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A IDEALIZAÇÃO DO PARCEIRO NOS APLICATIVOS DE RELACIONAMENTO: UMA ANÁLISE DA COMPATIBILIDADE DE ROTINAS E DA CONSTRUÇÃO SOCIAL DAS ESCOLHAS AFETIVAS SOB A PERSPECTIVA DA PSICOLOGIA SOCIAL

 Resumo

O avanço das tecnologias digitais transformou significativamente as formas de interação social e de construção dos relacionamentos afetivos. Os aplicativos de relacionamento passaram a desempenhar papel central na aproximação entre pessoas, possibilitando contatos rápidos, porém frequentemente baseados em avaliações superficiais e em informações limitadas. O presente artigo analisa, à luz da Psicologia Social, o caso de um indivíduo que, durante aproximadamente oito anos, utilizou diversos aplicativos de relacionamento sem conseguir estabelecer vínculos amorosos duradouros. Segundo seu relato, as interações eram frequentemente interrompidas após informar que exercia a profissão de fiscal de caixa em um supermercado e que trabalhava aos finais de semana. A repetição desse padrão levou o sujeito à conclusão de que as mulheres procuram parceiros previamente idealizados, cuja profissão e disponibilidade estejam alinhadas aos seus próprios projetos de vida. O estudo discute esse fenômeno utilizando os conceitos de representações sociais, construção social da realidade, formação de impressões, heurísticas cognitivas, atração interpessoal, compatibilidade de estilos de vida e viés de confirmação. Conclui-se que a dinâmica observada resulta da interação entre fatores individuais, culturais e estruturais próprios dos aplicativos de relacionamento, sem que seja possível generalizar tais experiências para todas as mulheres.

Palavras-chave: Psicologia Social. Aplicativos de relacionamento. Representações sociais. Compatibilidade. Atração interpessoal.

1 INTRODUÇÃO

A expansão das tecnologias digitais modificou profundamente a forma como os relacionamentos afetivos são iniciados. Enquanto, durante décadas, a maior parte dos casais se conhecia por meio da família, da escola, do trabalho, da igreja ou dos círculos de amizade, atualmente grande parcela das interações amorosas ocorre em ambientes virtuais. Nesses espaços, as primeiras impressões são produzidas em poucos segundos e baseadas em um número reduzido de informações disponíveis.

Segundo Myers e Twenge (2019), os indivíduos elaboram julgamentos sociais rapidamente, utilizando informações limitadas para construir expectativas acerca das pessoas com quem interagem. Esse processo, embora funcional para reduzir a complexidade das relações sociais, também favorece avaliações simplificadas e, por vezes, imprecisas.

No contexto dos aplicativos de relacionamento, profissão, escolaridade, idade, aparência física, localização geográfica e disponibilidade de tempo transformam-se em indicadores utilizados para inferir características da personalidade, do estilo de vida e das possibilidades futuras de convivência.

O caso analisado neste estudo apresenta um padrão recorrente de rejeição. O sujeito relata que, ao longo de aproximadamente oito anos, ingressou em diferentes aplicativos de relacionamento buscando estabelecer vínculos afetivos. Em grande parte das interações, após responder que trabalhava como fiscal de caixa em um supermercado, surgia uma pergunta quase imediata:

"Você trabalha aos finais de semana?"

Ao responder afirmativamente, diversas mulheres encerravam a conversa ou excluíam o contato, sem demonstrar interesse em conhecer outros aspectos de sua personalidade, história de vida ou valores pessoais.

Essa repetição levou o sujeito a construir uma interpretação segundo a qual as mulheres desejariam parceiros previamente idealizados, caracterizados por profissões socialmente valorizadas e disponibilidade integral aos finais de semana. Em consequência, concluiu que somente conseguiria estabelecer um relacionamento afetivo com mulheres pertencentes ao próprio ambiente profissional do supermercado, uma vez que estas compreenderiam sua rotina de trabalho.

Entretanto, a Psicologia Social propõe uma análise mais ampla desse fenômeno. Conforme afirma Moscovici (2015, p. 46), "as representações sociais são sistemas de interpretação que regem nossa relação com o mundo e com os outros". Em outras palavras, as pessoas não respondem apenas aos fatos objetivos, mas aos significados socialmente atribuídos a esses fatos.

Nesse sentido, informar que trabalha aos finais de semana não constitui apenas uma descrição da jornada profissional; essa informação pode ativar representações sociais relacionadas ao tempo disponível para lazer, convivência familiar, viagens, celebrações e construção da vida conjugal.

Berger e Luckmann (2014) defendem que a realidade cotidiana é continuamente construída nas interações sociais. Para esses autores, aquilo que as pessoas consideram "normal", "esperado" ou "ideal" resulta de processos históricos e culturais compartilhados. Assim, a expectativa de que um parceiro esteja livre aos sábados e domingos não decorre de uma exigência natural, mas de uma convenção social amplamente difundida.

Além disso, Daniel Kahneman (2012) demonstra que os seres humanos utilizam heurísticas — atalhos cognitivos — para tomar decisões rápidas diante da grande quantidade de informações disponíveis. Nos aplicativos de relacionamento, onde centenas de perfis podem ser avaliados em poucos minutos, esses atalhos tornam-se ainda mais frequentes. Em vez de conhecer profundamente uma pessoa, muitos usuários utilizam informações objetivas, como profissão ou horários de trabalho, para inferir compatibilidade.

Portanto, compreender o fenômeno descrito exige ultrapassar interpretações baseadas exclusivamente na intenção das mulheres ou na profissão exercida pelo sujeito. É necessário considerar o conjunto de processos psicológicos e sociais que organizam as escolhas afetivas contemporâneas.

2 PROBLEMA DE PESQUISA

De que maneira as representações sociais, os processos de formação de impressões, as heurísticas cognitivas e a busca por compatibilidade de estilos de vida influenciam as escolhas afetivas realizadas em aplicativos de relacionamento, particularmente quando um indivíduo informa exercer uma profissão com jornada de trabalho aos finais de semana?

3 OBJETIVOS

3.1 Objetivo Geral

Analisar, sob a perspectiva da Psicologia Social, os fatores psicossociais envolvidos na recorrente interrupção de interações afetivas em aplicativos de relacionamento após a revelação da profissão e da jornada de trabalho do sujeito.

3.2 Objetivos Específicos

  • Compreender o papel das representações sociais na percepção das profissões.
  • Analisar a influência da disponibilidade temporal na percepção de compatibilidade entre parceiros.
  • Investigar o funcionamento das heurísticas cognitivas durante as interações virtuais.
  • Discutir a construção social do parceiro ideal.
  • Examinar como experiências repetidas podem favorecer processos de generalização e viés de confirmação.

4 METODOLOGIA

O presente trabalho caracteriza-se como um estudo teórico-reflexivo de natureza qualitativa, fundamentado em revisão bibliográfica da literatura clássica e contemporânea da Psicologia Social.

Foram utilizados como referenciais teóricos autores amplamente reconhecidos na área, entre eles Serge Moscovici, Peter Berger, Thomas Luckmann, Daniel Kahneman, David Myers, Jean Twenge, Leon Festinger e Erving Goffman.

A situação apresentada é utilizada como estudo de caso ilustrativo para discutir conceitos psicológicos e sociais. Não se pretende realizar inferências sobre todas as mulheres, todos os usuários de aplicativos de relacionamento ou todos os trabalhadores do setor supermercadista. O caso é analisado como exemplo de um fenômeno social específico, buscando compreender os processos psicossociais que podem contribuir para sua ocorrência.

A abordagem adotada é interpretativa, privilegiando a compreensão dos significados atribuídos pelos indivíduos às suas experiências e a forma como esses significados são influenciados pelas normas, valores e representações compartilhadas socialmente.

5 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

5.1 As Representações Sociais e a Construção do Parceiro Ideal

Um dos conceitos centrais da Psicologia Social para compreender as escolhas afetivas contemporâneas é o de representações sociais, desenvolvido por Serge Moscovici. O autor compreende que os indivíduos não interpretam o mundo apenas por meio da experiência individual, mas principalmente através de conhecimentos compartilhados coletivamente.

Segundo Moscovici (2015, p. 46):

"As representações sociais são sistemas de valores, ideias e práticas com uma dupla função: estabelecer uma ordem que permita aos indivíduos orientar-se em seu mundo material e social e possibilitar a comunicação entre os membros de uma comunidade."

Essa afirmação demonstra que aquilo que uma pessoa pensa sobre determinada profissão, estilo de vida ou rotina não nasce exclusivamente de sua experiência pessoal. Antes, resulta de significados construídos e compartilhados pela sociedade.

No caso analisado, quando o sujeito informa exercer a função de fiscal de caixa em um supermercado, essa informação deixa de representar apenas uma ocupação profissional. Ela pode ativar um conjunto de representações previamente existentes acerca do trabalho em supermercados, tais como jornadas extensas, trabalho aos sábados, domingos e feriados, menor flexibilidade de horários e pouca disponibilidade para atividades de lazer. Essas associações não precisam corresponder exatamente à realidade daquele indivíduo específico; basta que façam parte do imaginário social para influenciar a interpretação inicial.

Dessa forma, a decisão de interromper uma conversa pode decorrer mais da representação social associada à profissão do que da profissão em si. A pessoa não reage apenas ao indivíduo concreto, mas também ao significado cultural que atribui à ocupação informada.

Além disso, Moscovici (2015) afirma que as representações sociais possuem a função de tornar familiar aquilo que inicialmente é desconhecido. Nos aplicativos de relacionamento, onde o contato ocorre entre pessoas estranhas, informações objetivas como profissão, idade e escolaridade tornam-se referências utilizadas para reduzir a incerteza e organizar expectativas sobre o possível parceiro.

Assim, ao responder que trabalha aos finais de semana, o sujeito fornece um elemento que rapidamente é incorporado à representação que a outra pessoa constrói sobre ele. Antes mesmo que aspectos como caráter, empatia, humor, espiritualidade ou projetos de vida sejam conhecidos, a representação inicial passa a orientar a continuidade ou não da interação.

5.2 A Construção Social da Realidade

Peter Berger e Thomas Luckmann (2014) defendem que aquilo que os indivíduos chamam de realidade não corresponde simplesmente aos fatos objetivos, mas ao modo como esses fatos são interpretados e compartilhados socialmente.

Os autores afirmam:

"A realidade da vida cotidiana apresenta-se como uma realidade interpretada pelos homens e subjetivamente dotada de sentido para eles como um mundo coerente." (BERGER; LUCKMANN, 2014, p. 35).

Essa afirmação possui grande relevância para compreender o caso em estudo. Trabalhar aos finais de semana é um fato objetivo. Entretanto, o significado atribuído a esse fato depende da cultura.

Na sociedade contemporânea, sábados e domingos são frequentemente associados ao descanso, à convivência familiar, às viagens, aos encontros sociais e às atividades de lazer. Essa convenção foi construída historicamente e passou a orientar as expectativas coletivas sobre o funcionamento da vida cotidiana.

Consequentemente, quando uma pessoa identifica que um possível parceiro não compartilha dessa organização temporal, pode concluir que existirá dificuldade futura para construir um relacionamento.

É importante observar que essa interpretação não decorre necessariamente de preconceito contra trabalhadores do comércio. Trata-se, antes, de uma avaliação baseada em expectativas socialmente compartilhadas acerca da convivência conjugal.

Berger e Luckmann (2014) explicam ainda que a realidade cotidiana é continuamente reforçada pelas interações sociais. Quanto mais frequentemente determinada ideia é compartilhada, maior tende a ser sua aparência de naturalidade.

Nesse contexto, a expectativa de que um casal disponha dos finais de semana para permanecer junto passa a ser percebida como algo "normal", ainda que diversas categorias profissionais — profissionais da saúde, policiais, bombeiros, trabalhadores do comércio, motoristas, jornalistas e tantas outras — desenvolvam suas atividades justamente nesses períodos.

5.3 A Formação de Impressões Sociais

Outro autor fundamental para compreender o fenômeno é Erving Goffman.

Em sua obra A Representação do Eu na Vida Cotidiana, Goffman (2014) demonstra que as relações sociais são organizadas pela administração das impressões produzidas nas interações.

Segundo o autor, cada indivíduo procura apresentar determinadas informações sobre si mesmo enquanto os demais constroem interpretações a partir desses sinais.

Nos aplicativos de relacionamento, essa dinâmica torna-se ainda mais intensa, pois quase toda a impressão inicial depende de informações objetivas disponibilizadas pelo próprio usuário.

Fotografia.

Profissão.

Escolaridade.

Cidade.

Idade.

Esses poucos elementos passam a funcionar como indicadores capazes de produzir expectativas sobre inúmeras outras características.

Quando o sujeito informa ser fiscal de caixa, essa informação pode desencadear inferências relativas ao salário, à rotina, ao tempo disponível, ao estilo de vida e até mesmo às perspectivas profissionais futuras.

Entretanto, Goffman (2014) ressalta que toda impressão social permanece incompleta.

As pessoas interpretam sinais parciais e constroem hipóteses sobre indivíduos que ainda desconhecem profundamente.

Assim, uma profissão pode adquirir peso desproporcional durante os primeiros contatos virtuais justamente porque existem poucas outras informações capazes de equilibrar essa percepção.

5.4 Os Estereótipos como Economia Cognitiva

A Psicologia Social demonstra que os seres humanos utilizam categorias para organizar a enorme quantidade de informações presentes no ambiente social.

Essas categorias recebem o nome de estereótipos.

Conforme Myers e Twenge (2019), os estereótipos funcionam como mecanismos de simplificação cognitiva. Eles permitem decisões rápidas, embora aumentem o risco de interpretações equivocadas.

No contexto estudado, não seria necessário que as mulheres conhecessem profundamente o sujeito para decidir interromper a conversa. Bastaria que determinadas categorias sociais fossem ativadas automaticamente:

  • trabalhador do comércio;
  • trabalha aos finais de semana;
  • pouca disponibilidade;
  • dificuldade para viagens;
  • incompatibilidade de horários.

Essas inferências podem ocorrer em poucos segundos.

Importante destacar que o uso de estereótipos não representa necessariamente preconceito consciente. Em muitos casos, constitui um processo automático de categorização descrito amplamente pela Psicologia Social.

Desse modo, a decisão de interromper a conversa pode decorrer da ativação de categorias cognitivas simplificadoras, e não de uma avaliação aprofundada da pessoa.

Essa constatação ajuda a compreender por que, em ambientes de convivência prolongada — como o próprio supermercado —, essas mesmas categorias tendem a perder força. À medida que o contato cotidiano permite conhecer aspectos da personalidade, da responsabilidade, da empatia e dos valores do indivíduo, os estereótipos iniciais podem ser substituídos por avaliações mais individualizadas.

Essa diferença entre a interação virtual e a convivência presencial constitui um dos elementos centrais para compreender o fenômeno analisado neste estudo.

5.5 Heurísticas Cognitivas e a Tomada de Decisão nos Aplicativos de Relacionamento

Um dos autores mais influentes na compreensão da tomada de decisão humana é o psicólogo e economista Daniel Kahneman. Em sua obra Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar, Kahneman (2012) demonstra que o pensamento humano opera por meio de dois sistemas distintos.

O Sistema 1 é rápido, intuitivo, automático e exige pouco esforço cognitivo. O Sistema 2, por sua vez, é lento, deliberativo, analítico e requer maior investimento de atenção. Segundo Kahneman (2012, p. 28):

"O Sistema 1 opera automática e rapidamente, com pouco ou nenhum esforço e nenhuma percepção de controle voluntário."

Nos aplicativos de relacionamento, o grande volume de perfis disponíveis favorece o predomínio do Sistema 1. Diante de dezenas ou centenas de possíveis parceiros, torna-se inviável analisar profundamente cada pessoa. Como consequência, os usuários recorrem a informações facilmente acessíveis para tomar decisões rápidas.

Nesse contexto, dados como profissão, idade, escolaridade, aparência física e disponibilidade de tempo tornam-se sinais utilizados para estimar a compatibilidade entre os indivíduos. A resposta "trabalho aos finais de semana" pode funcionar como um gatilho cognitivo que conduz à conclusão imediata de que haverá dificuldades para a convivência, sem que outras características pessoais sejam exploradas.

Kahneman (2012) explica que as heurísticas não constituem, por si mesmas, erros cognitivos. Elas representam mecanismos adaptativos que permitem decisões rápidas em situações de incerteza. Contudo, justamente por simplificarem a realidade, podem produzir julgamentos imprecisos.

Aplicando esse conceito ao caso analisado, observa-se que a interrupção da conversa após a revelação da rotina profissional não necessariamente expressa rejeição à pessoa do sujeito. Em muitos casos, pode refletir uma decisão baseada em uma inferência rápida sobre a viabilidade futura do relacionamento.

5.6 A Heurística da Representatividade

Entre as heurísticas descritas por Kahneman (2012), destaca-se a heurística da representatividade.

Ela consiste na tendência de classificar uma pessoa a partir de características consideradas representativas de determinado grupo social.

Ao informar que trabalha como fiscal de caixa em supermercado, o sujeito passa a ser associado à categoria "trabalhador do comércio". Essa categoria pode evocar crenças previamente estabelecidas, como:

  • trabalha em horários irregulares;
  • possui pouco tempo livre;
  • terá dificuldades para participar de viagens aos finais de semana;
  • apresentará incompatibilidade de agenda.

Essas inferências podem ocorrer antes mesmo que o indivíduo seja conhecido de forma mais ampla.

Do ponto de vista da Psicologia Social, trata-se de um processo de categorização social. A profissão torna-se uma informação altamente saliente, reduzindo momentaneamente a importância de outras características individuais.

5.7 A Busca por Compatibilidade nos Relacionamentos

Outro conceito amplamente estudado refere-se à atração interpessoal.

Segundo Myers e Twenge (2019), os relacionamentos tendem a se desenvolver com maior facilidade quando existe percepção de compatibilidade entre os parceiros.

Essa compatibilidade envolve diferentes dimensões:

  • valores pessoais;
  • interesses comuns;
  • projetos familiares;
  • objetivos profissionais;
  • disponibilidade temporal;
  • estilo de vida.

Os autores destacam que a percepção de similaridade favorece sentimentos de segurança e previsibilidade, aumentando as possibilidades de aproximação.

No caso estudado, a pergunta "Você trabalha aos finais de semana?" pode ser compreendida como uma tentativa de avaliar uma dessas dimensões específicas: a compatibilidade temporal.

Se a resposta indica indisponibilidade justamente nos dias em que a outra pessoa costuma realizar atividades sociais, ela poderá concluir que o relacionamento exigirá adaptações significativas.

Essa conclusão não representa necessariamente um julgamento moral sobre a profissão exercida pelo sujeito. Trata-se de uma avaliação subjetiva acerca da possibilidade de construir uma rotina compartilhada.

É importante destacar que diferentes indivíduos atribuem pesos distintos à disponibilidade temporal. Para algumas pessoas, esse fator possui importância secundária; para outras, constitui requisito essencial.

Portanto, a experiência do sujeito não permite concluir que todas as mulheres valorizem igualmente esse aspecto.

5.8 A Teoria da Proximidade Física

Um dos estudos clássicos da Psicologia Social foi realizado por Leon Festinger, Stanley Schachter e Kurt Back (1950).

Os autores demonstraram que a proximidade física constitui um dos fatores mais importantes para o desenvolvimento das relações interpessoais.

Pessoas que convivem frequentemente tendem a desenvolver maior familiaridade, confiança e possibilidade de aproximação.

Esse fenômeno ficou conhecido como efeito da mera exposição, posteriormente aprofundado por Robert Zajonc (1968), segundo o qual a repetição do contato aumenta, em muitas circunstâncias, a probabilidade de avaliações positivas.

Essa teoria contribui para compreender a conclusão elaborada pelo sujeito ao afirmar que talvez somente consiga estabelecer um relacionamento com mulheres do próprio supermercado.

No ambiente profissional, colegas compartilham experiências cotidianas, observam comportamentos concretos e conhecem características que dificilmente aparecem em um perfil de aplicativo.

Aspectos como responsabilidade, respeito, cooperação, equilíbrio emocional, gentileza e comprometimento tornam-se visíveis ao longo da convivência.

Consequentemente, a profissão deixa de ser apenas um rótulo e passa a integrar uma percepção muito mais ampla da pessoa.

Entretanto, é importante ressaltar que a teoria da proximidade não permite concluir que relacionamentos somente possam surgir nesse contexto. Ela demonstra apenas que a convivência frequente aumenta estatisticamente as oportunidades de formação de vínculos interpessoais.

5.9 O Viés de Confirmação

Após aproximadamente oito anos vivenciando experiências semelhantes, o sujeito passou a formular uma hipótese explicativa:

"As mulheres procuram homens que estejam livres aos finais de semana."

Essa conclusão pode ser analisada à luz do conceito de viés de confirmação.

Segundo Myers e Twenge (2019), uma vez estabelecida determinada crença, os indivíduos tendem a selecionar informações que a confirmem e a atribuir menor importância às evidências que possam contradizê-la.

Esse processo ocorre, em grande medida, de forma automática.

No caso analisado, cada nova rejeição fortalece a hipótese previamente construída.

Ao mesmo tempo, situações potencialmente diferentes — como mulheres que permanecem conversando por mais tempo ou que não consideram a rotina profissional um problema — podem receber menor atenção ou ser percebidas como exceções.

Do ponto de vista psicológico, trata-se de um mecanismo compreensível. O ser humano procura construir explicações coerentes para experiências repetidas, especialmente quando envolvem sofrimento emocional.

Todavia, do ponto de vista científico, é necessário distinguir entre a experiência subjetiva do indivíduo e a possibilidade de generalização. As rejeições vivenciadas constituem dados importantes para compreender sua trajetória, mas não permitem afirmar que todas as mulheres utilizem os mesmos critérios de escolha nem que os aplicativos sejam, em si, inviáveis para pessoas que trabalham aos finais de semana.

6 DISCUSSÃO

Os referenciais apresentados permitem compreender que o fenômeno analisado não pode ser explicado por um único fator. A interrupção recorrente das interações após a revelação da profissão e da jornada de trabalho resulta da articulação entre processos cognitivos, sociais e culturais.

As representações sociais, conforme propostas por Moscovici (2015), fazem com que a profissão deixe de ser apenas uma atividade laboral e passe a representar um conjunto de significados compartilhados socialmente. No caso estudado, "trabalhar em supermercado" pode ser associado, para algumas pessoas, à indisponibilidade aos finais de semana, horários irregulares e dificuldades para conciliar a vida afetiva.

A teoria da construção social da realidade, de Berger e Luckmann (2014), amplia essa compreensão ao mostrar que as expectativas sobre o que seria um relacionamento "ideal" também são socialmente produzidas. Em muitas sociedades, o sábado e o domingo são simbolicamente organizados como tempo de convivência familiar, lazer e descanso. Assim, a ausência do parceiro nesses períodos pode ser percebida como um obstáculo à realização desse modelo de vida.

Entretanto, essas representações não são universais. Elas variam conforme idade, profissão, contexto cultural, experiências anteriores e projetos de vida. Uma profissional da saúde que também trabalhe em plantões, por exemplo, pode perceber a disponibilidade aos finais de semana de maneira diferente de alguém cuja rotina profissional seja exclusivamente de segunda a sexta-feira.

A contribuição de Goffman (2014) demonstra que, nas interações iniciais, especialmente em ambientes virtuais, os indivíduos constroem impressões a partir de poucos sinais disponíveis. Nos aplicativos de relacionamento, essas primeiras impressões possuem grande peso porque ainda não existe convivência suficiente para que outras características pessoais sejam conhecidas.

Kahneman (2012) explica que, diante desse cenário, predominam decisões rápidas baseadas em heurísticas cognitivas. Em vez de investigar profundamente quem é o sujeito, muitos usuários utilizam informações objetivas como indicadores de compatibilidade. A profissão e a disponibilidade temporal tornam-se, portanto, critérios de decisão que simplificam a realidade.

Do ponto de vista da atração interpessoal, Myers e Twenge (2019) ressaltam que a percepção de compatibilidade favorece o desenvolvimento dos relacionamentos. Isso significa que muitas pessoas não estão necessariamente rejeitando o indivíduo enquanto pessoa, mas avaliando se acreditam ser possível construir uma rotina compartilhada.

Essa distinção é importante. Rejeitar uma proposta de relacionamento por perceber incompatibilidade de horários não equivale, necessariamente, a desvalorizar moralmente a profissão exercida.

Ao mesmo tempo, a repetição dessas experiências pode produzir consequências psicológicas importantes para o sujeito.

Após aproximadamente oito anos vivenciando situações semelhantes, ele passou a interpretar esse padrão como evidência de que "as mulheres procuram homens que estejam livres aos finais de semana". Essa formulação pode ser compreendida à luz do viés de confirmação, descrito por Myers e Twenge (2019), no qual novas experiências passam a ser interpretadas principalmente como reforço de uma crença já estabelecida.

Isso não significa que sua percepção seja totalmente infundada. É possível que ele tenha encontrado, repetidamente, mulheres para as quais a disponibilidade aos finais de semana constituía um critério importante. O ponto central é que essa experiência, embora real, não permite concluir que todas as mulheres compartilhem desse mesmo padrão.

Outro aspecto relevante refere-se à hipótese elaborada pelo sujeito de que somente conseguirá estabelecer relacionamentos dentro do ambiente do supermercado.

A teoria da proximidade, desenvolvida por Festinger, Schachter e Back (1950), fornece elementos que parcialmente sustentam essa percepção. A convivência cotidiana favorece o conhecimento gradual da personalidade, reduzindo a influência exclusiva de informações superficiais.

No ambiente profissional, colegas observam responsabilidade, empatia, cooperação, equilíbrio emocional, capacidade de resolver conflitos e outros atributos que dificilmente aparecem nos primeiros minutos de uma conversa virtual.

Todavia, afirmar que apenas mulheres pertencentes ao supermercado poderiam construir um relacionamento com esse sujeito extrapola aquilo que os dados permitem demonstrar.

A Psicologia Social sugere que a convivência amplia oportunidades de aproximação, mas não determina de forma absoluta onde os relacionamentos necessariamente ocorrerão.

Do ponto de vista científico, a hipótese mais consistente é que ambientes de convivência prolongada tendem a reduzir o peso das avaliações superficiais presentes nas plataformas digitais.

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise desenvolvida neste artigo demonstra que as dificuldades vivenciadas pelo sujeito nos aplicativos de relacionamento podem ser compreendidas por meio da interação entre representações sociais, construção social da realidade, formação de impressões, heurísticas cognitivas, busca por compatibilidade e viés de confirmação.

A profissão de fiscal de caixa e a necessidade de trabalhar aos finais de semana constituem informações objetivas que, no contexto dos aplicativos, assumem elevada saliência durante os primeiros contatos. Como consequência, essas características podem ser utilizadas por alguns usuários como indicadores rápidos de compatibilidade, antes mesmo que aspectos mais profundos da personalidade sejam conhecidos.

Sob a perspectiva da Psicologia Social, esse processo não autoriza concluir que exista um padrão único de escolha entre as mulheres. As preferências afetivas são influenciadas por múltiplos fatores individuais, culturais e contextuais.

Ao mesmo tempo, a experiência repetida de rejeições ao longo de aproximadamente oito anos pode favorecer processos de generalização e fortalecer crenças sobre a impossibilidade de estabelecer relacionamentos nesse tipo de plataforma.

A literatura analisada indica que relações construídas em ambientes de convivência frequente tendem a possibilitar avaliações mais amplas da pessoa, reduzindo o peso de julgamentos baseados exclusivamente em profissão ou disponibilidade temporal. Isso pode ampliar as oportunidades de formação de vínculos, embora não constitua garantia de sucesso nem exclua outras possibilidades de relacionamento.

Por fim, este estudo reforça a importância de compreender os relacionamentos contemporâneos como fenômenos complexos, influenciados simultaneamente por processos psicológicos, cognitivos, sociais e culturais, evitando interpretações reducionistas ou generalizações sobre qualquer grupo social.

REFERÊNCIAS

BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. 36. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

FESTINGER, Leon; SCHACHTER, Stanley; BACK, Kurt. Social Pressures in Informal Groups: A Study of Human Factors in Housing. Stanford: Stanford University Press, 1950.

GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. 20. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

MOSCOVICI, Serge. Representações sociais: investigações em psicologia social. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.

MYERS, David G.; TWENGE, Jean M. Psicologia Social. 12. ed. Porto Alegre: AMGH, 2019.

ZAJONC, Robert B. Attitudinal effects of mere exposure. Journal of Personality and Social Psychology, Washington, v. 9, n. 2, pt. 2, p. 1–27, 1968.

 

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  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. Qual pode ser a motivação de um psicólogo para desejar trabalhar em instituições de longa permanecia para idosos. Vamos compreender o comportamento do psicólogo por meio da abordagem psicologia social. A psicologia social se preocupa em entender como os indivíduos são influenciados pelo contexto social em que vivem, incluindo as instituições. Ao trabalhar em uma instituição de longa permanência para idosos, um psicólogo pode ser motivado por diversos fatores relacionados a essa abordagem. Influências externas e tendências dominantes: Os psicólogos também estão sujeitos a influências externas, como a cultura profissional predominante, as demandas do sistema de saúde ou as preferências dos clientes. Se a abordagem psicanalítica, terapia comportamental cognitiva, psicologia humanista e outras não for valorizada ou for menos solicitada em determinado contex...

Minha Querida Senhorita: uma leitura psicanalítica e psicossocial do sujeito em cena — do drama íntimo ao cotidiano do “fiscal psicólogo”

  Resumo Este artigo propõe uma análise articulada do filme Minha Querida Senhorita a partir de dois eixos teóricos: a psicanálise e a psicologia social. Busca-se compreender como a trajetória da personagem Adela/A.D. evidencia a constituição do sujeito pelo Outro, o papel do recalque e da angústia, bem como os mecanismos de controle social, estigma e normatização do corpo. Além disso, o texto amplia a leitura para o cotidiano, tomando como metáfora o “fiscal psicólogo” no supermercado, enquanto operador de observação e controle, evidenciando como o sofrimento psíquico se manifesta em cenas banais. Conclui-se que o filme explicita a inseparabilidade entre sujeito e laço social, demonstrando que o conflito psíquico é produzido e sustentado por estruturas simbólicas e institucionais. 1. Introdução O filme  Minha Querida Senhorita  (1972), dirigido por Jaime de Armiñán, narra a história de Adela, uma mulher que, ao longo da vida, descobre ser inter...

De Que Modo Contribui Para A sociedade O Operador De Caixa

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a tenção do para um excelente tópico. O perfil de um operador de caixa é fundamental para a sociedade, pois esse profissional é responsável por várias atividades essenciais em estabelecimentos comerciais, como supermercados, lojas de departamento, farmácias, entre outros. Algumas das principais contribuições são: Agilidade no atendimento: o operador de caixa é o responsável por finalizar as compras dos clientes de maneira rápida e eficiente, tornando o processo de pagamento mais ágil e dinâmico. Isso ajuda a evitar filas longas e estresse para os consumidores. Atenção aos detalhes: é importante que o operador de caixa verifique o preço dos produtos, o tipo de pagamento e o troco, garantindo que as transações sejam precisas e corretas. Isso evita problemas como cobranças indevidas e possíveis reclamações dos clientes. Boa comunicação: o operador de caixa deve ter habilidades de comunicação ...

O Fiscal Morto: A Escuta Psicanalítica de um Ego Dividido entre o Dever e o Desejo

  Ano 2025. Autor [Ayrton Junior Psicólogo] Introdução Este livro nasce da escuta de um conflito silencioso: o de um sujeito que, formado em Psicologia, atua como fiscal de caixa em um supermercado — um espaço de intensa dinâmica social, mas carente de reconhecimento subjetivo. O personagem central, o fiscal psicólogo , simboliza o homem moderno dividido entre o trabalho que sustenta o corpo e o desejo que alimenta a alma . No entanto, o ambiente organizacional, regido por normas e metas, torna-se o espelho de uma estrutura psíquica aprisionada: o superego institucional, que reprime o desejo de ser, em nome do dever de parecer produtivo. Pela lente da psicanálise , este livro propõe uma escuta — ou, como diria Lacan, uma escanálise — da dor de um sujeito que, sem perceber, retirou a libido de sua própria função. A análise busca compreender o processo inconsciente que o levou a se perceber como um “fiscal morto” , sem prazer, sem reconhecimento e sem o brilho do desejo que...