Chicago P.D. como espelho psicossocial do fiscal de caixa psicólogo: identidade profissional, pertencimento, autoridade e reconhecimento no supermercado
Introdução
A
série Chicago P.D., produzida como drama policial, acompanha a Unidade
de Inteligência do Departamento de Polícia de Chicago, responsável por
investigações de crimes graves e liderada pelo sargento Hank Voight. A própria
descrição institucional da série enfatiza a atuação coletiva da unidade, a
busca pela justiça, a proteção da cidade e, simultaneamente, os conflitos
produzidos pelas mudanças no sistema de justiça e pelas formas de liderança e
atuação da equipe.
Embora
o universo policial esteja muito distante do cotidiano de um supermercado, a
série pode ser utilizada como objeto cultural para uma leitura pela
Psicologia Social e pela Psicologia das Organizações, especialmente quando
se observa a relação entre indivíduo, grupo, papel profissional, autoridade,
reconhecimento, hierarquia e instituição.
Nesse
sentido, Chicago P.D. torna-se um espelho simbólico particularmente
interessante para compreender a experiência de um trabalhador que ocupa a
função de fiscal de caixa em supermercado e, simultaneamente, possui
formação em Psicologia e Teologia, tendo buscado ao longo de sua trajetória
construir uma identidade profissional como psicólogo.
O
ponto central não é afirmar que o fiscal seja equivalente a um policial ou que
o supermercado funcione como uma delegacia. A comparação seria inadequada. O
que se propõe é utilizar a série como metáfora psicossocial para compreender
como uma instituição atribui papéis, distribui reconhecimento, estabelece
hierarquias e influencia a identidade daqueles que nela trabalham.
A
questão fundamental passa a ser: o que acontece quando a identidade
profissional que o sujeito desejou construir não coincide com o lugar
institucional que efetivamente conseguiu ocupar?
Essa
questão permite articular identidade social, conflito de papéis, pertencimento
grupal, autoridade, reconhecimento, dissonância cognitiva, coesão, pressão
grupal, sofrimento ocupacional e processo de desligamento de uma identidade
profissional idealizada.
1. Chicago P.D. como
representação de uma instituição que produz identidades
Na
série, o policial não existe apenas como indivíduo. Ele está inserido em uma
estrutura institucional composta por cargos, hierarquias, normas, equipes,
procedimentos, símbolos e expectativas comportamentais.
A
Unidade de Inteligência constitui uma identidade coletiva. Seus integrantes não
são apenas pessoas que trabalham juntas; tornam-se membros de um "nós"
institucional.
Esse
fenômeno pode ser compreendido pela Teoria da Identidade Social de Tajfel
(1979), segundo a qual o comportamento social não pode ser compreendido
adequadamente isolando o indivíduo de seus grupos e relações intergrupais.
Ashforth
e Mael (1989) levaram essa perspectiva para o contexto organizacional,
demonstrando como a identificação social pode envolver percepção de
pertencimento, categorização, distintividade do grupo, prestígio e relação
entre grupos. Os autores aplicam essa perspectiva especificamente à
socialização organizacional, ao conflito de papéis e às relações intergrupais.
Isso
permite compreender o supermercado de maneira semelhante.
O
trabalhador não entra simplesmente para "executar tarefas". Ele passa
a ocupar uma categoria social:
fiscal de caixa.
Essa
categoria determina expectativas:
- deve controlar os
caixas;
- deve solucionar
problemas;
- deve responder à
liderança;
- deve lidar com
clientes;
- deve administrar
conflitos;
- deve garantir
determinados procedimentos;
- deve responder
quando há problemas operacionais.
Assim,
o cargo começa a produzir uma identidade social institucional.
O
problema aparece quando o sujeito possui outra identidade profissional
altamente significativa:
psicólogo.
Nesse
caso, coexistem duas posições:
"sou fiscal porque este é o
lugar institucional que ocupo"
e
"sou psicólogo porque esta
é uma formação e uma identidade profissional que construí."
O
conflito entre essas duas posições é central para compreender sua experiência.
2. A farda do policial e o
uniforme do fiscal
Na
série, a farda é um marcador social poderoso. Ela comunica imediatamente à
sociedade quem é aquele sujeito, qual função desempenha e qual autoridade
possui.
No
supermercado ocorre algo semelhante com o uniforme e a função de fiscal.
O
uniforme comunica:
"este trabalhador possui
uma função determinada dentro da organização."
Entretanto,
existe uma diferença fundamental entre identidade institucional e identidade
subjetiva.
O
supermercado reconhece o trabalhador prioritariamente como fiscal.
Sua
formação acadêmica não necessariamente determina o lugar que a organização lhe
atribui.
Isso
produz uma experiência psicologicamente complexa:
"A instituição reconhece
aquilo que eu faço aqui, mas isso não necessariamente corresponde àquilo que eu
sou ou gostaria de ser profissionalmente."
Esse é
um problema clássico de congruência entre identidade pessoal e papel
organizacional.
3. O conflito entre identidade
profissional e papel ocupacional
A
experiência acumulada pelo sujeito apresenta uma trajetória particularmente
significativa.
Depois
de graduar-se em Psicologia, houve tentativa de construção da identidade
clínica e institucional de psicólogo. Foram buscadas oportunidades em
diferentes contextos, inclusive experiências voluntárias, nas quais a própria
estrutura disponível para o exercício profissional não correspondia à
expectativa de reconhecimento e inserção institucional.
A
experiência também envolveu tentativa de ingresso em funções relacionadas à
Psicologia Organizacional e Recursos Humanos.
Paralelamente,
a atividade efetivamente consolidada foi a de fiscal de caixa.
Assim,
ocorre uma diferença entre:
identidade profissional
desejada;
identidade profissional
construída parcialmente;
identidade ocupacional
efetivamente reconhecida pelo mercado de trabalho.
Essa
diferença pode gerar sofrimento porque o sujeito não está necessariamente
frustrado com sua capacidade de trabalhar. Ele pode estar frustrado com o
lugar social em que seu trabalho acabou sendo reconhecido.
Essa
distinção é essencial.
O
problema não é simplesmente:
"Estou
trabalhando como fiscal."
O
problema pode ser:
"Minha trajetória
profissional não assumiu a forma que imaginei quando me formei em
Psicologia."
4. O "policial" de
Chicago P.D. e o "fiscal" do supermercado
A
comparação simbólica entre os dois personagens profissionais pode ser
construída da seguinte maneira.
O
policial possui uma função institucional clara.
O
fiscal também.
O
policial recebe uma missão institucional.
O
fiscal recebe responsabilidades operacionais.
O
policial responde a superiores.
O
fiscal responde à liderança.
O
policial trabalha em equipe.
O
fiscal depende dos demais integrantes da operação.
O
policial precisa administrar conflitos.
O
fiscal também.
O
policial pode experimentar forte identificação com sua unidade.
O
fiscal pode desenvolver forte identificação com sua equipe e com a própria
função.
Entretanto,
há uma diferença decisiva.
Na
série, a identidade policial é o próprio centro narrativo dos personagens.
No
caso do sujeito analisado, a identidade de fiscal pode ser funcionalmente
necessária, mas existencialmente insuficiente.
É
nesse ponto que a série se transforma em espelho.
5. Hank Voight e a questão da
autoridade
Hank
Voight é apresentado como líder da Unidade de Inteligência. A descrição oficial
destaca sua liderança da equipe e a natureza de alta pressão de seu trabalho.
Psicossocialmente,
Voight pode ser utilizado como representação da autoridade institucional.
Ele
personifica uma pergunta importante:
Quem possui poder para
reconhecer o indivíduo dentro da organização?
No
supermercado, essa pergunta aparece quando o trabalhador busca oportunidades
internas, apresenta suas competências ou espera retorno institucional.
A
ausência de resposta pode produzir uma experiência subjetiva de invisibilidade.
O
problema deixa de ser apenas:
"fui selecionado ou
não?"
e
passa a ser:
"minha instituição
reconhece meu potencial?"
6. O fenômeno do silêncio
institucional
Um dos
elementos mais importantes da experiência analisada é o chamado fenômeno do
silêncio institucional: o trabalhador apresenta interesse, participa de
processo ou manifesta disponibilidade, mas não recebe uma resposta clara
durante longo período.
Do
ponto de vista administrativo, isso pode ser simplesmente falha de comunicação.
Do
ponto de vista psicossocial, entretanto, o silêncio possui consequências.
O
indivíduo começa a produzir interpretações:
"Será
que não sou suficientemente bom?"
"Será
que minha formação não é valorizada?"
"Será
que já escolheram outra pessoa?"
"Será
que não me veem como psicólogo?"
O
silêncio organizacional pode, portanto, transformar uma decisão administrativa
em uma experiência subjetiva de desvalorização.
É
importante, contudo, não transformar essa interpretação em fato sem evidências.
Psicologicamente, deve-se distinguir:
o que a instituição efetivamente
comunicou
de
aquilo que o sujeito inferiu a
partir da ausência de comunicação.
Essa
distinção protege o indivíduo de transformar hipóteses em certezas.
7. A experiência de não
construir plenamente a identidade clínica
A
formação em Psicologia criou uma expectativa de inserção profissional.
Entretanto,
a trajetória descrita indica dificuldade para consolidar uma identidade clínica
e uma identidade institucional de psicólogo.
Isso
produz uma espécie de luto profissional.
O
objeto do luto não é necessariamente a Psicologia enquanto profissão.
O que
precisa ser elaborado é uma determinada representação de futuro:
o
psicólogo que teria determinado cargo;
determinado
reconhecimento;
determinado
salário;
determinado
status;
determinada
posição social;
determinado
consultório;
determinada
inserção institucional.
Essa
distinção é decisiva.
O
sujeito pode precisar fazer luto não da Psicologia, mas da imagem
específica de psicólogo que imaginou que se tornaria.
A
elaboração dessa perda permite separar:
a profissão real
da
fantasia profissional
idealizada.
8. Chicago P.D. e o
pertencimento à equipe
A
Unidade de Inteligência é apresentada como uma equipe coesa, comprometida com a
proteção da cidade e entre si.
Essa
dimensão permite pensar o supermercado.
O
fiscal não trabalha isoladamente.
Ele
depende dos operadores, de outros fiscais, líderes, gerência e demais setores.
Quando
a equipe funciona, existe interdependência funcional.
Quando
faltam trabalhadores, quando há conflitos ou quando alguns membros deixam de
colaborar, ocorre uma alteração na experiência do trabalhador.
Surge
a percepção:
"Estou
tendo que sustentar uma parte da operação que deveria ser coletiva."
Essa
experiência pode produzir ressentimento, sensação de injustiça e desgaste.
9. Lealdade e sobrecarga
Um
trabalhador comprometido tende a desenvolver uma norma interna:
"Preciso
dar conta."
Essa
norma pode ser positiva enquanto representa responsabilidade profissional.
Entretanto,
pode tornar-se problemática quando transforma o trabalhador em mecanismo de
compensação das falhas do sistema.
O
sujeito começa a assumir:
responsabilidade pessoal +
responsabilidade da equipe + responsabilidade institucional.
É aqui
que Chicago P.D. oferece outro espelho.
Os
personagens frequentemente demonstram forte compromisso com a unidade. A
lealdade é uma força de coesão, mas a Psicologia Social permite perguntar:
Quando a lealdade ao grupo deixa
de ser cooperação e passa a ser autoabandono?
10. Coesão grupal e pensamento
de grupo
A
coesão é importante para qualquer equipe. Entretanto, Janis (1972) demonstrou
que grupos altamente coesos podem desenvolver groupthink, ou pensamento
de grupo: a busca excessiva por consenso pode reduzir a avaliação crítica das
alternativas.
No
supermercado, isso pode ser observado quando determinados comportamentos passam
a ser naturalizados:
"Sempre
foi assim."
"Todo
mundo faz."
"Não
adianta questionar."
"É
melhor deixar quieto."
Essas
frases podem funcionar como mecanismos de adaptação coletiva.
O
trabalhador que questiona pode passar a ser percebido como alguém que
"complica", quando na realidade está apontando uma disfunção.
A
reflexão psicossocial é:
o grupo está produzindo
cooperação ou apenas conformidade?
11. Conformidade e identidade
A
necessidade de pertencer pode fazer com que o indivíduo adapte sua conduta às
normas do grupo.
No
supermercado, o sujeito pode aprender rapidamente:
- como falar;
- com quem falar;
- quando questionar;
- quando silenciar;
- como lidar com a
liderança;
- como responder ao
cliente;
- como administrar
conflitos.
Essa
aprendizagem é uma forma de socialização organizacional.
Ashforth
e Mael (1989) mostram justamente a importância da identificação social para
compreender a socialização e o conflito de papéis nas organizações.
O
problema surge quando a socialização organizacional exige que o sujeito
abandone partes importantes de sua identidade.
12. O psicólogo dentro do fiscal
Esse
talvez seja o aspecto mais interessante do caso.
O
trabalhador não deixa de possuir sua formação psicológica simplesmente porque
está desempenhando a função de fiscal.
Ele
continua levando consigo:
- capacidade de
observação;
- escuta;
- percepção de
conflitos;
- compreensão de
comportamento;
- leitura de
relações;
- conhecimento sobre
grupos;
- compreensão de
motivação;
- percepção de
processos institucionais.
Entretanto,
é necessário manter uma distinção ética:
utilizar conhecimentos
psicológicos para compreender o ambiente não significa exercer Psicologia fora
das condições profissionais adequadas.
Portanto,
o supermercado pode ser uma fonte de experiência psicossocial sem transformar
automaticamente a função de fiscal em prática psicológica.
13. O supermercado como
laboratório de Psicologia Social
Paradoxalmente,
o ambiente que não reconhece plenamente o sujeito como psicólogo pode oferecer
uma quantidade enorme de material para compreender Psicologia Social.
O
supermercado apresenta:
grupos;
lideranças;
conflitos;
normas;
papéis;
hierarquia;
poder;
pressão social;
preconceitos;
estereótipos;
relações entre trabalhadores e
consumidores;
processos de tomada de decisão;
identidade organizacional;
sofrimento ocupacional.
O
fiscal observa diariamente comportamentos que podem ser analisados
teoricamente.
O que
antes parecia apenas "um emprego que não deu certo" pode adquirir
outro significado:
foi também uma experiência
concreta de observação das relações humanas dentro de uma organização.
14. O cliente como outro polo da
relação social
O
supermercado também apresenta um fenômeno ausente na identidade policial de
maneira específica: a presença constante do consumidor.
O
cliente chega ao caixa carregando expectativas, desejos, pressa, frustração,
necessidade econômica e critérios de preço e valor.
A
compra não é apenas econômica.
É
também social e psicológica.
O
cliente pode buscar:
- preço;
- conveniência;
- segurança;
- reconhecimento;
- gratificação;
- pertencimento;
- prazer.
Nesse
sentido, o fiscal observa uma espécie de microcosmo social.
Cada
caixa transforma-se em um espaço de interação entre:
cliente × operador × fiscal ×
liderança × organização.
15. O conflito entre autoridade
funcional e reconhecimento
O
fiscal possui autoridade operacional, mas isso não significa que possua
prestígio proporcional.
Esse é
outro ponto que Chicago P.D. ajuda a visualizar.
Na
série, a autoridade do policial é visualmente marcada pela função, pela equipe,
pelo distintivo e pela hierarquia.
No
supermercado, o fiscal pode possuir responsabilidade sem necessariamente
experimentar prestígio.
Surge
então uma equação psicossocial problemática:
responsabilidade elevada +
reconhecimento insuficiente = sensação de desvalorização.
Quando
isso ocorre repetidamente, a pessoa pode começar a questionar seu próprio
valor.
Por
isso é fundamental separar:
valor pessoal
de
valor atribuído pela
organização.
A
organização pode não utilizar adequadamente uma competência sem que isso
signifique que a competência não exista.
16. Dissonância cognitiva:
"sou psicólogo, mas trabalho como fiscal"
Festinger
(1957) formulou a Teoria da Dissonância Cognitiva para explicar o desconforto
produzido quando cognições, crenças ou comportamentos entram em tensão.
No
caso analisado, pode existir uma dissonância entre:
"Sou psicólogo."
e
"Minha principal ocupação é
fiscal de caixa."
Isso
não constitui uma contradição lógica — uma pessoa pode ser psicólogo e exercer
outra atividade profissional.
A
dissonância aparece quando o sujeito atribui à profissão de psicólogo um valor
identitário muito elevado e interpreta o trabalho de fiscal como evidência de
fracasso profissional.
Então
o pensamento pode transformar-se em:
"Se
estou trabalhando como fiscal, então minha formação não se realizou."
Essa
conclusão é mais abrangente do que os fatos permitem.
Uma
interpretação psicologicamente mais precisa seria:
"Minha formação em
Psicologia ainda não produziu a inserção profissional que eu esperava."
Isso
preserva a realidade sem transformar uma trajetória profissional frustrante em
julgamento global sobre o próprio valor.
17. A identidade de fiscal não
precisa destruir a identidade de psicólogo
Essa é
uma das principais conclusões possíveis.
O
sujeito pode ocupar atualmente a posição de fiscal sem concluir:
"Portanto,
deixei de ser psicólogo."
A
identidade profissional pode ser compreendida como processual, não como
um estado binário.
A
pessoa pode ter:
- formação em
Psicologia;
- experiência
clínica;
- experiência
organizacional indireta;
- experiência
institucional;
- experiência em
atendimento ao público;
- experiência em
gestão de conflitos;
- experiência em
observação de grupos.
A
questão passa a ser como essas experiências serão integradas à narrativa
profissional futura.
18. O risco de transformar o
supermercado em identidade total
Existe,
entretanto, um risco importante.
Quanto
mais tempo o indivíduo permanece em determinado cargo, mais aquele papel pode
tornar-se socialmente dominante.
Os
outros podem passar a conhecê-lo simplesmente como:
"o fiscal."
E o
próprio sujeito pode começar a se definir dessa maneira.
Isso é
uma espécie de redução identitária.
O
problema não está em ser fiscal.
O
problema está em acreditar:
"Sou somente aquilo que
minha instituição atual diz que sou."
A
Psicologia Social mostra justamente que a identidade é composta por múltiplas
pertenças e papéis.
19. O espelho de Voight: quem
define meu lugar?
Voight
representa simbolicamente a autoridade que organiza sua unidade.
Para o
fiscal-psicólogo, a pergunta correspondente seria:
"Quem está definindo o meu
lugar profissional?"
Se a
resposta for exclusivamente:
"o supermercado",
então
existe risco de dependência excessiva do reconhecimento institucional.
Mas se
a resposta for:
"minha história, minha
formação, minhas experiências, meus valores e minhas escolhas futuras",
a
instituição passa a ocupar um lugar mais limitado.
Ela
define o cargo.
Não
necessariamente define o sujeito.
20. O luto pela identidade
profissional idealizada
A
experiência descrita ao longo das reflexões anteriores aponta para um processo
que pode ser compreendido como luto por uma identidade profissional não
realizada.
O
sujeito imaginou uma determinada trajetória:
formação → reconhecimento →
consultório → inserção institucional → carreira → estabilidade → status
profissional.
A
realidade produziu outro caminho:
formação → tentativas →
experiências voluntárias → dificuldades de inserção → trabalho como fiscal →
manutenção parcial da atividade psicológica.
O
sofrimento emerge do espaço entre essas duas narrativas.
Esse
espaço precisa ser elaborado.
O
objetivo não é negar o sonho.
É
reconhecer:
"Eu queria aquela vida
profissional, mas aquela forma específica de realização não aconteceu."
A
aceitação não significa declarar que a Psicologia fracassou.
Significa
abandonar a obrigação de fazer a realidade obedecer ao projeto imaginado
originalmente.
21. O que permanece depois do
luto
O luto
profissional não elimina a história.
Ao
contrário, permite separar o que foi perdido daquilo que permanece.
Permanece:
- a formação;
- o conhecimento;
- a experiência;
- a capacidade de
reflexão;
- a experiência com
pessoas;
- a compreensão dos
grupos;
- a experiência
organizacional;
- a capacidade de
observar conflitos;
- a experiência de
resistência às frustrações;
- a possibilidade de
construir novos caminhos.
Assim,
o supermercado pode deixar de representar apenas "o lugar onde minha
carreira não aconteceu" e passar a representar:
"um dos lugares onde minha
história profissional foi construída, ainda que não da maneira que
imaginei."
22. A série como espelho, não
como modelo de comportamento
É
importante fazer uma ressalva.
Chicago
P.D. é uma obra de ficção e dramatiza o trabalho
policial. A própria série explora personagens que operam em situações
moralmente complexas e, em diferentes momentos, ultrapassam ou tensionam
limites institucionais. A descrição da produção enfatiza justamente a
dificuldade da equipe em lidar com um sistema de justiça em transformação.
Portanto,
não se deve utilizar a série como modelo para justificar:
- abuso de
autoridade;
- violência;
- quebra de regras;
- lealdade cega;
- omissão;
- retaliação;
- confrontos
institucionais.
Seu
valor para o caso analisado está em outro lugar:
ela permite observar
simbolicamente como uma instituição organiza pessoas, papéis, pertencimentos e
conflitos.
23. O aprendizado psicossocial
do fiscal-psicólogo
A
experiência no supermercado pode ter produzido uma aprendizagem que não estava
prevista no projeto profissional original.
O
sujeito pode ter aprendido concretamente:
como uma organização funciona;
como a liderança influencia os
trabalhadores;
como o silêncio institucional
afeta a percepção de valor;
como os conflitos se
desenvolvem;
como a falta de pessoal modifica
o comportamento;
como o consumidor influencia o
trabalhador;
como as normas formais entram em
conflito com normas informais;
como a identidade profissional
depende também de reconhecimento social;
como uma pessoa pode sentir-se
deslocada quando sua formação não corresponde ao papel que ocupa.
Esses
aprendizados possuem valor profissional.
Não
porque transformem o sujeito automaticamente em especialista em Psicologia
Organizacional, mas porque fornecem experiência vivida sobre fenômenos que a
literatura organizacional descreve teoricamente.
24. Burnout, exaustão e
significado do trabalho
O
desgaste ocupacional também precisa ser considerado.
Maslach
e Jackson (1981) identificaram três dimensões clássicas na mensuração do
burnout: exaustão emocional, despersonalização e redução da realização
pessoal.
Isso
ajuda a compreender por que uma experiência ocupacional pode tornar-se
especialmente dolorosa quando o trabalhador não encontra sentido ou
reconhecimento suficientes.
O
problema pode ser agravado quando o indivíduo sente:
"Estou
gastando minha energia em uma função que não corresponde ao projeto
profissional que imaginei."
Nesse
caso, não é apenas a quantidade de trabalho que importa.
Importa
também o significado atribuído ao trabalho.
Um
trabalho difícil pode ser suportado de maneira diferente quando é percebido
como etapa de um projeto valorizado.
Quando
é percebido como prova permanente de que o projeto profissional fracassou, a
mesma atividade pode adquirir significado psicológico muito mais pesado.
25. Da pergunta "por que
não consegui?" para "o que construí?"
Essa
mudança talvez seja o resultado mais importante de todo o processo.
A
primeira pergunta é:
"Por que não consegui me
tornar o psicólogo que imaginei?"
Ela
tende a produzir comparação entre realidade e ideal.
A
segunda pergunta é:
"O que aprendi e construí
apesar de não ter chegado ao lugar que imaginei?"
Essa
pergunta permite uma reconstrução narrativa.
O
sujeito deixa de avaliar sua década apenas pelo resultado externo — cargo,
salário, status, consultório e reconhecimento — e começa a avaliá-la também
pelo capital experiencial acumulado.
Conclusão
Chicago
P.D. pode funcionar como um poderoso espelho
psicossocial para compreender a experiência do fiscal de caixa que possui
formação em Psicologia.
O
policial da série e o fiscal do supermercado não possuem a mesma profissão,
autoridade ou contexto. A aproximação não é ocupacional; é psicossocial.
Ambos
estão inseridos em organizações que:
distribuem papéis;
estabelecem hierarquias;
produzem normas;
criam pertencimentos;
atribuem reconhecimento;
impõem responsabilidades;
regulam comportamentos;
e influenciam a identidade dos
indivíduos.
Para o
fiscal-psicólogo, entretanto, existe uma camada adicional: o conflito entre identidade
ocupacional efetivamente reconhecida e identidade profissional desejada.
O
supermercado diz:
"Você é fiscal."
A
história pessoal diz:
"Você também construiu uma
formação como psicólogo."
A
tarefa psicológica não é necessariamente destruir uma identidade para preservar
a outra.
É
conseguir estabelecer uma relação mais realista entre ambas.
O
fiscal pode ser reconhecido como fiscal sem concluir que fracassou como
psicólogo. O psicólogo pode continuar existindo como identidade profissional
sem precisar negar o trabalho que atualmente sustenta sua vida.
Nesse
processo, o luto torna-se fundamental.
É
necessário fazer o luto do psicólogo imaginado, daquele que teria
determinado cargo, determinado reconhecimento, determinado salário, determinado
status e determinada inserção social. Essa elaboração permite abandonar uma
imagem idealizada sem abandonar necessariamente os valores, conhecimentos e possibilidades
associados à Psicologia.
A
experiência no supermercado também pode ser ressignificada.
Aquilo
que inicialmente aparece apenas como desvio de trajetória pode ser compreendido
como uma experiência concreta de Psicologia Social aplicada à vida cotidiana:
grupos, liderança, conflito, autoridade, normas, identidade, reconhecimento,
pressão, sofrimento ocupacional e relações de poder.
Nesse
sentido, a principal mensagem que Chicago P.D. pode oferecer ao
fiscal-psicólogo não é:
"Seja como os policiais da
série."
É
outra:
"Não confunda o papel que a
instituição lhe atribui com a totalidade da pessoa que você é."
A
instituição pode determinar o cargo.
Pode
determinar o salário.
Pode
determinar a função.
Pode
determinar o nível hierárquico.
Pode
até determinar quanto reconhecimento oferece.
Mas
não precisa determinar sozinha o significado que o indivíduo atribui à própria
história.
A
tarefa de elaboração consiste, finalmente, em transformar a pergunta "por
que não me tornei o psicólogo que imaginei?" em uma pergunta mais
produtiva:
"Diante de tudo aquilo que
não aconteceu como eu esperava, que psicólogo posso ainda construir a partir da
pessoa que me tornei?"
Essa
mudança representa a passagem de uma identidade definida exclusivamente pela perda
para uma identidade construída a partir da integração da experiência.
Referências bibliográficas
ASHFORTH,
Blake E.; MAEL, Fred. Social Identity Theory and the Organization. Academy
of Management Review, v. 14, n. 1, p. 20–39, 1989.
FESTINGER, Leon. A Theory
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JANIS, Irving L. Victims
of Groupthink: A Psychological Study of Foreign-Policy Decisions and Fiascoes.
Boston: Houghton Mifflin, 1972.
MASLACH, Christina; JACKSON,
Susan E. The measurement of experienced burnout. Journal of Organizational
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TAJFEL, Henri. Individuals
and groups in social psychology. British Journal of Social and Clinical
Psychology, v. 18, n. 2, p. 183–190, 1979.
USA
NETWORK. Chicago P.D. — descrição oficial da série e da Unidade de
Inteligência.
NBC/ONE CHICAGO. Chicago
P.D.: Voight and the Intelligence Team in the Most Stressful Moments. 2025.
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