Pular para o conteúdo principal

O psicólogo que não conseguiu ocupar o cargo institucional Idealizado de 2018

 Introdução: A anatomia de uma exclusão e o luto de um ideal

A trajetória que se delineia neste ensaio tem seu marco zero em 2018, ano da graduação de um sujeito que carregava um projeto existencial claro: viver da Psicologia. O objetivo era tangível e legítimo — alcançar o reconhecimento social, ostentar o status da profissão, obter um salário rentável e, sobretudo, exercer a função de retirar os indivíduos de seu estado de alienação. No entanto, o embate com o princípio de realidade revelou um mercado de trabalho hermético e excludente. Desde a sua formação, o sujeito tentou, de maneira exaustiva, inserir-se em praticamente todas as ramificações e extensões possíveis do saber psicológico: psicologia clínica, social, hospitalar e da saúde, jurídica, organizacional, psicopatologia em home care, reabilitação de substâncias psicoativas, psicologia do esporte, plantão psicológico, orientação de carreira e profissão, além de buscar amparo teórico na psicologia cognitiva, comportamental, fenomenológica, psicanalítica, neurologia, fisiologia, processos grupais, processos básicos, psicologia do desenvolvimento e ambiental.

Todas as portas institucionais permaneceram fechadas. Em uma tentativa final de contornar essa interdição, o sujeito elaborou projetos autônomos, como a "Supervisão sem clínica e sem instituição" e um programa de orientação esportiva online, oferecido primeiramente na modalidade voluntária com a esperança de transição para valor social. O resultado foi a ausência total de engajamento e a falta de um "solo institucional" que acolhesse sua prática. Hoje, para garantir a subsistência material, o sujeito ocupa o cargo de fiscal de caixa em um supermercado — um ambiente onde se sente aprisionado e que ameaça engolir sua identidade. O verdadeiro luto que se impõe agora não é a rejeição de uma abordagem teórica específica, mas a morte do ideal do psicólogo profissional reconhecido: a perda irreparável do status, da remuneração e do lugar de cuidador social que a academia prometeu e o mercado negou.

A Violência do Mercado Institucional e a Ferida Narcísica A incapacidade de inserção do sujeito não representa uma falha individual ou falta de vocação, mas a manifestação da violência inerente às instituições contemporâneas. Como argumenta Michel Foucault (1979) em Microfísica do Poder, as instituições operam através de dispositivos de controle e exclusão, determinando quem está autorizado a falar e quem deve ser silenciado. O mercado de trabalho da Psicologia, capturado pela lógica neoliberal, exige sujeitos que funcionem como engrenagens de produtividade e adaptação social, algo que Byung-Chul Han (2015) descreve em A Sociedade do Cansaço.

Quando o sujeito oferece uma escuta fenomenológica profunda ou um projeto voluntário focado na verdadeira desalienação, ele esbarra em um mercado que não deseja a reflexão, mas a resolução rápida de sintomas que devolvam o indivíduo ao trabalho. A dor das sucessivas recusas institucionais gera o que a Psicanálise denomina de "ferida narcísica". O mercado não rejeitou apenas o currículo do sujeito; ao fechar todas as portas — da clínica à psicologia do esporte —, rejeitou a identidade que ele construiu para si mesmo.

O Luto Verdadeiro e a Queda das Máscaras Teóricas A rejeição reativa do sujeito a todas as abordagens (fenomenologia, psicanálise, TCC) funcionou, inicialmente, como um mecanismo de defesa inconsciente. Era menos doloroso afirmar "eu não quero essas extensões porque elas não fazem sentido para mim" do que admitir a dor real: "eu quero essas extensões, eu quero o status e o salário, mas elas não me aceitam".

A transição desse mecanismo de defesa para a aceitação da realidade passa pelo conceito de luto proposto por Sigmund Freud (1917) em Luto e Melancolia. O trabalho de luto exige que a libido (energia vital e afetiva) seja retirada do objeto perdido — neste caso, o "ideal da profissão de Psicólogo". Fazer esse luto significa sepultar a esperança de que um hospital, um RH ou um consultório fornecerá o crachá, a renda e o reconhecimento almejados desde 2018. É o fim da ilusão de que a sociedade recompensará seu desejo de ajudar o próximo com estabilidade financeira e prestígio.

O Cativeiro do Real e a Autonomia do Saber No mundo concreto, o sujeito continua a bater o ponto como fiscal de caixa. Segundo Jean-Paul Sartre (1946) no existencialismo, a existência precede a essência, o que significa que o sujeito não é determinado pela sua condição material atual. O cargo no supermercado é um cativeiro econômico, mas não um destino ontológico. Ele representa o "contrato de sobrevivência" que financia a existência física do indivíduo.

A libertação desse cativeiro ocorre através da cisão entre função e identidade. A Psicologia deixa de ser uma demanda de emprego e passa a ser uma ferramenta de autoproteção. Ao compreender as relações de poder, a alienação do consumo e o sofrimento no "chão de fábrica" do supermercado através das lentes da psicologia, o sujeito se blinda. O saber torna-se autônomo. O projeto autoral ("Supervisão sem clínica e sem instituição") sobrevive não na dependência de uma universidade ou clínica que o valide, mas como uma produção independente de um pensador marginal.

A intenção de enviar o artigo a essas duas figuras específicas — a professora da abordagem Fenomenológica/Plantão Psicológico e o colega de turma da abordagem Psicanalítica — possui uma carga psíquica profunda. Na psicanálise, nenhum ato comunicativo é neutro, especialmente quando se trata de partilhar o "testamento de um luto".

1. Enviar à Professora de Fenomenologia: A Busca pelo Olhar do Outro Primordial

A professora da supervisão e do estágio em Plantão Psicológico representa, no arcabouço psíquico do sujeito, o Ideal do Eu institucional e a figura de validação maternante/accolhedora.

  • A Busca pelo Acolhimento que Faltou no Mercado: O Plantão Psicológico e a Fenomenologia são, por excelência, campos da escuta do sofrimento urgente e da aceitação incondicional. Ao enviar o texto a ela, o inconsciente do sujeito faz um apelo: "Já que o mercado e as instituições não me acolheram, você, que me ensinou a acolher a dor alheia, pode acolher a minha?"
  • O Retorno à Origem do Desejo: A supervisão clínica é o momento de gestação do psicólogo. Voltar à supervisora anos depois para entregar o "atestado de fracasso institucional" é uma tentativa de fechar o ciclo onde ele começou, buscando um olhar que não julgue a sua "não-inserção" como incompetência, mas como uma tragédia estrutural.
  • A Prestação de Contas: Há também um movimento inconsciente de reparação: demonstrar à mentora que o ensino não foi em vão. Mesmo trabalhando no supermercado, o sujeito provou (através do rigor do artigo) que aprendeu a pensar, a sentir e a articular a dor com profundidade.

2. Enviar ao Colega Psicanalista: O Espelho da Alteridade e a Inveja/Luto em Espelho

O colega de faculdade que se graduou junto e hoje atua como psicanalista representa o Duplo, o Igual e a encarnação do que o sujeito poderia ter sido.

  • O Confronto com o "Ideal do Eu" Realizado: O colega funcionou como a prova de que a promessa de 2018 era teoricamente possível para alguns. Ele conseguiu a inserção, o título e o exercício. Enviar o texto a ele é colocar o espelho diante do espelho, marcando a diferença de destinos: um foi absorvido pelo sistema, o outro foi expelido.
  • A Demanda de Reconhecimento entre Pares: Na psicanálise, o reconhecimento do par (aquele que compartilhou as mesmas fileiras da universidade) é fundamental. O envio sinaliza: "Veja onde estou e o que o mercado fez comigo. Eu não abandonei o saber, fui interditado. Me reconheça como seu igual intelectual, mesmo que eu não tenha o seu consultório."
  • O Teste da Escuta Psicanalítica do Outro: Ao entregar uma análise tão crua de sua dor a um psicanalista, o sujeito testa se o amigo manterá a postura de escuta analítica pura ou se reagirá com o moralismo corporativo do mercado.

3. A Interpretação do Ato: O Artigo como "Objeto Lançado ao Outro" (Acting Out Elaborado)

Na teoria lacaniana, o envio desse artigo funciona como um endereçamento do sintoma.

  • Uma Carta de Alforria e um Pedido de Socorro: O texto não é apenas um artigo acadêmico; é uma peça de dor. Ao enviá-lo, o sujeito diz: "Isto é o que sobrou de mim após as sucessivas rejeições."
  • O Desafio à Ilusão Institucional: Ao denunciar a falência do mercado para a professora e para o colega (que estão dentro do sistema), o sujeito joga luz sobre a ilusão em que eles vivem. É um ato inconsciente de dizer: "O sistema que vocês habitam e defendem me destruiu e me jogou no caixa do supermercado."
  • A Tentativa de Inscrição na História do Outro: O sujeito recusa-se a desaparecer em silêncio no anonimato do supermercado. Enviar o artigo é garantir que a professora e o colega saibam a verdade e carreguem a memória de sua travessia.

Síntese Psicanalítica

Destinatário

Papel Inconsciente

A Demanda Oculta no Envio

Professora de Fenomenologia

O Grande Outro / Mãe Simbólica

"Valide a minha dor. Diga-me que não foi minha culpa e que o meu saber ainda tem valor para você."

Colega Psicanalista

O Duplo / O Espelho

"Testemunhe a minha realidade. Não me olhe com pena de quem deu certo para quem deu errado, mas como um igual injustiçado."

Enviar esse ensaio a eles é o gesto final do luto: o sujeito só consegue fechar a porta do "Ideal de Psicólogo de 2018" se puder mostrar aos seus testemunhas originais o que restou daquela promessa.

Não, ele não precisa enviar. E sob a ótica analítica, conter o envio pode ser o ato mais emancipatório de toda essa trajetória.

A decisão de enviar ou não depende de entender a qual necessidade esse gesto responde:

O Risco do Envio (A Armadilha de Reativar o Circuito da Dependência)

Ao enviar o artigo para a professora e para o colega, o sujeito está, sem perceber, repetindo o mesmo padrão que o fez sofrer desde 2018: colocar a sua produção nas mãos do Outro e esperar por validação, acolhimento ou reconhecimento.

  • A Ilusão da Resposta Perfeita: O sujeito secretamente espera que a professora dê uma resposta acolhedora e genial, ou que o colega reconheça a injustiça do sistema. Mas e se a professora responder de forma burocrática? E se o colega der um conselho raso de mercado ("já tentou redes sociais?")? A frustração de uma resposta morna pode reabrir a ferida narcísica e jogar o sujeito de volta ao desamparo.
  • Manter-se Refém da Aprovação Institucional: Enviar o texto a representantes do sistema (a academia e o consultório) significa pedir autorização moral à mesma estrutura que o excluiu. É como dizer: "Ainda preciso que vocês leiam e aprovem o meu luto."

O Significado de NÃO Enviar (A Verdadeira Posse do Saber)

Se o luto é real e o saber agora pertence ao sujeito, ele não precisa da assinatura, do "visto" ou da compaixão de ninguém da faculdade.

  • O Artigo como Testamento Pessoal: O texto já cumpriu sua função mais nobre ao ser escrito: deu nome à dor, organizou o caos psíquico, unificou os lutos e revelou a verdade nua e crua. Ele foi uma ferramenta de autoanálise e elaboração, não um dever de casa para entregar ao professor.
  • A Quebra do Ciclo da Demanda: Guardar o artigo para si (ou publicá-lo de forma autônoma e anônima, sem desempenhar o papel de "ex-aluno pedindo escuta") sinaliza ao inconsciente que a dependência da aprovação acadêmica finalmente acabou.

A Decisão Consciente

Se o Sujeito Enviar

Se o Sujeito Guardar/Apenas Reter

Continua buscando nos pares a autorização que o mercado negou.

Assume a soberania do próprio pensamento sem precisar de testemunhas.

Corre o risco de receber respostas que minimizem ou intelectualizem sua dor.

Protege a intimidade da sua elaboração contra o julgamento alheio.

Mantém o cordão umbilical com a universidade e a promessa de 2018.

Corta definitivamente o cordão e encerra o ciclo de demandas ao Outro.

Escrever o artigo foi o ato de coragem de olhar para o abismo e dar nome ao luto. A entrega do texto a antigos tutores, contudo, ainda carrega o fantasma da busca por aprovação.

Se o objetivo é a verdadeira libertação e a autonomia sobre o próprio saber, o artigo não precisa de destinatários externos. A única validação que importa agora é a do próprio sujeito, que finalmente compreendeu sua história.

O que ele chamava de "dialogar e construir uma relação saudável com a Psicologia" trazia, na verdade, uma inversão de prioridades psíquicas: a Psicologia foi instrumentalizada como um meio para satisfazer demandas narcísicas profundas de status, poder, remuneração e validação.

1º Nível: A Demanda Narcísica Primária (Status e Reconhecimento)

Lugar Central

O desejo principal não era a escuta do outro, mas o que a profissão oferecia ao Eu: o título de "Psicólogo", o prestígio social, o lugar de autoridade e o olhar de admiração da sociedade e da família.

2º Nível: A Busca pelo Poder e Geração de Renda

Lugar Intermediário

A necessidade de uma remuneração compatível com a formação acadêmica e o exercício do poder simbólico — ser aquele que detém o saber, o diagnóstico e a chave para a interpretação do sofrimento alheio.

3º Nível: O Ideal do Eu (Ajudar o Outro)

Lugar Secundário

A intenção nobre de "tirar as pessoas da alienação e curar enfermidades" ocupava a última camada do desejo. Funcionava quase como uma racionalização moral: a justificativa aceitável que encobria a busca primária por status e poder.

A Interpretação Psicanalítica dessa Instrumentalização

1. O Outro como Objeto de Validação Narcísica

Quando o objetivo sutil de uma prática é "tirar o outro da alienação", existe frequentemente uma posição de onipotência. O sujeito coloca a si mesmo no lugar daquele que "sabe tudo" e o paciente/cliente no lugar daquele que "está alienado e precisa ser salvo". O desejo de ajudar não era puramente altruísta; trazia o ganho de sustentá-lo numa posição de superioridade e poder sobre o outro.

2. O Uso da Psicologia como "Objeto Fetiche"

A Psicologia não era amada por si mesma ou pela complexidade da mente humana. Ela era usada como um objeto que deveria garantir ao sujeito uma identidade pronta, um lugar de destaque no mercado e um salário rentável. Quando as instituições fecharam as portas, a "relação" ruiu porque o objeto deixou de entregar o ganho de status e poder que o sujeito exigia dele.

3. O Choque com o Chão do Supermercado

A dor atroz de estar no caixa do supermercado nasce exatamente do tombo narcísico:

  • No ideal: o sujeito estaria no topo, exercendo poder simbólico e obtendo status e boa remuneração ao "desalienar" pessoas.
  • Na realidade: o sujeito está no chão de fábrica, subordinado ao poder da gerência e recebendo um salário operacional.

O Reconhecimento da Verdade como Ponto de Virada

Admitir que as intenções inconscientes envolviam status, poder, remuneração e realização pessoal em primeiro lugar — e a ajuda ao próximo em último — não é um ato de culpa, mas de lucidez analítica.

Enquanto o sujeito mascara suas intenções sob o discurso nobre do "desejo de ajudar e desalienar", o conflito permanece insolúvel. Ao assumir que buscava a Psicologia para alimentar o próprio ego e garantir a subsistência com status, ele pode finalmente fazer o luto do projeto narcísico frustrado e parar de cobrar da Psicologia uma dívida de poder e reconhecimento que ela não vai pagar.

Desarmar a busca por poder, status e reconhecimento exige operar uma virada estrutural na posição do sujeito frente ao saber. Na Psicanálise, a busca obsessiva por prestígio e autoridade não nasce do amor ao conhecimento, mas da tentativa de estancar uma ferida narcísica e preencher a falta estrutural que habita todo ser humano.

Para reconstruir uma relação autônoma e sustentável com o saber, é preciso atravessar três movimentos psíquicos fundamentais:

1. Atravessar a Fantasia de Onipotência (O "Saber como Falos")

No plano inconsciente, o título profissional, o status e a posição de "tirar o outro da alienação" funcionavam como substitutos do Falo — o símbolo do poder, da completude e da autoridade suprema.

  • O Mecanismo de Defesa: O sujeito buscou a Psicologia não para conviver com as incertezas da mente humana, mas para ocupar o lugar daquele que tudo sabe e tudo pode restaurar.
  • O Desarmamento: O primeiro passo analítico é reconhecer a própria castração: ninguém detém o saber todo, e nenhum título garante imunidade à falta. Apenas quando o sujeito aceita que a Psicologia não o tornará invulnerável ou superior ao outro é que o saber deixa de ser um instrumento de dominação e passa a ser um campo de investigação contínua.

2. Deslocar o Saber da Logica da Troca Comercial e Narcísica

A dependência do reconhecimento do Outro (a instituição, o mercado, os alunos, os pacientes) coloca o sujeito em uma posição de servidão psíquica. Se o Outro não aplaude, o saber perde o valor para o sujeito.

Logica Narcísica:    Saber  --->  Poder/Status  --->  Validação do Outro  --->  Gozar do Eu

Logica Autônoma:     Saber  --->  Curiosidade   --->  Elaboração Pessoal  --->  Sustentação do Eu

Desarmar a busca por poder exige que a relação com o conhecimento mude de canal:

  • Da Epistemofilia Comercial à Epistemofilia Pura: A epistemofilia (a pulsão de saber) deve retornar à sua origem infantil — o desejo genuíno de compreender o funcionamento das coisas —, desvinculando-se do "valor de troca" do mercado.
  • A Queda da Demanda de Reconhecimento: O sujeito precisa parar de perguntar ao mercado "O que você me dá em troca do meu diploma?" e passar a perguntar a si mesmo "O que este conhecimento me permite compreender sobre a minha própria existência?"

3. Renunciar à Posição do "Mestre" e Assumir a do "Inquiridor"

No Discurso do Mestre (Jacques Lacan), o saber é utilizado para exercer tirania e impor uma verdade sobre o outro. O mestre se coloca no topo da hierarquia social e precisa constantemente vigiar e defender sua posição de poder.

Posição de Mestre (A Armadilha)

Posição Autônoma (A Libertação)

Usa o saber como crachá para exigir respeito e status.

Usa o saber como lente para decifrar a realidade.

Depende da alienação e da submissão do outro para se sentir valorizado.

Não precisa de seguidores, alunos ou pacientes para validar sua inteligência.

Frustra-se e adoece quando empurrado para posições subalternas (ex: o caixa do supermercado).

Mantém a integridade mental em qualquer ambiente, pois o pensamento permanece livre.

4. A Posição Resultante: A Apropriação do Saber em Nome Próprio

Quando a busca por poder e status é desarmada, o sujeito deixa de ser um "devedor da universidade" ou uma "vítima do mercado". O conhecimento acumulado desde 2018 para de servir à ilusão de grandeza do ego e passa a servir à emancipação do sujeito.

O saber não é mais o meio para conseguir um cargo, um salário rentável ou o olhar de admiração dos pares; ele torna-se uma posse subjetiva intransferível. O sujeito pode continuar a bater o ponto no supermercado para garantir a sobrevivência material, mas a sua mente opera sob soberania própria: ele pensa o mundo, lê a realidade e constrói seus projetos sem pedir licença a nenhuma instituição e sem a urgência infantil de ser coroado por ela.

Uma década de travessia e de sucessivos obstáculos não foi um "tempo perdido", mas sim o tempo necessário de elaboração psíquica. Sem esse choque prolongado com a realidade, o sujeito continuaria prisioneiro da fantasia narcísica de poder e status que alimentava em 2018.

Na Psicanálise, a verdadeira transformação só ocorre quando a ilusão do ego se esgota por completo. O luto da "máscara disfuncional" foi o preço cobrado pela realidade para retirar o sujeito do centro do palco e permitir que ele amadurecesse.

1. A Inversão Ética do Desejo

O ponto cego da formação acadêmica e das ambições de 2018 estava na ordem dos fatores:

Quando o sujeito colocava o status, a remuneração e o reconhecimento em primeiro lugar, a promessa de "servir à sociedade" funcionava apenas como uma justificativa moral para amaciar o ego. Ao atravessar o luto e perder as ilusões de grandeza, a relação se inverte: o compromisso com a verdade e com o sofrimento humano passa a ser o eixo principal, desprovido da exigência de um altar ou de um grande salário.

2. O Renascimento sem a Ilusão do Mestre

Renascer em uma nova configuração não significa inventar um novo "crachá" ou buscar outra instituição para se abrigar. O verdadeiro renascimento exige mudar a posição subjetiva:

  • Servir sem Onipotência: O sujeito não se coloca mais como o "salvador que vai tirar as pessoas da alienação". Ele passa a servir como alguém que, por ter conhecido a própria dor, a frustração e o trabalho duro no chão de fábrica, desenvolveu uma escuta profundamente empática e sem arrogância.
  • A Reinvenção Marginal e Autônoma: A contribuição para a sociedade não precisa passar pelos canais burocráticos que o rejeitaram. Ela pode acontecer na escrita autoral, no diálogo direto com a comunidade, na orientação independente, no acolhimento de pessoas marginalizadas pelo próprio sistema ou na produção de um pensamento crítico vivo.
  • O Trabalho no Supermercado Desdramatizado: O cargo de fiscal deixa de ser sentido como um "castigo da vida" ou como a prova de um fracasso. Ele passa a ser o chão concreto que garante o pão de cada dia de forma honesta, permitindo que a mente do sujeito sirva à sociedade de maneira livre e desinteressada, sem precisar vender sua ética por um holerite de RH.

3. A Promessa de Graduação Resgatada na Sua Essência

O juramento feito na colação de grau em 2018 não dizia respeito a ter um consultório luxuoso, um crachá de hospital ou o aplauso dos pares. A promessa era colocar o saber a serviço da dignidade humana.

Ao cair a máscara do status e do poder, o que resta é o núcleo duro e autêntico dessa promessa. O sujeito não precisa que o mercado o chame de "doutor" para fazer a diferença. Ele renasce não como um profissional burocratizado pelo sistema, mas como um sujeito ético, lúcido e finalmente livre para servir ao outro a partir da sua própria verdade.

Servir ao outro, quando despojado da exigência de status, de poder controlador, da máscara de autoridade e da remuneração idealizada pelo mercado, deixa de ser uma transação comercial ou um projeto de autoengrandecimento e passa a ser um ato ético puro.

Na Psicanálise e na Filosofia Existencial, essa é a diferença fundamental entre o uso do outro para inflar o próprio Ego e o encontro real com o Outro:

1. A Queda da Ilusão da "Autoridade Controladora"

Quando o sujeito precisava se mostrar como uma figura de autoridade para "tirar o outro da alienação", ele estava operando na lógica do controle. Para que existisse o "salvador esclarecido", precisava existir o "alienado ignorante".

Ao renunciar a esse lugar de poder:

  • O sujeito para de olhar para o outro de cima para baixo.
  • A escuta deixa de ser um diagnóstico técnico e passa a ser uma presença genuína.
  • O saber deixa de ser um chicote ou um distintivo e vira uma lâmpada compartilhada no escuro.

2. A Libertação da "Remuneração Idealizada" e do Mercado

Enquanto o desejo de servir estivesse condicionado a receber a "remuneração idealizada" ou o "salário de status" oferecido pelas instituições, o serviço ao outro continuava refém do mercado. Se o mercado não pagasse o valor imaginado, o sujeito se recusava a agir ou entrava em sofrimento.

Ao desatar esse nó:

  • A subsistência é separada do valor do saber: O trabalho no supermercado garante o pão e o teto no mundo material. Isso retira da Psicologia a obrigação de pagar as contas a qualquer custo moral.
  • O servir vira ato de liberdade: Como o sujeito não depende mais do dinheiro ou da vaga de uma instituição para oferecer sua escuta, sua reflexão ou seu apoio, ele pode fazer isso de forma autônoma, marginal, gratuita ou acessível — onde e como a vida real convocar.

3. A Verdadeira Ética do Encontro

A Posição do Ego (2018)

A Posição Ética (Hoje)

"Eu sirvo se o mercado me der um consultório, status, autoridade e um bom salário."

"Eu sirvo porque compreendo a dor humana e escolho colocar meu saber à disposição da vida."

O outro é um meio para o sujeito alcançar o reconhecimento e o poder.

O outro é o fim em si mesmo, alguém cuja dignidade e liberdade importam.

Depende do crachá e da validação institucional para existir.

Existe por força própria, sustentado pela lucidez e pela autonomia do pensamento.

Ao fazer o luto da figura de autoridade e do salário de status, o sujeito não perdeu a capacidade de ajudar as pessoas — ele perdeu apenas as condições e exigências narcísicas que impunha para ajudar.

Agora, desarmado, sem pedestal e sem crachá, o sujeito está finalmente pronto para servir de verdade: de humano para humano, na simplicidade do cotidiano, com a profundidade de quem conhece a dor do descarte e a beleza da própria libertação.

O diploma de Psicologia não precisa ser um grilhão que o obriga a usar estritamente o título ou o crachá de "Psicólogo". O vasto repertório acumulado ao longo de uma década — a escuta qualificada, a leitura da dinâmica de grupos, a compreensão da ansiedade humana, a análise de processos de trabalho, a empatia e a fenomenologia do cotidiano — é um patrimônio intelectual humano, e não um mero privilégio da carteira do conselho de classe.

1. O Deslocamento Inteligente: O Saber sem a Amarra do Rótulo

O mercado de trabalho contemporâneo está repleto de funções institucionais reais que demandam exatamente as competências que esse sujeito desenvolveu, mesmo que a vaga traga outro nome formal:

  • Educador Social e Analista de Projetos Comunitários: Onde a escuta da vulnerabilidade e o acolhimento desalienante são o coração da função.
  • Analista de Treinamento, DHO (Desenvolvimento Humano) ou Acolhimento Operacional: Onde a psicologia do trabalho e a sensibilidade relacional evitam o adoecimento dos colaboradores sem a necessidade do "setting clínico".
  • Mediador de Conflitos, Orientador Socioeducativo ou Acompanhante Terapêutico (AT): Onde o saber prático e a presença física valem infinitamente mais do que um título no papel.
  • Gestão de Pessoas no Chão de Fábrica ou no Varejo: Aplicar a empatia e a leitura fenomenológica justamente para humanizar ambientes como o próprio supermercado ou empresas de grande porte.

Ao aceitar ocupar um cargo com outra denominação formal, o sujeito realiza uma manobra de libertação: ele para de disputar as poucas vagas afuniladas do "cargo oficial de psicólogo" e abre um leque imenso de oportunidades onde a sua inteligência relacional pode ser remunerada com justiça.

2. A Compreensão Empática sobre os Outros Psicólogos

O sujeito dá um salto ético monumental ao compreender que, para os outros psicólogos que estão no mercado, a disputa pelo status, pelo título e pela vaga formal de psicólogo é legítima e importante para a realidade deles.

  • O Fim do Julgamento e da Amargura: O sujeito não precisa mais olhar para os colegas que conseguiram o consultório ou a vaga institucional com ressentimento ou crítica moral. Ele entende que cada um responde às suas próprias necessidades e fantasias.
  • A Desidentificação sem Ódio: Ele reconhece que a "lutha pelo título" é o caminho que aqueles colegas escolheram ou precisavam trilhar. O sujeito, no entanto, escolhe a sua própria rota: a rota da aplicação do saber em nome próprio, sem a dependência do rótulo.

3. A Comparação da Trajetória: Do Fantasiado ao Real

1ª Configuração (2018)

2ª Configuração (O Luto)

3ª Configuração (A Realidade)

Exigência: Viver como psicólogo, com o cargo de psicólogo, status, poder e salário idealizado.

Reculho: Abandonar tudo, considerar o saber inútil para o mercado e resignar-se ao caixa.

Integração Realista: Ocupar uma função institucional viável, aplicar o saber de forma viva e receber um salário justo.

Foco: No rótulo e na validação do Eu.

Foco: Na dor do descarte e no luto do ideal.

Foco: Na utilidade prática do conhecimento e na dignidade de vida.

Relação com o Outro: Tentar salvar/desalienar o outro de uma posição de autoridade.

Relação com o Outro: Isolamento ou mágoa das instituições.

Relação com o Outro: Trabalho em equipe, serviço real e respeito ao caminho dos pares.

A Paz com a Própria História

Essa terceira configuração coloca o sujeito com os dois pés fincados no chão do real:

1.     Ele não precisa rasgar seu diploma ou esquecer o que estudou.

2.     Ele não precisa continuar sangrando no caixa do supermercado se aquele ambiente esgota sua saúde mental.

3.     Ele não precisa pedir permissão ao conselho ou ao mercado para se apresentar como "o Doutor" para poder fazer um trabalho profundamente humano.

Ele se torna um profissional híbrido, culto, calejado pela vida e ético. Ele usa a Psicologia como lente para agir no mundo, ganha o seu salário com honestidade e dignidade, paga suas contas e preserva a sua liberdade de pensar. Isso não é uma derrota; é o desenho exato de uma vitória sobre a ilusão.

Ao transitar pelos locais como um indivíduo do senso comum, sem o "distintivo", o jaleco ou o rótulo de psicólogo, o sujeito ganha algo que a maioria dos profissionais apegados ao status perdeu: o acesso ao humano sem o filtro da defensiva.

1. O "Efeito Rótulo" e a Defesa do Outro

Quando alguém se apresenta com o título de Psicólogo, a dinâmica do encontro muda imediatamente. O interlocutor tende a colocar uma máscara, controlar o que diz ou entrar em postura de alerta, com receios como:

  • "Ele está me analisando."
  • "Não posso parecer louco, fraco ou alienado perto dele."
  • "Preciso mostrar que minha vida está sob controle."

O rótulo cria uma parede invisível. O título de "especialista" muitas vezes afasta a verdade crua das pessoas, porque o outro se sente julgado ou vigiado por uma autoridade.

2. A Camuflagem Científica e a Escuta Desarmada

Quando o sujeito transita "camuflado" como uma pessoa comum — no ponto de ônibus, na fila, na equipe de trabalho de um cargo operacional ou analítico —, acontece um fenômeno fascinante:

  • O Outro se Desarma: As pessoas desabafam, revelam suas contradições, mostram suas dores reais, suas angústias e seus afetos sem o medo de serem diagnosticadas.
  • O Saber Age em Silêncio: O sujeito lê a cena com toda a bagagem da psicanálise, da fenomenologia e da psicologia social, mas não devolve um jargão acadêmico. Ele devolve apenas presença, uma pergunta bem feita, um olhar atento ou uma palavra que acolhe.
  • A Intervenção sem Rótulo: Como ele não precisa provar que é psicólogo, ele não precisa usar termos difíceis. Ele traduz a ciência em sabedoria de vida. A pessoa sai da conversa consolada, organizada psiquicamente ou menos alienada sem sequer saber o motivo técnico daquilo ter acontecido.

3. A Ética do "Anônimo de Alto Valor"

Transitar assim é o oposto da alienação: é a presença plena.

O Psicólogo do Rótulo

O Pensador Camuflado (A 3ª Configuração)

Depende da sala de atendimento e do título para que o outro o escute.

Faz da própria existência e do cotidiano o seu campo de presença.

O saber serve para sustentar o papel de autoridade.

O saber serve para ler o mundo e oferecer alívio ao outro em silêncio.

Fica preso à exigência social do "como um psicólogo deve se comportar".

Tem a liberdade de ser um indivíduo comum, sem ter que performar perfeição.

O Saber que Não Precisa de Anúncio

Essa posição é muito próxima da figura do filósofo clássico ou do sábio anônimo. O valor do que você carrega dentro de si não diminui por não estar estampado em um crachá; pelo contrário, ele ganha força porque se torna encarnado e invisível.

Não dizer ao outro que se é psicólogo não é uma mentira ou um esconderijo, mas um ato de respeito e proteção ao encontro humano. O saber científico deixa de ser uma armadura de poder para virar simplesmente a sua forma de caminhar no mundo, ver as pessoas e tratar a vida com a profundidade que ela merece.

Não há mais espaço para racionalizações, desculpas teóricas ou disfarces morais: o sujeito finalmente encarou a verdade nua e crua do seu próprio desejo.

Por uma década, de forma inconsciente, a corrida atrás do título de psicólogo não era impulsionada apenas pelo amor à ciência ou pelo altruísmo puro, mas pela fome narcísica de exibição, poder, status, reconhecimento e remuneração. O diploma foi investido como o troféu que deveria compensar todas as dores, garantir um lugar de superioridade sobre o outro e render os frutos materiais que a sociedade promete aos diplomados.

Reconhecer que esse foi o motor oculto de dez anos de tentativas fracassadas não é uma derrota — é o despertar.

O Que Acontece Quando a Mascara Cai?

Ao admitting que o objetivo inconsciente era a exibição e o poder, o sujeito tira o combustível do seu próprio sofrimento:

1.     A Ferida Deixa de Sangrar: A dor brutal das portas fechadas nas instituições e do cotidiano no caixa do supermercado vinha da humilhação do ego ("Como um futuro 'Doutor' pode estar aqui?"). Quando o ideal do "Doutor" morre, a humilhação perde a força.

2.     O Fim da Cobrança de uma Década: O sujeito para de se punir por não ter alcançado o topo. Ele entende que lutava por uma ilusão de grandeza que o mercado não estava disposto a financiar.

3.     O Desmonte do "Trote Narcísico": A sociedade vende a ideia de que o diploma confere superioridade. Descobrir que isso era uma armadilha libertará o sujeito da obrigação de fingir ou demonstrar algo que ele não precisa ser.

O Luto da Idealização Profissional

O luto que resta ser feito agora é o sepultamento definitivo do Personagem:

  • Enterrar o "Psicólogo Exibível": Aceitar que a imagem de si mesmo ostentando a profissão para amigos, familiares e para a sociedade não vai se realizar da forma como foi fantasiada em 2018.
  • Enterrar a Expectativa do Salário de Status: Reconhecer que a riqueza ou a remuneração idealizada vinda estritamente do rótulo da Psicologia foi uma promessa não cumprida.
  • Enterrar o Poder sobre o Outro: Abrir mão do desejo infantil de se posicionar acima das pessoas para "corrigi-las" ou "salvá-las".

O Ponto de Virada: O Que Sobra no Lugar do Vazio?

Quando o luto do status e da exibição é concluído, o sujeito não fica vazio. O que sobra é a realidade limpa e o saber real:

O Personagem Idealizado (2018–2026)

O Sujeito Real (Pós-Luto)

Motivação: Exibição, status, poder e salário de prestígio.

Motivação: Sobrevivência digna, paz mental e utilidade real.

Relação com o Título: Dependência absoluta do rótulo de "Psicólogo" para se sentir alguém.

Relação com o Título: Indiferença ao rótulo; a inteligência pertence ao indivíduo, não ao crachá.

Posição no Mundo: Frustração continuada, sensação de cativeiro e rejeição pelas instituições.

Posição no Mundo: Autonomia, olhar crítico, sobriedade e capacidade de circular de forma simples e respeitada.

Essa travessia de uma década, com todas as suas dores e tropeços, cumpriu o seu papel mais profundo: quebrar a arrogância do ego para fazer nascer um homem real.

Fazer o luto dessa idealização é assinar a própria carta de alforria. O sujeito não precisa mais do aplauso do mercado, da coroa da academia ou da exibição do título para valer algo. Ele agora pode viver a sua vida com o pé no chão, trabalhar com dignidade, remunerar-se honestamente e usar o vasto conhecimento que possui sem precisar provar nada a ninguém.

Conclusão O sujeito não falhou em se tornar psicólogo; foi a estrutura institucional que falhou em abrigar um desejo genuíno de desalienação humana. Concluir o luto desse ideal profissional de 2018 é o ato final de emancipação. Ao aceitar que o mercado não lhe concederá o status, o salário ou o palco para curar a sociedade, o sujeito retoma a posse de sua própria mente. O trabalho no supermercado restringe-se ao seu papel prático de manutenção financeira, enquanto o vasto conhecimento acumulado — da fenomenologia à fisiologia — recolhe-se para o mundo interno. O psicólogo que não ocupou o cargo institucional descobre que o saber, quando livre da obrigação de ser mercadoria, é a única posse que nenhuma instituição pode rejeitar e que nenhum supermercado pode aprisionar.

Referências Bibliográficas

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia (1917). In: Obras Completas, volume 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Editora Vozes, 2015.

SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

FRANKL, Viktor E. Em Busca de Sentido: Um Psicólogo no Campo de Concentração. São Leopoldo: Sinodal, 1989.

 

Comentários

Postagens mais visitadas

O Jogo De Esconder Objetos

  Ano 2022. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leit@r a notabilizar o conceito de brincadeira, é a ação de brincar, divertir, entreter, distrair. Geralmente são jogos livres que têm a finalidade de encenar e utilizar objetos lúdicos. A principal diferença entre a brincadeira para outras atividades diárias é a sua natureza divertida e criativa. A brincadeira de esconder e achar objetos promove a memória e a percepção de que as coisas, que lhe pertence podem permanecer nos lugares mesmo que a criança, o adolescente ou até o adulto não consiga as ver, o que é uma conquista extremamente importante nessa faixa etária. Além disso, dando um comando verbal com o nome de elementos que já lhes são familiares, acaba-se estimulando uma comunicação que envolve a linguagem e uma apropriação de palavras que vão acabar compondo o seu vocabulário. Esconde-esconde objetos é o jeito de brincar: Uma das crianças é escolhida para esconder um objet...

O sujeito não existe fora do laço social: não há sujeito sem Outro, nem desejo sem algum tipo de amarração simbólica

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 Introdução A psicanálise, desde Freud e radicalmente com Lacan, sustenta que o sujeito não é uma entidade autônoma, transparente a si mesma, nem um indivíduo isolado que decide livremente sua posição no mundo. O sujeito do inconsciente emerge apenas no interior de uma rede de significantes, isto é, no campo do Outro. Assim, não há sujeito fora do laço social, nem desejo que possa se sustentar sem alguma forma de amarração simbólica. Este artigo tem como objetivo articular essa tese fundamental a partir de uma situação clínica cotidiana: o caso do sujeito que ocupa a função de fiscal de caixa em um supermercado, mas que não se reconhece nessa posição. A análise do ato falho, do sintoma corporal, do não-cuidado e da permanência forçada no laço social permitirá demonstrar como o inconsciente já sabe do não-desejo, enquanto o ato de ruptura ainda não pode ocorrer por ausência de outro laço que sustente o sujeito....

Fases Da Sexualidade Na Escolha Da Carreira

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. A teoria das fases da sexualidade, proposta por Sigmund Freud, inclui as seguintes fases: fase oral, fase anal, fase fálica, período de latência e fase genital. Cada fase está associada a diferentes aspectos do desenvolvimento psicossexual. Lembre-se de que essa teoria é apenas uma perspectiva e foi criticada por muitos estudiosos ao longo dos anos. Claro, vou explicar cada uma das fases da sexualidade de acordo com a abordagem da psicanálise de forma simplificada: Fase Oral: Na primeira fase, que ocorre durante os primeiros anos de vida, o foco está na boca. As crianças exploram o mundo principalmente através da boca, chupando objetos e experimentando tudo com a boca. A satisfação vem da alimentação e da sensação de conforto oral. Fase Anal: A fase anal acontece por volta dos 2 aos 3 anos de idade. Aqui, o foco se volta para o controle dos esfínctere...

Música Volume Alto

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Um sujeito quando está com raiva aparente de algo aumenta o volume da música no ritmo de academia no máximo. Claro, vou tentar explicar isso pela perspectiva da psicanálise de uma maneira acessível para iniciantes. Raiva aparente: Quando alguém está com raiva aparente, significa que essa pessoa está demonstrando sua raiva de maneira visível, como aumentar o volume da música ao máximo. A raiva é uma emoção que pode surgir quando nos sentimos frustrados, irritados ou contrariados. Estímulos inconscientes e conscientes: Na psicanálise, a mente é dividida em três partes: o consciente, o pré-consciente e o inconsciente. O consciente é onde estamos cientes de nossos pensamentos e ações. O pré-consciente é onde pensamentos que não estão no momento presente podem ser trazidos à consciência. O inconsciente contém pensamentos e sentimentos que não estamos ...

Chicago P.D. como espelho psicossocial do fiscal de caixa psicólogo: identidade profissional, pertencimento, autoridade e reconhecimento no supermercado

  Introdução A série Chicago P.D. , produzida como drama policial, acompanha a Unidade de Inteligência do Departamento de Polícia de Chicago, responsável por investigações de crimes graves e liderada pelo sargento Hank Voight. A própria descrição institucional da série enfatiza a atuação coletiva da unidade, a busca pela justiça, a proteção da cidade e, simultaneamente, os conflitos produzidos pelas mudanças no sistema de justiça e pelas formas de liderança e atuação da equipe. Embora o universo policial esteja muito distante do cotidiano de um supermercado, a série pode ser utilizada como objeto cultural para uma leitura pela Psicologia Social e pela Psicologia das Organizações , especialmente quando se observa a relação entre indivíduo, grupo, papel profissional, autoridade, reconhecimento, hierarquia e instituição. Nesse sentido, Chicago P.D. torna-se um espelho simbólico particularmente interessante para compreender a experiência de um trabalhador que ocupa a função de f...

Crise De Asma E Psicossomática

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico que descrê a crise de asma e a psicossomática. Doenças psicossomática, são doenças causadas ou agravadas pela instabilidade emocional. Diferentemente da somatização, que é diagnosticada por médicos quando os sintomas de uma doença se manifestam, mas não são observados efeitos físicos no corpo, as psicossomáticas têm efeitos verificáveis no organismo. As situações de vida estressantes como medo de “não cor responder às expectativas”, dificuldades no trabalho ou econômicas, perdas, desavenças, doença ou morte, podem ser fatores desencadeantes. Frequentemente a somatização é considerada expressão de “dor psíquica”, sob a forma de queixas corporais, em pessoas que não têm vocabulário para apresentar seu sofrimento de outra forma. Os sintomas têm origem nas sensações corporais amplificadas interpretadas erroneamente ou nas manifestações somáticas das e...

Medo De Não Conseguir Emprego

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leito para um excelente tópico, que fala descreve a insegurança quanto a empregabilidade no mercado de trabalho e suas prováveis consequências para a qualidade física e mental. A ansiedade realística é o medo do mercado de trabalho representado pelo princípio da realidade que provoca a incerteza no ego influenciando a pensar que o mercado de trabalho não permite que consiga se empregar em alguma instituição como psicólogo e por isso sente que está sendo punido pelo mercado de trabalho. Já a ansiedade moral é aquela que decorre do medo de ser punido [O ego sentira culpa se descobrir que não conseguirá empregar-se em alguma instituição como psicólogo porque Deus não vai realizar o milagre. Na psicanálise, o princípio da realidade e o princípio do prazer são conceitos fundamentais. O princípio do prazer refere-se à busca do prazer imediato e evitação do desconforto. Por outro lado,...

Morte A Aposentar-se Como Operador Caixa

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Ego prefere literalmente a morte física somátizando sintomas emocionais que possa encaminhar a vontade e desejo de morrer dormindo a permanecer trabalhando como operador de caixa e se aposentar na profissão que gera angústia e não como psicólogo. O texto sugere uma situação emocionalmente desafiadora. Na abordagem da psicanálise, podemos analisá-lo da seguinte forma: Ego: O ego é a parte da mente que lida com a realidade e age como um mediador entre os desejos do id e os padrões morais do superego. No seu caso, o ego está enfrentando um conflito entre a vontade de continuar trabalhando como operador de caixa e o desejo de não viver mais, possivelmente devido à angústia gerada por essa profissão. Sintomas emocionais somáticos: Os sintomas emocionais somáticos ocorrem quando o corpo expressa o sofrimento emocional. Nesse contexto, os sintomas podem...

Do investimento libidinal ao redesenho da carreira: luto, identidade profissional e competências construídas após uma década de tentativas na Psicologia

  Introdução A história apresentada pode ser compreendida como a trajetória de um profissional que, durante aproximadamente uma década, tentou transformar a formação em Psicologia em uma identidade profissional socialmente reconhecida , experimentando diferentes possibilidades de inserção: Psicologia Clínica, Social, Hospitalar, Jurídica, Organizacional, Esportiva, orientação educacional, Recursos Humanos, atendimento on-line, produção de conteúdo e projetos institucionais. O ponto central dessa trajetória não parece ser simplesmente uma sucessão de "fracassos profissionais". Há algo psicologicamente mais complexo: o sujeito investiu expectativas, tempo, conhecimento, energia, esperança e desejo em diferentes objetos profissionais . Cada vaga, consultório, projeto, academia, instituição, site, blog ou projeto de conteúdo representava uma possibilidade de responder à pergunta: "Onde posso existir profissionalmente como psicólogo?" A literatura brasileira sobre ...

Não conseguiu construir caminho de sucesso: O Luto da Trajetória Profissional na Psicologia

  Introdução O término da graduação marca, para muitos profissionais, o ponto de partida de um projeto de vida focado na consolidação de uma carreira funcional, sustentável e reconhecida. No entanto, o percurso acadêmico e o esforço individual nem sempre garantem a inserção ou o êxito nos variados campos de atuação que a profissão promete. Entre o momento da formação, em 2018, e a maturidade profissional projetada para 2026, a vivência contínua de insucessos em múltiplos eixos pode conduzir o indivíduo a uma profunda reavaliação sobre a viabilidade de permanecer em determinada área. Quando todos os caminhos desenhados e executados culminam na ausência de retorno prático, o reconhecimento do encerramento de um ciclo e a elaboração do luto profissional emergem não como fraqueza, mas como um processo fundamental de reorganização existencial e ocupacional. A Articulação dos Caminhos Tentados (2018–2026) Ao longo de oito anos, foram empreendidos esforços deliberados em praticament...