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LUTO DA PERMANÊNCIA PROLONGADA NO SUPERMERCADO: UMA LEITURA PSICANALÍTICA DO FISCAL PSICÓLOGO

 Resumo

Este artigo propõe uma reflexão psicanalítica sobre a experiência de um profissional formado em Psicologia que ingressa em uma função de fiscal de caixa em um supermercado imaginando que essa ocupação será temporária, mas permanece nela durante quatro anos sem conseguir visualizar concretamente sua saída. A formulação de “luto da permanência prolongada” é utilizada para compreender não apenas o sofrimento provocado pela permanência em uma função não planejada, mas principalmente a perda de um projeto profissional imaginado, de expectativas relacionadas ao futuro e de determinada representação de si mesmo como psicólogo. A partir de Freud, especialmente de Luto e melancolia (1917), discute-se o luto como processo relacionado também à perda de ideais e abstrações. A reflexão é ampliada por contribuições de Winnicott acerca da adaptação, do falso self e da preservação de uma experiência de autenticidade. Argumenta-se que elaborar esse luto não significa resignar-se ao supermercado nem abandonar o desejo de trabalhar como psicólogo, mas reconhecer a realidade presente, retirar da função seu caráter de destino e iniciar uma separação psíquica que possa preceder uma eventual separação concreta. A questão central passa a ser: como viver enquanto ainda não se saiu?

Palavras-chave: luto; psicanálise; trabalho; identidade profissional; supermercado; Psicologia; permanência prolongada.


1. Introdução

Há situações profissionais nas quais o sofrimento não decorre exclusivamente das características objetivas do trabalho, mas da distância entre aquilo que o sujeito imaginou que viveria e aquilo que efetivamente aconteceu.

É nesse intervalo que se situa a experiência aqui denominada luto da permanência prolongada no supermercado.

O sujeito ingressa na função de fiscal de caixa considerando-a temporária. A expectativa inicial é de que aquele emprego seja uma etapa transitória enquanto procura uma oportunidade relacionada à sua formação em Psicologia. Entretanto, os meses passam, os anos passam e aquilo que deveria ser provisório permanece.

O que inicialmente era pensado como:

“Estou aqui por enquanto.”

transforma-se, quatro anos depois, em:

“Ainda estou aqui.”

Essa transformação possui consequências subjetivas importantes.

O sofrimento não se limita ao trabalho exercido diariamente. Existe uma segunda perda: a perda da expectativa de que a vida profissional seguiria o caminho imaginado.

Freud, em Luto e melancolia, amplia o campo da experiência de luto ao considerar que a perda pode envolver não apenas uma pessoa amada, mas também abstrações e ideais.

É nesse sentido que se pode pensar o fiscal psicólogo como alguém que precisa elaborar não somente uma relação com o trabalho atual, mas também uma relação com o futuro profissional que imaginou e que não aconteceu da maneira esperada.


2. O “luto da permanência prolongada” como formulação psicanalítica

“Luto da permanência prolongada” não corresponde a uma categoria clínica clássica da psicanálise. Trata-se, neste artigo, de uma formulação utilizada para nomear uma experiência subjetiva específica: o sofrimento produzido quando uma condição concebida como provisória se prolonga e passa a ameaçar tornar-se permanente.

A questão central não é simplesmente:

“Estou trabalhando no supermercado.”

A questão é:

“Eu não imaginava que ainda estaria aqui.”

Existe, portanto, uma perda do futuro esperado.

O sujeito não perdeu necessariamente o emprego; ao contrário, ele permaneceu empregado. O que foi perdido foi a expectativa de que aquele emprego seria apenas uma passagem.

Nesse sentido, o objeto do luto pode ser compreendido como múltiplo:

  • o projeto profissional imaginado;
  • a expectativa de trabalhar como psicólogo;
  • a fantasia de uma transição rápida;
  • determinada imagem de futuro;
  • a representação de si mesmo profissionalmente;
  • o tempo que não pode ser recuperado;
  • a expectativa de reconhecimento profissional;
  • e a ideia de que, em determinado momento, a vida profissional assumiria outra direção.

Freud permite pensar essa dimensão porque o luto não se limita à morte de uma pessoa. Seu texto de 1917 considera também a perda de abstrações e ideais.

Assim, pode-se formular:

o fiscal psicólogo está de luto por uma trajetória profissional que não aconteceu como imaginava.


3. O primeiro movimento da elaboração: reconhecer que o temporário se prolongou

Um dos aspectos fundamentais desse processo é reconhecer a realidade.

Durante algum tempo, a representação de que o emprego é “temporário” pode funcionar como proteção psíquica.

Enquanto o sujeito pensa:

“Estou aqui somente até conseguir outra coisa”,

o presente não precisa ser totalmente incorporado como parte de sua história.

Entretanto, quatro anos introduzem outra realidade.

É necessário poder dizer:

“Eu entrei pensando que seria temporário e permaneci muito mais tempo do que imaginava.”

Essa frase é dolorosa, mas possui valor elaborativo.

Reconhecer a realidade não significa declarar:

“Vou permanecer aqui para sempre.”

Significa apenas reconhecer:

“Foi isso que aconteceu até aqui.”

O luto exige justamente que o sujeito possa estabelecer uma relação com a realidade da perda. A literatura psicanalítica contemporânea continua utilizando Luto e melancolia como referência fundamental para compreender diferentes respostas subjetivas diante da perda.


4. O luto pelo projeto profissional

Talvez a perda mais significativa não seja o supermercado em si.

O sujeito pode estar de luto por aquilo que imaginava que seria sua vida profissional.

Ele poderia ter pensado:

“Vou trabalhar como psicólogo.”

Mas a realidade produziu:

“Estou trabalhando como fiscal de caixa.”

Essa diferença pode provocar sentimentos de frustração, vergonha, raiva, impotência e sensação de fracasso.

Entretanto, uma distinção precisa ser realizada:

o projeto não ter se realizado como imaginado não significa que o sujeito tenha fracassado como sujeito.

O projeto profissional pode precisar ser reelaborado sem que a formação em Psicologia seja abandonada.

Isso permite uma separação importante:

“Minha trajetória não aconteceu como imaginei.”

não equivale a:

“Minha trajetória não tem mais valor.”

O trabalho de luto pode permitir que o sujeito abandone determinada forma imaginada do futuro sem precisar abandonar o desejo que estava investido nela.


5. O fiscal psicólogo e a crise de identidade profissional

A permanência prolongada pode produzir uma pergunta particularmente dolorosa:

“Se sou psicólogo e estou trabalhando como fiscal de caixa, quem sou profissionalmente?”

Aqui aparece uma confusão entre função exercida e identidade subjetiva.

O sujeito exerce uma função no supermercado, mas essa função não precisa esgotar aquilo que ele é.

A experiência profissional pode conter múltiplas dimensões.

O fiscal pode ser simultaneamente:

  • trabalhador;
  • profissional formado em Psicologia;
  • alguém que possui experiência clínica;
  • observador das relações humanas;
  • sujeito que desenvolve projetos;
  • alguém que pensa criticamente sobre organizações;
  • e trabalhador inserido em uma função operacional.

O supermercado não apaga a Psicologia.

Entretanto, existe um risco: fazer da função atual uma identidade totalizante.

Nesse ponto, a discussão winnicottiana sobre verdadeiro e falso self oferece uma contribuição relevante. Winnicott descreve o falso self também como uma adaptação às exigências do ambiente, enquanto o verdadeiro self está associado à espontaneidade, criatividade e sentimento de realidade pessoal.

Isso não significa afirmar que trabalhar como fiscal seja, por si só, viver em um “falso self”. A questão é outra: quanto da adaptação necessária ao trabalho está começando a ocupar o espaço daquilo que o sujeito reconhece como próprio?


6. O supermercado como espaço de adaptação

Todo trabalho exige algum grau de adaptação.

O trabalhador precisa cumprir horários, regras, procedimentos, hierarquias e responsabilidades.

A adaptação, portanto, não é necessariamente patológica. Winnicott inclusive reconhece funções adaptativas do falso self na vida social.

O problema surge quando a adaptação deixa de ser apenas uma função necessária e passa a dominar a existência.

Nesse caso, o sujeito pode começar a viver segundo uma lógica:

“Preciso apenas suportar.”

E os dias tornam-se sucessões de:

trabalhar → suportar → voltar para casa → esperar → repetir.

A vida fica organizada em torno da resistência.

É nesse momento que a elaboração do luto se torna importante: o objetivo não é apenas suportar melhor o supermercado, mas recuperar uma dimensão de existência que não esteja completamente subordinada a ele.


7. A ambivalência diante do trabalho

A relação com o supermercado não precisa ser exclusivamente de amor ou ódio.

Pode existir ambivalência.

O sujeito pode:

  • desejar sair e, simultaneamente, precisar do salário;
  • sentir raiva e reconhecer que o trabalho garante sustento;
  • sentir-se frustrado e reconhecer aquilo que aprendeu;
  • desejar mudança e temer o desemprego;
  • considerar o trabalho inadequado e, ao mesmo tempo, reconhecer sua importância em determinado período da vida.

A ambivalência é particularmente importante na leitura freudiana do luto e da melancolia. A diferenciação entre essas experiências envolve justamente a maneira como a perda, a identificação e os sentimentos ambivalentes encontram destinos psíquicos diferentes.

Por isso, elaborar não significa produzir uma narrativa simplista:

“O supermercado foi totalmente ruim.”

Tampouco significa:

“O supermercado foi bom, então devo continuar.”

Uma posição mais elaborada seria:

“Essa experiência teve aspectos que me fizeram sofrer e aspectos que preciso reconhecer. Posso conservar aquilo que aprendi sem precisar conservar indefinidamente a mesma posição profissional.”


8. O perigo da espera

A permanência prolongada pode produzir uma forma de suspensão subjetiva.

O sujeito passa a pensar:

“Quando eu sair, minha vida começará.”

Esse pensamento cria uma divisão entre presente e futuro.

O presente torna-se um intervalo.

O futuro torna-se o lugar onde a verdadeira vida supostamente acontecerá.

Entretanto, quanto mais a saída demora, mais a existência presente fica desinvestida.

Por isso, uma das perguntas centrais para a elaboração do luto é:

“Como quero viver enquanto ainda não saí?”

Essa pergunta não elimina o desejo de sair.

Ela impede que toda a vida fique dependente da saída.


9. Como viver enquanto ainda não saiu

A elaboração do luto pode produzir respostas concretas.

9.1 Trabalhar sem transformar o trabalho em identidade

“Quero cumprir minha função com responsabilidade, mas não quero que ser fiscal defina completamente quem sou.”

A função é uma parte da vida, não necessariamente sua totalidade.

9.2 Preservar energia psíquica

“Não preciso resolver todos os problemas do supermercado.”

O sujeito pode estabelecer limites entre aquilo que pertence à sua responsabilidade e aquilo que pertence à organização, à liderança ou aos demais trabalhadores.

9.3 Continuar construindo a vida profissional

“Enquanto estou aqui, continuo construindo possibilidades fora daqui.”

Isso significa não esperar passivamente pela oportunidade.

Pode significar estudar, atualizar currículo, desenvolver projetos, manter vínculos profissionais, produzir conteúdo, ampliar experiências e buscar oportunidades compatíveis com seus objetivos.

9.4 Preservar a relação com a Psicologia

“O fato de eu trabalhar no supermercado não significa que deixei de ser psicólogo.”

A Psicologia pode continuar presente na maneira de estudar, pensar, produzir e construir experiências profissionais.

9.5 Viver também fora do trabalho

O sujeito precisa recuperar espaços que não sejam ocupados pelo supermercado:

  • descanso;
  • relações;
  • atividade física;
  • estudos;
  • projetos;
  • lazer;
  • vida familiar;
  • produção intelectual;
  • prática profissional possível.

A vida não pode permanecer totalmente subordinada à função de fiscal.


10. O que precisa ser abandonado?

A elaboração do luto envolve perdas simbólicas.

Talvez seja necessário abandonar a fantasia:

“Quando aparecer a oportunidade perfeita, então poderei sair.”

Também pode ser necessário abandonar:

  • a expectativa de que a trajetória profissional deveria ter acontecido exatamente como planejada;
  • a ideia de que quatro anos representam necessariamente fracasso;
  • a necessidade de apagar o passado;
  • a vergonha permanente por ainda estar no supermercado;
  • a espera passiva;
  • a crença de que somente a saída concreta poderá devolver sentido à vida.

Isso não significa abandonar o desejo de mudança.

Significa abandonar determinadas fantasias sobre como a mudança deveria acontecer.


11. O que precisa permanecer?

Se o luto implica reconhecer perdas, ele também implica reconhecer aquilo que pode ser conservado.

O sujeito pode conservar:

  • sua formação em Psicologia;
  • seu desejo de atuar profissionalmente;
  • experiências acumuladas;
  • capacidade de observação;
  • conhecimento sobre relações de trabalho;
  • experiências diante de conflitos;
  • aprendizados sobre organizações;
  • capacidade de reflexão;
  • projetos construídos;
  • vínculos profissionais;
  • e a própria história.

A experiência no supermercado pode ser incorporada à biografia sem transformar-se em destino.

A pergunta deixa de ser:

“Como apagar esses quatro anos?”

e passa a ser:

“O que esses quatro anos produziram em mim que posso levar para a próxima etapa?”


12. O supermercado como experiência e não como destino

Uma das tarefas mais importantes do luto é modificar a relação subjetiva com aquilo que foi vivido.

O supermercado pode ter começado como:

“um emprego temporário.”

Depois tornou-se:

“o trabalho que não consigo deixar.”

Mas pode, posteriormente, tornar-se:

“uma experiência importante da minha trajetória profissional, embora não seja necessariamente o lugar onde desejo permanecer.”

Essa terceira formulação é diferente.

Ela não nega o sofrimento.

Também não idealiza o trabalho.

Ela transforma a experiência em parte da história.

O sujeito não precisa dizer:

“Quatro anos foram desperdiçados.”

Pode dizer:

“Quatro anos aconteceram. Foram difíceis em muitos aspectos, produziram frustrações e também aprendizagens. Agora preciso decidir o que farei com aquilo que vivi.”


13. A separação psíquica pode preceder a saída concreta

Um dos pontos centrais desta reflexão é que a saída concreta e a separação psíquica não são necessariamente simultâneas.

É possível continuar trabalhando no supermercado e, ao mesmo tempo, começar a retirar dele a posição de centro absoluto da vida.

O sujeito pode permanecer fisicamente no trabalho sem permanecer psicologicamente identificado com ele da mesma maneira.

Isso pode ser formulado assim:

“Ainda estou aqui, mas já não preciso imaginar que este lugar determina quem serei.”

A separação começa quando o supermercado deixa de representar o futuro inteiro.


14. A pergunta muda

Durante muito tempo, a pergunta pode ter sido:

“Quando vou conseguir sair?”

A elaboração do luto introduz perguntas adicionais:

“Como quero viver enquanto ainda estou aqui?”

“O que posso construir agora?”

“O que depende de mim?”

“O que preciso deixar de carregar?”

“O que quero conservar dessa experiência?”

“Que relação quero ter com o trabalho até conseguir mudar?”

“Como posso construir uma transição sem exigir uma solução imediata?”

Essas perguntas deslocam o sujeito da posição de espera para uma posição de elaboração.


15. O fiscal psicólogo diante do próprio desejo

Há uma distinção fundamental entre desejo e ideal rígido.

O sujeito pode desejar trabalhar como psicólogo sem precisar acreditar que existe apenas uma forma legítima de realizar esse desejo.

Pode existir uma diferença entre:

“Quero trabalhar como psicólogo.”

e:

“Só terei valor quando estiver empregado como psicólogo em uma instituição.”

A primeira afirmação preserva o desejo.

A segunda transforma o desejo em condição para reconhecer o próprio valor.

A elaboração do luto pode permitir que o desejo permaneça enquanto a fantasia de realização perfeita seja modificada.


16. Quatro anos não precisam determinar os próximos quatro

A permanência prolongada pode produzir uma sensação de aprisionamento temporal:

“Se fiquei quatro anos, talvez fique ainda mais.”

Mas passado e futuro não são equivalentes.

O fato de algo ter durado quatro anos não determina que durará outros quatro.

Por isso, uma formulação subjetivamente importante seria:

“Eu não posso mudar os quatro anos que passaram, mas posso evitar que eles decidam sozinhos os próximos anos.”

Essa posição não promete uma saída imediata.

Ela recupera a possibilidade de escolha.


17. A elaboração do luto não é resignação

É importante distinguir três posições:

Resignação:

“Não há saída. Então preciso aceitar.”

Negação:

“Isso é apenas temporário; em breve tudo mudará.”

Elaboração:

“Reconheço que estou aqui há quatro anos, reconheço que não era o que havia planejado, reconheço meu desejo de sair e começo a construir possibilidades sem exigir que a saída aconteça imediatamente.”

A terceira posição é a mais produtiva do ponto de vista desta reflexão.

Ela permite coexistirem realidade, desejo e movimento.


18. Conclusão

O luto da permanência prolongada no supermercado pode ser compreendido como o processo psíquico de elaboração de uma experiência na qual aquilo que deveria ser temporário se prolongou, produzindo uma ruptura entre o futuro imaginado e a trajetória efetivamente vivida.

O fiscal psicólogo não está necessariamente de luto pelo supermercado enquanto objeto concreto. Ele pode estar de luto por um projeto profissional, por uma imagem de futuro, por uma expectativa de reconhecimento, por uma determinada representação de si e pelo tempo que imaginava que seria apenas uma etapa.

A contribuição de Freud permite compreender que a experiência de luto pode envolver também a perda de ideais e abstrações, e não somente a perda de pessoas.

Entretanto, elaborar essa perda não significa abandonar o desejo de trabalhar como psicólogo. Significa separar o desejo da fantasia de que ele precisa ser realizado imediatamente, perfeitamente ou por uma única via.

A experiência também pode ser compreendida à luz de Winnicott: a adaptação às exigências do ambiente faz parte da vida, mas é importante preservar a possibilidade de espontaneidade, criatividade e sentimento de realidade pessoal.

Nesse sentido, o desafio do fiscal psicólogo não é simplesmente:

“Como sair do supermercado?”

Antes disso, existe uma questão subjetiva:

“Como deixar de viver como se minha vida estivesse suspensa até o dia em que eu sair?”

A elaboração começa quando ele consegue dizer:

“Eu ainda estou aqui, mas não preciso transformar este lugar no meu destino.”

Pode continuar trabalhando sem transformar o trabalho em identidade. Pode preservar sua energia sem carregar todos os problemas da organização. Pode continuar construindo sua trajetória profissional sem exigir que a mudança aconteça imediatamente. Pode cuidar da vida fora do supermercado. Pode manter vivo o desejo pela Psicologia. Pode reconhecer os quatro anos sem transformar esse período em fracasso.

Assim, a saída pode começar antes mesmo da saída.

Não necessariamente a saída física do supermercado, mas a saída da posição subjetiva de quem espera passivamente que sua vida comece.

O luto, nesse sentido, não conduz necessariamente à desistência.

Ele pode conduzir à separação.

Separar-se da fantasia de que o passado precisa ser apagado. Separar-se da ideia de que permanecer significa fracassar. Separar-se da identificação absoluta com a função. Separar-se da espera passiva.

E, finalmente, separar-se da ideia de que somente depois de sair será possível viver.

A formulação que sintetiza esse processo é:

“Minha saída ainda não aconteceu, mas minha vida não precisa permanecer em espera.”


Referências bibliográficas

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