EQUIPE DE FISCAIS COM HARD SKILLS, MAS FALTANTE DE SOFT SKILLS: UMA LEITURA PELA PSICOLOGIA ORGANIZACIONAL E DO TRABALHO
Introdução
No contexto das organizações
varejistas, especialmente em supermercados, a função de fiscal de caixa exige
domínio de procedimentos, conhecimento dos sistemas, atenção às normas,
acompanhamento das operações e capacidade de responder rapidamente às demandas
que surgem durante o funcionamento da loja. Trata-se, portanto, de uma
atividade que requer um conjunto significativo de hard skills,
entendidas como competências técnicas necessárias à execução objetiva do
trabalho.
Entretanto, o desempenho de uma
equipe não depende exclusivamente de sua capacidade técnica. O trabalho
organizacional é também uma atividade essencialmente social, na qual os
trabalhadores precisam estabelecer relações, comunicar-se, cooperar, negociar,
administrar conflitos e lidar com diferentes formas de pressão. Nesse sentido,
uma equipe pode apresentar elevado domínio operacional e, simultaneamente,
apresentar dificuldades no campo das soft skills, ou competências
socioemocionais e relacionais.
Essa situação permite caracterizar
uma equipe de fiscais que sabe executar o trabalho, mas apresenta
dificuldades para trabalhar relacionalmente. Não se trata, portanto, de uma
equipe necessariamente incompetente. Ao contrário: existe uma competência
técnica instalada, construída pela experiência e pelo domínio das rotinas. O
problema encontra-se na distância entre a competência para executar tarefas e a
competência para estabelecer relações produtivas durante sua execução.
A Organização Mundial da Saúde
reconhece que problemas de comunicação, baixo suporte, conflitos interpessoais,
relações inadequadas com superiores e ausência de apoio social constituem
fatores psicossociais relevantes no trabalho.
Dessa maneira, analisar uma equipe
de fiscais exclusivamente pelos resultados operacionais pode produzir uma
compreensão incompleta do fenômeno organizacional.
1. Hard skills: uma equipe que sabe fazer
As hard skills correspondem
às competências técnicas mobilizadas diretamente na execução das atividades
profissionais. No caso dos fiscais de caixa, podem incluir:
- domínio dos procedimentos de frente de caixa;
- conhecimento das normas e regras operacionais;
- utilização dos sistemas;
- conferência e acompanhamento das operações;
- capacidade de identificar irregularidades;
- resolução de problemas operacionais;
- conhecimento das rotinas da loja;
- experiência prática acumulada;
- capacidade de responder às demandas do
cotidiano;
- cumprimento dos procedimentos estabelecidos
pela organização.
Essa competência técnica constitui
um patrimônio organizacional importante.
O fiscal experiente conhece o
funcionamento concreto da operação. Ele sabe identificar problemas, orientar
procedimentos, solucionar situações emergenciais e lidar com acontecimentos que
não necessariamente estão previstos nos manuais.
Portanto, seria inadequado
interpretar a existência de dificuldades relacionais como ausência geral de
competência.
O diagnóstico mais preciso seria:
Existe competência operacional, mas existe também
uma lacuna no desenvolvimento das competências relacionais necessárias para
transformar competência individual em competência coletiva.
2. Soft skills: quando saber fazer não significa
saber conviver
As soft skills estão
relacionadas às capacidades que permitem ao trabalhador interagir adequadamente
com outras pessoas e administrar situações sociais e emocionais presentes no
trabalho.
Entre elas estão:
- comunicação;
- escuta ativa;
- empatia;
- cooperação;
- negociação;
- flexibilidade;
- capacidade de receber críticas;
- capacidade de oferecer feedback;
- autorregulação emocional;
- resolução de conflitos;
- respeito às diferenças;
- capacidade de trabalhar em equipe;
- capacidade de reconhecer a perspectiva do
outro.
Uma equipe pode dominar
perfeitamente os procedimentos e, ainda assim, apresentar dificuldades nessas
dimensões.
É nesse ponto que aparece o
paradoxo:
A equipe pode ser operacionalmente eficiente e
relacionalmente disfuncional.
Um fiscal pode saber exatamente
como realizar determinada tarefa, mas não saber comunicar uma orientação sem
gerar resistência. Pode conhecer a norma, mas ter dificuldade para negociar sua
aplicação. Pode identificar corretamente um erro de um colega, mas não possuir
recursos relacionais para realizar uma correção sem transformar a situação em
conflito.
Assim, o problema não está
necessariamente no conteúdo da intervenção, mas frequentemente na forma
como a intervenção é realizada.
3. Da competência individual à competência
coletiva
A presença de vários trabalhadores
tecnicamente competentes não garante automaticamente uma equipe competente.
Uma equipe é mais do que a soma das
habilidades individuais. Ela depende da capacidade de seus integrantes
coordenarem suas ações.
Podemos representar essa diferença
da seguinte maneira:
Competência individual → execução da tarefa
Competência coletiva → coordenação + comunicação
+ cooperação + confiança + resolução de conflitos.
Quando os trabalhadores possuem
hard skills, mas não desenvolveram suficientemente suas soft skills, pode
ocorrer uma espécie de fragmentação:
Cada um sabe fazer sua parte, mas nem sempre
consegue construir adequadamente o "fazer junto".
Esse fenômeno é particularmente
importante em atividades como a fiscalização de caixas, nas quais os
trabalhadores dependem uns dos outros para manter o fluxo operacional.
O fiscal não trabalha isoladamente.
Ele interage com operadores de caixa, clientes, liderança e outros fiscais.
Consequentemente, a qualidade dessas relações interfere diretamente na própria
execução da atividade.
4. O conflito entre competência técnica e
competência relacional
A ausência de competências
relacionais pode produzir uma situação paradoxal.
Quanto maior a experiência
operacional, maior pode ser a confiança do trabalhador em seu próprio modo de
fazer. Essa experiência é positiva, mas pode se tornar problemática quando
acompanhada de baixa abertura para escuta, negociação ou revisão de comportamentos.
O trabalhador pode pensar:
"Eu sei fazer esse
trabalho."
E provavelmente sabe.
Mas a pergunta organizacional
seguinte precisa ser:
"Você consegue fazer esse trabalho com os
outros?"
Essa segunda pergunta introduz a
dimensão coletiva da competência.
Uma equipe madura não é aquela na
qual todos concordam o tempo inteiro. É aquela capaz de discordar, negociar,
corrigir e continuar trabalhando conjuntamente.
Quando faltam essas habilidades,
pequenos problemas operacionais podem transformar-se em conflitos
interpessoais.
5. O risco de confundir firmeza profissional com
dificuldade relacional
No contexto da fiscalização,
determinadas características são necessárias: atenção, firmeza,
responsabilidade e capacidade de cobrar o cumprimento das normas.
Entretanto, existe uma diferença
entre assertividade e agressividade, assim como entre firmeza
e rigidez.
A assertividade permite comunicar
uma posição de maneira clara e respeitosa.
A rigidez, por outro lado, pode
transformar uma regra operacional em instrumento de confronto.
Da mesma forma, a cobrança pode ser
necessária para o funcionamento da organização. Entretanto, quando não existe
habilidade de comunicação, a cobrança pode ser percebida como humilhação,
ameaça, desqualificação ou ataque pessoal.
Portanto, o desenvolvimento de soft
skills não significa retirar autoridade do fiscal.
Significa qualificar a maneira
pela qual essa autoridade é exercida.
6. Comunicação como competência organizacional
A comunicação ocupa posição central
nesse fenômeno.
Uma equipe pode possuir excelentes
conhecimentos técnicos e apresentar problemas justamente porque seus
integrantes não conseguem comunicar adequadamente aquilo que sabem.
Comunicar não significa apenas
transmitir informação.
Significa também:
- saber quando falar;
- saber como falar;
- saber ouvir;
- verificar se a mensagem foi compreendida;
- adaptar a linguagem ao interlocutor;
- oferecer feedback;
- administrar discordâncias;
- evitar interpretações desnecessárias;
- separar problema operacional de problema
pessoal.
A própria Organização Mundial da
Saúde destaca a melhoria da comunicação e do trabalho em equipe como
componentes possíveis de intervenções organizacionais voltadas à redução do
sofrimento emocional e à melhoria dos resultados relacionados ao trabalho.
7. Conflitos interpessoais e funcionamento da
equipe
A deficiência de soft skills não
significa necessariamente que exista conflito permanente. Entretanto, aumenta a
possibilidade de que conflitos cotidianos sejam mal administrados.
Um desacordo operacional pode
seguir dois caminhos:
Caminho funcional:
problema → diálogo → negociação →
solução → aprendizagem.
Ou:
Caminho disfuncional:
problema → acusação → defesa →
contra-ataque → conflito → deterioração da relação.
A diferença não está
necessariamente no problema original, mas nos recursos disponíveis para
enfrentá-lo.
Por isso, uma equipe tecnicamente
competente pode necessitar de desenvolvimento justamente naquilo que acontece entre
uma tarefa e outra: os encontros, desencontros, conversas, cobranças,
negociações e conflitos.
8. O contexto organizacional também precisa ser
considerado
A Psicologia Organizacional não
deve responsabilizar exclusivamente os indivíduos.
Se uma equipe apresenta
dificuldades de comunicação, cooperação ou relacionamento, é necessário
perguntar também:
Como a organização organiza o trabalho?
A OMS identifica como fatores
psicossociais relevantes elementos como excesso de carga de trabalho, baixa
autonomia, falta de suporte, problemas de comunicação, conflitos interpessoais
e relações inadequadas com a supervisão.
Portanto, não seria adequado
simplesmente afirmar:
"Os fiscais não possuem soft
skills."
Uma análise organizacional mais
consistente perguntaria:
"Quais competências relacionais estão
faltando, como essas competências podem ser desenvolvidas e quais condições
organizacionais estão dificultando seu desenvolvimento?"
Essa diferença é fundamental.
O comportamento individual ocorre
dentro de determinado contexto de trabalho.
9. A equipe de fiscais como patrimônio técnico a
ser desenvolvido
Um diagnóstico dessa natureza não
precisa assumir uma perspectiva exclusivamente negativa.
A equipe possui um elemento
fundamental: ela sabe trabalhar operacionalmente.
Isso significa que existe uma base
sobre a qual o desenvolvimento pode ser construído.
Em vez de substituir a competência
técnica, a organização pode acrescentar competências relacionais:
Hard skills + Soft skills = competência
profissional ampliada.
O objetivo seria fazer com que o
fiscal consiga simultaneamente:
- conhecer o procedimento;
- executar o procedimento;
- explicar o procedimento;
- negociar sua aplicação;
- lidar com resistência;
- administrar conflitos;
- trabalhar cooperativamente;
- oferecer e receber feedback.
Assim, o desenvolvimento não
significa abandonar a identidade profissional do fiscal.
Significa ampliá-la.
10. Possibilidades de intervenção da Psicologia
Organizacional
Uma intervenção organizacional
poderia começar por um diagnóstico das competências existentes e das lacunas
percebidas.
Posteriormente, poderiam ser
trabalhados temas como:
1.
Comunicação assertiva;
2.
Escuta ativa;
3.
Feedback profissional;
4.
Gestão de conflitos;
5.
Inteligência emocional no trabalho;
6.
Cooperação entre fiscais;
7.
Empatia profissional;
8.
Autorregulação diante de situações de
pressão;
9.
Negociação;
10. Construção
de confiança na equipe.
Entretanto, treinamentos
individuais não deveriam ser utilizados para encobrir problemas estruturais.
A própria OMS recomenda que
intervenções relacionadas à saúde mental no trabalho considerem os fatores
psicossociais e as condições organizacionais, incluindo comunicação, trabalho
em equipe, carga de trabalho e suporte.
Portanto, desenvolver soft skills é
importante, mas também é necessário examinar liderança, dimensionamento da
equipe, distribuição de tarefas, comunicação institucional e condições de
trabalho.
Conclusão
A equipe de fiscais analisada pode
ser compreendida como uma equipe que apresenta competência técnica e
operacional consolidada, mas desenvolvimento insuficiente de competências
socioemocionais e relacionais.
Sua principal característica não é
a incompetência.
É justamente o contrário:
A equipe sabe fazer. O desafio é aprender a fazer
junto.
As hard skills permitem que o
trabalho seja executado. As soft skills permitem que esse trabalho seja
realizado por pessoas que precisam conviver, cooperar, comunicar-se, negociar e
administrar conflitos.
A ausência ou insuficiência dessas
competências pode produzir um paradoxo organizacional: uma equipe capaz de
manter a operação funcionando, mas que simultaneamente pode experimentar
desgaste nas relações interpessoais.
Por isso, uma avaliação
exclusivamente baseada em produtividade ou execução de tarefas seria
insuficiente. A Psicologia Organizacional e do Trabalho deve observar tanto o
resultado do trabalho quanto os processos relacionais pelos quais esse
resultado é produzido.
Nesse sentido, a equipe de fiscais
não precisa necessariamente ser reconstruída do zero. Ela já possui uma base
importante de conhecimento operacional. O desafio consiste em acrescentar à
competência técnica uma competência relacional capaz de produzir maior
cooperação, comunicação, confiança e capacidade de resolução de conflitos.
A síntese pode ser expressa pela
seguinte fórmula:
Saber fazer é competência técnica.
Saber fazer com o outro é competência relacional.
Saber fazer com o outro, de maneira coordenada e saudável, é competência
coletiva.
Para a Psicologia Organizacional,
portanto, o desenvolvimento dessa equipe não deveria buscar apenas fiscais
tecnicamente eficientes, mas profissionais tecnicamente competentes e
relacionalmente preparados para trabalhar em equipe.
Referências
bibliográficas
WORLD
HEALTH ORGANIZATION. Guidelines on mental health at work. Geneva: World
Health Organization, 2022.
WORLD
HEALTH ORGANIZATION. Mental health at work: policy brief. Geneva: World
Health Organization, 2022.
WORLD
HEALTH ORGANIZATION. Mental health at work. Geneva: World Health
Organization, 2024.
WORLD
HEALTH ORGANIZATION. WHO guidelines on mental health at work:
recommendations. Geneva: World Health Organization, 2022.
WORLD
HEALTH ORGANIZATION. Reshaping work environments to promote and protect
mental health. Geneva: World Health
Organization, 2022.
Comentários
Postar um comentário