Entre a fila, a indicação e o lugar próprio: uma leitura psicanalítica do sonho sobre trabalho, espera, desejo e reconhecimento de si
Introdução
O
sonho aqui analisado apresenta dois fragmentos aparentemente distintos, mas que
podem ser articulados em torno de um eixo comum: a procura de um lugar
profissional, a espera por uma oportunidade, a dependência ou não da
intercessão de um outro e a possibilidade de encontrar um espaço de trabalho no
qual o sujeito possa expressar aquilo que é sem precisar negar sua própria
subjetividade.
A
associação com o contexto imediatamente anterior ao sono é particularmente
importante. Antes de dormir, o sujeito pensava em entrar em contato com um
amigo que trabalha como educador social no Ana Brasil para perguntar se
existiam vagas abertas na instituição, entregar o currículo ou obter uma
indicação para conversar com alguém responsável. Esse amigo já havia tentado
anteriormente intervir em seu favor, indicando-o, mas a tentativa não havia
produzido êxito.
Na
perspectiva freudiana, esse pensamento recente constitui um importante resto
diurno. Freud diferencia o conteúdo manifesto — aquilo que o sonhador
recorda — dos pensamentos latentes que podem ser reconstruídos mediante
associação. Os acontecimentos e preocupações da vida desperta podem fornecer
material para a elaboração onírica. (Freud)
Assim,
o sonho não precisa ser tratado como uma previsão sobre a existência de uma
vaga no Ana Brasil. O interesse psicanalítico está em investigar como uma
preocupação profissional concreta foi transformada pelo trabalho do sonho em
imagens de fila, amigo, deslocamento, reorganização, estabelecimento, dança,
sexualidade e negação.
Freud
concebe o sonho como resultado de um trabalho psíquico que transforma
pensamentos latentes em conteúdo manifesto, utilizando processos como
condensação e deslocamento. (Clássicos em Psicologia)
A
interpretação apresentada a seguir deve, portanto, ser entendida como hipótese
de leitura, e não como significado definitivo. Na psicanálise, o sentido de
um elemento onírico depende das associações do próprio sonhador.
1. O pensamento anterior ao sono
como resto diurno
O
ponto de partida é bastante claro.
Antes
de dormir, o sujeito pensava:
- em procurar o
amigo;
- perguntar se havia
vagas;
- entregar o
currículo;
- conseguir contato
com alguém da instituição;
- eventualmente
obter uma indicação;
- e, sobretudo,
tentar transformar uma possibilidade profissional em uma oportunidade
concreta.
Existe
ainda uma experiência anterior: o amigo já havia tentado indicar o sujeito,
mas não havia conseguido êxito.
Essa
informação acrescenta uma dimensão de ambivalência.
O
amigo representa simultaneamente:
possibilidade de acesso e lembrança de uma tentativa anterior frustrada.
A
pergunta consciente poderia ser formulada:
“Será
que dessa vez essa pessoa poderá me ajudar a chegar até a instituição?”
O
sonho transforma essa questão em uma representação espacial.
O
amigo aparece à frente da fila.
Assim,
aquilo que na realidade era:
“Meu
amigo pode me indicar ou me colocar em contato com alguém”
transforma-se
no sonho em:
“Meu amigo está mais à frente;
se eu chegar até ele, estarei mais próximo da oportunidade.”
Esse
deslocamento da indicação profissional para a posição física na fila é
compatível com a lógica do trabalho onírico descrita por Freud. (Freud)
2. A fila como representação da
espera profissional
O
primeiro fragmento começa com uma imagem poderosa: uma fila de empregos com
muitas pessoas, aproximadamente cem.
A fila
pode representar a experiência subjetiva de estar diante de um processo
seletivo percebido como longo, competitivo e incerto.
O
número elevado de pessoas intensifica a sensação:
“Há
muita gente na minha frente.”
A
questão profissional deixa de ser somente espacial e passa a ser temporal:
“Quanto
tempo ainda vai levar para chegar minha vez?”
Nesse
sentido, a fila condensa duas dimensões:
posição e tempo.
O
sujeito não está apenas atrás de outras pessoas; está também diante da
representação de um futuro que parece distante.
A
presença de mulheres que já entraram na velhice, pessoas com mais de cinquenta
anos, acrescenta outra dimensão: o tempo da vida.
A fila
pode então condensar a preocupação:
“Quanto
tempo ainda tenho para encontrar o lugar profissional que desejo?”
Não
seria necessário interpretar essas mulheres literalmente. No sonho, elas podem
participar da construção de uma representação mais ampla do tempo, da idade, da
concorrência e da espera.
3. O amigo como mediador da
passagem
É
nesse momento que aparece o amigo.
Ele
está mais à frente.
O
sujeito pensa:
“Vou
até ele e vou ficar lá para diminuir, para ser mais rápido.”
Essa
frase é central.
O
sujeito imagina que a distância até seu objetivo pode ser reduzida através da
aproximação de alguém que já está em posição mais avançada.
Isso
corresponde diretamente à preocupação desperta:
“Vou
procurar meu amigo para saber se há vaga e talvez conseguir uma indicação.”
A
função do amigo no sonho pode, portanto, ser compreendida como a figura de um mediador.
Ele
não é necessariamente “a solução”. Ele representa alguém que parece ocupar uma
posição que poderia facilitar a passagem.
Entretanto,
o sonho não permanece nessa lógica.
4. A saída da fila
O
sujeito diz à senhora que está atrás:
“Olha,
eu vou até o banheiro e já venho.”
E sai
da posição.
Esse
pequeno detalhe pode ter grande importância.
O
sujeito abandona momentaneamente a posição que ocupava.
Não
permanece imóvel aguardando a passagem do tempo.
Ele se
movimenta.
Isso
pode ser lido como uma mudança em relação à posição subjetiva de espera:
não permanecer simplesmente
parado esperando que a oportunidade chegue.
Há uma
ação.
Mas
essa ação também implica risco: ao sair da fila, o sujeito poderia imaginar que
perderia seu lugar.
E é
justamente aqui que acontece a transformação fundamental do sonho.
5. A dificuldade de caminhar
O
sujeito começa a andar, mas caminha com dificuldade, arrastando a perna
esquerda.
Essa
imagem pode representar simbolicamente que o deslocamento profissional não é
vivido como algo simples.
Existe
desejo de avançar, mas existe também resistência, peso, dificuldade ou
impedimento.
Entretanto,
o ponto essencial é:
a dificuldade não impede o
deslocamento.
O
sujeito continua andando.
Ele
não permanece paralisado.
Isso
permite uma leitura diferente da imagem corporal: não necessariamente “não
consigo avançar”, mas:
“Avanço apesar de não conseguir
fazê-lo com facilidade.”
O
sonho, portanto, não apresenta uma fantasia de facilidade absoluta. Apresenta
uma capacidade de movimento acompanhada de dificuldade.
Essa
distinção é importante.
6. A reorganização da fila
Quando
o sujeito chega ao local onde imaginava encontrar o amigo, ocorre algo
inesperado:
a fila se reorganizou.
Ele
está agora em uma posição mais próxima do objetivo.
E não
encontra o amigo.
Mas o
desaparecimento do amigo não representa fracasso.
Esse é
provavelmente o ponto central de toda a formação onírica.
O
sujeito inicialmente imaginava:
“Preciso
chegar até meu amigo para diminuir a espera.”
O
sonho responde:
“Quando você chega, a espera já
diminuiu.”
Essa
transformação altera profundamente a posição do sujeito.
Ele
não precisa pedir:
“Posso
ficar na sua frente?”
Não
precisa utilizar a indicação como condição indispensável.
A
própria configuração da fila mudou.
7. A passagem da dependência
para a capacidade própria
É
possível formular aqui uma hipótese psicanalítica bastante significativa.
No
pensamento consciente, o amigo pode ocupar a posição de:
“aquele que talvez consiga me
colocar dentro.”
No
sonho, essa função é relativizada.
O
amigo está à frente, mas desaparece.
E o
sujeito continua avançando.
Isso
não significa que o sonho esteja dizendo para não procurar o amigo na
realidade.
Pelo
contrário: procurar o amigo continua sendo uma ação concreta perfeitamente
coerente.
A
elaboração onírica parece estar trabalhando outra questão:
“Eu posso procurar ajuda sem
transformar a ajuda do outro na condição absoluta para acreditar que sou capaz
de chegar ao meu objetivo.”
Essa é
uma diferença importante entre apoio e dependência psíquica da
autorização do outro.
O
amigo pode ser um recurso.
Mas o
sonho parece retirar dele a função de ser o único responsável pela passagem.
8. A transformação da percepção
do tempo
Existe
também uma mudança na percepção temporal.
Inicialmente:
aproximadamente
cem pessoas.
Depois:
uma
posição mais próxima.
A fila
não desaparece.
O
emprego não aparece magicamente.
Mas a distância
percebida diminui.
Isso
pode representar uma transformação da expectativa:
“Vai
demorar muito.”
para:
“Talvez
o tempo de espera não seja tão grande quanto estou imaginando.”
Não se
trata de uma promessa objetiva de contratação.
É uma
mudança na representação psíquica do futuro.
O
sonho parece introduzir uma alternativa à fantasia de espera interminável.
O
futuro profissional pode não permanecer congelado na configuração atual.
9. O segundo fragmento: entrar
no estabelecimento
O
segundo fragmento apresenta uma mudança de cenário.
Agora
o sujeito não está mais na fila.
Ele
está dentro de um estabelecimento.
Essa
passagem pode ser considerada significativa:
primeiro, o sujeito está fora,
esperando entrar; depois, está dentro de um espaço de trabalho.
O
sonho realiza, portanto, uma espécie de passagem imaginária:
fila → deslocamento →
reorganização → interior do estabelecimento.
É como
se a narrativa onírica passasse da pergunta:
“Como
vou entrar?”
para:
“O que
existe dentro do lugar onde as pessoas trabalham?”
10. Alessandra como figura de
comando
Dentro
desse estabelecimento aparece Alessandra, apresentada como alguém que comanda o
restaurante.
Ela
está conversando com outra colaboradora e fazendo gestos relacionados à
sexualidade enquanto existe música.
Depois
aparece outra colaboradora, dos frios, dançando de maneira semelhante.
A
primeira observação é que o cenário profissional passa a ser atravessado pelo corpo,
pela música, pela dança e pela sexualidade.
Isso
não significa que o sonho esteja necessariamente representando desejo sexual
literal por essas pessoas.
Na
teoria psicanalítica, a libido possui uma dimensão mais ampla, relacionada ao
investimento, desejo e energia psíquica.
Assim,
a sexualização da cena pode representar algo mais abrangente:
- vitalidade;
- espontaneidade;
- desejo;
- expressão
corporal;
- prazer;
- energia;
- possibilidade de
investimento subjetivo.
11. Trabalho, corpo e desejo
Esse
segundo fragmento pode ser contrastado com a primeira cena.
Na
fila, o trabalho aparece como:
- espera;
- competição;
- posição;
- tempo;
- currículo;
- oportunidade.
No
estabelecimento, o trabalho aparece associado a:
- movimento;
- corpo;
- dança;
- música;
- desejo;
- espontaneidade.
Essa
diferença pode ser significativa.
Talvez
o objetivo procurado pelo sujeito não seja simplesmente:
“qualquer emprego.”
Talvez
exista uma dimensão mais profunda:
“um lugar profissional no qual
eu possa colocar em circulação aquilo que sou.”
Nesse
sentido, a procura de trabalho ganha uma dimensão identitária.
Não se
trata apenas de obter renda ou ocupar uma função.
Trata-se
de encontrar um lugar de expressão profissional.
12. “Você viu?” — e a resposta
“não vi nada”
A
colaboradora percebe que o sujeito observou a cena e pergunta:
“Você
viu?”
O
sujeito responde:
“Não
vi nada.”
Esse
diálogo é especialmente interessante porque o sujeito viu.
Ele
estava olhando.
Mas
responde que não viu.
Freud
dedicou um texto específico à Verneinung, geralmente traduzida como “A
negativa” ou “A negação”, no qual examina situações em que determinado conteúdo
aparece associado a uma recusa de reconhecê-lo. (Heidelberger
Historische Bestände)
É
importante não transformar automaticamente essa cena em diagnóstico.
Mas,
como hipótese interpretativa, o “não vi nada” pode representar uma pequena
operação defensiva:
algo é percebido, mas sua
percepção é imediatamente negada.
E isso
permite articulá-lo à questão formulada pelo sujeito:
“um
emprego onde possa me expressar e ser eu mesmo enquanto trabalha sem precisar
negar essa particularidade sua.”
Aqui a
frase do sonho ganha uma possível dimensão simbólica muito forte.
13. “Não vi nada” e “não preciso
negar quem sou”
Existe
uma tensão entre duas posições:
Primeira posição
“Eu
vejo, mas digo que não vejo.”
Segunda posição desejada
“Eu
sou, e não preciso negar que sou.”
Essa
oposição pode constituir uma das principais linhas de força do sonho.
O
sujeito não está apenas procurando um lugar na fila.
Está
procurando um lugar em que possa existir profissionalmente sem precisar
apagar aspectos importantes de sua identidade, formação, pensamento e maneira
de compreender o mundo.
O
estabelecimento do segundo fragmento poderia representar simbolicamente esse
espaço interno procurado.
14. A fila e o estabelecimento
como duas partes da mesma narrativa
Os
fragmentos podem ser lidos como uma sequência única.
Primeiro movimento: exclusão ou
distância
O
sujeito está do lado de fora.
Há uma
fila enorme.
O
objetivo parece distante.
Segundo movimento: busca de
mediação
O
amigo aparece à frente.
O
sujeito pensa em aproximar-se dele.
Terceiro movimento: deslocamento
O
sujeito abandona temporariamente sua posição e caminha, ainda que com
dificuldade.
Quarto movimento: reorganização
A fila
muda.
A
distância diminui.
O
amigo deixa de ser necessário como mediador.
Quinto movimento: entrada
O
sujeito está dentro de um estabelecimento.
Sexto movimento: encontro com a
dimensão do desejo
Aparecem
música, dança, corpo e sexualidade.
Sétimo movimento: negação
Diante
da pergunta “você viu?”, surge:
“Não
vi nada.”
A
sequência poderia ser sintetizada:
espera → mediação → movimento →
reorganização → aproximação → entrada → expressão → reconhecimento/negação.
15. A questão da capacidade
A
leitura proposta pelo sujeito contém outro elemento fundamental:
“tenho capacidade suficiente e
recursos para conseguir o objetivo.”
O
sonho fornece algum suporte simbólico para essa formulação, mas é importante
qualificá-la.
O
sonho não prova objetivamente que uma contratação ocorrerá.
Ele
também não fornece uma avaliação profissional da capacidade do sujeito.
O que
ele pode representar é uma mudança na posição subjetiva diante da própria
capacidade.
No
começo, o sujeito parece precisar de uma pessoa à frente para reduzir a
distância.
Depois,
ele descobre que sua própria movimentação já o colocou em outra posição.
Assim,
a capacidade pode ser representada menos como:
“Tenho
alguém que me coloca lá”
e mais
como:
“Consigo continuar o movimento
mesmo quando não tenho garantia de que alguém irá me conduzir.”
16. O amigo como apoio, não como
autorização
Essa
distinção é talvez uma das mais importantes para a elaboração do sonho.
O
amigo pode continuar sendo procurado.
Pode
perguntar sobre vagas.
Pode
encaminhar o currículo.
Pode
indicar uma pessoa.
Pode
fornecer uma informação.
Tudo
isso pertence ao campo da realidade.
Mas,
no campo psíquico, a posição pode mudar:
o amigo não precisa ser
transformado naquele que autoriza a existência profissional do sujeito.
A
indicação pode abrir uma porta.
Mas a
indicação não constitui o sujeito profissional.
O
currículo, a formação, a experiência, os conhecimentos acumulados, a capacidade
de estabelecer relações e a própria trajetória também fazem parte dos recursos
disponíveis.
O
sonho parece deslocar a ênfase:
de “quem me colocará lá?”
para:
“como eu próprio me posiciono
diante da possibilidade de chegar lá?”
17. A reorganização da fila como
imagem de uma reorganização psíquica
A
expressão “a fila se organizou” merece atenção.
Não é
apenas:
“eu
passei na frente.”
A fila
inteira sofreu uma reorganização.
Isso
significa que a mudança não depende exclusivamente de uma ação agressiva ou
competitiva do sujeito.
Ele
não precisa tirar alguém do lugar.
Não
precisa passar por cima de ninguém.
A
configuração muda.
Essa
imagem pode representar uma reorganização da maneira pela qual o próprio
sujeito compreende sua trajetória profissional.
Talvez
anteriormente houvesse uma representação rígida:
“Estou
muito atrás.”
O
sonho apresenta:
“Minha posição não é fixa.”
Essa
pode ser uma elaboração importante.
18. O tempo não é
necessariamente o inimigo
O
número de pessoas inicialmente parece tornar o objetivo muito distante.
Mas o
sonho mostra que o tempo pode se comportar de maneira diferente daquela
antecipada.
Isso
permite uma formulação:
o sujeito não controla o tempo
institucional, mas pode modificar sua relação com o tempo de espera.
Há uma
diferença entre:
“Não
tenho controle sobre quando uma instituição abrirá uma vaga.”
e:
“Enquanto
espero, não tenho capacidade de fazer nada.”
O
sonho parece favorecer a primeira posição, e não a segunda.
O
sujeito pode continuar se movimentando.
Pode
procurar.
Pode
conversar.
Pode
entregar currículo.
Pode
estabelecer contatos.
Pode
desenvolver projetos.
Pode
apresentar suas competências.
A fila
pode continuar existindo, mas o sujeito deixa de ser exclusivamente aquele que
está parado esperando.
19. A particularidade do sujeito
e o desejo de um lugar próprio
A
formulação final do sujeito é particularmente importante:
“um emprego onde possa se
expressar e ser ele mesmo enquanto trabalha sem precisar negar essa
particularidade sua.”
Essa
frase fornece uma possível chave para o segundo fragmento.
O que
está em jogo talvez não seja apenas empregabilidade, mas pertencimento
sem apagamento subjetivo.
A
pergunta deixa de ser somente:
“Onde
existe uma vaga?”
e
passa a ser:
“Onde existe um lugar em que
aquilo que construí e aquilo que sou possam ter alguma utilidade?”
Isso
dá ao sonho uma dimensão de identidade profissional.
A
busca por emprego pode ser compreendida como busca por uma posição em que
formação, experiência, conhecimento, capacidade de observação dos fenômenos
humanos, reflexão e desejo de contribuir possam encontrar uma forma concreta de
expressão.
20. A possível mensagem latente
Se
fosse necessário formular a hipótese interpretativa em uma única proposição,
ela poderia ser:
“Você não precisa depender
exclusivamente da intercessão de alguém para chegar ao próximo lugar. A
configuração da espera pode mudar, sua posição pode se aproximar do objetivo e
você possui recursos para continuar caminhando. Mas o objetivo não é apenas ocupar
uma vaga: é encontrar um lugar profissional em que possa investir sua
subjetividade e expressar aquilo que é sem precisar negar ou esconder essa
dimensão de si.”
Essa
formulação, contudo, deve permanecer como hipótese, pois, para Freud, a
interpretação não pode ser deduzida simplesmente de um dicionário de símbolos.
O método depende das associações do próprio sonhador e da relação entre
conteúdo manifesto e pensamentos latentes. (Freud)
21. Conclusão
Os
dois fragmentos podem ser compreendidos como uma elaboração onírica de uma
preocupação profissional muito concreta: a tentativa de encontrar uma porta
de entrada para uma instituição e a expectativa de que um amigo possa funcionar
como mediador dessa entrada.
O
pensamento anterior ao sono fornece o material imediato: procurar o amigo,
perguntar sobre vagas, entregar o currículo ou conseguir uma indicação. A
experiência anterior — na qual o amigo tentou interceder sem êxito — acrescenta
ao sonho uma memória de frustração.
Entretanto,
o sonho modifica essa experiência.
O
amigo aparece inicialmente à frente da fila, representando uma possibilidade de
acesso. O sujeito pretende aproximar-se dele para reduzir a espera. Mas, ao
deslocar-se, encontra uma fila reorganizada e descobre que sua posição já
melhorou. O amigo desaparece, mas o avanço permanece.
Essa
construção permite pensar que o sonho não está necessariamente retirando o
valor da ajuda do outro. Ao contrário, pode estar deslocando sua função:
o outro pode ajudar, mas não precisa ser a condição absoluta para que o sujeito
se reconheça como capaz de avançar.
A
perna arrastada introduz a dimensão da dificuldade. O caminho não aparece
fácil. Contudo, o sujeito continua caminhando. Portanto, o sonho pode
representar uma capacidade de deslocamento que existe apesar dos obstáculos.
A
reorganização da fila é ainda mais significativa porque modifica a percepção do
tempo. Aquilo que parecia distante e demorado não permanece necessariamente na
mesma configuração. O sujeito descobre que sua posição pode mudar.
O
segundo fragmento complementa essa elaboração. Depois de estar diante de uma
fila de empregos, o sujeito aparece dentro de um estabelecimento. O
trabalho deixa de ser representado apenas como espera, currículo e competição e
passa a ser atravessado por música, dança, corpo, desejo e expressão.
A
pergunta “você viu?” seguida de “não vi nada” introduz a questão da negação. Em
Freud, a negação pode permitir que determinado conteúdo seja apresentado à
consciência ao mesmo tempo em que é recusado. (Heidelberger
Historische Bestände)
Por
isso, a interpretação pode alcançar uma questão mais profunda: não basta
encontrar qualquer lugar profissional; existe o desejo de encontrar um lugar no
qual o sujeito possa estar sem precisar negar aspectos importantes de si mesmo.
Assim,
a narrativa onírica poderia ser compreendida como uma passagem:
da espera para o movimento;
da dependência da indicação para a utilização autônoma dos próprios recursos;
da percepção de uma distância enorme para a percepção de uma posição mais
próxima;
da procura de uma vaga para a procura de um lugar;
e da necessidade de negar aquilo que é para a possibilidade de expressá-lo no
trabalho.
O
sonho, portanto, não garante que determinada instituição oferecerá uma vaga,
nem constitui uma previsão de contratação. Sua relevância psicanalítica está em
outra parte: ele parece transformar uma situação concreta de procura
profissional em uma narrativa sobre capacidade, tempo, deslocamento, mediação,
desejo e reconhecimento de si.
A
frase que melhor sintetiza essa elaboração seria:
“Posso procurar a ajuda do outro
sem depender dela para acreditar que sou capaz de chegar; a fila pode se
reorganizar, minha posição pode mudar e, quando eu chegar ao lugar que procuro,
o que desejo é poder estar ali sem precisar negar quem sou.”
Referências bibliográficas
FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos (1900). Obra
fundamental para os conceitos de conteúdo manifesto, pensamentos oníricos
latentes, restos diurnos e trabalho do sonho. (Clássicos em Psicologia)
FREUD, Sigmund. A negativa (1925). Texto dedicado à relação
entre negação, reconhecimento e conteúdos psíquicos anteriormente recusados. (Heidelberger
Historische Bestände)
FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos — O trabalho do sonho.
Discussão sobre condensação, deslocamento e transformação dos pensamentos
latentes em conteúdo manifesto. (Freud)
FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos — Fontes infantis dos
sonhos. Discussão sobre a participação dos acontecimentos recentes e dos
restos do dia na formação dos sonhos, articulados a desejos inconscientes. (Freud)
FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos — A psicologia dos
processos oníricos. Discussão sobre a relação entre atividade desperta,
restos diurnos e formação do sonho. (Clássicos em Psicologia)
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