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PSICÓLOGO ATUANDO NOS RISCOS PSICOSSOCIAIS NO SUPERMERCADO: UMA LEITURA DA ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO E DA SAÚDE DO TRABALHADOR

 Resumo

O supermercado constitui um espaço organizacional marcado pela intensa interação entre trabalhadores, clientes, liderança, normas, metas, exigências produtivas e relações interpessoais. Nesse contexto, podem emergir diversos fatores de riscos psicossociais relacionados à forma como o trabalho é concebido, organizado e gerido. O presente artigo discute a atuação do psicólogo diante desses riscos, tomando como referência particularmente a realidade do supermercado e a função do fiscal de caixa. São analisados fatores como sobrecarga de trabalho, pressão por produtividade, ritmo intenso, insuficiência de pessoal, baixa autonomia, falta de suporte da liderança, conflitos interpessoais, assédio moral e sexual, falhas de comunicação, falta de clareza de papéis, elevada responsabilidade com recursos insuficientes, trabalho emocional, exposição a clientes agressivos, jornadas e horários problemáticos, trabalho repetitivo associado à pressão, falta de reconhecimento, percepção de injustiça organizacional, mudanças constantes sem preparação e baixa participação dos trabalhadores. Argumenta-se que o psicólogo pode contribuir para a identificação, análise e prevenção desses fatores, desde que sua atuação seja articulada à Segurança e Saúde no Trabalho, à ergonomia e ao Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. A experiência cotidiana do fiscal de caixa pode constituir importante fonte de observação das relações entre organização do trabalho, comportamento, emoções, conflitos e saúde, sem que essa experiência, por si só, substitua formação específica em Saúde e Segurança do Trabalho. Conclui-se que a contribuição da Psicologia nesse campo deve deslocar o foco da culpabilização individual para a compreensão das condições concretas de trabalho e para a construção de intervenções preventivas, coletivas e organizacionais.

Palavras-chave: Psicologia do Trabalho; riscos psicossociais; supermercado; organização do trabalho; saúde do trabalhador; fiscal de caixa; NR-1; ergonomia.


1 INTRODUÇÃO

O trabalho ocupa posição central na vida social e constitui importante dimensão da identidade, da subsistência, das relações interpessoais e da construção de sentidos para o indivíduo. Entretanto, o trabalho não produz necessariamente efeitos positivos sobre a saúde. Dependendo de como é organizado, administrado e executado, pode constituir fonte de sofrimento, estresse, conflitos, adoecimento e perda de qualidade de vida.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) define os riscos psicossociais a partir de aspectos relacionados ao desenho e à gestão do trabalho que podem aumentar o risco de estresse relacionado ao trabalho. Entre esses aspectos encontram-se carga e ritmo de trabalho, baixo controle, comunicação deficiente, relações interpessoais inadequadas, falta de suporte, violência, assédio, indefinição de papéis e dificuldades relacionadas à organização do trabalho (OIT, 2022).

Essa perspectiva é particularmente importante para compreender o ambiente de supermercado. Trata-se de uma organização na qual o trabalhador permanece submetido simultaneamente a demandas econômicas, produtivas, relacionais e emocionais. O fluxo de clientes pode variar intensamente; filas podem crescer rapidamente; operadores de caixa precisam manter velocidade e atenção; fiscais precisam intervir em problemas operacionais; lideranças precisam responder aos resultados; e clientes podem apresentar comportamentos de reclamação, hostilidade ou impaciência.

Nesse cenário, o fiscal de caixa ocupa uma posição particularmente interessante para a Psicologia do Trabalho. Ele se encontra em uma posição intermediária entre operadores de caixa, clientes, liderança e organização. Portanto, sua atividade permite observar diferentes dimensões do funcionamento organizacional.

O texto que fundamenta este artigo destaca justamente essa característica: o supermercado pode ser compreendido como um espaço no qual "demanda, ritmo, pessoal, autonomia, suporte, relações, liderança, comunicação, conflitos e assédio" podem interagir e produzir condições capazes de gerar exposição a fatores de risco psicossocial.

Essa abordagem ganhou ainda maior relevância no Brasil com a inclusão expressa dos fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no capítulo 1.5 da NR-1, cuja nova redação entrou em vigor em 26 de maio de 2026. O Ministério do Trabalho e Emprego esclarece que a avaliação deve considerar fatores relacionados à concepção, organização e gestão do trabalho, integrando-os ao Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).

Portanto, a pergunta contemporânea deixa de ser simplesmente:

"Qual trabalhador está apresentando sofrimento?"

E passa a incluir uma questão organizacional mais ampla:

"Quais características da organização e da gestão do trabalho estão produzindo ou potencializando a exposição ao risco?"

Essa mudança é fundamental para a atuação do psicólogo.


2 RISCOS PSICOSSOCIAIS: DO INDIVÍDUO À ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO

Um dos principais cuidados conceituais na discussão dos riscos psicossociais consiste em não confundir fator de risco, exposição, resposta ao estresse, adoecimento e diagnóstico individual.

Um trabalhador pode apresentar irritabilidade, fadiga, ansiedade ou sofrimento, mas esses fenômenos não devem ser automaticamente interpretados como características pessoais ou como diagnóstico psicológico. É necessário investigar o contexto no qual esses fenômenos aparecem.

A OIT ressalta que os riscos psicossociais podem decorrer de elementos presentes no desenho e na gestão do trabalho, incluindo demandas excessivas, baixo controle, horários extensos ou inadequados, comunicação deficiente, relações interpessoais problemáticas, violência, assédio e indefinição de papéis (OIT, 2022).

A OMS igualmente recomenda que a prevenção da deterioração da saúde mental relacionada ao trabalho seja realizada por meio de intervenções organizacionais capazes de modificar, reduzir ou eliminar riscos presentes nas condições de trabalho (OMS, 2022).

Assim, o psicólogo que atua nesse campo precisa evitar uma interpretação exclusivamente individualizante.

Por exemplo, diante de um fiscal que relata:

"Estou exausto."

a investigação psicossocial não deveria terminar nessa afirmação.

É necessário perguntar:

  • Quantos trabalhadores compõem a equipe?
  • Qual é o volume de clientes?
  • Quantos caixas estão funcionando?
  • Existem ausências frequentes?
  • O trabalhador precisa cobrir colegas?
  • Qual é o ritmo exigido?
  • Que autonomia ele possui?
  • Que suporte recebe da liderança?
  • Quais são suas responsabilidades?
  • Quais recursos possui para cumprir essas responsabilidades?
  • Como os conflitos são administrados?
  • Como ocorre a comunicação?
  • Existem metas incompatíveis com os recursos disponíveis?

Essa mudança metodológica desloca a análise do indivíduo para a relação trabalhador–atividade–organização.


3 O SUPERMERCADO COMO CAMPO DE RISCOS PSICOSSOCIAIS

O supermercado pode ser compreendido como uma organização complexa, caracterizada por intensa circulação de pessoas, pressão temporal, necessidade de produtividade, contato permanente com o público e interdependência entre diferentes funções.

Nesse ambiente, os riscos psicossociais não aparecem necessariamente de forma isolada. Frequentemente, eles se encadeiam.

Uma equipe reduzida pode produzir aumento da carga individual. A sobrecarga pode acelerar o ritmo. O ritmo intenso pode aumentar a probabilidade de erros. Os erros podem produzir reclamações. As reclamações podem aumentar a pressão da liderança. A pressão pode intensificar conflitos. O trabalhador pode precisar controlar suas emoções enquanto continua atendendo ao público.

Forma-se, portanto, uma cadeia:

equipe reduzida → sobrecarga → ritmo intenso → pressão → conflitos → exigência emocional → menor recuperação → maior exposição a estressores.

O próprio texto-base apresenta essa cadeia como uma forma mais adequada de compreender o fenômeno do que simplesmente afirmar que determinado trabalhador "está estressado".

Essa perspectiva é coerente com a OIT, que enfatiza a necessidade de considerar o ambiente psicossocial como resultado de fatores relacionados ao modo como o trabalho é projetado, organizado e administrado.


4 PRINCIPAIS FATORES DE RISCOS PSICOSSOCIAIS NO SUPERMERCADO

4.1 Sobrecarga de trabalho

A sobrecarga ocorre quando as demandas impostas ao trabalhador excedem, de maneira relevante e persistente, os recursos disponíveis para sua realização.

No supermercado, pode ser favorecida por:

  • poucos trabalhadores;
  • número insuficiente de operadores de caixa;
  • necessidade de cobrir ausências;
  • múltiplas tarefas simultâneas;
  • aumento do fluxo de clientes;
  • exigência elevada de produtividade.

A NR-1 estabelece que a avaliação deve investigar as condições de trabalho que podem constituir fatores de risco, e não simplesmente registrar que determinado trabalhador está cansado.


4.2 Pressão por produtividade e metas

A produtividade constitui elemento fundamental da atividade econômica, mas pode tornar-se fator de risco quando a cobrança ocorre de forma excessiva, incompatível com os recursos disponíveis ou acompanhada de baixa autonomia.

No supermercado, essa pressão pode envolver:

  • velocidade do atendimento;
  • redução de filas;
  • tempo de operação;
  • cumprimento de metas;
  • desempenho individual;
  • resultados comerciais.

A OIT identifica carga, ritmo e pressão temporal como dimensões relevantes dos riscos psicossociais.


4.3 Ritmo intenso de trabalho

O ritmo de trabalho pode ser observado na sequência:

fila crescendo → clientes reclamando → operador acelerando → fiscal sendo chamado → liderança cobrando → novos clientes chegando.

Nesse contexto, o trabalhador precisa responder continuamente a estímulos.

O problema não é simplesmente existir movimento intenso em determinados momentos. O aspecto psicossocial emerge quando a intensidade é frequente, persistente e combinada com recursos insuficientes, baixa autonomia ou ausência de recuperação.


4.4 Falta de pessoal

A insuficiência de trabalhadores constitui fator capaz de potencializar vários outros riscos.

Pode-se representar a dinâmica da seguinte maneira:

menos trabalhadores → maior distribuição de tarefas → maior demanda individual → menor recuperação → maior pressão → maior possibilidade de erros e conflitos.

Assim, a falta de pessoal não deve ser compreendida somente como um problema administrativo. Dependendo de sua intensidade e permanência, ela pode constituir elemento relevante para a análise dos riscos psicossociais.

A OIT inclui o understaffing, ou insuficiência de pessoal, entre os fatores relacionados à carga e ao ritmo de trabalho.


4.5 Falta de autonomia

Uma situação particularmente problemática ocorre quando o trabalhador possui elevada responsabilidade, mas pouca capacidade de decisão.

O fiscal pode ser cobrado para resolver determinado problema, porém não possuir autonomia suficiente para solucioná-lo.

Surge então uma combinação:

alta responsabilidade + baixa autonomia.

A literatura internacional sobre riscos psicossociais reconhece o controle sobre o trabalho e a participação nas decisões como dimensões relevantes para a saúde ocupacional (OIT, 2022).


4.6 Falta de suporte da liderança

O suporte da liderança representa importante recurso psicossocial.

Quando um trabalhador enfrenta uma situação difícil e não recebe orientação ou apoio, pode surgir uma sequência:

problema → tentativa individual de solução → ausência de suporte → aumento da pressão → sensação de desamparo.

O Ministério do Trabalho e Emprego inclui a falta de suporte ou apoio entre exemplos de fatores de risco psicossocial relacionados ao trabalho.


4.7 Conflitos interpessoais

O supermercado reúne pessoas com funções e interesses diferentes.

Podem ocorrer conflitos:

  • entre operador e fiscal;
  • entre fiscal e liderança;
  • entre operador e liderança;
  • entre trabalhadores;
  • entre trabalhador e cliente.

O psicólogo não deve reduzir imediatamente esses conflitos à personalidade dos envolvidos. É necessário investigar se existem condições organizacionais que favorecem sua emergência ou manutenção.


4.8 Assédio moral

Humilhações reiteradas, constrangimentos, exposição pública, tratamento degradante, perseguição sistemática, isolamento e cobranças abusivas podem constituir manifestações de assédio moral.

A análise psicológica deve considerar frequência, repetição, contexto, relações de poder e consequências organizacionais.

A OIT reconhece violência, assédio e bullying como importantes riscos psicossociais no trabalho.


4.9 Assédio sexual

O assédio sexual também deve ser compreendido como questão relacionada à segurança, à saúde e à dignidade no trabalho, e não simplesmente como um problema privado entre indivíduos.

A intervenção psicológica precisa ser articulada aos procedimentos institucionais e legais pertinentes, preservando a segurança e os direitos dos trabalhadores.


4.10 Falhas de comunicação

A comunicação organizacional deficiente pode produzir uma cadeia de erros:

liderança comunica → informação chega incompleta ao fiscal → fiscal interpreta → operador recebe orientação diferente → ocorre erro → cliente reclama → trabalhador é responsabilizado.

A comunicação deficiente pode produzir:

  • retrabalho;
  • insegurança;
  • conflitos;
  • responsabilização;
  • tensão;
  • perda de autonomia.

A OIT considera a comunicação inadequada elemento relevante da cultura e organização do trabalho.


4.11 Falta de clareza sobre papéis

Perguntas como:

"Quem deve resolver isso?"

ou

"Até onde vai minha responsabilidade?"

revelam possíveis problemas de definição de papéis.

Essa questão é especialmente importante para o fiscal de caixa, porque ele pode ocupar uma posição intermediária entre operação, clientes e liderança.

A indefinição de papéis é reconhecida pela OIT como dimensão relevante do ambiente psicossocial.


4.12 Responsabilidade elevada com recursos insuficientes

Esse talvez seja um dos fenômenos mais importantes para compreender determinadas funções intermediárias.

Imagine:

"Você é responsável por manter o funcionamento dos caixas, mas não possui trabalhadores suficientes, autonomia ou suporte para fazê-lo."

Nesse caso, existe uma possível discrepância entre:

responsabilidade atribuída × recursos disponibilizados.

O problema não reside necessariamente na responsabilidade em si, mas na incompatibilidade entre aquilo que se exige e aquilo que se disponibiliza para a realização da tarefa.


4.13 Trabalho emocional

O trabalhador do supermercado frequentemente precisa controlar suas próprias emoções enquanto administra as emoções de outras pessoas.

Pode ocorrer:

cliente agressivo → trabalhador sente irritação → trabalhador precisa manter postura profissional → conflito é administrado → outro cliente chega.

Existe, portanto, uma exigência de regulação emocional.

Quando essa exigência se torna frequente e intensa, especialmente combinada com sobrecarga, pressão e baixo suporte, merece ser investigada como componente do ambiente psicossocial.


4.14 Exposição a clientes agressivos ou hostis

O contato permanente com o público constitui característica marcante do supermercado.

O trabalhador pode encontrar:

  • gritos;
  • reclamações;
  • insultos;
  • ameaças;
  • impaciência;
  • comportamentos intimidatórios.

Entretanto, não se deve considerar automaticamente todo cliente difícil como fator de risco psicossocial.

É necessário avaliar:

frequência + intensidade + duração da exposição + possibilidade de proteção + suporte organizacional.

Essa avaliação permite distinguir um episódio ocasional de uma condição sistemática de exposição.


4.15 Jornadas e horários problemáticos

A organização dos horários também precisa ser analisada.

Podem ser relevantes:

  • jornadas extensas;
  • trabalho em horários inadequados;
  • alterações frequentes de escala;
  • pouco tempo de recuperação;
  • dificuldade de conciliar descanso;
  • trabalho extraordinário recorrente.

A OIT identifica jornadas longas, horários inadequados e turnos como fatores relacionados ao ambiente psicossocial.


4.16 Trabalho repetitivo associado à pressão

O trabalho de caixa pode reunir:

repetitividade + velocidade + cobrança + atenção contínua + contato com o público.

A repetitividade isoladamente não explica necessariamente um risco psicossocial. O elemento relevante está na combinação entre as exigências da atividade e a maneira como ela é organizada.

Nesse ponto, a discussão dos riscos psicossociais aproxima-se da ergonomia, pois a NR-17 considera a organização do trabalho e a necessidade de adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores.


4.17 Falta de reconhecimento

O reconhecimento constitui dimensão importante da relação do indivíduo com o trabalho.

Pode haver esforço elevado acompanhado de:

  • ausência de feedback;
  • falta de valorização;
  • critérios pouco claros;
  • percepção de injustiça.

A questão não deve ser tratada simplesmente como "o trabalhador quer elogios". O psicólogo deve investigar se existem mecanismos organizacionais concretos de reconhecimento, feedback e valorização.


4.18 Injustiça organizacional percebida

A percepção de tratamento desigual pode ocorrer quando trabalhadores submetidos a demandas semelhantes recebem tratamentos diferentes sem critérios compreensíveis.

Por exemplo:

dois trabalhadores apresentam demandas semelhantes, mas somente um recebe reconhecimento ou oportunidade.

Nesse caso, a Psicologia do Trabalho deve investigar se existe efetivamente uma condição organizacional de desigualdade ou se há apenas uma percepção individual que precisa ser contextualizada.


4.19 Mudanças constantes sem preparação adequada

Mudanças em:

  • sistemas;
  • procedimentos;
  • escalas;
  • liderança;
  • metas;
  • organização dos setores

podem produzir insegurança quando não acompanhadas de comunicação, treinamento e suporte.

A mudança organizacional não é necessariamente um risco. O risco pode surgir da combinação entre mudança + imprevisibilidade + ausência de preparação + ausência de suporte.


4.20 Baixa participação dos trabalhadores

A participação dos trabalhadores constitui componente importante da prevenção.

Uma organização que pretende identificar riscos psicossociais precisa perguntar:

"Os trabalhadores têm oportunidade de participar da identificação dos problemas e da construção das soluções?"

A abordagem contemporânea da SST enfatiza a participação dos trabalhadores na gestão dos riscos.

Isso é particularmente importante porque o trabalhador conhece aspectos concretos da atividade que podem não aparecer em documentos administrativos.


5 O FISCAL DE CAIXA COMO OBSERVADOR PRIVILEGIADO DA ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO

A função do fiscal de caixa possui uma particularidade psicossocial.

Ele não está restrito à execução de uma única tarefa. Sua atividade frequentemente o coloca em contato com diferentes atores:

cliente ↔ operador ↔ fiscal ↔ liderança ↔ organização.

Consequentemente, o fiscal pode observar diferentes manifestações da organização do trabalho.

Pode perceber:

  • filas;
  • reclamações;
  • conflitos;
  • falhas de comunicação;
  • ausência de pessoal;
  • dificuldades dos operadores;
  • cobranças da liderança;
  • problemas de autonomia;
  • necessidade de intervenção;
  • respostas emocionais dos trabalhadores.

Isso significa que o cotidiano do fiscal pode ser compreendido como uma espécie de campo privilegiado de observação psicossocial.

O texto-base chama atenção justamente para essa possibilidade ao afirmar que a experiência do fiscal pode funcionar como um "laboratório cotidiano de observação da organização do trabalho e das relações psicossociais", embora ressalve que isso não substitui formação específica em SST, ergonomia ou avaliação de riscos.

Essa ressalva é fundamental.

O fato de um trabalhador ser psicólogo e trabalhar em um supermercado não significa automaticamente que esteja exercendo a função de psicólogo organizacional ou de profissional de SST.

Existe uma diferença entre:

vivenciar e observar um fenômeno

e

realizar tecnicamente sua avaliação profissional.

A experiência pode fornecer repertório, hipóteses e conhecimento contextual, mas a atuação profissional exige delimitação de competência, metodologia adequada e articulação interdisciplinar.


6 A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO NA PREVENÇÃO DOS RISCOS PSICOSSOCIAIS

A atuação do psicólogo nesse campo pode ocorrer em diferentes níveis.

6.1 Diagnóstico organizacional

O psicólogo pode contribuir para compreender:

  • relações interpessoais;
  • comunicação;
  • liderança;
  • conflitos;
  • percepção de suporte;
  • autonomia;
  • reconhecimento;
  • participação;
  • organização das tarefas.

O diagnóstico deve buscar compreender o contexto, evitando transformar problemas organizacionais em defeitos individuais.


6.2 Escuta dos trabalhadores

A escuta é uma ferramenta importante da Psicologia.

Entretanto, não se trata apenas de perguntar:

"Como você está se sentindo?"

É necessário também investigar:

"O que no trabalho está produzindo essa experiência?"

Perguntas possíveis incluem:

  • O que mais dificulta sua atividade?
  • Em quais momentos a pressão aumenta?
  • Você possui autonomia para resolver os problemas?
  • Quando surge uma situação difícil, quem oferece suporte?
  • Existem trabalhadores suficientes?
  • As responsabilidades estão claramente definidas?
  • As mudanças são comunicadas previamente?
  • Você participa das decisões que afetam seu trabalho?

6.3 Observação da atividade real

Existe diferença entre:

trabalho prescrito

e

trabalho real.

O procedimento formal pode afirmar que determinada atividade deve ser realizada de determinada maneira. Entretanto, a prática cotidiana pode revelar adaptações, improvisações, sobrecarga e estratégias desenvolvidas pelos trabalhadores para manter o funcionamento do sistema.

Nesse sentido, a observação da atividade pode revelar fatores que não aparecem nos documentos organizacionais.


6.4 Intervenção sobre a organização

Uma das contribuições mais importantes do psicólogo consiste em evitar que a prevenção seja reduzida a estratégias individuais.

Não basta ensinar o trabalhador a "lidar com o estresse" se a organização mantém:

  • excesso de demandas;
  • falta de pessoal;
  • baixa autonomia;
  • comunicação deficiente;
  • liderança inadequada;
  • assédio;
  • jornadas problemáticas.

A OMS recomenda intervenções organizacionais que atuem diretamente sobre as condições de trabalho, modificando ou reduzindo riscos psicossociais.

Portanto, o psicólogo pode contribuir para propostas como:

  • revisão de fluxos de trabalho;
  • melhoria da comunicação;
  • fortalecimento do suporte das lideranças;
  • clareza de papéis;
  • participação dos trabalhadores;
  • protocolos para situações de violência;
  • prevenção e enfrentamento do assédio;
  • reorganização de demandas;
  • melhoria dos processos de feedback;
  • capacitação de gestores.

7 O PSICÓLOGO E O GERENCIAMENTO DE RISCOS OCUPACIONAIS

A entrada dos fatores psicossociais no escopo expresso do capítulo 1.5 da NR-1 representa importante mudança na gestão da saúde ocupacional brasileira.

O Ministério do Trabalho e Emprego estabelece que esses fatores devem integrar o processo de identificação de perigos, avaliação de riscos e adoção de medidas preventivas dentro do GRO/PGR.

Isso significa que os riscos psicossociais deixam de ser compreendidos apenas como uma questão subjetiva ou privada.

Eles passam a integrar a discussão institucional de prevenção.

O psicólogo pode, nesse processo, contribuir com conhecimento especializado sobre:

  • comportamento humano;
  • relações interpessoais;
  • processos grupais;
  • conflitos;
  • liderança;
  • comunicação;
  • sofrimento relacionado ao trabalho;
  • processos de subjetivação;
  • percepção de justiça;
  • mecanismos de enfrentamento;
  • saúde mental.

Todavia, essa atuação deve ser integrada às demais áreas de SST.

A própria lógica do GRO exige uma abordagem sistêmica, na qual diferentes profissionais e atores organizacionais participem da identificação e do controle dos riscos.


8 A ARTICULAÇÃO ENTRE PSICOLOGIA, ERGONOMIA E SEGURANÇA DO TRABALHO

A análise dos riscos psicossociais não deve ser isolada da ergonomia.

A NR-17 estabelece princípios relacionados à adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores e inclui a organização do trabalho entre os elementos que devem ser considerados.

Assim, no supermercado, uma avaliação mais ampla pode articular:

Psicologia → comportamento, relações, emoções e processos grupais

Ergonomia → atividade, organização, exigências e adaptação do trabalho

Segurança do Trabalho → prevenção e gerenciamento dos riscos ocupacionais

Medicina do Trabalho → vigilância e acompanhamento da saúde

Gestão/RH → políticas, processos e organização institucional

Essa interdisciplinaridade é fundamental porque os riscos psicossociais não pertencem exclusivamente a uma disciplina.


9 DA CULPABILIZAÇÃO DO TRABALHADOR À RESPONSABILIDADE ORGANIZACIONAL

Uma das contribuições mais relevantes da Psicologia nesse campo consiste em questionar explicações excessivamente individualizantes.

Diante de um trabalhador exausto, algumas organizações podem afirmar:

"Ele não sabe administrar o estresse."

Diante de um trabalhador irritado:

"Ele tem problemas emocionais."

Diante de conflitos:

"As pessoas não sabem trabalhar em equipe."

Diante de afastamentos:

"O trabalhador é frágil."

Essas interpretações podem ocultar a organização do trabalho.

A abordagem psicossocial exige uma pergunta anterior:

Que condições concretas estão contribuindo para esse fenômeno?

A OIT sustenta justamente a necessidade de incorporar os riscos psicossociais ao processo de gestão de riscos, considerando demandas, controle, equilíbrio entre vida e trabalho, comunicação, suporte e relações no trabalho.

Portanto, a prevenção não deve simplesmente ensinar o trabalhador a suportar uma organização inadequada.

Ela deve também modificar a organização quando esta produz exposição evitável.


10 UMA PROPOSTA DE LEITURA PSICOSSOCIAL DO SUPERMERCADO

A partir dos elementos analisados, pode-se construir um modelo de leitura:

Nível 1 – Organização

  • número de trabalhadores;
  • distribuição das tarefas;
  • metas;
  • jornadas;
  • escalas;
  • políticas;
  • procedimentos.

↓

Nível 2 – Gestão

  • liderança;
  • comunicação;
  • suporte;
  • autonomia;
  • reconhecimento;
  • participação;
  • critérios de decisão.

↓

Nível 3 – Atividade

  • ritmo;
  • repetitividade;
  • contato com público;
  • exigência emocional;
  • tomada de decisão;
  • resolução de problemas.

↓

Nível 4 – Relações

  • conflitos;
  • cooperação;
  • violência;
  • assédio;
  • relações entre liderança e subordinados.

↓

Nível 5 – Experiência subjetiva

  • percepção de pressão;
  • insegurança;
  • frustração;
  • sofrimento;
  • fadiga;
  • sensação de desamparo.

↓

Nível 6 – Possíveis consequências

  • redução da qualidade de vida;
  • absenteísmo;
  • rotatividade;
  • conflitos;
  • erros;
  • perda de desempenho;
  • adoecimento relacionado ao trabalho.

Essa estrutura impede que o fenômeno seja reduzido a uma única dimensão.


11 OPORTUNIDADES DE INTERVENÇÃO DO PSICÓLOGO

A atuação preventiva pode ser organizada em três níveis.

11.1 Prevenção primária

Busca modificar as condições que produzem o risco.

Exemplos:

  • adequação da distribuição de trabalhadores;
  • revisão das demandas;
  • melhoria dos fluxos;
  • aumento da autonomia;
  • melhoria da comunicação;
  • prevenção do assédio;
  • participação dos trabalhadores.

11.2 Prevenção secundária

Busca ampliar recursos para lidar com situações de risco já existentes.

Exemplos:

  • capacitação de lideranças;
  • treinamento em comunicação;
  • desenvolvimento de estratégias de resolução de conflitos;
  • formação sobre violência e assédio;
  • educação em saúde mental.

11.3 Prevenção terciária

Busca apoiar trabalhadores que já apresentam sofrimento ou adoecimento relacionado ao trabalho.

Nesse nível podem existir encaminhamentos, acompanhamento, adaptações e estratégias de retorno ao trabalho, conforme a situação.

A OMS recomenda uma abordagem que combine intervenções organizacionais, capacitação de gestores, formação dos trabalhadores e medidas de apoio individual quando necessárias (OMS, 2022).


12 O SUPERMERCADO COMO ESPAÇO DE OBSERVAÇÃO PSICOSSOCIAL

A partir de toda a análise, pode-se compreender o supermercado não apenas como espaço comercial, mas como uma organização social complexa.

Nele podem ser observados:

poder + autoridade + liderança + trabalho + emoções + conflitos + cooperação + produtividade + identidade + reconhecimento + sofrimento + estratégias de enfrentamento.

O fiscal de caixa ocupa posição particularmente estratégica para essa observação porque transita entre diferentes níveis da organização.

Ele pode testemunhar simultaneamente:

  • o sofrimento do operador;
  • a pressão do cliente;
  • a exigência da liderança;
  • os limites dos procedimentos;
  • as falhas de comunicação;
  • a insuficiência de pessoal;
  • a necessidade de improvisação;
  • os conflitos entre diferentes atores.

Isso não significa que o fiscal seja automaticamente um pesquisador ou avaliador de riscos psicossociais. Significa que sua posição funcional lhe oferece contato privilegiado com fenômenos que podem posteriormente ser analisados cientificamente.

Nesse sentido, quando esse trabalhador possui formação em Psicologia, sua experiência cotidiana pode adquirir uma dimensão adicional: ele passa a possuir instrumentos conceituais para interpretar aquilo que observa.

A experiência profissional e a formação psicológica podem, portanto, dialogar.


13 DISCUSSÃO: DO "FISCAL ESTRESSADO" AO "TRABALHO QUE PRODUZ EXPOSIÇÃO"

A mudança conceitual mais importante pode ser sintetizada pela comparação entre duas perguntas.

Modelo individualizante

"Por que esse fiscal está estressado?"

Modelo psicossocial-organizacional

"Que características do trabalho estão expondo esse fiscal a condições capazes de produzir estresse?"

A segunda pergunta é mais ampla porque permite investigar:

  • quantidade de trabalho;
  • número de funcionários;
  • ritmo;
  • autonomia;
  • suporte;
  • liderança;
  • comunicação;
  • conflitos;
  • clientes;
  • horários;
  • reconhecimento;
  • participação;
  • recursos disponíveis.

O texto-base afirma expressamente que essa é uma mudança fundamental na abordagem dos riscos psicossociais: não perguntar simplesmente "qual trabalhador está doente?", mas identificar "que característica do trabalho está produzindo exposição a um fator de risco?".

Essa mudança aproxima a Psicologia da lógica contemporânea da prevenção ocupacional.


14 CONCLUSÃO

A análise dos riscos psicossociais no supermercado demonstra que o sofrimento relacionado ao trabalho não pode ser compreendido adequadamente apenas a partir das características individuais dos trabalhadores. A organização do trabalho constitui elemento central para compreender a experiência psicológica produzida no cotidiano laboral.

Sobrecarga, pressão por produtividade, ritmo intenso, falta de pessoal, baixa autonomia, ausência de suporte da liderança, conflitos interpessoais, assédio, falhas de comunicação, indefinição de papéis, responsabilidade elevada com recursos insuficientes, trabalho emocional, exposição a clientes hostis, jornadas inadequadas, repetitividade associada à pressão, falta de reconhecimento, injustiça organizacional percebida, mudanças sem preparação e baixa participação dos trabalhadores constituem dimensões que podem ser investigadas no ambiente supermercadista.

A partir dessa perspectiva, o psicólogo pode desempenhar papel relevante na prevenção dos riscos psicossociais. Entretanto, sua atuação não deve consistir em simplesmente ensinar o trabalhador a suportar melhor as pressões do trabalho. A contribuição mais profunda da Psicologia está em ajudar a compreender como o trabalho é organizado, como as relações são estabelecidas, como as demandas são distribuídas e quais condições institucionais produzem ou potencializam sofrimento e risco.

A entrada expressa dos fatores psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais pela NR-1, vigente desde 26 de maio de 2026, reforça essa mudança de paradigma. O foco passa a incluir as condições concretas de trabalho, articulando prevenção, participação dos trabalhadores e intervenção organizacional.

Nesse contexto, a experiência do fiscal de caixa adquire particular relevância. Por ocupar uma posição intermediária entre clientes, operadores, liderança e organização, ele pode observar diariamente a dinâmica psicossocial do supermercado. Quando esse fiscal também possui formação em Psicologia, sua experiência pode constituir importante fonte de conhecimento sobre organização do trabalho, relações de poder, conflitos, comunicação, liderança, comportamento e emoções.

Contudo, é necessário preservar uma distinção fundamental: observar riscos psicossociais no cotidiano não é o mesmo que realizar tecnicamente uma avaliação de riscos ocupacionais. Para esta última atividade, é necessária atuação profissional devidamente delimitada, metodologia adequada e articulação com os demais profissionais e processos de Segurança e Saúde no Trabalho.

A principal contribuição do psicólogo, portanto, consiste em transformar uma percepção aparentemente individual — "estou cansado", "estou pressionado", "há muitos conflitos", "a equipe não dá conta" — em uma pergunta organizacional:

"Que características da organização e da gestão do trabalho estão produzindo ou potencializando essa experiência?"

Essa pergunta permite deslocar a análise da culpabilização do indivíduo para a compreensão das condições de trabalho.

O supermercado deixa, então, de ser visto apenas como um local de passagem de consumidores e transforma-se, para a Psicologia do Trabalho, em um espaço privilegiado de análise das relações entre organização, atividade, subjetividade, poder, produtividade, relações sociais e saúde.

Assim, o psicólogo que atua nos riscos psicossociais não é simplesmente aquele que atende trabalhadores que adoeceram. É também aquele que participa da construção de condições de trabalho capazes de prevenir o adoecimento antes que ele se manifeste.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1): disposições gerais e gerenciamento de riscos ocupacionais. Brasília, DF: Ministério do Trabalho e Emprego, 2026. Disponível em: NR-1 — Ministério do Trabalho e Emprego. Acesso em: 10 ago. 2026.

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BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 17 (NR-17): ergonomia. Brasília, DF: Ministério do Trabalho e Emprego. Disponível em: NR-17 — Ergonomia. Acesso em: 10 ago. 2026.

INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION. Psychosocial risks and stress at work. Geneva: ILO, 2022. Disponível em: Psychosocial risks and stress at work — ILO. Acesso em: 10 ago. 2026.

INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION. The psychosocial working environment: global developments and pathways for action. Geneva: ILO, 2026. Disponível em: The psychosocial working environment — ILO. Acesso em: 10 ago. 2026.

INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION. Psychosocial risks and mental health at work. Geneva: ILO. Disponível em: Psychosocial risks and mental health at work — ILO. Acesso em: 10 ago. 2026.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Guidelines on mental health at work. Geneva: World Health Organization, 2022. Disponível em: Guidelines on mental health at work — WHO. Acesso em: 10 ago. 2026.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Mental health at work: policy brief. Geneva: World Health Organization, 2022. Disponível em: Mental health at work: policy brief — WHO. Acesso em: 10 ago. 2026.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Psycho-social risks and mental health. Geneva: World Health Organization. Disponível em: Psycho-social risks and mental health — WHO. Acesso em: 10 ago. 2026.

 

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