloga(o) no campo das organizações e do trabalho. Brasília: CFP, 2024.

MELO, Simone Lopes de; BORGES, Livia de Oliveira. A transição da universidade ao mercado de trabalho na ótica do jovem. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 27, n. 3, 2007.

RAMOS, Camila Carvalho; COSTA, Thiago Dias; FEITOSA, Izabella Oliveira. Mapeamento de incoerências entre competências estabelecidas na formação do psicólogo organizacional e as requeridas pelo mercado de trabalho. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, v. 17, n. 2, p. 114-120, 2017.

VERIGUINE, Nadia Rocha; KRAWULSKI, Edite. Processos de escolha e inserção profissional de psicólogos organizacionais e do trabalho. Revista Brasileira de Orientação Profissional, v. 23, n. 2, p. 115-125, 2022. DOI: 10.26707/1984-7270/2022v23n0201.

Construção identitária profissional: sentidos do trabalho para psicólogos. Estudo sobre identidade profissional, sentidos do trabalho e trajetórias de psicólogos.

Identidade profissional do Psicólogo: uma revisão da produção científica no Brasil. Psicologia: Ciência e Profissão, 2010.

Experiências de estágio: contribuições para a transição universidade-trabalho. Paidéia, 2013.

 

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