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Do investimento libidinal ao redesenho da carreira: luto, identidade profissional e competências construídas após uma década de tentativas na Psicologia

 Introdução

A história apresentada pode ser compreendida como a trajetória de um profissional que, durante aproximadamente uma década, tentou transformar a formação em Psicologia em uma identidade profissional socialmente reconhecida, experimentando diferentes possibilidades de inserção: Psicologia Clínica, Social, Hospitalar, Jurídica, Organizacional, Esportiva, orientação educacional, Recursos Humanos, atendimento on-line, produção de conteúdo e projetos institucionais.

O ponto central dessa trajetória não parece ser simplesmente uma sucessão de "fracassos profissionais". Há algo psicologicamente mais complexo: o sujeito investiu expectativas, tempo, conhecimento, energia, esperança e desejo em diferentes objetos profissionais. Cada vaga, consultório, projeto, academia, instituição, site, blog ou projeto de conteúdo representava uma possibilidade de responder à pergunta: "Onde posso existir profissionalmente como psicólogo?"

A literatura brasileira sobre identidade profissional do psicólogo sustenta que essa identidade não nasce exclusivamente da formação universitária. Ela é construída pela articulação entre fatores pessoais, formação, exercício profissional e contexto social. (SciELO) Estudos mais recentes também compreendem a identidade profissional como algo relacional, dinâmico e continuamente renegociado nas interações com instituições e outros profissionais. (PubMed)

Assim, a situação descrita pode ser interpretada como uma crise de identidade profissional acompanhada por um processo de luto pelas posições profissionais que não se concretizaram. Entretanto, esse luto não precisa significar abandonar a Psicologia. Pode significar abandonar determinadas formas imaginadas de ser psicólogo para construir uma relação diferente com o próprio conhecimento psicológico.


1. A trajetória: uma década tentando encontrar um lugar para ser psicólogo

A sequência relatada apresenta um padrão bastante claro.

O sujeito graduou-se em Psicologia e buscou inicialmente construir uma identidade clínica. Entretanto, nos trabalhos voluntários, chegou a atender sem dispor de um espaço físico que representasse simbolicamente a posição de psicólogo. A ausência de consultório adequado pode ter adquirido um significado subjetivo maior que sua dimensão material.

Não se tratava apenas de uma sala.

A sala poderia representar:

"Este lugar reconhece que eu sou psicólogo."

Quando esse reconhecimento institucional não se concretiza, surge uma ruptura entre identidade profissional interna e reconhecimento profissional externo.

A situação do Centro de Referência LGBT constitui uma exceção importante: durante aproximadamente dez anos houve uma instituição na qual o sujeito efetivamente encontrou um espaço clínico. Isso demonstra que a identidade clínica não foi simplesmente uma fantasia sem qualquer experiência concreta. Houve uma experiência institucional real de exercício da Psicologia.

Posteriormente, surgiram novas tentativas: plantão psicológico on-line, Psicologia Esportiva na academia, produção de artigos, blog, site, vídeos, Psicologia Organizacional no supermercado e candidaturas a diferentes funções.

Cada tentativa funcionou como uma espécie de experimento de carreira.

A dificuldade foi que nenhuma delas produziu continuidade suficiente para consolidar uma posição profissional estável.


2. O problema não foi necessariamente "não ser psicólogo"

É importante fazer uma distinção.

Não conseguir ocupar determinados cargos não equivale a não possuir identidade profissional.

A identidade profissional possui componentes subjetivos, relacionais, institucionais e ocupacionais. A revisão brasileira sobre identidade profissional do psicólogo justamente demonstra que ela se constrói pela interação entre escolha profissional, formação e exercício da profissão. (SciELO)

Nesse caso, parece ter ocorrido uma situação peculiar:

o sujeito construiu fortemente o "eu psicólogo", mas não conseguiu consolidar suficientemente o "lugar social ocupado pelo psicólogo".

São coisas diferentes.

Ele possui:

  • formação em Psicologia;
  • conhecimentos psicológicos;
  • experiência voluntária;
  • experiência de atendimento;
  • produção intelectual;
  • capacidade de análise institucional;
  • experiência com Psicologia Social;
  • experiência de observação organizacional;
  • experiência com Psicologia Esportiva;
  • produção de conteúdos;
  • tentativa de empreendedorismo profissional.

O que não se consolidou foi uma posição ocupacional estável e reconhecida que organizasse essas experiências.

Essa distinção é fundamental para o processo de luto.


3. O que está sendo perdido?

Na perspectiva psicanalítica, pode-se pensar que não está sendo perdido apenas um emprego.

Estão sendo perdidos objetos de investimento psíquico.

Freud, em Luto e Melancolia, descreveu o luto como um trabalho psíquico relacionado à perda de um objeto investido, no qual progressivamente ocorre o desligamento da libido das representações vinculadas ao objeto perdido. (Dr. Ami Avni)

No caso apresentado, os "objetos" não precisam ser pessoas.

Podem ser:

  • "ser psicólogo clínico";
  • "ter meu consultório";
  • "ser psicólogo institucional";
  • "ser psicólogo esportivo";
  • "ser psicólogo organizacional";
  • "ser contratado pelo RH";
  • "ser reconhecido por uma instituição";
  • "ter pacientes";
  • "ter alunos na academia";
  • "ter leitores";
  • "ter seguidores";
  • "ter um projeto reconhecido";
  • "ser economicamente sustentado pela Psicologia".

Portanto, o luto envolve possibilidades profissionais que não chegaram a se realizar.

É um luto particularmente complexo porque não existe necessariamente um acontecimento único que possa ser chamado de "perda".

Há uma sucessão de pequenas perdas:

tentativa → esperança → investimento → ausência de reconhecimento → frustração → desinvestimento → nova tentativa.

Depois de dez anos, o acúmulo dessas experiências pode produzir a sensação de:

"Eu tentei todas as portas e nenhuma se abriu."


4. O conceito de desinvestimento libidinal

A expressão "desinvestimento libidinal" é útil como metáfora psicanalítica, mas deve ser utilizada com precisão.

Não significa apagar a Psicologia da mente.

Significa retirar gradualmente uma quantidade de energia psíquica que continua presa a determinados objetos profissionais.

Por exemplo:

"Preciso ser psicólogo clínico dentro de uma instituição."

pode transformar-se em:

"Eu gostaria de exercer a Psicologia, mas não preciso necessariamente ocupar essa forma específica de posição."

Da mesma maneira:

"Preciso ser contratado como psicólogo organizacional."

pode transformar-se em:

"Meu conhecimento de Psicologia Organizacional continua pertencendo à minha trajetória, mesmo que eu não ocupe o cargo formal de psicólogo organizacional."

Esse deslocamento é essencial.

O objetivo do luto saudável não é destruir a identidade anterior, mas retirar dela a obrigação de determinar o futuro.

A própria literatura contemporânea sobre luto psicanalítico ressalta que o processo não precisa ser entendido como simples apagamento do objeto perdido; elementos da experiência podem permanecer incorporados à organização do ego. (PubMed)

Portanto, aquilo que foi vivido durante dez anos não precisa ser descartado.

Pode ser metabolizado e transformado em repertório profissional.


5. O risco de transformar o luto em desvalorização de si

Existe uma diferença fundamental entre:

"Esse projeto não funcionou."

e

"Eu não funciono."

A primeira afirmação é profissional.

A segunda é identitária.

Depois de muitas experiências negativas, existe o risco de ocorrer uma generalização:

"Não consegui clínica."

→ "Não consegui Psicologia Social."

→ "Não consegui Psicologia Organizacional."

→ "Não consegui Psicologia Esportiva."

→ "Não consegui RH."

→ "Não consegui atendimento on-line."

→ "Não consegui conteúdo digital."

→ "Logo, talvez eu não tenha lugar na Psicologia."

Essa conclusão não é logicamente necessária.

Ela transforma insucessos situacionais em defeito essencial do sujeito.

A teoria da construção de carreira de Savickas oferece justamente outra perspectiva: carreira não precisa ser compreendida como uma escada institucional linear, mas como uma história que o sujeito constrói e reconstrói diante das mudanças, transições e dificuldades. (Mark Savickas)


6. A contribuição de Donald Super: carreira não é apenas cargo

A teoria de Super é especialmente importante para compreender essa história.

Super concebeu a carreira como a combinação e sequência dos diferentes papéis desempenhados ao longo da vida, e não apenas como uma sucessão de empregos. (ScienceDirect)

Isso permite fazer uma distinção:

cargo ≠ carreira ≠ identidade.

O sujeito não conseguiu determinados cargos.

Isso não significa que a década não tenha produzido desenvolvimento profissional.

Durante esse período, ele desempenhou diferentes papéis:

  • psicólogo voluntário;
  • psicólogo clínico;
  • psicólogo social;
  • observador institucional;
  • estudante permanente;
  • produtor de conteúdo;
  • escritor;
  • pesquisador informal do cotidiano organizacional;
  • trabalhador de supermercado;
  • candidato a posições institucionais;
  • empreendedor digital;
  • psicólogo esportivo em tentativa de inserção.

A carreira real é muito mais complexa que a narrativa:

"Sou fiscal de caixa porque não consegui ser psicólogo."

Uma interpretação mais adequada seria:

"Minha trajetória profissional contém Psicologia, trabalho operacional, voluntariado, produção intelectual, observação institucional, tentativa de empreendedorismo e diferentes experiências de inserção profissional."

Isso modifica radicalmente a narrativa identitária.


7. Savickas e a reconstrução da carreira

A teoria da Construção de Carreira de Savickas é particularmente adequada para essa situação porque entende a carreira como uma construção narrativa e contextual.

O indivíduo não simplesmente "encontra" uma carreira pronta. Ele interpreta experiências, adapta-se às mudanças e reorganiza sua narrativa profissional. (Mark Savickas)

Nesse sentido, talvez a pergunta não deva mais ser:

"Em qual cargo de psicólogo eu finalmente vou conseguir trabalhar?"

Mas:

"O que esses dez anos revelaram sobre aquilo que eu sei fazer, sobre os ambientes nos quais consigo funcionar e sobre as formas pelas quais posso utilizar a Psicologia?"

Essa é uma mudança de paradigma.

Sai-se da lógica de obtenção de cargo e entra-se na lógica de construção de carreira.

A carreira deixa de depender exclusivamente de uma instituição conceder uma vaga.


8. O supermercado como "laboratório humano"

A experiência no supermercado possui um significado particular.

O sujeito utilizou o ambiente organizacional como campo de observação dos fenômenos psicossociais: relações de poder, liderança, conflitos, comunicação, sobrecarga, comportamento de clientes, funcionamento de equipes, turnover, relações hierárquicas e processos institucionais.

Mesmo que essa experiência não tenha produzido contratação como psicólogo organizacional, ela produziu conhecimento aplicado sobre organizações.

Isso é importante porque representa uma transformação possível:

fracasso ocupacional → experiência → conhecimento → competência.

A experiência não precisa permanecer psicologicamente registrada apenas como:

"Eu estava no supermercado porque não consegui ser psicólogo."

Pode ser reconstruída como:

"Durante determinado período, trabalhei dentro de uma organização e observei seus fenômenos psicossociais a partir de uma perspectiva psicológica."

Essa segunda narrativa é profissionalmente muito mais rica.


9. As competências socioemocionais desenvolvidas em dez anos

É possível inferir várias competências, embora elas precisassem ser avaliadas empiricamente antes de serem consideradas características consolidadas.

9.1 Persistência

O sujeito repetidamente voltou a tentar.

Isso demonstra capacidade de manter uma meta apesar de obstáculos prolongados.

9.2 Tolerância à frustração

Dez anos de candidaturas, projetos interrompidos, ausência de respostas e tentativas sem retorno exigem capacidade de suportar frustração.

Entretanto, aqui existe uma ressalva importante: tolerância à frustração não deve ser confundida com tolerância ilimitada ao sofrimento.

A competência madura é saber persistir quando existe possibilidade real e saber abandonar quando o investimento deixou de ser funcional.

9.3 Adaptabilidade de carreira

Savickas e Porfeli identificam quatro recursos fundamentais de adaptabilidade: preocupação, controle, curiosidade e confiança, utilizados para enfrentar transições, tarefas profissionais e dificuldades de trabalho. (ScienceDirect)

A trajetória descrita demonstra particularmente:

  • curiosidade;
  • exploração;
  • adaptação;
  • tentativa de reposicionamento.

9.4 Autonomia

Ao construir blog, site, vídeos, projetos e propostas próprias, o sujeito não permaneceu exclusivamente dependente de processos seletivos.

Desenvolveu capacidade de iniciativa.

9.5 Comunicação

A produção de artigos e vídeos demonstra desenvolvimento de comunicação escrita e audiovisual.

9.6 Capacidade de síntese e tradução do conhecimento

Produzir conteúdo psicológico para público leigo exige transformar conceitos técnicos em linguagem acessível.

Essa é uma competência profissional relevante.

9.7 Observação sistemática

O uso do supermercado como espaço de observação indica desenvolvimento de uma postura investigativa diante dos fenômenos organizacionais.

9.8 Pensamento crítico

A experiência permitiu questionar práticas institucionais, relações de poder, reconhecimento, seleção, liderança e cultura organizacional.

9.9 Flexibilidade identitária

O sujeito experimentou diferentes áreas sem permanecer rigidamente preso a uma única especialidade.

9.10 Capacidade de reinvenção

Depois de cada interrupção, surgiu uma nova tentativa.

Essa capacidade pode ser uma das maiores aquisições da década.


10. Mas existe uma competência que precisa ser desenvolvida: saber parar

Existe uma possível contradição na trajetória.

A mesma persistência que permitiu ao sujeito sobreviver a dez anos de tentativas pode transformar-se em compulsão à repetição adaptativa:

tentar → fracassar → sofrer → reorganizar-se → tentar novamente → fracassar → sofrer → tentar novamente.

Nesse ponto, persistência deixa de ser necessariamente adaptabilidade.

Pode tornar-se repetição.

A pergunta então muda:

"Como tentar novamente?"

para:

"O que precisa ser diferente na próxima tentativa?"

Essa diferença é fundamental.

Não basta mudar o projeto.

É necessário mudar o critério de investimento.

Antes de investir novamente, o sujeito poderia perguntar:

1.      Existe demanda real?

2.      Existe público?

3.      Existe instituição disposta a contratar?

4.      Existe remuneração possível?

5.      Quais competências são exigidas?

6.      O sujeito possui essas competências?

7.      Quanto tempo e dinheiro serão investidos?

8.      Qual será o indicador de sucesso?

9.      Qual será o prazo para avaliar o projeto?

10. Qual será o critério objetivo para interrompê-lo?

Isso transforma tentativa em experimento profissional estruturado.


11. A questão do engajamento nas redes sociais

É compreensível que o baixo engajamento tenha sido interpretado como preconceito contra a Psicologia.

Entretanto, essa hipótese precisa ser relativizada.

Baixo alcance pode decorrer de inúmeras variáveis:

  • algoritmo;
  • tamanho da audiência;
  • nicho escolhido;
  • formato do conteúdo;
  • frequência;
  • título;
  • posicionamento;
  • distribuição;
  • autoridade digital;
  • concorrência;
  • dificuldade de transformar conhecimento em conteúdo atraente;
  • ausência de estratégia comercial;
  • características do público.

Portanto:

baixo engajamento ≠ necessariamente rejeição à Psicologia.

Esse cuidado é importante para que o sujeito não transforme um indicador de marketing em julgamento sobre seu valor profissional.


12. O que precisa ser enlutado?

Talvez não seja necessário fazer o luto da Psicologia.

É necessário fazer o luto de algumas fantasias profissionais associadas à Psicologia.

Por exemplo:

"Vou conseguir uma instituição que reconhecerá meu valor."

"Alguma seleção finalmente perceberá minha competência."

"Uma academia me dará espaço."

"Uma instituição me contratará como psicólogo."

"O mercado reconhecerá espontaneamente meu conhecimento."

"Produzir bons conteúdos será suficiente para formar uma audiência."

Essas expectativas podem precisar ser abandonadas.

Mas podem ser preservados:

o conhecimento psicológico, a experiência, a capacidade de observar, a capacidade de escrever, a capacidade de ensinar, a capacidade de analisar relações humanas e o desejo de produzir algum tipo de contribuição social.

Isso é um luto saudável.


13. Do "eu psicólogo frustrado" para o "eu profissional que possui Psicologia"

Essa talvez seja a transformação identitária mais importante.

A primeira identidade diz:

"Sou psicólogo, mas não consegui ser psicólogo."

Ela contém uma contradição dolorosa.

A segunda diz:

"Sou um profissional formado em Psicologia e preciso descobrir qual configuração profissional é sustentável para mim agora."

Aqui aparece uma identidade menos dependente do reconhecimento institucional.

A identidade profissional deixa de depender exclusivamente de um cargo.

A teoria de construção de carreira justamente enfatiza que as pessoas podem reorganizar sua narrativa profissional diante das transições e reposicionar-se em novos papéis. (Mark Savickas)


14. Como realizar um luto saudável desses cargos e projetos?

O processo pode ser organizado em seis movimentos.

1. Nomear as perdas

Não dizer apenas:

"Minha carreira não deu certo."

Mas especificar:

"Estou abandonando a expectativa de ser contratado como psicólogo organizacional."

"Estou abandonando a expectativa de construir uma clínica naquela modalidade."

"Estou encerrando a tentativa de transformar a academia naquele espaço profissional."

Isso torna o luto concreto.

2. Separar fato de interpretação

Fato:

"Não fui selecionado."

Interpretação:

"Ninguém reconhece meu valor."

São coisas diferentes.

3. Reconhecer o que foi adquirido

Cada experiência precisa responder:

"O que eu sei hoje que não sabia há dez anos?"

Esse inventário transforma a história de fracasso em história de aprendizagem.

4. Agradecer e encerrar

Alguns projetos não precisam ser "consertados".

Podem simplesmente terminar.

O encerramento não significa fracasso absoluto.

Significa:

"Esse objeto cumpriu aquilo que podia cumprir."

5. Suspender temporariamente a necessidade de uma nova identidade

Depois de dez anos tentando ocupar lugares, talvez seja necessário um período em que a pergunta não seja:

"Qual será minha próxima identidade?"

Mas:

"Quem sou eu quando não estou tentando provar profissionalmente alguma coisa?"

Esse espaço psíquico pode ser importante.

6. Reinvestir somente depois

Freud concebe o luto como um trabalho de desligamento progressivo do investimento anterior; estudos posteriores enfatizam que elementos daquilo que foi perdido também podem permanecer incorporados à identidade. (PubMed)

Portanto, o objetivo não é ficar sem investimento.

É liberar investimento para que possa existir outra configuração de vida profissional.


15. Uma leitura pela Psicologia de Carreira: talvez a carreira ainda não tenha terminado

A teoria de Super permite compreender que a carreira é composta por múltiplos papéis ao longo da vida. (ScienceDirect)

Savickas acrescenta que a carreira contemporânea precisa ser compreendida como construção, adaptação e narrativa, especialmente diante de trajetórias não lineares. (ResearchGate)

E a perspectiva da adaptabilidade profissional enfatiza justamente recursos para lidar com transições ocupacionais e dificuldades profissionais. (ScienceDirect)

Consequentemente, o sujeito pode estar diante não do fim da carreira, mas do fim de uma determinada versão da carreira.

Essa diferença é decisiva.

Pode estar terminando a narrativa:

"Preciso encontrar uma instituição que finalmente me dê o lugar de psicólogo."

E começando outra:

"Preciso construir uma forma profissional sustentável de utilizar aquilo que aprendi."


Conclusão

A trajetória apresentada pode ser interpretada como uma década de intensa tentativa de construção de identidade profissional, marcada por sucessivas aproximações e afastamentos de diferentes campos da Psicologia. O sujeito buscou clínica, Psicologia Social, Psicologia Esportiva, Psicologia Organizacional, Psicologia Hospitalar, Psicologia Jurídica, Recursos Humanos, orientação educacional, atendimento on-line, produção intelectual e comunicação digital.

O aspecto mais doloroso não parece ser simplesmente a ausência de emprego.

É a ausência reiterada de reconhecimento institucional e social capaz de espelhar a identidade profissional que o sujeito procurava construir.

Por isso, o luto atual pode ser compreendido como o luto de várias posições profissionais imaginadas e parcialmente experimentadas.

Contudo, seria um erro concluir que dez anos produziram apenas fracasso.

Eles produziram repertório.

O sujeito desenvolveu, potencialmente, persistência, adaptabilidade, autonomia, comunicação, pensamento crítico, observação institucional, capacidade de aprendizagem, iniciativa, tolerância à frustração, criatividade e capacidade de reconstrução narrativa. Esses recursos são compatíveis com a noção contemporânea de adaptabilidade de carreira e com a concepção de carreira como processo dinâmico de construção. (ScienceDirect)

O trabalho psíquico agora não consiste em perguntar obsessivamente:

"Como finalmente conseguir o cargo de psicólogo que perdi?"

Mas:

"O que dessa década eu quero levar comigo, o que preciso deixar morrer e onde posso investir minha energia daqui para frente?"

Esse é o ponto em que luto e construção de carreira se encontram.

O desinvestimento saudável não precisa ser um abandono da Psicologia. Pode ser o abandono da necessidade de que determinada instituição, cargo, consultório, academia, seleção ou audiência confirme que o sujeito é psicólogo.

A identidade pode sobreviver à perda do cargo.

E talvez a tarefa da próxima etapa não seja encontrar imediatamente uma nova identidade profissional, mas permitir que uma identidade menos dependente do reconhecimento externo possa ser construída.


Referências bibliográficas

FREUD, S. Mourning and Melancholia. 1917. In: The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, v. 14. (Dr. Ami Avni)

IBARRA, H.; WITTMAN, S.; SMITH, K. Career Transition and Professional Identity: Dynamic Processes, Multiple Selves, and Nonlinear Trajectories. Annual Review of Organizational Psychology and Organizational Behavior, v. 13, 2026. (Annual Reviews)

MAZER, S. M.; MELO-SILVA, L. L. Identidade profissional do Psicólogo: uma revisão da produção científica no Brasil. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 30, n. 2, p. 276–295, 2010. (SciELO)

SAVICKAS, M. L. Career Construction Theory and Practice. In: BROWN, S. D.; LENT, R. W. Career Development and Counseling: Putting Theory and Research to Work. 2. ed. Hoboken: Wiley, 2013. (ScienceDirect)

SAVICKAS, M. L. et al. Life designing: A paradigm for career construction in the 21st century. Journal of Vocational Behavior, v. 75, n. 3, p. 239–250, 2009. (ResearchGate)

SAVICKAS, M. L.; PORFELI, E. J. Career Adapt-Abilities Scale: Construction, reliability, and measurement equivalence across 13 countries. Journal of Vocational Behavior, v. 80, n. 3, p. 661–673, 2012. (ScienceDirect)

SCHUBERT, S.; BUUS, N.; MONROUXE, L. V.; HUNT, C. The development of professional identity in clinical psychologists: A scoping review. Medical Education, v. 57, n. 7, p. 612–626, 2023. (PubMed)

SUPER, D. E. A life-span, life-space approach to career development. Journal of Vocational Behavior, v. 16, n. 3, p. 282–298, 1980. (ScienceDirect)

LENT, R. W.; BROWN, S. D.; HACKETT, G. Toward a Unifying Social Cognitive Theory of Career and Academic Interest, Choice, and Performance. Journal of Vocational Behavior, v. 45, p. 79–122, 1994. A teoria enfatiza, entre outros elementos, a relação entre autoeficácia, expectativas de resultado, interesses e escolhas de carreira. (ResearchGate)

 

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