O PAI INSTITUCIONAL DO FISCAL PSICÓLOGO: ENTRE O AMPARO, O DESAMPARO E O MEDO DA PERMANÊNCIA DEFINITIVA
Introdução
A
trajetória profissional do fiscal psicólogo apresenta uma questão que pode ser
analisada simultaneamente pela Psicologia Organizacional e do Trabalho e por
contribuições da Psicanálise: o que o trabalhador procura quando busca uma
instituição para trabalhar?
O caso
aqui analisado é marcado por uma trajetória profissional na qual diferentes
organizações assumiram funções distintas. Em determinado momento, a atuação
como técnico mecânico em uma grande indústria multinacional, a Pirelli,
apresentou maior congruência entre formação, função e atividade profissional.
Os conhecimentos técnicos adquiridos encontravam aplicação concreta no trabalho
realizado. Havia, portanto, uma relação relativamente direta entre aquilo que o
trabalhador sabia, aquilo que fazia e aquilo que sua função profissional
exigia.
Posteriormente,
a trajetória assumiu outra configuração. Após a formação em Psicologia, o
trabalhador tentou construir uma atuação profissional autônoma, inclusive por
meio do consultório particular, mas essa experiência não se consolidou conforme
esperado. Também realizou tentativas de empreendedorismo e de inserção
profissional em diferentes contextos. Diante das dificuldades de permanecer
fora do mercado de trabalho, organizações como empresas de telemarketing, uma
empresa de produtos automotivos e, posteriormente, o supermercado, ofereceram
oportunidades de trabalho.
Essas
experiências possuem um elemento comum: foram capazes de oferecer trabalho,
mas nem sempre ofereceram alinhamento entre o cargo ocupado e os conhecimentos
profissionais que o trabalhador desejava utilizar.
O
supermercado, particularmente, parece ter adquirido um significado ambivalente.
Por um lado, representa a organização que o retirou do desemprego, ofereceu
renda, ocupação e uma forma concreta de sustentação. Por outro, tornou-se o
lugar de uma permanência prolongada em uma função inicialmente imaginada como
temporária. Ao longo dos anos, surgiu a sensação de que a Psicologia permaneceu
metaforicamente “na gaveta”: a formação existe, os conhecimentos existem, mas o
cargo ocupado não oferece campo suficiente para sua utilização.
Essa
situação produz uma questão central: o supermercado é apenas um emprego ou
passou a representar uma instituição de amparo da qual o trabalhador teme não
conseguir se separar?
A
metáfora do “pai institucional” permite investigar essa questão. Não se
trata de afirmar que o supermercado seja literalmente uma figura paterna,
tampouco de concluir que a trajetória profissional seja determinada por
experiências infantis. Trata-se de utilizar a metáfora para pensar uma
instituição que, em determinado momento da vida do trabalhador, assume uma
função de sustentação: oferece trabalho quando ele está desempregado,
proporciona renda e impede o retorno imediato à condição de desemprego.
Ao
mesmo tempo, a permanência prolongada nessa instituição produz um novo temor: e
se aquilo que deveria ser provisório se tornar definitivo?
1. O trabalho como fonte de
sustento, identidade e reconhecimento
A
Psicologia Organizacional e do Trabalho não compreende o trabalho apenas como
meio de obtenção de salário. O trabalho participa da construção da identidade,
das relações sociais, do reconhecimento e do sentido atribuído à própria
trajetória.
Na
Psicodinâmica do Trabalho, Dejours atribui grande importância à relação entre
contribuição e reconhecimento. O trabalhador investe sua inteligência,
experiência e subjetividade na atividade e espera algum tipo de retribuição
simbólica. O reconhecimento participa, assim, dos processos de construção
identitária e de produção de sentido no trabalho.
Essa
perspectiva permite compreender a diferença entre duas situações.
Na
primeira:
“Tenho
um trabalho.”
Na
segunda:
“Tenho
um trabalho no qual aquilo que sei fazer é reconhecido e utilizado.”
A
segunda experiência tende a produzir maior congruência entre trabalhador,
atividade e identidade profissional.
A
experiência como técnico mecânico representa, nesse sentido, uma referência
importante. Naquele contexto, o trabalhador encontrava maior correspondência
entre sua formação técnica e as atividades realizadas. A profissão estava
inscrita concretamente no trabalho.
No
supermercado, essa relação é diferente.
O
trabalhador possui formação em Psicologia, mas exerce uma função
predominantemente operacional. Consequentemente, parte significativa de seus
conhecimentos psicológicos não encontra aplicação direta na atividade
formalmente desempenhada.
Isso
não significa que esses conhecimentos desapareceram. Eles permanecem como
patrimônio profissional, mas encontram-se parcialmente subutilizados.
2. A organização que salva do
desemprego
É
necessário reconhecer uma dimensão objetiva que não pode ser reduzida à
Psicanálise.
O
fiscal psicólogo não necessariamente permanece no supermercado porque deseja
permanecer ali. Uma explicação concreta é muito mais simples: ele precisa
trabalhar.
Enquanto
procura uma oportunidade na Psicologia, não pode necessariamente abandonar o
emprego e permanecer indefinidamente desempregado aguardando uma contratação.
Essa
dimensão econômica é fundamental.
O
supermercado, nesse sentido, pode ser compreendido como uma instituição que
cumpriu uma função de amparo ocupacional.
Sua
mensagem concreta foi:
“Há
uma vaga. Você pode trabalhar.”
Isso
tem valor.
O
supermercado pode ter impedido o agravamento de uma situação de desemprego e
oferecido continuidade financeira quando outras portas profissionais não se
abriram.
A
mesma lógica pode ser aplicada às experiências anteriores em telemarketing e em
empresas relacionadas à produção automotiva: organizações que ofereceram
trabalho em momentos nos quais o sujeito necessitava de inserção ocupacional,
ainda que não necessariamente em funções alinhadas à sua formação ou ao seu
projeto profissional.
Portanto,
é possível afirmar:
essas organizações não
necessariamente realizaram a carreira pretendida, mas desempenharam uma função
de sustentação diante do desemprego.
Essa
distinção é essencial.
3. Pirelli: quando formação,
competência e trabalho estavam alinhados
A
experiência passada como técnico mecânico em uma multinacional como a Pirelli
funciona como contraponto à experiência atual.
Naquele
período, existia maior alinhamento entre:
formação técnica → competências
→ cargo → atividade → identidade profissional.
O
trabalhador podia utilizar seus conhecimentos diretamente na atividade
desempenhada.
Essa
experiência pode ter deixado uma referência subjetiva importante: é possível
trabalhar em uma organização e, simultaneamente, sentir que aquilo que se sabe
possui utilidade concreta.
Por
isso, a experiência atual pode produzir uma comparação dolorosa.
No
supermercado:
Psicologia → formação existente
→ conhecimentos acumulados → pouca utilização no cargo.
Na
experiência técnica anterior:
formação técnica → cargo técnico
→ conhecimentos utilizados → reconhecimento ocupacional.
O
sofrimento pode nascer, portanto, não apenas da natureza do trabalho atual, mas
da distância entre competência disponível e competência efetivamente
mobilizada.
4. A “Psicologia na gaveta”
A
metáfora da gaveta expressa uma experiência profissional específica.
O
trabalhador pode pensar:
“Eu
tenho conhecimento em Psicologia, mas não encontro uma organização que me
permita utilizá-lo.”
A
formação não desapareceu. Ela está disponível.
Entretanto,
existe uma diferença entre possuir uma competência e ter oportunidade
organizacional de exercê-la.
Essa
diferença é fundamental para não transformar a dificuldade de inserção
profissional em uma interpretação individualizante de fracasso.
A
ausência de oportunidade pode estar relacionada a fatores do mercado de
trabalho, critérios de seleção, experiência exigida, redes profissionais,
características das organizações e outros elementos que não estão sob controle
individual.
Assim,
a pergunta não deveria ser somente:
“Por
que ele não consegue exercer a Psicologia?”
Mas
também:
“Que organizações estão
procurando exatamente as competências que ele desenvolveu?”
5. O supermercado como pai
institucional
É
nesse ponto que surge a metáfora do pai institucional.
O
supermercado pode ter ocupado uma função semelhante à de uma estrutura externa
de sustentação:
“Você
está desempregado; aqui existe um lugar para você.”
Essa
instituição fornece:
- trabalho;
- renda;
- rotina;
- pertencimento
ocupacional;
- proteção contra o
desemprego;
- uma posição social
de trabalhador.
Winnicott,
ao discutir o ambiente facilitador e as condições de sustentação do
desenvolvimento, oferece uma linguagem útil para pensar metaforicamente a
importância de ambientes suficientemente sustentadores. Contudo, essa noção
pertence à teoria do desenvolvimento emocional e não deve ser transferida
literalmente para a organização.
Aplicada
com cautela, a metáfora permite pensar:
o supermercado tornou-se uma
estrutura que sustenta o sujeito diante do risco concreto de desamparo
econômico.
O “pai
institucional”, portanto, não é necessariamente aquele que realiza o desejo
profissional do trabalhador.
É
aquele que, em determinado momento, não o deixa cair no desemprego.
6. O paradoxo do pai que ampara
e, simultaneamente, pode aprisionar
Surge
então o paradoxo central.
O
supermercado foi uma solução para o desemprego.
Mas o
prolongamento da permanência faz surgir outra pergunta:
“E se aquilo que me salvou
temporariamente tornar-se meu destino definitivo?”
O que
inicialmente era:
amparo provisório
pode
começar a ser percebido como:
permanência institucional.
O
trabalhador entra pensando:
“Ficarei
aqui até encontrar outra coisa.”
Os
anos passam.
A
função temporária torna-se uma ocupação prolongada.
E
aparece a possibilidade angustiante:
“E se eu continuar aqui?”
O medo
não é apenas do trabalho atual.
É do
significado que esse trabalho pode adquirir sobre o futuro.
7. O medo do pai institucional
definitivo
A
metáfora torna-se mais profunda quando se percebe que o trabalhador pode temer
que o “pai institucional” deixe de ser provisório.
O pai
institucional inicialmente diz:
“Eu
lhe dou um lugar enquanto você precisa.”
Mas o
sujeito pode começar a sentir:
“E se
esse lugar for o único que conseguirei ocupar?”
Nesse
momento, o amparo transforma-se em ambivalência.
Ele
pode sentir simultaneamente:
gratidão
e
desejo de saída.
Pode
pensar:
“Essa
instituição me salvou do desemprego.”
e:
“Não
quero que ela determine toda a minha vida profissional.”
Não
existe necessariamente contradição entre essas duas afirmações.
O
trabalhador pode reconhecer a importância histórica do supermercado sem aceitar
que ele determine definitivamente sua identidade profissional.
8. A compulsão à repetição como
hipótese interpretativa
A
trajetória também permite investigar a possibilidade de uma modalidade
repetitiva de relação com as instituições.
Freud
introduziu formalmente o conceito de compulsão à repetição em Além do
princípio do prazer (1920), e a literatura psicanalítica posterior destaca
que a repetição não deve ser confundida simplesmente com o fato de uma pessoa
tentar novamente alguma coisa. Trata-se de um conceito metapsicológico e
clínico mais específico.
Por
isso, não seria adequado concluir:
“O
fiscal procura instituições porque está repetindo o pai que teve ou não teve na
infância.”
Essa
afirmação exigiria conhecimento de sua história subjetiva e familiar.
A
hipótese mais cuidadosa seria:
Pode haver uma repetição de uma
modalidade de busca na qual o sujeito procura uma estrutura externa capaz de
fornecer segurança, reconhecimento, pertencimento e sustentação.
A
sequência profissional torna essa hipótese investigável:
tentativa de autonomia →
dificuldade de sustentação → busca por instituição → contratação em função
desalinhada → manutenção do trabalho → procura por outra instituição → nova
expectativa de alinhamento e reconhecimento.
O
elemento repetitivo pode não ser o fracasso.
Pode
ser a procura por uma instituição que finalmente ofereça uma posição
profissional suficientemente sustentadora e congruente.
9. Empreendedorismo e
instituição: autonomia versus sustentação
A
experiência do consultório particular introduz outra dimensão.
No
empreendedorismo profissional, o sujeito precisa construir a própria estrutura:
- captar clientes;
- divulgar o
trabalho;
- organizar
horários;
- estabelecer
preços;
- administrar o
negócio;
- sustentar a
identidade profissional;
- produzir e manter
demanda.
A
instituição, ao contrário, oferece uma estrutura previamente constituída.
Pode-se
formular, portanto, uma tensão entre:
autonomia profissional
e
sustentação institucional.
Talvez
o problema não seja simplesmente que o trabalhador “não consegue empreender”.
Pode
haver uma preferência, necessidade ou dificuldade em sustentar sozinho uma
posição profissional sem o apoio de uma estrutura organizacional mais ampla.
Isso
não deve ser interpretado automaticamente como incapacidade.
Pode
ser simplesmente uma característica da trajetória profissional e das condições
concretas encontradas.
10. O que ele espera encontrar
na próxima instituição?
A
análise permite identificar várias expectativas possíveis.
10.1 Uma oportunidade real para
exercer Psicologia
A
expectativa mais objetiva é:
“Quero
finalmente trabalhar como psicólogo.”
10.2 Reconhecimento da formação
Ele
pode esperar encontrar uma organização que reconheça:
“Você
é psicólogo e seus conhecimentos têm valor para nós.”
10.3 Utilização das competências
acumuladas
Pode
desejar que sua formação, experiência operacional, observação do trabalhador e
conhecimento das relações humanas sejam efetivamente utilizados.
10.4 Uma liderança que o
enxergue
Pode
esperar uma liderança capaz de orientar, dar feedback, reconhecer, estabelecer
limites e oferecer suporte.
10.5 Uma organização que não o
deixe desassistido
Depois
de experimentar situações percebidas como falta de suporte, pode desejar uma
organização na qual exista uma estrutura capaz de responder às dificuldades.
10.6 Pertencimento
Pode
desejar poder dizer:
“Este
é o meu lugar profissional.”
10.7 Coerência identitária
Pode
desejar diminuir a distância entre:
“Sou
psicólogo”
e
“Meu
trabalho é fiscal de caixa.”
10.8 Uma oportunidade de reparar
a sensação de fracasso profissional
Depois
de tentativas frustradas de empreendedorismo e de processos seletivos sem
contratação, uma nova oportunidade pode adquirir um significado adicional:
“Finalmente
alguém reconheceu que eu posso contribuir.”
Essa
dimensão é particularmente relevante porque o reconhecimento no trabalho
participa da construção da identidade profissional.
11. O reconhecimento como
elemento central
Na
Psicodinâmica do Trabalho, o reconhecimento ocupa lugar importante na relação
entre trabalho, identidade e saúde.
O
trabalhador não oferece apenas sua força física. Ele mobiliza conhecimentos,
inteligência, experiência e capacidade de lidar com situações que não estão
completamente previstas pelas regras. O reconhecimento dessa contribuição
participa da construção de sentido e identidade.
Isso
ajuda a compreender por que o desalinhamento pode ser tão significativo.
Se o
sujeito possui formação em Psicologia, mas seu cargo não demanda essa formação,
ele pode experimentar:
“Tenho competência, mas não
tenho campo para utilizá-la.”
A
dificuldade não é simplesmente possuir conhecimento.
É não
encontrar o contexto no qual esse conhecimento possa se transformar em atividade
profissional reconhecida.
12. Aceitar o supermercado não
significa desistir da Psicologia
Uma
elaboração importante consiste em diferenciar aceitação de resignação.
Resignação
seria:
“Não
consegui. Portanto, este será meu destino.”
Aceitação
realista seria:
“Neste
momento, este é o trabalho que tenho. Ele me sustenta. Ainda não encontrei a
oportunidade que procuro, mas isso não determina definitivamente minha
identidade profissional.”
Essa
diferença é fundamental.
Aceitar
o supermercado como trabalho atual não exige concluir que ele seja o destino
profissional definitivo.
O
trabalhador pode reconhecer:
“Esta organização me salvou do
desemprego.”
sem
precisar concluir:
“Portanto, devo permanecer
submetido a ela para sempre.”
13. Gratidão não é submissão
A
metáfora do pai institucional pode produzir uma armadilha se for interpretada
literalmente.
Se o
supermercado é visto como aquele que “salvou” o trabalhador, pode surgir uma
espécie de dívida subjetiva:
“Depois
que essa instituição me deu trabalho, eu devo permanecer aqui.”
Mas
uma relação de trabalho é uma relação contratual e econômica. A organização
oferece trabalho e remuneração; o trabalhador oferece sua atividade e suas
competências.
Portanto:
reconhecer a importância de uma
organização não significa entregar a ela a própria identidade.
O
trabalhador pode ser grato pela oportunidade e, simultaneamente, desejar outra
trajetória.
14. O problema da transformação
do provisório em definitivo
O
núcleo dramático da experiência está na transformação do tempo.
Inicialmente:
“Estou aqui temporariamente.”
Depois:
“Estou aqui há algum tempo.”
Posteriormente:
“Estou aqui há anos.”
E
finalmente:
“E se eu ficar aqui
definitivamente?”
A
angústia aparece justamente nessa última formulação.
O
trabalhador pode temer que o supermercado deixe de ser uma ponte e passe a ser
compreendido como destino.
A
ponte que deveria conduzir a outro lugar começa a parecer uma residência
permanente.
É essa
transformação simbólica que pode intensificar o sofrimento.
15. O supermercado não precisa
ser o inimigo
Uma
elaboração mais integrada permite retirar o caráter exclusivamente negativo da
organização.
O
supermercado pode ser simultaneamente:
amparo econômico;
fonte de renda;
espaço de experiência;
lugar de aprendizagem sobre o
mundo do trabalho;
instituição que não corresponde
ao projeto profissional;
espaço de desalinhamento entre
formação e função;
lugar de permanência prolongada;
e objeto de desejo de saída.
Essas
dimensões podem coexistir.
A
organização não precisa ser demonizada para que o trabalhador reconheça que
deseja outro caminho.
16. A experiência operacional
também produziu conhecimento
Existe
ainda um aspecto importante: a experiência no supermercado não significa
necessariamente um período profissional perdido.
O
fiscal convive com situações concretas envolvendo:
- liderança;
- comunicação;
- conflitos;
- pressão;
- atendimento ao
público;
- cooperação;
- autoridade;
- sofrimento;
- rotatividade;
- absenteísmo;
- organização do
trabalho;
- relações
interpessoais;
- tomada de decisão.
Essas
experiências podem ampliar a compreensão concreta do mundo organizacional.
Paradoxalmente,
o trabalho que parece ter afastado o sujeito da Psicologia pode também ter
fornecido material empírico para compreender aquilo que a Psicologia
Organizacional e do Trabalho estuda.
A
questão passa a ser como transformar essa experiência em capital
profissional, em vez de compreendê-la exclusivamente como desvio de
carreira.
17. Da dependência institucional
à autonomia possível
Talvez
a elaboração mais importante seja a construção de uma terceira posição.
Não se
trata de escolher entre:
empreendedorismo solitário
ou
submissão institucional.
É
possível pensar em:
autonomia sustentada por
vínculos institucionais.
O
trabalhador pode pertencer a uma organização sem depender exclusivamente dela
para definir sua identidade.
Pode
receber salário sem transformar a organização em sua única fonte de
reconhecimento.
Pode
desejar uma contratação sem atribuir à contratação o poder de provar seu valor
como pessoa.
Pode
permanecer temporariamente no supermercado sem transformar essa permanência em
destino.
18. A mudança da pergunta
profissional
A
pergunta inicial pode ser:
“Quem vai me salvar do
desemprego?”
A
experiência acumulada permite formular outra:
“Onde minhas competências podem
ser efetivamente utilizadas?”
Essa
mudança é fundamental.
A
primeira pergunta está centrada na sobrevivência.
A
segunda está centrada no desenvolvimento de carreira.
A
primeira procura uma instituição que ofereça trabalho.
A
segunda procura uma instituição que ofereça congruência entre competência,
identidade e atividade.
O
objetivo não é desvalorizar a primeira necessidade. Sem renda e segurança
material, dificilmente existe espaço para desenvolvimento profissional.
O
desafio é fazer com que a sobrevivência não se transforme automaticamente em
destino.
Conclusão
A
trajetória do fiscal psicólogo pode ser compreendida como resultado da
interação entre condições materiais de trabalho, mercado de trabalho,
identidade profissional, reconhecimento, experiências organizacionais e
expectativas subjetivas.
O
supermercado cumpriu uma função objetiva importante: retirou o trabalhador
do desemprego e ofereceu uma possibilidade concreta de sustentação econômica.
Por isso, não deve ser compreendido simplesmente como uma instituição
fracassada ou como obstáculo à carreira. Ele foi, em determinado momento, uma
solução necessária.
Entretanto,
a solução temporária prolongou-se.
A
função que inicialmente poderia ser compreendida como provisória passou a
representar uma permanência de vários anos. É nesse prolongamento que surge o
medo de que o pai institucional provisório se transforme em pai
institucional definitivo.
A
metáfora do pai institucional permite compreender a ambivalência: a mesma
organização que protege contra o desemprego pode ser percebida como ameaça à
autonomia quando sua permanência parece ocupar todo o horizonte profissional.
A
experiência anterior como técnico mecânico na Pirelli demonstra que o
trabalhador já vivenciou uma situação de maior congruência entre formação,
competência, cargo e trabalho. Essa experiência constitui uma referência
importante para compreender por que a atual posição como fiscal pode ser
percebida como desalinhada com a formação em Psicologia.
O
problema, portanto, não é simplesmente que o trabalhador “não queira
trabalhar”. Ele trabalha. Tampouco é necessariamente que “não consiga sair”.
Ele ainda não encontrou uma alternativa institucional concreta suficientemente
capaz de substituí-lo economicamente.
O
problema central parece estar na diferença entre ter trabalho e ter
um trabalho congruente com a identidade profissional.
A
Psicologia permanece simbolicamente “na gaveta” não porque tenha desaparecido,
mas porque ainda não encontrou um campo organizacional no qual possa ser
plenamente mobilizada.
A
hipótese de compulsão à repetição pode ser utilizada como instrumento de
investigação, mas não como conclusão. Pode haver uma repetição na busca por
instituições que ofereçam sustentação, reconhecimento e pertencimento, mas essa
hipótese precisa permanecer aberta e não pode ser reduzida automaticamente a
uma suposta repetição de experiências infantis.
O
ponto mais importante talvez seja que aceitar o supermercado como amparo
atual não significa submeter-se a ele como destino definitivo.
O
trabalhador pode reconhecer:
“Esta
instituição me salvou do desemprego.”
sem
precisar concluir:
“Portanto,
devo permanecer aqui para sempre.”
Pode
reconhecer:
“Este
é meu trabalho atual.”
sem
concluir:
“Este
trabalho define quem sou.”
E pode
reconhecer:
“Ainda
não encontrei a organização que me permita exercer a Psicologia.”
sem
concluir:
“Portanto,
minha carreira fracassou definitivamente.”
A
elaboração mais madura talvez seja justamente essa: receber o amparo
institucional sem transformar o amparo em dependência, reconhecer a realidade
presente sem transformá-la em destino e continuar construindo uma identidade
profissional que não dependa exclusivamente da aprovação de uma instituição.
Nesse
sentido, o verdadeiro movimento de desenvolvimento de carreira não seria
simplesmente abandonar o supermercado. Seria conseguir construir uma posição na
qual o sujeito possa dizer:
“Eu reconheço o que esta
instituição fez por mim, mas ela não precisa determinar aquilo que ainda posso
fazer profissionalmente.”
O
supermercado pode ter sido o pai institucional que o amparou diante do
desemprego. A tarefa seguinte é descobrir como deixar de precisar que esse pai
seja definitivo para continuar existindo profissionalmente.
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