ENTRE O ATO FALHO E A PASSAGEM: O QUE O INCONSCIENTE PODE MOSTRAR AO SUJEITO SOBRE A CONSTRUÇÃO DE UMA SAÍDA DO AMBIENTE SUPERMERCADISTA
Introdução
A
experiência de um trabalhador que exerce a função de fiscal de caixa em um
supermercado pode ultrapassar significativamente os limites formais de sua
descrição ocupacional. No cotidiano, esse trabalhador estabelece contato
permanente com operadores de caixa, clientes, lideranças, encarregados e
diferentes setores da organização. Nesse processo, observa conflitos, falhas de
comunicação, rotatividade, sobrecarga, relações de poder, sofrimento no
trabalho, estratégias de enfrentamento e diferentes modos de funcionamento
organizacional. Aquilo que inicialmente parece ser apenas uma experiência
operacional pode, portanto, transformar-se em um conjunto de conhecimentos
sobre o trabalhador, a organização e os fenômenos humanos presentes no
trabalho.
No
caso aqui analisado, há ainda uma particularidade: o fiscal é formado em
Psicologia e Teologia e vem procurando construir uma trajetória profissional
que não permaneça limitada à função operacional de fiscal de caixa. A
experiência no supermercado passa, então, a ser reinterpretada como parte de
uma trajetória mais ampla. O problema subjetivo não consiste apenas em
"sair do supermercado", mas em compreender se essa saída representa
uma fantasia, um desejo compensatório ou uma possibilidade profissional que
está progressivamente adquirindo existência concreta.
A
psicanálise oferece uma contribuição importante para essa reflexão por meio do
conceito de ato falho. Em A psicopatologia da vida cotidiana, Freud
investigou esquecimentos, lapsos, erros e ações equivocadas, propondo que
determinados acontecimentos aparentemente acidentais podem possuir relação com
pensamentos ou tendências que escapam à intenção consciente. Freud descreve as
chamadas ações equivocadas como desvios em relação à intenção original,
atribuindo-lhes potencial interesse para a investigação do funcionamento
psíquico.
Entretanto,
uma interpretação psicanalítica rigorosa não permite afirmar que todo erro
cotidiano seja necessariamente uma manifestação do inconsciente. Cansaço,
atenção dividida, automatismos e condições concretas também produzem
esquecimentos e enganos. O valor interpretativo surge quando determinado
acontecimento é relacionado às associações do sujeito, à repetição e ao
contexto de sua vida psíquica.
É
nesse ponto que os episódios vivenciados pelo fiscal tornam-se particularmente
significativos.
1. Os atos falhos observados no
cotidiano do supermercado
O
primeiro acontecimento ocorre quando o fiscal olha para seu relógio e percebe
que a capa protetora da tela havia desaparecido. Ele pensa que alguém pode ter
esbarrado no relógio. Posteriormente, abre a porta da cozinha, fecha-a e,
depois de fechá-la, lembra-se de que sua mochila havia ficado sobre a mesa.
Retorna e pega a mochila.
O
segundo acontecimento envolve uma chave. O fiscal estava conversando com outros
fiscais no balcão e pretendia ir à sala para tomar café. Abre a gaveta, pega
uma chave e começa a sair. Ao olhar para sua mão, percebe que pegara a chave
errada. Retorna, pega a chave correta e segue para a sala.
No
terceiro episódio, dirige-se ao açougue para perguntar ao encarregado que horas
a comida seria levada ao refeitório, informação necessária para organizar a
liberação das operadoras de caixa para o almoço. Entretanto, passa pelo açougue
e chega à cafeteira. Somente nesse momento percebe que havia tomado a direção
errada. Retorna ao açougue e procura a informação que pretendia obter.
No
quarto episódio, uma operadora chama o fiscal para resolver um problema de
registro: a cliente havia pedido seis pães na padaria, mas o produto havia sido
pesado como pão de queijo. O fiscal dirige-se à padaria para que a situação
seja corrigida. Depois, ao retornar ao setor dos caixas, em vez de dirigir-se
ao caixa 06, desloca-se para o caixa 07. A operadora o chama, ele percebe o
equívoco e corrige novamente sua rota.
Isoladamente,
todos esses acontecimentos podem ser explicados como erros cotidianos.
Entretanto, quando colocados em sequência, surge uma estrutura repetitiva:
movimento → desvio ou
esquecimento → percepção do erro → retorno → correção → continuidade.
É essa
estrutura, mais do que qualquer objeto isolado, que pode adquirir significado
psicanalítico.
2. A repetição como material
para interpretação
O
primeiro elemento que chama atenção é que o fiscal não permanece no lugar
equivocado.
Ele
esquece a mochila, mas lembra.
Pega a
chave errada, mas percebe.
Vai à
cafeteira quando deveria ir ao açougue, mas retorna.
Vai ao
caixa 07 quando deveria ir ao 06, mas corrige.
Portanto,
a sequência não é simplesmente:
erro → fracasso.
É:
erro → percepção → correção →
continuidade.
Esse
aspecto permite uma leitura diferente da ideia de que o inconsciente estaria
simplesmente impedindo o sujeito de sair de sua posição atual. Ao contrário, os
episódios podem ser lidos como pequenas dramatizações de um sujeito que está
constantemente reorientando sua trajetória.
Freud
mostrou que os atos equivocados podem constituir desvios da intenção consciente
e podem ser investigados em relação a elementos psíquicos que interferem na
ação pretendida.
No
caso analisado, portanto, a questão não precisa ser formulada como:
"Meu
inconsciente está me impedindo de sair?"
Uma
pergunta mais produtiva seria:
"O que essa repetição de
desvios, retornos e correções pode estar mostrando sobre a maneira como estou
construindo uma passagem para outra posição?"
3. A mochila: aquilo que precisa
ser levado
A
mochila é o primeiro símbolo que permite aproximar o ato cotidiano da
trajetória profissional.
O
fiscal fecha a porta, mas percebe que deixou a mochila para trás. Ele retorna e
a recupera.
Em uma
leitura simbólica, a mochila pode representar aquilo que o sujeito carrega
consigo.
Aplicada
à trajetória profissional, essa imagem permite pensar que sair de um ambiente
não significa necessariamente abandonar tudo aquilo que foi vivido nele.
A
experiência supermercadista pode ter produzido:
- conhecimento sobre
trabalhadores;
- experiência de
atendimento;
- observação de
conflitos;
- experiência de
mediação;
- compreensão da
dinâmica de equipes;
- percepção de
falhas organizacionais;
- conhecimento sobre
liderança;
- observação da
rotatividade;
- compreensão do
sofrimento relacionado ao trabalho;
- experiência com
normas, procedimentos e pressão operacional.
Assim,
a mochila pode ser compreendida como metáfora de um patrimônio experiencial.
O
sujeito pode sair de determinado ambiente sem precisar deixar nele tudo aquilo
que aprendeu.
A
questão passa a ser:
"O que dessa experiência
pertence a mim e deve ser levado para a próxima etapa?"
Nesse
sentido, o supermercado não precisa representar apenas o lugar que o sujeito
deseja abandonar. Pode representar também o lugar onde determinadas
experiências foram adquiridas.
4. A chave: encontrar o
instrumento adequado para abrir outra porta
O
segundo episódio envolve a chave errada.
O
fiscal pega uma chave, percebe que não é aquela de que necessita e retorna para
buscar a correta.
A
chave pode ser tomada como metáfora de acesso. Entretanto, seu significado não
é universal; ele depende das associações do próprio sujeito. Dentro desta
análise, ela pode representar o instrumento necessário para alcançar outro
espaço.
No
plano profissional, esse instrumento pode ser constituído por:
- formação;
- experiência;
- competências;
- currículo;
- projetos;
- capacidade de
comunicar a própria trajetória;
- preparação para
processos seletivos;
- desenvolvimento de
competências ainda ausentes.
A
imagem da chave permite estabelecer uma distinção fundamental entre desejar
uma saída e construir os meios para alcançá-la.
Desejar
uma nova posição não é suficiente.
É
necessário construir a chave adequada.
Nesse
sentido, a trajetória do fiscal pode ser entendida como uma transformação
progressiva:
experiência vivida → reflexão →
identificação de competências → elaboração curricular → candidatura → processo
seletivo → oportunidade.
A
chave errada, portanto, não precisa representar fracasso. Pode representar necessidade
de ajuste.
5. O açougue e a cafeteira:
direção e automatismo
O
terceiro episódio acrescenta a dimensão da direção.
O
fiscal sabe conscientemente que precisa ir ao açougue. Entretanto, seu
deslocamento corporal o leva até a cafeteira.
O
episódio pode ser compreendido como uma diferença entre intenção consciente
e trajetória automatizada.
No
cotidiano profissional, os hábitos têm grande força. O trabalhador conhece
determinados caminhos, horários, pessoas e procedimentos. Seu corpo aprende a
organização.
Quando
o sujeito começa a construir outra trajetória, pode existir uma diferença entre
aquilo que conscientemente pretende realizar e aquilo que os automatismos
antigos continuam produzindo.
A
importância do episódio está no fato de que o sujeito reconhece:
"Estou
no lugar errado."
E
retorna.
Essa
capacidade de reconhecer o desvio é fundamental para uma transição profissional
saudável.
O
objetivo não é nunca errar.
É perceber
o erro e utilizar a informação para corrigir a direção.
6. O caixa 06 e o caixa 07:
aproximação e precisão
O
quarto episódio apresenta uma diferença pequena, mas significativa.
O
fiscal deveria dirigir-se ao caixa 06 e vai ao 07.
Não
está completamente perdido. Está muito próximo do lugar correto, mas não está
exatamente nele.
Isso
pode ser associado à própria construção profissional.
Não
basta dizer:
"Quero
trabalhar fora do supermercado."
É
necessário identificar:
"Qual
função, campo e organização correspondem efetivamente àquilo que minha
trajetória pode sustentar?"
A
passagem profissional exige precisão.
O
currículo precisa corresponder à vaga.
As
competências precisam corresponder às exigências.
A
experiência precisa ser traduzida de modo compreensível para o recrutador.
As
lacunas precisam ser identificadas.
As
candidaturas precisam ser direcionadas.
O
caixa 07 pode, simbolicamente, representar uma aproximação que ainda necessita
de correção para chegar ao caixa 06.
7. O supermercado como lugar de
construção da trajetória
A
partir desses episódios, o supermercado pode ser reinterpretado.
Ele
não é apenas o lugar de permanência.
Pode
também ser o lugar de acúmulo de experiência.
O
fiscal observa fenômenos que, posteriormente, podem ser transformados em
reflexão profissional. A própria experiência operacional pode produzir
compreensão sobre o trabalhador e sobre as organizações.
Dessa
forma, existe uma transformação possível:
"sou apenas fiscal de
caixa"
pode
ser progressivamente substituída por:
"tenho experiência concreta
em uma organização, conheço a dinâmica do trabalho e consigo analisar fenômenos
humanos e organizacionais a partir da experiência vivida e da formação
psicológica."
Essa
transformação não altera retroativamente o cargo exercido. O fiscal continua
tendo sido fiscal.
O que
muda é o sentido atribuído à experiência e sua capacidade de ser traduzida
profissionalmente.
8. A possibilidade de uma saída
concreta
Nesse
ponto surge a questão central:
Como distinguir uma saída real
de uma fantasia?
A
resposta não pode ser encontrada exclusivamente no inconsciente.
O
inconsciente não fornece garantia de contratação.
Um
sonho, um ato falho ou uma sequência simbólica não pode provar que o sujeito
deixará o supermercado.
A
realidade objetiva é que deverá confirmar ou modificar essa possibilidade.
Assim,
a hipótese de saída pode ser submetida a indicadores concretos:
currículo elaborado →
candidaturas → entrevistas → retornos → desenvolvimento de competências → novas
candidaturas → oportunidades → eventual contratação.
Quanto
mais a trajetória externa começa a produzir acontecimentos verificáveis, mais a
possibilidade deixa de ser exclusivamente imaginária.
O
sujeito não precisa abandonar a esperança para respeitar a realidade.
Ao
contrário: precisa colocar a esperança em relação com a realidade.
9. O inconsciente mostrando uma
possibilidade, não decretando um destino
É
nesse ponto que a leitura psicanalítica precisa ser cuidadosamente delimitada.
Não se
deve dizer:
"O
inconsciente está dizendo que você definitivamente vai sair do
supermercado."
Isso
seria transformar a interpretação em profecia.
Uma
formulação mais rigorosa seria:
"O inconsciente pode estar
colocando em cena a possibilidade de uma passagem que o sujeito ainda não
conseguiu realizar concretamente."
Essa
diferença é decisiva.
O
inconsciente pode produzir imagens, lapsos, esquecimentos e deslocamentos que
ajudam o sujeito a perceber conflitos e possibilidades subjetivas. Freud
justamente investigou como ações aparentemente equivocadas podem apresentar
relação com processos psíquicos que não estavam plenamente disponíveis à
consciência.
Portanto,
os atos falhos podem funcionar como material para reconhecer uma
possibilidade, mas não como prova de que ela necessariamente acontecerá.
10. A contribuição de Hebreus
11:1
Como o
fiscal também é teólogo, a experiência pode ser colocada em diálogo com Hebreus
11:1, texto que apresenta a fé como "a certeza das coisas que se
esperam" e a "convicção de fatos que se não veem", em diferentes
traduções.
Essa
passagem permite estabelecer uma distinção entre ver e acreditar.
O
fiscal ainda pode não ver concretamente:
- o novo emprego;
- a nova
instituição;
- a nova função;
- a data da saída;
- a porta que
efetivamente se abrirá.
Mas
pode reconhecer que existe uma possibilidade que deseja construir.
A fé,
nesse contexto, não precisa significar:
"Tenho
certeza de que uma determinada vaga me espera."
Pode
significar:
"Ainda não vejo o
resultado, mas posso sustentar a esperança e continuar trabalhando para que
essa possibilidade encontre condições concretas de realização."
Isso é
diferente de negar a realidade.
A fé
não precisa substituir o currículo, a candidatura, a qualificação ou o processo
seletivo.
Ela
pode sustentar o sujeito enquanto esses processos ainda estão acontecendo.
11. Fé não é transformar o
inconsciente em profecia
Existe
um risco quando psicanálise e teologia são combinadas sem diferenciação: o
sujeito pode transformar qualquer acontecimento em confirmação de um destino.
Por
exemplo:
"Esqueci
a mochila, portanto Deus está dizendo que devo sair."
Essa
conclusão não pode ser sustentada nem pela psicanálise nem pela teologia de
maneira rigorosa.
Uma
leitura mais responsável seria:
"O
esquecimento da mochila me fez pensar sobre aquilo que estou carregando e sobre
aquilo que preciso levar comigo para uma possível mudança."
O
mesmo vale para a chave:
"A
chave errada me faz pensar que talvez eu precise encontrar instrumentos mais
adequados para acessar uma nova posição."
O ato
falho torna-se, então, objeto de reflexão, e não oráculo.
12. A passagem: sair sem apagar
a história
Os
quatro episódios podem ser reunidos sob a metáfora da passagem.
A
porta aparece.
A
mochila precisa ser recuperada.
A
chave precisa ser corrigida.
A
direção precisa ser reencontrada.
O
caixa precisa ser corrigido.
Tudo
isso envolve movimento entre posições.
A
passagem não significa simplesmente abandonar o passado.
Ela
significa transformar a relação com o passado.
O
fiscal pode reconhecer:
"Eu
trabalhei no supermercado."
E
simultaneamente:
"Essa
experiência faz parte daquilo que estou levando para a próxima etapa."
A
experiência não precisa ser negada para que a mudança aconteça.
Ela
precisa ser integrada.
13. O que o inconsciente pode
estar mostrando ao sujeito
A
partir de toda a sequência, uma hipótese interpretativa pode ser formulada:
O inconsciente parece colocar em
cena não uma certeza de saída, mas a possibilidade de mudança de posição.
Essa
possibilidade aparece simbolicamente através de:
porta — passagem;
mochila — aquilo que precisa ser levado;
chave — instrumento de acesso;
direção — necessidade de encontrar o caminho;
caixa correto — precisão da posição;
retorno — capacidade de corrigir;
continuidade — capacidade de seguir adiante.
O
ponto fundamental é que o sujeito pode começar a reconhecer:
"Talvez eu não esteja
apenas sonhando com uma saída. Talvez eu esteja psicologicamente elaborando a
possibilidade de uma mudança que ainda precisa encontrar sua forma
concreta."
Essa é
uma formulação mais precisa do que afirmar que "o inconsciente sabe que
ele vai sair".
O
inconsciente não oferece garantia.
Ele
pode, entretanto, tornar pensável aquilo que antes parecia impossível.
14. O que o sujeito deve
reconhecer como possibilidade
O
reconhecimento fundamental não precisa ser:
"Eu
vou sair."
Pode
ser:
"Eu posso construir uma
saída."
Essa
pequena diferença é enorme.
"Eu
vou sair" coloca o sujeito diante de uma certeza futura que ele não
controla.
"Eu
posso construir uma saída" coloca o sujeito diante de uma possibilidade
que exige ação.
A
segunda formulação preserva simultaneamente:
- o desejo;
- a esperança;
- a fé;
- o princípio de
realidade;
- a responsabilidade
pessoal;
- a abertura ao
imprevisto.
O
sujeito pode, portanto, olhar para os próprios atos falhos e perguntar:
"Que possibilidade de minha
vida esses acontecimentos estão me fazendo reconhecer?"
E uma
possível resposta seria:
"A possibilidade de que
minha posição atual não seja necessariamente minha posição definitiva."
Conclusão
Os
atos falhos relatados pelo fiscal de caixa — esquecer a mochila após fechar uma
porta, pegar a chave errada, dirigir-se à cafeteira em vez do açougue e
deslocar-se para o caixa 07 quando deveria ir ao 06 — não permitem afirmar, por
si mesmos, que ele deixará o ambiente supermercadista. Uma interpretação
psicanalítica responsável não transforma lapsos cotidianos em profecias.
Entretanto,
quando esses acontecimentos são observados em conjunto, aparece uma estrutura
repetitiva de deslocamento, desvio, reconhecimento, retorno, correção e
continuidade. Essa estrutura pode ser utilizada pelo sujeito como material
para pensar sua atual posição profissional e a possibilidade de construir uma
passagem para outra posição.
A
mochila pode representar aquilo que precisa ser levado da experiência; a chave,
os instrumentos necessários para acessar uma nova posição; o açougue e a
cafeteira, a necessidade de distinguir direção consciente de automatismos; e os
caixas 06 e 07, a necessidade de precisão na escolha do destino profissional.
A
experiência supermercadista, nessa perspectiva, não precisa ser considerada um
período perdido. Ela pode ser transformada em patrimônio de experiência sobre
trabalhadores, relações humanas, liderança, conflitos, organização, comunicação
e funcionamento institucional. A trajetória anterior passa a alimentar uma
trajetória posterior.
A
contribuição de Hebreus 11:1 permite acrescentar outra dimensão: a fé pode
sustentar aquilo que ainda não está visível. O texto bíblico apresenta a fé
como "a certeza das coisas que se esperam" e "a convicção de
fatos que se não veem". Entretanto, a fé não precisa ser confundida com
garantia de um resultado específico.
Assim,
o fiscal pode reconhecer uma possibilidade sem transformá-la em certeza
absoluta:
"Eu ainda não vejo a saída
concretamente, mas posso reconhecer que ela se tornou uma possibilidade real
para mim. Posso levar comigo aquilo que construí, procurar a chave adequada,
corrigir minha direção e continuar caminhando. A realidade é que deverá
confirmar se essa possibilidade encontrará uma porta aberta."
Esse
parece ser o ponto mais fecundo da articulação entre psicanálise, fé e
realidade. O inconsciente pode mostrar ao sujeito uma possibilidade; a
consciência pode reconhecê-la; a fé pode sustentá-la enquanto ainda não é
visível; mas são as ações concretas e as respostas da realidade que poderão
transformá-la em acontecimento.
Portanto,
o que o sujeito precisa reconhecer não é uma promessa inconsciente de que
necessariamente sairá do supermercado. É algo mais fundamental: a saída
deixou de ser uma ideia impensável e tornou-se uma possibilidade psíquica que
pode ser testada, construída e confrontada com a realidade.
A
passagem, portanto, ainda está em construção.
E
talvez seja justamente esse o sentido mais importante dos atos falhos: eles
não dizem "você já chegou"; eles parecem colocar em cena "existe
outro lugar que pode ser pensado, procurado e alcançado, desde que você
continue verificando a realidade e corrigindo a rota".
Referências bibliográficas
FREUD,
Sigmund. A psicopatologia da vida cotidiana. 1901. Obra dedicada ao
estudo de esquecimentos, lapsos, erros, ações equivocadas e outros fenômenos da
vida cotidiana.
FREUD, Sigmund. The
Psychopathology of Everyday Life. Capítulos
sobre ações equivocadas, ações sintomáticas e atos combinados. 1901.
BÍBLIA
SAGRADA. Hebreus 11:1. Texto que apresenta a fé como certeza das coisas
esperadas e convicção das coisas não vistas.
SERRALHA,
Conceição Aparecida. O espaço potencial: da origem à evolução. Estilos da
Clínica, v. 24, n. 1, p. 157–172, 2019. Discussão sobre o conceito
winnicottiano de espaço potencial e sua relação com experiências culturais e
processos de desenvolvimento.
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