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Do currículo clínico ao projeto profissional: identidade, carreira e o luto diante da ausência de reconhecimento

 Introdução

A construção de uma carreira profissional não se reduz à obtenção de um diploma, à ocupação de cargos ou à elaboração de um currículo. A carreira constitui um processo desenvolvimental no qual o sujeito organiza experiências, papéis sociais, conhecimentos, competências, valores e projetos em uma narrativa profissional capaz de dar sentido à sua trajetória. Na perspectiva de Donald Super, a carreira deve ser compreendida ao longo da vida e em relação aos diferentes papéis desempenhados pelo indivíduo, não como uma sequência isolada de empregos.

É nesse contexto que pode ser compreendida a transformação do currículo de um psicólogo cuja apresentação profissional esteve, durante longo período, predominantemente pautada na clínica. O currículo anterior representava uma determinada leitura de sua identidade: a de um profissional formado em Psicologia cuja experiência e apresentação estavam fortemente associadas ao atendimento clínico. Entretanto, ao longo de aproximadamente dez anos de aquisição de conhecimentos, experiências e reflexões, essa narrativa tornou-se insuficiente para representar a amplitude daquilo que foi construído profissionalmente.

A elaboração de um currículo atualizado passa, então, a constituir mais do que uma alteração documental. Ela representa uma reconstrução da narrativa profissional. O sujeito deixa de organizar sua identidade exclusivamente a partir da pergunta “onde trabalhei formalmente como psicólogo?” e começa a formular outra: “que conhecimentos desenvolvi sobre pessoas, trabalho, organizações, relações humanas e processos profissionais ao longo da minha trajetória?”.

Essa transformação permite apresentar possibilidades de atuação em Psicologia Organizacional e do Trabalho, orientação profissional, educação para o mundo do trabalho e funções educacionais relacionadas à preparação de pessoas para a inserção, permanência e desenvolvimento no trabalho. Entretanto, justamente quando essa nova identidade profissional é construída, pode surgir uma experiência paradoxal: o currículo está mais coerente com a trajetória, o portfólio está mais elaborado, a experiência foi reinterpretada, mas o emprego ainda não aparece.

Surge, então, a hipótese de um luto: seria necessário fazer o luto do currículo e do portfólio atualizados porque eles não produziram, até o momento, a contratação esperada?

A partir da Psicologia de Carreira, este artigo sustenta que o luto necessário não precisa ser o luto da profissão nem da nova identidade profissional. Pode tratar-se, sobretudo, do luto de uma expectativa: a expectativa de que a atualização da narrativa profissional produziria automaticamente o reconhecimento institucional e a inserção no mercado de trabalho.


1. O currículo como narrativa da identidade profissional

Um currículo não é apenas uma lista de empregos, cursos e competências. Ele funciona como uma narrativa condensada da trajetória profissional. Ao selecionar determinadas experiências e omitir ou relativizar outras, o sujeito produz uma representação de si mesmo diante do mundo do trabalho.

O currículo antigo, centrado predominantemente na clínica, apresentava uma identidade profissional específica. A clínica ocupava o lugar central na narrativa, fazendo com que outras experiências e conhecimentos permanecessem menos visíveis.

A atualização do currículo modifica essa organização.

Experiências que antes poderiam parecer desconectadas passam a ser articuladas em uma narrativa mais ampla: Psicologia, experiência operacional, experiência organizacional vivida, compreensão do trabalhador, observação dos fenômenos humanos, reflexão profissional acumulada e projetos relacionados ao mundo do trabalho.

Isso significa que o sujeito não está simplesmente “inventando” uma nova carreira. Ele está tentando dar forma narrativa a conhecimentos que já foram produzidos ao longo da trajetória.

A teoria de Super é particularmente importante nesse ponto porque concebe a carreira como uma combinação e sequência de papéis desempenhados ao longo da vida. O papel de trabalhador é apenas um dos papéis que compõem o espaço de vida do sujeito, e diferentes experiências podem participar da construção do autoconceito profissional.

Portanto, uma experiência profissional não precisa ser compreendida somente pelo cargo que aparece no contrato. Ela também pode ser analisada pelo conjunto de aprendizagens, competências, relações e significados produzidos naquele contexto.


2. Dez anos de conhecimento: da experiência dispersa à competência narrada

Uma das mudanças mais importantes produzidas pelo novo currículo é a transformação da experiência acumulada em conhecimento profissional organizado.

Durante anos, diferentes experiências podem permanecer aparentemente fragmentadas. O sujeito vive situações, observa comportamentos, enfrenta problemas, estabelece relações, presencia conflitos, percebe formas de liderança, acompanha trabalhadores e aprende sobre o funcionamento das organizações.

Enquanto essas experiências permanecem isoladas, podem parecer apenas acontecimentos biográficos.

Quando são elaboradas, entretanto, podem adquirir significado profissional.

Assim, a experiência operacional pode ser reinterpretada como uma fonte de conhecimento sobre o trabalho. A convivência cotidiana com trabalhadores, clientes, lideranças, conflitos, pressão, hierarquia, comunicação, exigências institucionais, rotatividade e funcionamento organizacional produz um repertório de observação do mundo laboral.

Isso não significa afirmar que experiência operacional seja equivalente a experiência formal como psicólogo organizacional. Essa equivalência seria tecnicamente inadequada. Significa reconhecer que a experiência produziu conhecimentos transferíveis, desde que apresentados com rigor e sem exagerar as competências efetivamente exercidas.

É justamente essa elaboração que permite transformar “experiência vivida” em “experiência profissionalmente narrável”.


3. Da clínica para uma identidade profissional mais abrangente

O movimento não precisa ser interpretado como abandono da clínica.

O que ocorre é uma ampliação da identidade.

O profissional deixa de dizer apenas:

“Minha identidade profissional está fundamentada na clínica.”

e passa a poder dizer:

“Minha formação em Psicologia é uma das bases de uma trajetória que também envolve compreensão das relações de trabalho, dos fenômenos organizacionais, da orientação profissional e da educação para o mundo do trabalho.”

Essa ampliação é compatível com uma compreensão desenvolvimental da carreira. Super entende a carreira como um processo ao longo da vida, no qual o autoconceito e os diferentes papéis sociais participam da construção profissional.

Consequentemente, o novo currículo não precisa destruir o currículo anterior. Ele pode integrá-lo.

O currículo clínico representa uma etapa da trajetória.

O currículo atualizado representa uma nova organização dessa trajetória.

O desenvolvimento profissional, portanto, não exige apagar aquilo que o sujeito foi. Exige conseguir atribuir novos significados ao que foi vivido.


4. Psicologia Organizacional e do Trabalho e abrangência social

A mudança também produz uma alteração na concepção de função profissional.

A atuação desejada deixa de estar necessariamente limitada ao atendimento individualizado e passa a incluir a possibilidade de trabalhar com uma abrangência social de pessoas, considerando a função social correspondente ao cargo oferecido pela instituição.

Essa formulação é importante porque desloca a compreensão do psicólogo de uma imagem exclusivamente clínica para uma concepção mais ampla de atuação psicológica.

Nesse sentido, o profissional pode buscar espaços relacionados à:

  • Psicologia Organizacional e do Trabalho;
  • orientação profissional;
  • educação para o mundo do trabalho;
  • preparação para processos seletivos;
  • desenvolvimento profissional;
  • compreensão das relações de trabalho;
  • educação e orientação relacionadas à carreira;
  • projetos voltados ao trabalhador;
  • programas institucionais;
  • ações de desenvolvimento humano e profissional.

A questão central passa a ser a relação entre competência profissional e necessidade institucional.

O sujeito não procura apenas uma instituição que lhe dê um cargo. Ele procura uma instituição na qual aquilo que construiu possa responder a uma necessidade concreta.


5. O problema do reconhecimento: quando o currículo melhora, mas o emprego não aparece

É nesse momento que surge o conflito central.

O sujeito atualiza o currículo.

Constrói o portfólio.

Organiza dez anos de conhecimentos.

Amplia sua narrativa profissional.

Passa a apresentar possibilidades de atuação que anteriormente não apareciam.

Mas, apesar disso, as portas podem continuar fechadas.

Essa experiência pode produzir uma pergunta dolorosa:

“Se agora consigo mostrar melhor quem sou profissionalmente, por que ainda não fui contratado?”

A pergunta contém uma confusão possível entre identidade profissional e reconhecimento institucional.

O mercado de trabalho não funciona como um espelho perfeito da competência.

Uma contratação depende de múltiplas variáveis: existência da vaga, critérios institucionais, experiência requerida, formação adicional, perfil procurado, concorrência, condições econômicas, disponibilidade, compatibilidade entre candidato e organização e outros fatores.

Portanto:

currículo melhor não significa contratação automática.

A ausência de contratação não demonstra, por si só, que o currículo esteja errado.

Ela demonstra que a nova narrativa ainda não encontrou, ou ainda não encontrou de maneira suficiente, uma correspondência concreta com oportunidades institucionais.


6. O risco de transformar a contratação em prova de identidade

Existe uma consequência psicológica importante quando o sujeito coloca a contratação como prova definitiva de sua identidade.

A sequência pode tornar-se:

“Atualizei meu currículo → candidatei-me → não fui contratado → então minha nova identidade profissional não existe.”

Esse raciocínio é perigoso porque transforma o processo seletivo em um julgamento sobre o valor global do sujeito.

Uma rejeição profissional pode passar a significar:

“Não sou psicólogo suficientemente competente.”

Ou:

“Meu projeto profissional fracassou.”

Ou ainda:

“Depois de tudo que construí, nada disso foi reconhecido.”

A Psicologia de Carreira oferece uma perspectiva diferente.

Savickas desenvolve o conceito de adaptabilidade de carreira, entendendo a adaptação profissional como um processo que envolve planejamento, exploração e tomada de decisão diante das mudanças do contexto.

Portanto, uma estratégia que não produziu o resultado esperado não precisa destruir a identidade. Ela pode fornecer informação para uma nova estratégia.


7. O portfólio como instrumento de legibilidade profissional

O portfólio também precisa ser compreendido adequadamente.

Ele não constitui uma garantia de contratação.

Sua função é tornar a trajetória profissional mais legível.

O portfólio responde:

“O que este profissional construiu?”

O processo seletivo pergunta:

“O que esta organização precisa?”

A contratação acontece quando existe correspondência entre essas duas dimensões.

Assim, o portfólio pode demonstrar projetos, reflexões, experiências, conhecimentos e formas de atuação, mas não pode controlar a decisão institucional.

Essa distinção é fundamental para evitar uma expectativa excessiva sobre o documento.

O currículo e o portfólio são instrumentos de apresentação e posicionamento. Eles não são instrumentos capazes de determinar unilateralmente a decisão do mercado.


8. O possível luto do currículo atualizado

Chegamos, então, à questão do luto.

Pode existir uma experiência semelhante ao luto quando uma pessoa investe energia, esperança e significado na construção de um novo projeto profissional e não recebe o reconhecimento esperado.

Entretanto, é preciso definir o que está sendo perdido.

Não necessariamente se perde a profissão.

Não necessariamente se perde o conhecimento.

Não necessariamente se perde o currículo.

Não necessariamente se perde o portfólio.

Pode estar sendo perdido um determinado modo imaginado de realização da carreira.

A expectativa pode ter sido:

“Quando eu finalmente organizar minha trajetória e apresentar aquilo que realmente construí, uma porta se abrirá.”

Se essa porta não se abre, ocorre uma ruptura entre expectativa e realidade.

É dessa ruptura que pode surgir o luto.

Nesse sentido, o objeto do luto pode ser formulado como:

“a expectativa de reconhecimento imediato da nova identidade profissional”.

Isso é diferente de afirmar:

“minha nova identidade profissional morreu”.


9. O luto da expectativa não é o luto da profissão

Essa distinção permite uma compreensão mais precisa.

O sujeito pode precisar abandonar a fantasia de que o currículo perfeito produzirá necessariamente uma contratação.

Pode precisar aceitar:

“Meu currículo pode estar melhor e, mesmo assim, o mercado pode não me absorver imediatamente.”

Pode também precisar aceitar:

“Minha experiência pode possuir valor, mas esse valor precisa encontrar uma instituição capaz ou disposta a reconhecê-lo.”

E ainda:

“Talvez minha carreira não aconteça exatamente pela porta que imaginei.”

Esse processo não representa necessariamente desistência.

Pode representar adaptação de carreira.

Savickas entende a carreira como uma construção psicossocial na qual sujeito e contexto estão continuamente sendo articulados. A adaptação não é uma ação única, mas um processo de aproximações sucessivas entre aquilo que a pessoa procura realizar e as condições concretas do mundo do trabalho.


10. A carreira como construção e não como acontecimento único

A teoria da Construção de Carreira amplia ainda mais essa compreensão.

O profissional não recebe uma identidade profissional pronta do mercado. Ele constrói uma narrativa a partir das experiências e tenta implementá-la em contextos concretos.

Consequentemente, a carreira não é apenas:

formação → emprego → estabilidade.

Pode ser:

experiência → reflexão → identidade → narrativa → exploração → tentativa → feedback → adaptação → nova tentativa.

O currículo atualizado representa uma etapa desse processo.

Ele não é o destino.

É uma ferramenta de construção.

A carreira continua sendo construída quando uma candidatura não funciona, porque aquela experiência fornece informações sobre o ajuste entre o sujeito e determinado contexto profissional.


11. O que muda quando o sujeito abandona a necessidade de provar que é profissional

Há uma mudança psicológica decisiva entre duas posições.

A primeira é:

“Preciso ser contratado para provar que minha identidade profissional é verdadeira.”

A segunda é:

“Minha identidade profissional está construída; agora preciso encontrar contextos em que ela possa ser reconhecida, utilizada e desenvolvida.”

A segunda posição é mais compatível com uma concepção de carreira como processo de adaptação.

Ela permite que o sujeito faça uma avaliação mais objetiva das candidaturas.

Em vez de perguntar apenas:

“Por que não me contrataram?”

pode perguntar:

  • Que perfil a instituição realmente procurava?
  • Quais requisitos estavam presentes?
  • Quais requisitos faltavam?
  • Minha experiência foi compreendida?
  • Meu currículo estava adequado à vaga específica?
  • Meu posicionamento profissional estava claro?
  • Preciso ampliar minha formação?
  • Preciso de experiência formal específica?
  • Preciso modificar a estratégia de busca?
  • Preciso explorar outros segmentos?
  • Preciso construir novas redes profissionais?

Essas perguntas transformam a rejeição em informação de carreira, e não em sentença sobre a identidade.


12. A passagem do “emprego ideal” para o “encaixe possível”

A maturidade de carreira também envolve reconhecer que uma identidade profissional pode encontrar diferentes formas de realização.

O profissional pode ter imaginado determinada função, mas encontrar outra que utilize competências semelhantes.

Pode desejar Psicologia Organizacional e do Trabalho e encontrar inicialmente uma função de orientação profissional.

Pode desejar trabalhar diretamente com organizações e encontrar uma função educacional relacionada ao mundo do trabalho.

Pode desejar uma posição institucional e encontrar uma oportunidade em projeto, programa, consultoria, orientação ou educação.

Isso não significa abandonar o projeto.

Significa distinguir:

finalidade profissional de forma específica de ocupação.

O objetivo pode ser trabalhar com pessoas, processos de trabalho, desenvolvimento profissional e fenômenos humanos relacionados ao trabalho, enquanto o cargo concreto pode assumir diferentes denominações.

Essa flexibilidade é parte da adaptabilidade de carreira.


13. O significado dos dez anos de trajetória

Os dez anos de conhecimento acumulado não precisam ser avaliados apenas pelo número de empregos conquistados.

Eles também podem ser avaliados pela capacidade de elaboração produzida.

Uma trajetória pode produzir:

  • conhecimento sobre trabalhadores;
  • conhecimento sobre organizações;
  • conhecimento sobre relações humanas;
  • compreensão de conflitos;
  • compreensão de liderança;
  • experiência de pressão institucional;
  • percepção dos fenômenos do trabalho;
  • reflexão sobre sofrimento e adaptação;
  • compreensão da relação entre sujeito e instituição;
  • elaboração de projetos;
  • produção de conteúdo;
  • construção de instrumentos profissionais.

Quando esses elementos são articulados, a trajetória deixa de ser uma coleção de acontecimentos e transforma-se em capital narrativo e profissional.

A tarefa seguinte é verificar quanto desse capital pode ser convertido em competências reconhecidas formalmente pelo mercado.


14. O currículo como reconstrução do autoconceito

A transformação do currículo também pode produzir uma transformação do autoconceito profissional.

O sujeito começa a perceber:

“Eu não sou apenas aquilo que meu currículo antigo dizia.”

Essa percepção é importante.

O currículo antigo não era necessariamente falso. Ele era incompleto em relação à identidade atual.

O novo currículo, portanto, não precisa ser entendido como uma negação do passado.

É uma tentativa de responder à pergunta:

“Quem me tornei profissionalmente depois de tudo aquilo que vivi e aprendi?”

Essa pergunta é central para as teorias desenvolvimentistas de carreira, nas quais o autoconceito e as experiências de vida participam da construção da trajetória profissional.


15. O momento atual como transição profissional

O sujeito encontra-se, portanto, em uma espécie de zona intermediária.

Já não está completamente identificado com o currículo antigo.

Ainda não encontrou reconhecimento externo suficiente para consolidar socialmente o currículo novo.

Pode-se representar essa posição da seguinte maneira:

Identidade anterior
↓
Questionamento
↓
Reinterpretação de experiências
↓
Organização de dez anos de conhecimento
↓
Novo currículo
↓
Novo portfólio
↓
Busca de reconhecimento
↓
Ausência ou demora de contratação
↓
Luto da expectativa
↓
Adaptação
↓
Nova estratégia de inserção profissional

Essa zona intermediária pode ser psicologicamente desconfortável porque o sujeito já não quer retornar completamente à posição anterior, mas ainda não possui a confirmação externa da posição nova.

É justamente nesse intervalo que a capacidade de adaptação de carreira se torna fundamental.


Conclusão

A construção do currículo atualizado representa uma mudança significativa na trajetória profissional do psicólogo. O currículo anterior estava predominantemente organizado em torno da clínica, enquanto o novo currículo procura integrar aproximadamente dez anos de experiências, conhecimentos e reflexões, permitindo apresentar uma identidade profissional mais abrangente, relacionada à Psicologia Organizacional e do Trabalho, à orientação profissional, à educação para o mundo do trabalho e à compreensão dos fenômenos humanos presentes nas organizações e na vida laboral.

Essa transformação não deve ser compreendida simplesmente como uma mudança estética ou documental. Ela representa uma reconstrução da narrativa profissional e do autoconceito. A experiência operacional, por sua vez, pode ser reinterpretada como fonte de conhecimentos sobre trabalhadores, organizações, relações humanas e fenômenos do trabalho, desde que não seja confundida com experiência formal de exercício da Psicologia em determinada área.

A ausência de contratação após a atualização do currículo pode produzir frustração, angústia e a sensação de que todo o esforço realizado não foi reconhecido. Entretanto, a Psicologia de Carreira permite estabelecer uma distinção fundamental: a ausência de reconhecimento imediato pelo mercado não equivale ao fracasso da identidade profissional.

O luto que pode surgir nesse momento é melhor compreendido como o luto de uma expectativa: a expectativa de que, depois da reorganização da trajetória, o mercado necessariamente reconheceria o profissional e abriria uma porta. Essa expectativa pode precisar ser abandonada para que uma relação mais realista com o mundo do trabalho seja construída.

Nesse sentido, fazer o luto da expectativa não significa fazer o luto da profissão.

Não significa abandonar os dez anos de conhecimento.

Não significa destruir o currículo atualizado.

Não significa considerar o portfólio inútil.

Significa aceitar que a construção da identidade profissional e o reconhecimento institucional são processos diferentes.

Donald Super permite compreender a carreira como um processo ao longo da vida, constituído pela articulação entre desenvolvimento, autoconceito e diferentes papéis sociais. Savickas, por sua vez, acrescenta a noção de adaptabilidade, enfatizando planejamento, exploração, decisão e capacidade de responder às transformações do contexto profissional.

Assim, o currículo atualizado pode ser compreendido como uma nova hipótese de inserção profissional, e não como uma promessa de contratação.

A questão deixa de ser:

“Por que, mesmo depois de atualizar meu currículo, ninguém me contratou?”

e passa a ser:

“O que a realidade do mercado está me informando sobre a forma como minha identidade profissional pode encontrar um lugar socialmente reconhecido?”

Essa mudança de pergunta é fundamental.

Ela desloca o sujeito da posição de quem espera que o mercado confirme sua identidade para a posição de quem observa a realidade, aprende com ela, ajusta estratégias e continua construindo sua carreira.

Portanto, talvez o verdadeiro trabalho de luto não seja enterrar o novo currículo, mas enterrar a expectativa de que um documento, por mais bem construído que seja, possa sozinho produzir reconhecimento profissional.

O currículo permanece.

O portfólio permanece.

Os conhecimentos permanecem.

A trajetória permanece.

O que pode precisar ser transformado é a expectativa sobre como, quando e onde essa trajetória encontrará sua próxima forma de realização profissional.

E essa transformação não representa necessariamente uma derrota. Na perspectiva da Psicologia de Carreira, ela pode constituir precisamente uma nova tarefa de desenvolvimento: adaptar o projeto profissional à realidade sem abandonar aquilo que dá sentido à própria trajetória.

Referências bibliográficas

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LASSANCE, Maria Célia Pacheco; PARADISO, Ângela Carina; SILVA, Carla C. Desenvolvimento de carreira em psicólogos: tarefas evolutivas de estabelecimento. Psicologia: Ciência e Profissão, 2013.

 

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